sexta-feira, 27 de maio de 2022

É preciso compreender o processo histórico para nele intervir

Roberto Amaral
Socialismo y Democracia

Compete à esquerda fazer a campanha da esquerda, jamais delegá-la a uma frente ampla cujo núcleo é a socialdemocracia. Toda campanha eleitoral é uma oportunidade de proselitismo. No caso concreto, os socialistas terão de associar a pedagogia ideológica à ação, o encontro ideal de teoria e prática, retornando à organização popular.

Ponderáveis setores da esquerda brasileira, novos e antigos companheiros das lutas democráticas, cobram de Luiz Inácio Lula da Silva o anúncio de um projeto socialista para o Brasil de hoje – embora a revolução, sempre desejada, não esteja posta pelo processo histórico. Lamentavelmente. De Lula, um dos mais avançados quadros da centro-esquerda brasileira, como certificam seus oito anos de governo, o que havemos de esperar é a construção e liderança de uma nova maioria política, fiadora da continuidade democrática, fundamental para a luta dos trabalhadores no Estado burguês. Não é um fim, em si, mas processo sem o qual não retomaremos o projeto de uma sociedade sem classes. (Ironia da História: são os “subversivos” que, hoje, defendem a democracia no país, contra as ameaças totalitárias dos partidos da ordem).

Cobra-se do Partido dos Trabalhadores – o maior e o mais sólido partido da socialdemocracia brasileira – um projeto revolucionário que não está no horizonte de seu programa. Sob o comando de Lula, o PT lidera uma coalizão partidária de centro-esquerda, ampla, que mais e mais procura afastar-se das teses encampadas na saudosa campanha eleitoral de 1989, porque de lá para cá o mundo mudou, o país mudou e mudou o próprio PT, tanto quanto mudaram as perspectivas da esquerda brasileira, com a crise do “socialismo real” e as seguidas “diásporas”; e consequentemente as condições de luta pioraram. O PT mudou para vencer as eleições em 2002, e volta a mudar, desta feita para poder liderar uma frente ainda mais ampla, em condições de derrotar o projeto protofascista governante, que nos ameaça com anunciadas expectativas de continuidade.

O pior desatino comete o pretenso revolucionário que supõe poder alterar a realidade ignorando os limites de seu papel como sujeito histórico. Como lembrava há mais de um século conhecido pensador alemão, o homem faz sua história, mas não a faz segundo os caprichos de sua vontade, de seus sonhos e de sua utopia; ele a faz segundo as circunstâncias com as quais se defronta (Cf. Marx, Karl. O 18 brumário de Luis Bonaparte). Dois mil anos antes, Sun Tzu recomendava aos generais em guerra conhecer previamente o inimigo e o terreno em que pretendiam lutar.

Mudando a conjuntura, as formas de luta também mudam. Independentemente do PT e de seu líder, nos defrontamos com o recesso das lutas sociais, implicando o remanso da denúncia da luta de classes. A conjuntura internacional vê-se pontuada pela fragilização das organizações revolucionárias, socialistas e trabalhistas, pari passu com o crescimento de apoio popular a movimentos de direita e extrema-direita (vide França, Itália, EUA, Hungria, Polônia), como o que se revelou contundente nas eleições brasileiras de 2018. Entre nós a extrema-direita empalmou o poder cavalgando eleições livres, pela primeira vez. Não se trata de um fenômeno menosprezável, mas de um indicador do nível de consciência das massas.

Cresce o imperialismo como força política, econômica e militar, e esse crescimento pesa sobre o processo social. A agudização do militarismo é uma de suas evidências. É seu o monopólio da informação, de que resulta a unipolaridade ideológica, uma modalidade de ditadura nas sociedades de massas. Limitada em suas opções revolucionárias, a esquerda optou pelo ingresso na institucionalidade, que, lhe dando sobrevida, congelou sua capacidade de intervir na realidade, visando a modificá-la. Perdida a revolução, seu projeto passou a ser modificar por dentro as estruturas, tornando-se, assim, inevitavelmente, um fator da ordem. É uma nova socialdemocracia, substituta daquela que transitou para a direita, no mundo e no Brasil.

Combater qualquer alteração do statu quo, qualquer ameaça de mudança de rumo, mesmo dentro da legalidade, qualquer sugestão de reforma social, passou a ser o projeto retrógrado da casa-grande brasileira, que não convive com alterações, quaisquer, da ordem baseada na superexploração da classe trabalhadora. Daí o combate que travou contra os governos Lula e Dilma, daí seu apoio ao quadro político consequente, daí suas ameaças ao processo eleitoral de 2022, à posse e ao futuro governo Lula, quando o candidato promete colocar o pobre no Orçamento e os ricos no Imposto de Renda. Essa resistência não conhece limite e explica o esforço do Lula candidato de construir, ainda no processo eleitoral, uma coalizão que lhe assegure, além da eleição e da posse, condições de governar, negadas a Jango e a Dilma Rousseff.

Nesta quadra histórica, está reservado às classes populares, organizadas, garantir a continuidade democrática e uma governança que possibilite a retomada do desenvolvimento, a recuperação das conquistas sociais e a preeminência do interesse nacional.

Para avançar, sempre a depender do que seremos e faremos no pós-2022, precisaremos alterar a atual correlação de forças, ampliando, para além de nosso campo, o arco político-social que garantirá a governabilidade a partir de 2023. Somente amparados em uma grande mobilização popular estaremos em condições de promover alterações significativas na estrutura do Estado brasileiro atual, sem as quais será impossível a um governo de raízes sociais descartar os entraves ao desenvolvimento nacional e remover a viciada, para além de nociva, ingerência da caserna atrasada sobre as instituições republicanas.

Tantos anos passados da Constituinte, retorna a discussão essencial sobre o caráter do Estado de que necessitamos para promover o progresso social, tantas vezes contestado pela casa-grande e seu braço armado. A urgência histórica é a questão democrática, que se materializará na derrota do projeto continuísta do bolsonarismo. É, ao mesmo tempo, a tarefa mais consequente ao nosso alcance, e aquela que mais amplia na sociedade, daí o caleidoscópio de alianças que o ex-presidente intenta costurar com paciência de cesteiro. Porque é necessário ganhar e é necessário ter forças para poder governar e, principalmente, governar sabendo que contará com a resistência da casa-grande.

