segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Boaventura de Souza Santos: "Se o Fórum Social não der a solução da crise, ela virá de Davos"


Luana Lourenço

O sociólogo português Boaventura de Souza Santos convocou o Fórum Social Mundial a buscar uma alternativa para a crise mundial sob o risco de o Fórum Econômico de Davos apresentá-la antes. Doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor titular da Universidade de Coimbra, Boaventura sugeriu uma aliança entre os movimentos sociais e a mudança radical e imediata da forma de exploração dos recursos naturais.

"Se não dermos a solução, ela virá de Davos, com mais capitalismo e menos direitos. São eles que estão a pensar uma solução. Nos reunimos [no Fórum Social Mundial] desde 2001 e não fomos nós que derrotamos o neoliberalismo, ele cometeu suicídio. Eles estão lá [em Davos] pensando o que vai ser o capitalismo depois da crise. E nós, o que estamos fazendo?", questionou.

Polêmico, durante a apresentação, Boaventura defendeu que o FSM proponha o fim do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), que segundo ele, erraram como instituições, quebraram alguns países e não tiveram que pagar indenizações. Para o sociológo, a resposta aos desafios da crise passa obrigatoriamente por um novo paradigma econômico social, que ele chamou de suma causa. "É o conceito indígena de desenvolvimento, de viver bem, em harmonia. E não são utopias, esses conceitos estão hoje na Constituição da Bolívia e do Equador", apontou.

Segundo ele, "novos conceitos" estão surgindo na América Latina, e o Brasil tem que ficar atento às mudanças, principalmente em relação à exploração dos recursos naturais e o uso da terra. "Não há desenvolvimento sustentável com a monocultura de soja, não há desenvolvimento sustentável com o agronegócio, não há desenvolvimento sustentável com o agrocombustível. Temos que abandonar a idéia de que podemos explorar a natureza, temos que levar a sério a idéia do ecossocialismo", afirmou.

Para uma platéia de sindicalistas, Boaventura defendeu mais integração entre os movimentos sociais brasileiros para pressionar o poder público por soluções. "Os povos tradicionais não são obstáculos ao desenvolvimento. Eles têm que ser trazidos para a luta de vocês e vocês tem que se integrar à luta deles. Juntem-se, não se distraiam."

Amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Boaventura não poupou críticas à política de estímulo à produção de biocombustíveis do governo brasileiro. "É um crime o Lula ir à África dizer que o agrocombustível é uma solução para aquele continente. Não é. Sou amigo dele e apoiador desse governo, mas não posso ficar calado diante desse tipo de comportamento neoliberal e até colonialista."

Um comentário:

Zé do Horto disse...

Paticipei desta palestra e vi quando alguém da plenária perguntou ao Boaventura sobre o papel social do BNDES. O sociólogo foi enfático ao sugerir o fim do banco para a criaçao do Conselho Nacional de Investimentos Públicos, órgão com gestão participativa da sociedade civil organizada. Disse também, noutro momento, que a Constituição Brasileira tem que defender a Natureza. Na Bolívia e no Peru, isto já existe. Referiu-se também ao limite de propriedade que foi referendado na Bolívia por 80% da população criando o linmite de 5 mil ha.
Geraldo Sales/Juazeiro do NOrte-Ce.