Nada obstante essas considerações, que aos quadros mais experientes podem tangenciar o óbvio, é preciso ter sempre em conta que a ainda difícil (tanto quanto necessária) eleição de Lula e o retorno do PT ao governo – ainda longe da hegemonia do poder – significarão um grande avanço político (ao qual se associa a esquerda socialista), por representar o avanço possível nas condições concretas. Este avanço possível das esquerdas está abraçado ao sucesso que promete a candidatura Lula.

As limitações óbvias de uma candidatura que, para viabilizar-se, carece de amplas alianças, mesmo ultrapassando as fronteiras de seu arco ideológico, não podem, porém, ser arguidas como inibidoras da ação e do proselitismo das esquerdas, a quem incumbe, na campanha eleitoral, a defesa das teses de nosso campo. Em síntese, compete à esquerda fazer a campanha da esquerda, jamais delegá-la a uma frente ampla cujo núcleo é a socialdemocracia. Toda campanha eleitoral é uma oportunidade de proselitismo. No caso concreto, os socialistas terão de associar a pedagogia ideológica à ação, o encontro ideal de teoria e prática, retornando à organização popular. Organização em todo e qualquer nível, para a ação e o proselitismo e, para, amanhã, responder aos desafios que lhe serão forçosamente impostos pelo processo social.

A deposição de Dilma e o que a partir dessa violência se seguiu não podem ser entendidos como frutos do acaso, nem muito menos pensados como “chuvas de verão”. O programa fascistóide tem raízes em ponderáveis segmentos da sociedade brasileira, sua existência guarda coerência com nossa formação de sociedade (em busca da nação) e país escravocrata, racista e autoritário, governado por uma elite alienada e forânea, descomprometida com os destinos do país e de sua gente. É preciso compreender o caráter do processo histórico para nele poder intervir consequentemente.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Lula, la izquierda y las tareas del mañana


Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

Las fuerzas que se asumen como genuinamente socialistas se sienten frustradas con el viraje hacia el centro del candidato del Partido de los Trabajadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva. La elección de Geraldo Alckmin como vicepresidente de la chapa, es un poco indigesta para muchos militantes del PT y también para numerosos simpatizantes de su candidatura. Y motivos no sobran. Alckmin es un representante conspicuo de las facciones más conservadoras del Partido de la Social Democracia Brasileña (PSDB) el mismo del ex presidente Fernando Henrique Cardoso. Miembro del Opus Dei, siempre ha sido una figura pechoña, que tiene como bandera los valores “sagrados” de la familia, con su impronta rancia de un catolicismo fervoroso. En lo económico es un fuerte defensor de la ideología pro mercado y de la disminución del papel del Estado en las actividades productivas, manteniendo solo una acción focalizada hacia los más desamparados y los indigentes.

Esta decepción puede aún ser mayor si pensamos que en el periodo de los gobiernos del PT (2003-2016) Brasil comenzó a robustecer su paso hacia una sociedad abierta, tolerante e integradora, incluso en el espacio rural que siempre había sido más acoplado a las formas y comportamientos conservadores.

Además, el candidato a vice carga con un historial de corrupción cuando estuvo a la cabeza del Gobierno de Sao Paulo. Entre otras acusaciones graves, posee la infamante denuncia de haber desviado a su favor recursos destinados para la merienda de los niños y niñas que frecuentaban las escuelas públicas del Estado. Posteriormente, una investigación de la Fiscalía - en base a declaraciones ante la justicia de ex ejecutivos de la constructora Odebrecht- sustentaba que Alckmin amparaba una red de sobornos que permitía ocultar el financiamiento ilegal de campañas. En pocas palabras, él representa sin duda el tipo de político que se caracteriza por hacer un uso patrimonialista del Estado y de los bienes públicos.

Entonces surge inevitablemente la pregunta ¿Qué puede aportar Geraldo Alckmin a una candidatura que pretende contrarrestar a las fuerzas del retroceso actualmente en el poder? En principio parece que nada o muy poco. Sin embargo, independiente de las aspiraciones del pueblo que se asume de izquierda y que levanta la candidatura de Lula en esta nueva contienda electoral, Alckmin puede significar el intento de formar un frente democrático que, en primer lugar, derrote electoralmente a las fuerzas retrógradas que se encuentran gobernando. Ciertamente la historiografía va a debatir por un buen tiempo cuales fueron las causas que determinaron el triunfo de un candidato con las credenciales de Bolsonaro, que representaba lo opuesto a los avances políticos, sociales, culturales y ambientales que aparentemente se habían cristalizado en la sociedad brasileña.

Lo que resulta más perturbador de todo este tránsito hacia el atraso es que si bien durante la dictadura cívico militar las restricciones a la libertad y a la democracia parecían impuestas desde fuera, con el triunfo de Bolsonaro y su base de apoyo parlamentaria y social, se pudo constatar lamentablemente que, el proyecto ultraconservador que se impuso finalmente fue una decisión realizada por decenas de millones de electores. Y muchos de quienes sufragaron por el ex capitán también eran parte de nuestro entorno cercano – parientes, amigos, vecinos o conocidos – los cuales estuvieron dispuestos a arrojar al país hacia los sombríos caminos de la extrema derecha.

Sin embargo, la presencia de elementos de un pensamiento atrasado ya se ha podido apreciar en otros momentos de la historia brasileña, específicamente en las crisis políticas de 1954 y 1964. En este último caso, las manifestaciones de la derecha –como la marcha en defensa de la familia– se cristalizaron en el golpe de Estado perpetrado por los militares el 1 de abril de 1964, para deponer el gobierno legítimo de João Goulart.

Esos repertorios de la cultura reaccionaria –en el sentido dado por Albert Hirschman– se encuentran presentes en la atmósfera política y social brasileña desde que el país se fundó sobre una matriz esclavista y excluyente, generando simultáneamente un fuerte proceso de desinstitucionalización de los mecanismos de resolución de conflictos surgidos en el seno de la sociedad, lo cual se ha evidenciado a través de los años en violaciones sistemáticas a los derechos humanos en el país, especialmente agudo en el caso de las poblaciones pobres, negras e indígenas.

Por lo mismo, es de suma importancia comprender y reconocer que en este nuevo trance histórico resulta imprescindible unificar a todas las fuerzas democráticas y republicanas que enfrentan la embestida autoritaria y las amenazas de un futuro autogolpe con Bolsonaro a la cabeza. No es por falta de aviso que la sociedad brasileña se debe preparar para oponerse a las huestes de milicianos y seguidores incondicionales que vienen repitiendo incansablemente que en el caso de ganar el candidato Lula da Silva, ellos desconocerán el resultado de las urnas, tal como lo hicieran –frustradamente- los partidarios de Trump en las últimas elecciones estadounidenses.

Como todo indica que la llamada “tercera vía” no va a ser capaz de despegar, la disputa electoral se va centrar necesariamente en el dilema entre un proyecto de centro izquierda democrática y pluralista y una extrema derecha que aspira a consolidar un régimen despótico y plutocrático. Si existe algún tipo de polarización en esta próxima contienda ella se configura en torno de la dicotomía democracia versus dictadura. Precisamente, empero la legitimidad y pertinencia de sus propósitos, la izquierda y los conglomerados socialistas no deben esperar que Lula asuma un discurso radical, pues condicionado por las actuales circunstancias -con el preocupante aumento en la intención de voto para Bolsonaro- el ex presidente deberá contener su lenguaje y su programa, para atraer el voto “gelatinoso” del centro que puede inclinarse en última instancia hacia el ex capitán. Es un enorme dilema, pero si el PT y los partidos aliados no son capaces de demostrar su voluntad de construir un bloque que le permita conquistar la confianza en su proyecto de restauración democrática y generar las bases para tener una “gobernabilidad” futura, muchos de los electores que siguen indecisos también pueden restarse de concurrir a sufragar o votar blanco o nulo.

A pesar de los escollos que existen para ejercer un mandato efectivamente socialista o de izquierda, probablemente la coalición triunfante podrá dar el giro necesario que asegure nuevas bases para recuperar las banderas y promesas incumplidas hasta ahora, como la de otorgar mayor estabilidad y capacidad de negociación a los trabajadores, retomar acciones a favor de los derechos humanos y de las minorías, re-implementar las políticas sociales que han sido desmontadas en estos últimos 3 años, revertir las regresiones impuestas en el sistema previsional y cuidar mejor de los ecosistemas nacionales, primordialmente terminar con la devastación del territorio amazónico, del pantanal y de la mata atlántica.

Siendo que la tarea estratégica deberá consistir en el desmantelamiento de la ideología del bolsonarismo, de los grupos protofascistas y milicias paramilitares que se han enquistado en las estructuras del Estado, dando sustento a la intimidación golpista, a la violencia contra las instituciones, a los fake news y a las expresiones más abyectas de racismo, clasismo, homofobia y misoginia. Para ello será necesario retomar los vínculos de los partidos de izquierda con la sociedad a través de un vasto trabajo de capilaridad territorial que se proponga la organización y la formación política de la ciudadanía, disputándole el espacio a las iglesias pentecostales que continúan dándole apoyo a Bolsonaro y a sus visiones más oscurantistas de la realidad. En ese sentido, es prioritario erigir un clima de esperanza en el cual el mundo popular y las grandes mayorías sientan que están llamadas a participar en la construcción de su propio destino, para enterrar definitivamente las voces y gestiones de los iluminados que quieren decidir por ellos.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Paulo Freire é homenageado com livro publicado em Portugal


Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

Nesta primeira semana de abril foi lançado no Portugal o livro-homenagem do grande educador brasileiro titulado Paulo Freire Centenário: Um educador no mundo. O livro é uma coletânea de artigos publicados por Freire no Chile e em Portugal, os quais foram organizados pelas professoras Adelaide Gonçalves e Débora Dias, junto com o autor desta coluna. Tal como se adverte na apresentação do mesmo: “Este é um livro de Paulo Freire, com a presença e a palavra do educador em entrevista, em debate e em escritos autobiográficos. É a reflexão e a memória de Paulo Freire por ele mesmo, uma memória que nunca foi em primeira pessoa, que se faz no plural mesmo quando diz de si, mesmo quando expõe sua sensibilidade e os modos como foi realizando sua leitura do mundo”.

Este livro-homenagem a Paulo Freire, lembra o seu centenário com a publicação de textos inéditos em Portugal, juntando escritos autobiográficos, debates e entrevistas. Freire tornou-se num educador do mundo e no mundo pela ampla difusão de suas ideias filosóficas, de seu método pedagógico e de sua ação, primeiro no Brasil, depois no Chile, seguindo para países da América Latina, Estados Unidos, Europa, Ásia e Oceania.

Em relevo estão momentos-chave da trajetória de Paulo Freire e o itinerário internacionalista de um pensamento cuja recepção por largos anos foi marcada pelo interdito, pela censura, por uma circulação clandestina e pelo exílio. No referido livro Paulo Freire conta suas experiências no âmbito da pedagogia e alfabetização de adultos em vários países do mundo, especialmente no Brasil, Chile, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Cabo Verde.

Também reúne entrevistas e conferencias ditadas no Chile e Portugal, em que se apresentam suas ideias filosóficas e seu método de ensino que atualmente é aplicado a escala global. Dito método que foi sendo elaborado já nos anos cinquenta, superava o dualismo professor/aluno para construir em conjunto o processo da aprendizagem relevando o conhecimento e a realidade presente nos diversos sujeitos participantes nessa ação pedagógica.

Em muitos dos seus estudos, argumentava -a partir da leitura dialética realizada do ensaio de Frantz Fanon Os condenados da terra - que a opressão desumaniza tanto aos oprimidos como aos opressores e que as luchas emancipatorias daqueles que se encontram numa condição de subordinação são, em última instancia, uma tarefa que implica a libertação simultánea de si mesmos e de seus opressores. Em síntese, Paulo Freire entregou-se por inteiro a uma causa e a um projeto humanista e pedagógico, em que gerações seguiram aprendendo e pelo qual sempre será lembrado com admiração e respeito

O livro pode ser encomendado aqui: https://bit.ly/3lYucM0


quinta-feira, 24 de março de 2022

La paradoja de un desgobierno devastador


Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

La catastrófica gestión del gobierno Bolsonaro se podría caracterizar por una preocupante paradoja: por una parte, se presenta como una administración incompetente y el Jefe de Estado emerge como una figura totalmente dispensable para dirigir los rumbos del país. De manera aparentemente contradictoria, nunca antes un mandatario había efectuado un daño tan devastador y un desmonte tan feroz de las políticas públicas y las estructuras del Estado brasileño.

En este último caso, la administración de Bolsonaro se podría caracterizar como un desgobierno o un anti-gobierno en la medida que se ha dedicado sistemáticamente a destruir todo aquello que Brasil había venido implementando en términos de políticas públicas en educación, salud, vivienda, medioambiente, transporte, previsión, Derechos Humanos y seguridad, entre otros. Muchos de sus ministros han sido emblemáticos de la desfachatez y la incapacidad de conducir su respectiva cartera.

El daño causado, por ejemplo, en un sector tan sensible y fundamental como educación es incalculable. Hasta la fecha, ya se han rotado cuatro ministros en el puesto y el actual secretario Milton Ribeiro, un pastor evangélico, se encuentra amenazado de ser exonerado, precisamente por haber favorecido a otros dos pastores con recursos para aumentar su influencia local. Estos dos religiosos actuaban como asesores informales del ministro e intermediaban reuniones con gestores municipales para la obtención de recursos a cambio de “propinas” por cada proyecto adjudicado. En una grabación difundida por el diario Folha de Sao Paulo, el ministro también llega a comprometer los recursos de su Ministerio para la construcción de iglesias en algunos municipios donde existen pastores pertenecientes a su iglesia, la Presbiteriana.

El Ministerio de Educación se ha caracterizado por escándalos desde que asumió el presente gobierno en 2019. Por ejemplo, el segundo ministro escogido por Bolsonaro, Abraham Weintraub, emprendió una verdadera cruzada contra la globalización porque, según su opinión, ella formaba parte de una estrategia de dominación del marxismo cultural. Después de insultar a los miembros del Supremo Tribunal de Justicia (los llamó de vagabundos en una reunión de gabinete), el ministro terraplanista acabó completamente aislado y despreciado por los funcionarios de carrera de su propio ministerio.

Podríamos seguir describiendo el desmonte en diversos sectores, como lo que ha sucedido con el boicot a los programas de vacunación que acumulaban una experiencia exitosa de hace décadas y que en este gobierno retardó intencionalmente la aplicación de inmunizantes contra el Covid-19, el cual ya ha cobrado la vida de más de 658 mil personas. Por lo mismo, existe una campaña sostenida en defensa del Sistema Único de Salud (SUS), garantizado por la Constitución de 1988 y una de las mayores conquistas de la población desde la redemocratización del país. La extinción de los programas de control de los principales ecosistemas del país, es otro caso emblemático de las acciones de desconstrucción de las políticas públicas en la esfera medioambiental. Cuestionando la información del organismo encargado de monitorear la región amazónica, que detectó un aumento significativo de la superficie de quemadas y devastación de la floresta, el presidente y su ministro de medioambiente no encontraron mejor solución que cambiar a los científicos encargados de administrarlo. Lo mismo ha sucedido con los programas de vivienda, de combate al hambre y la pobreza, de transporte y movilidad urbana, de financiamiento de la cultura y el arte, de protección del patrimonio histórico y un largo etcétera.

Tal como lo señaló Bolsonaro en su discurso inaugural, su primera tarea sería destruir todo lo que –según él- habían realizado los gobiernos de izquierda. En eso el ex capitán se ha mostrado un eficiente ejecutor en la devastación de las políticas públicas, de la acción política y de las instituciones de la República. El país se mantiene precariamente funcionando debido o ayudado por cierta inercia del aparato gubernamental que no ha sido del todo demolido y a la acción de los contrapesos del sistema político que pueden operar en ciertas ocasiones, especialmente en el caso del Supremo Tribunal Federal y del Ministerio Público. Ya el poder legislativo se encuentra cooptado por las prácticas fisiologistas articuladas por los partidos del llamado “Centrao”, configurándose aquello que tiene de peor el sistema político brasileño, o sea, un modelo que se sustenta por un clientelismo grosero y nefasto.

Si por un lado Bolsonaro es el paladín de la destrucción, por otra parte, se distingue como un gobernante sin cualidades, inculto e irrelevante. Su viaje a Rusia pocos días antes de la invasión a Ucrania tuvo escasa importancia para alterar el curso del conflicto que estaba por desatarse. Adulado por sus fervientes seguidores como el enviado de la paz, pasó completamente desapercibido para la geopolítica mundial, confirmando una vez más la completa intrascendencia que posee actualmente Brasil en materia de relaciones internacionales (La desastrosa geopolítica del gobierno Bolsonaro).

Aunque Bolsonaro puede presionar a la clase política a través de favores para el financiamiento de proyectos y enmiendas parlamentarias, en el plano interno sus opiniones son consideradas bizarras, groseras o anecdóticas, recibiendo en varias ocasiones el apodo de “bufón de la corte”. Por eso no deja de ser una paradoja el hecho de que un presidente tan limitado y carente de calificaciones, mantenga todavía un apoyo incondicional por parte de un cuarto de la población. Este respaldo a su gestión puede parecer débil, pero es ciertamente relevante si pensamos en todo el daño que viene realizando su gobierno en estos poco más de 3 años de mandato.

Contrariamente a lo que se podría esperar, parece haber un desfase entre los desastres cometidos por su administración y la aprobación que aún mantiene por una parte de los electores: economía en recesión, inflación disparada, carestía, desempleo, hambre y miseria, millares de familias viviendo en las calles, creciente criminalidad, violencia e inseguridad ciudadana, son algunos de los problemas que se han agudizado en este periodo. Sin embargo, las movilizaciones se han paralizado hace meses y existe una especie de letargo de los movimientos populares y de las organizaciones sociales. Quizás esta pasividad sea alterada por la contienda electoral que se avecina, pues solo faltan seis meses para que los brasileños y brasileñas escojan un nuevo presidente y un nuevo Congreso Nacional. Con todos los riesgos y amenazas que se vislumbran en este futuro escenario, las elecciones representan una inmejorable oportunidad para destrabar los nudos de este proceso sociopolítico y desenmascarar definitivamente las maniobras y atrocidades del actual desgobierno.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

El socialismo es para la humanidad


Adam J. Sacks
Jacobin América Latina

El objetivo final del socialismo es tan simple como hermoso: la liberación de todas las personas de la dominación, sustituyendo los sueños atrofiados y la alienación por el florecimiento humano y la creatividad.

Marx tenía un ojo agudo para el corazón en un mundo sin corazón. Desde muy joven se preocupó por la forma en que el capitalismo sumergía los «problemas humanos» en la lucha por la supervivencia material. Esperaba que llegara el día en que estos se vieran más claramente, una vez se hubiera levantado el velo opresivo del capitalismo y se hubiera creado finalmente una «sociedad humana».

En un momento en el que los socialistas están llamados a explicar su política de nuevo, es importante recordar que el socialismo siempre ha sido, y sigue siendo, un movimiento humanista que busca liberar a las personas de la dominación y la explotación, promoviendo el florecimiento individual, la creatividad e incluso el enriquecimiento espiritual en lugar de los sueños atrofiados y la alienación.

Los socialistas han mantenido durante mucho tiempo estos objetivos. Cuando el socialismo surgió como movimiento de masas a finales del siglo XIX, no era raro oírlo anunciar como el mayor avance humanitario desde el Nuevo Testamento. El socialismo, pensaban sus seguidores, podía proporcionar la renovación de conciencia necesaria para salvar la sociedad.

A principios del siglo XX, el socialista alemán Leo Kestenberg adoptó el lema «educación para la humanidad« para una Europa que se enfrentaba a un diluvio de fascismo. Esperaba que la lucha por el socialismo pudiera servir de puente hacia un nuevo humanismo radical, una sociedad que premiara la bondad en lugar de la explotación. El llamado «Papa del marxismo», Karl Kautsky, invocó la noción de una «conciencia socialista» como medio para «salvar a la nación» (tenía a Estados Unidos en mente).

Varias décadas más tarde, en su discurso de investidura ante el Parlamento chileno, Salvador Allende habló en un tono igualmente arrebatado, describiendo el socialismo como una «misión» que podría infundir sentido al país:

¿Cómo puede el pueblo en general —y los jóvenes en particular— desarrollar un sentido de misión que le inspire una nueva alegría de vivir y le dé dignidad a su existencia? No hay otro camino que el de dedicarse a la realización de grandes tareas impersonales, como la de alcanzar una nueva etapa en la condición humana, hasta ahora degradada por su división en privilegiados y desposeídos (…) Aquí y ahora, en Chile y en América Latina, tenemos la posibilidad y el deber de liberar las energías creadoras, particularmente las de la juventud, en misiones que nos inspiran más que ninguna del pasado.

Aquí estaba el corazón de la filosofía marxiana: el impulso del sujeto humano, el esfuerzo inspirado hacia el crecimiento. Rosa Luxemburgo, la gran socialista polaco-alemana, lo encarnó en su propia forma de vivir, escribiendo a una camarada:

Ser un ser humano significa arrojar alegremente toda tu vida «en la gigantesca balanza del destino» si así debe ser, y al mismo tiempo alegrarse de la luminosidad de cada día y de la belleza de cada nube… el mundo es tan hermoso, con todos sus horrores, y sería aún más hermoso si no hubiera débiles ni cobardes en él.

Con demasiada frecuencia, los críticos han confundido el lado ético y humanista del socialismo como una variante del socialismo «utópico» contra el que Marx arremetió. Marx contrapuso sus escritos a los de pensadores cuya imaginación, como Charles Fourier y Robert Owen, los llevó al terreno del hiperidealismo, si no de los vuelos casi mágicos de la fantasía. Identificó su propia obra como «científica». Sin embargo, esta palabra en castellano no capta del todo el significado del original alemán wissenschaft. Este último término implica la búsqueda humana holística del conocimiento dentro de las «ciencias», tanto naturales como humanas; en la connotación en español, la palabra «ciencia» a menudo excluye las humanidades. Pero la crítica de Marx a las condiciones actuales estaba impregnada de un compromiso con la realización de la dignidad humana: deploraba las mercancías «sin alma» del capitalismo y sus implicaciones para el ser humano.

Quizás el mayor teórico del socialismo como una especie de metamoral humanista postsecular fue Jean Jaurès, conocido por su libro de 1911 Historia socialista de la Revolución Francesa. Jaurès estudió los discursos dominantes en la Francia de fin de siglo y los encontró terriblemente anquilosados. El nacionalismo era una estrategia reaccionaria que buscaba impedir deliberadamente el pensamiento de una esfera superior. La religión oficial era una fuerza nociva cuya tan cacareada caridad simplemente encubría una nueva forma de opresión. Y los espiritualismos en boga de la época —como la teosofía, que atraía a la gente lejos de la religión organizada hacia nuevos cultos postseculares— equivalían a misticismos diletantes, que mermaban el valor de la gente para enfrentarse a las luchas de la vida real. Solo el socialismo, sostenía Jaurès, podía emancipar la conciencia humana y restaurar el sentido de las infinitas posibilidades humanas.

Más adelante, en el siglo XX, una de las voces más fuertes a favor de un marxismo de la conciencia fue Isaac Deutscher, más conocido por sus biografías definitivas tanto de Stalin como de Trotsky. Deutscher, un judío gallego que se decantó por el Partido Comunista Polaco en lugar de por el Bund, estaba en una posición única para observar tanto los desencantos del poder socialista de Estado en el Este como el pesimismo de la Nueva Izquierda en Occidente. Volvería una y otra vez a esa subjetividad humana fundamental en el corazón del marxismo. Deutscher observó que esta subjetividad humana, que ya existe dentro de cada uno de nosotros como potencial, está distorsionada, aplastada y anquilosada por el capitalismo. Reduce literalmente nuestra personalidad, lo que es perjudicial para nuestro bienestar social tanto como para nuestro sustento económico. La promesa del socialismo, para Deutscher, consistía en la expansión y reintegración de nuestra personalidad, en el redescubrimiento de partes de nosotros mismos que se habían perdido.

Tras el colapso de la Unión Soviética, una voz crítica para la esperanza humanista socialista fue la física cubana Celia Hart. Hija de la generación fundadora de revolucionarios, Hart murió trágicamente joven en un accidente de coche, pero no sin antes dar un nuevo impulso a lo que ella llamaba la «hermosa batalla». Crítica interna del socialismo de Estado cubano, defendió sin embargo el papel de los partidos políticos en la «mejora de la humanidad» y adoptó como lema una cita del poeta cubano José Martí: «la patria es la humanidad».

Pidió que se volviera a los orígenes del socialismo y se pronunció a favor de una especie de ecumenismo marxista: «necesitamos a todos los que dijeron una verdad a la humanidad». En estas tradiciones y figuras podemos ver un socialismo que ha buscado combatir no solo la escasez de bienes materiales, sino la escasez de valores inmateriales y humanistas como el respeto, la estima y la autorrealización. Los asuntos de la moral, la psique y el alma nunca han sido relegados a los márgenes, porque cada uno de ellos es integral para el libre crecimiento y florecimiento del sujeto humano.

«Espiritual, no religioso» es un tópico de nuestros días; en esta tradición, podríamos sustituirlo por el lema «socialista, no religioso», y plantear una aspiración diferente: no el fin de la historia humana, sino su verdadero comienzo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

La desastrosa geopolítica del gobierno Bolsonaro


Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

El reciente viaje del ex capitán a Rusia y Hungría en momentos en que la primera nación se encuentra sumergida en una crisis de grandes proporciones con su vecina Ucrania, no hace más que confirmar los recurrentes errores cometidos por su política exterior en estos tres años de mandato. Primero fue Ernesto Araujo, el canciller terraplanista que prácticamente expulsó por la borda toda la experiencia diplomática de los ministros de Itamaraty en muchas décadas.

Coincidiendo con su gurú Olavo de Carvalho, el ex ministro Araujo llegó a declarar, entre otras afirmaciones bizarras, que la globalización era un invento del marxismo cultural o que la pandemia del Coronavirus era una maniobra de la China Comunista para dominar el mundo.

En esta ocasión, el actual ministro de Relaciones Exteriores, Carlos Franca, calificó los encuentros con sus pares como una visita regular programada desde hace un tiempo y que no tiene relación con el apoyo de Brasil a las intenciones de Rusia de mantener una zona de seguridad en su frontera con Ucrania y de paso alejar su país de la amenaza de los misiles emplazados por la Otán a través de casi toda su frontera.

Para no volver de inmediato desde el viejo continente, Bolsonaro también visitó al único líder europeo que estuvo dispuesto a recibirlo, el primer ministro de extrema derecha de Hungría, Viktor Orban. En una reunión insustancial, ambos representantes de la ultraderecha mundial intercambiaron elogios y el ex capitán lo llamo de “mi hermano dadas las afinidades que significa compartir valores que pueden ser resumidos en cuatro palabras: Dios, patria, familia y libertad”. Esta es una declaración calcada de los panegíricos fascistas en la Italia de los años 20 y, posteriormente, en la década de los treinta por las dictaduras de Franco en España y Salazar en Portugal.

Con Orbán concordaron en sancionar leyes más severas contra los migrantes y restricciones a los derechos de los grupos LGBTQIA+ por considerarlos una amenaza a la niñez y a la familia tradicional. Nada más apropiado para un encuentro que busca reforzar y articular las fuerzas de la ultraderecha esparcidas en algunos rincones del planeta.

Con esta travesía el ex capitán pretende obtener dividendos políticos y aparecer frente a sus futuros electores como un estadista preocupado por los problemas y la paz mundial, emergiendo como un protagonista en la escena de negociaciones multilaterales y como un mediador en conflictos entre países de los cuales no tiene el mínimo conocimiento. En suelo patrio, sus acólitos siguen difundiendo imágenes de un Jesús que le dice a Bolsonaro “Va e impida la guerra, Jair”, en una patética demostración de fanatismo y delirio.

Sin embargo, como siempre, el inquilino del Palacio do Planalto no pasa de un charlatán tratando de alimentar la delirante narrativa de sus seguidores, que lo han erigido como un emisario de Dios para la construir la concordia entre las naciones. En las entrevistas concedidas, el presidente mitómano volvió a insistir en una idea maliciosa que busca arrogarse el éxito de sus gestiones por la paz a una eventual retirada de las tropas rusas de la frontera con Ucrania, aunque hasta el momento dicha crisis no está del todo superada.

Pero lo cierto es que Bolsonaro se encuentra cada vez más aislado, transformado prácticamente en un paria en la comunidad internacional por sus innumerables ataques a los derechos humanos, sus gestos autoritarios, su política devastadora con el medioambiente y su negacionismo obtuso con relación al impacto de la pandemia. De hecho, en estos momentos Brasil se encuentra frente a una nueva oleada de contagiados con un crecimiento acelerado del número de fallecidos, llegando a superar los 640 mil decesos por causa del Covid19. Según la organización Médicos Sin Fronteras, el enfrentamiento de la pandemia del gobierno Bolsonaro ha sido el peor conocido entre todos los países.

Siendo un admirador declarado de Donald Trump, las relaciones con el actual presidente norteamericano Joe Biden son pésimas, comprometiendo aún más la tradición de racionalidad de la política exterior brasileña para pasar a constituirse en un tipo de disputa personal caracterizada por su desastroso desempeño para los intereses del país, generando disputas y enfrentamientos innecesarios con naciones que han mantenido estrechas relaciones económicas, comerciales y culturales con Brasil a lo largo de su historia.

En América Latina el ex capitán cuenta con escaso apoyo en la región, ni siquiera captando la adhesión de mandatarios que se pueden ubicar dentro del espectro conservador como Sebastián Piñera en Chile, Iván Duque en Colombia o Luis Lacalle Pou en Uruguay.

Hace 16 años se formalizó la creación de un bloque entre las economías emergentes que se denomina BRICS, del cual Brasil es integrante. Esta iniciativa fue construida con una relevante participación de Lula y los posteriores gobiernos del PT, que vieron en el bloque una alternativa geopolítica a la hegemonía de Estados Unidos y la Unión Europea en la definición del llamado “nuevo orden mundial”. En ese sentido, su objetivo principal es favorecer la creación de mundo institucional multipolar que a través de la cooperación horizontal supere las estrategias de dominación de los países industrializados que han ejercido un papel hegemónico en las relaciones internacionales.

Por su postura pasiva con relación al bloque, hasta ahora el gobierno Bolsonaro había sido prácticamente ignorado por los otros miembros del bloque, pero la coyuntura beligerante existente entre Rusia y Ucrania/USA/Otán posibilitó la formación de un acercamiento entre Putin y Bolsonaro, hasta el año pasado un sumiso e incondicional servidor de los caprichos de Trump.

Además, la política exterior de Brasil ha indicado un alineamiento casi exclusivo con sus pares de la extrema derecha mundial (Orbán en Hungría, Endogan en Turquía, Abascal en España, Von Storch en Alemania, Dupont-Aignan en Francia o Kast en Chile), comprometiendo seriamente el papel que antes había desempeñado la diplomacia brasileña en los asuntos internacionales. La declaración conjunta de ex cancilleres denunciaba hace poco que toda la credibilidad y el prestigio de Brasil en el ámbito diplomático se ha comprometido seriamente, siendo visto ahora como un país anecdótico e irrelevante. Para ello -dicen los ex ministros- es urgente rescatar la política exterior brasileña respetando “los principios constitucionales, la racionalidad, el pragmatismo, el sentido de equilibrio, la moderación y el realismo constructivo que ha caracterizado dicha política desde hace muchas décadas”.

Son años demasiado sombríos para la política externa brasileña. Sin perspectiva estratégica e influido por tesis conspiratorias de diversa índole, el desastre causado por los alucinados bolsonaristas resulta incalculable para las pretensiones históricas de la cancillería que deseaba transformar a esta nación en una referencia en el ámbito diplomático.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

La vivienda no puede estar sometida a la lógica financiera


Camila Parodi
Jacobin América Latina

Raquel Rolnik es una arquitecta y urbanista brasileña. Lleva más de cuarenta años como investigadora en la academia pero también como activista por los derechos humanos en la participación de políticas de planeamiento, urbanismo y el problema de la vivienda. A su vez, ha sido impulsora de las políticas de vivienda popular, urbanismo y desarrollo local en el marco del gobierno del Partido de los Trabajadores (PT) encabezado por el expresidente Lula Da Silva. Entre 2003 y 2007 fue Secretaria nacional de los Programas urbanos del ministerio brasileño de las Ciudades.

En mayo de 2008, en plena crisis financiera hipotecaria, el Consejo de los Derechos Humanos de la ONU la nombró Relatora Especial de las Naciones Unidas en lo que respecta a vivienda durante seis años. En ese rol, la investigadora evaluó y acompañó las denuncias de violaciones de Derechos Humanos en materia de vivienda.

Recientemente se realizó el lanzamiento en Argentina de su último libro La guerra de los lugares: La colonización de la tierra y la vivienda en la era de las finanzas, coeditado por la Editorial El Colectivo y Lom Ediciones con apoyo de la Oficina Cono Sur de la Fundación Rosa Luxemburgo. Desde Jacobin América Latina pudimos conversar con Rolnik en torno a la producción de la ciudad en el actual contexto y las posibles alternativas populares que responden a la financiarización del derecho a la vivienda.

Tu último libro, La guerra de los lugares, recientemente publicado en la Argentina, resulta un material imprescindible para repensar la ciudad y entenderla en el entramado de relaciones de poder. Allí hablas de la colonialidad del poder y de cómo impacta a través de las finanzas globales ¿Por qué es importante hablar del poder colonial hoy?

Toda la trayectoria del libro La guerra de los lugares ha salido de mi experiencia como Relatora Especial para el derecho a la vivienda adecuada para el Concejo Derecho Humanos de Naciones Unidas (ONU) a partir de 2008 que, justamente, coincidió con la crisis financiera hipotecaria. Entonces, al intentar investigar las razones y los orígenes de la crisis financiera hipotecaria, mientras hacía mi trabajo de relatora, recorriendo distintos países del planeta, me di cuenta de que estábamos ante de un proceso global, por encima de todos los procesos particulares y sus territorios.

Ahí lo tomé como una metáfora —que al final no era tanto— como una ocupación territorial del espacio construido por las finanzas. De tal manera que estamos hablando de un nuevo poder colonial ¿Por qué la idea de colonialidad es importante para intentar avanzar en nuestra comprensión de ese fenómeno? Porque estamos hablando de una triple ocupación: material, política y cultural. Se trata de una ocupación material, porque todas las partes del territorio del planeta son capturadas por una lógica de ocupación y de gestión del lugar instaurada a través de regímenes privados de control territorial con el objetivo de generar interés para el capital invertido.

Pero es también una ocupación política, porque, por ejemplo, en Brasil, cada vez que se discuten políticas públicas nacionales se anuncia en los medios: «El mercado está nervioso». Pero, ¿Qué es que el mercado «se ponga nervioso»? Es el mercado financiero. Hay algo más allá, que es abstracto, que no tiene vínculos con los territorios pero que se superpone sobre las dinámicas existentes, las controla y somete políticamente. Porque, por los «nervios» del mercado, caen presidentes, primeros ministros, coaliciones políticas, entonces es una ocupación política también.

Y finalmente, siguiendo con la metáfora de la colonialidad, esta también es una ocupación cultural. Es una imposición de ciertas maneras de organizar espacio de nuevo, si tomamos un ejemplo como los centros comerciales los shoppings centers, qué son sino una nueva manera de organizar sociabilidad y también ligadas a procesos de consumo. La imposición cultural de una manera de vivir, de una manera de existir, de estar en el planeta. La idea de colonialidad va mucho más allá de la idea del colonialismo, como algo que estuvo en el pasado. Estamos hablando de una renovación del concepto y de la presencia colonial en el planeta.

En el libro, también, mencionas que el alquiler es «la nueva frontera de financiarización de la vivienda». ¿Qué lugar ocupa el mecanismo de alquiler en el sistema financiero y cuáles deberían ser las respuestas de los gobiernos?

Es muy interesante mirarlo desde el proceso de acumulación y financiación de la vivienda. Lo que hemos podido observar en el ciclo anterior, que ha llevado hasta la crisis financiera hipotecaria, fue la promoción de la vivienda en propiedad como algo nuevo. Porque, si bien en algunos países de la socialdemocracia donde las luchas históricas de las y los trabajadores habían construido la idea de vivienda como un campo de inversión en vivienda social como una realidad, en muchos otros países fue una ilusión, como en el caso de América Latina. Pero, incluso como ilusión, también ahí estaba este cambio de que la vivienda no es un derecho social, no es parte de una política de bienestar —ya sea como realidad o como ilusión— para convertirse en una mercancía, en un activo financiero, y así han sido promovidas políticas muy amplias de inducción a la promoción de vivienda y propiedad vía crédito inmobiliario e hipotecario en todo el mundo, incluso movilizando mucho subsidio público en estas operaciones.

Las vivienda pasó a ser como un elemento de pasaje del circuito financiero, de los excedentes financieros para poder lograr interés y la vivienda. Entonces se convirtió en un activo y fue promovido también culturalmente, de tal manera que a partir de la vivienda como garantía se puede endeudar y financiar el consumo pero también financiar derechos. Es decir, financiar la educación paga, la salud privada y también como parte de la inversión de los sistemas privados de pensión, o sea, poner todo esto en un circuito permanente de valorización financiera y endeudamiento.

¿Y cuál fue el resultado?

El resultado de este primer ciclo fue una concentración enorme de lucros en gestores financieros y un ciclo de desposesión con la pérdida del valor, con la quiebra de constructoras, con ejecuciones hipotecarias. Estoy hablando mucho del proceso norteamericano. Pero después de este ciclo, el mismo modelo de promoción de vivienda y propiedad vía crédito inmobiliario también ha sido aplicado en la periferia del capitalismo. Esto lo vemos claramente a partir del modelo chileno, que luego se difundió en América Latina, en África, en varias partes de la periferia del capitalismo.

Claro que ni siquiera en la periferia del capitalismo de Europa y Estados Unidos han logrado acabar con el problema de la vivienda o el hecho de que mucha gente no tiene donde vivir o no tiene condiciones de pagar donde vivir y, por lo tanto, hay una nueva ola por todo lo que significó la emergencia habitacional en países del centro del capitalismo, toda una nueva ola de inversión la vivienda en esta segunda ola de alquiler.

El alquiler como un nuevo frente de financiarización de la vivienda, los mismos agentes financieros, gestores de finanzas globales que han sido involucrados en la promoción de la vivienda en propiedad, ahora se han convertido en señoríos, propietarios, corporativos de miles de viviendas de alquiler. Y ahora, en términos de política pública otra vez existe una promoción masiva en todas partes del mundo de la idea de que «hay que tener un sector profesional, corporativo de alquiler». Un poco con esto, abriendo el campo —que es exactamente lo que los Estados hacen— para esta nueva fuente financiera.

A su vez, fenómenos como el Airbnb, plataformas digitales de movilización del espacio construido junto con la privatización y venta de los estoques de vivienda que estaban con los bancos por las ejecuciones hipotecarias para gestores financieros. Todo este proceso también ha transformado al alquiler como un nuevo frente de finalización de la vivienda trabajando ahora mucho más con la idea de extraer el interés y rentabilidad del tiempo más que del espacio. El tiempo de permanencia en la vivienda también se convierte en unidad de extracción de valor y avanza aún más hacia una nueva forma de explotación de plusvalías. Por ejemplo, en Airbnb, la gente misma pone su trabajo y su tiempo para que las plataformas digitales puedan extraer esas plusvalías.



En el libro mencionas a las personas «sin lugar». En el contexto brasilero, el «sin techo» de hoy es el «sin tierra» de los años 80, lo que nos habla de una continuidad de la lógica de exclusión y marginación pero también de la permanente extracción de renta sobre el suelo rural y urbano ¿Cuáles son las experiencias de resistencia de las personas «sin lugar» hoy? Y, particularmente, ¿Cuál es el rol de las mujeres?

Todo este proceso activa la lucha en torno a la vivienda. Es un proceso que genera un nuevo grupo o un nuevo segmento de desposeídos y desposeídas. En el tema de la vivienda hay una presencia femenina importante, no solamente en el proceso de endeudamiento sino también en el proceso de desposesión como en la organización y la lucha por la vivienda. Entonces hay toda una nueva generación de organización y luchas en torno a la vivienda en distintas partes del mundo. Organizaciones de afectados por las hipotecas y ejecuciones hipotecarias, sindicatos de inquilinas e inquilinos, organizaciones de inquilinos, movimientos en torno al congelamiento de alquileres, a la denuncia de los alquileres abusivos, hacia una regulación. Por ejemplo, en Brasil, hay una nueva ola de ocupaciones de viviendas en las periferias pero también en áreas céntricas; San Pablo es un ejemplo muy fuerte de esta nueva ola.

Desde que la vivienda se ha transformado en un campo de aplicación financiera para las finanzas globales, la presión especulativa sobre los precios es mucho mayor, porque estamos hablando de una masa inmensa de capital financiero global que está buscando donde invertir. Hay nuevos instrumentos financieros que conectan el espacio construido con las finanzas y sus dinámicas de circulación, títulos financieros que conectan y permiten una entrada salida de los capitales. Es así que la pobre gente tiene que competir con sus ingresos bajos por la localización con este capital que está listo para entrar e invertir y con una expectativa de remuneración a mediano y largo plazo, no inmediata. Como es un activo financiero, ni siquiera es necesario que sea utilizado, entonces podemos hablar de una especie de «boom de precios inmobiliarios» que se mantiene incluso durante periodos de crisis que se conforma de manera más amplia y global.

De manera que se conforma una agenda de organización y lucha muy importante. En algunos países ya no se veían luchas en torno a la vivienda, y ahora esto renace. En países como Brasil y Argentina las luchas por la vivienda siempre han sido importantes y continúan de una manera aún más intensa.

Hablando de Brasil, este año se realizan las elecciones presidenciales. ¿Qué nos podrías decir del actual contexto y qué se juega para vos en 2022 en clave de derecho a la vivienda?

Durante la era de Lula, con el gobierno del PT, Brasil conoció una financiación de la vivienda por la promoción de vivienda vía crédito hipotecario masivamente, pero que tenía también uno de los componentes pequeños de la posibilidad de crédito a entidades por autogestión. También se construyeron viviendas por el mercado con un subsidio muy alto del presupuesto público, lo que se conoció como el programa «Mi casa, mi vida», que ha producido viviendas en la ciudad y en las afueras que efectivamente no ha logrado (por el modelo mismo, por una falla de su aplicación) garantizar la calidad de vivienda para la gente.

Pero lo que pasó después del golpe contra Dilma fue la interrupción total de los programas de vivienda. Todo el subsidio que estaba movilizado en el programa «Mi casa, mi vida» se terminó. Estamos atravesando una de las crisis más serias de vivienda que hemos visto en Brasil. La cantidad de población viviendo en la calle es algo absolutamente impresionante y en una escala como nunca había visto. La cantidad de nuevas ocupaciones también es muy grande en las periferias. Y no solo no existen políticas públicas a nivel federal del gobierno de Bolsonaro, tampoco hay a nivel estadual, municipal en las ciudades es como si nada.

En este contexto, también, creo que la lucha por la vivienda empieza a crecer. Una campaña muy importante que ha ganado mucho territorialmente en Brasil es la campaña «Cero desalojos» para impedir que la gente sea desalojada durante la pandemia. Es importante en términos de real articulación en torno a la vivienda con una cierta capacidad de aprobar algunas medidas de suspensión de desalojos que ha sido importante en algunos casos y que puso sobre la mesa el tema. Sin embargo, la decisión del Supremo Tribunal Federal donde se aprobó esta suspensión de los desalojos ya se termina en marzo.

Lo que tenemos es una situación muy complicada y creo que esto va a ser un tema importante en la campaña para las elecciones. También, el tema de las vivienda porque durante todo este periodo donde no hubo política, crecieron mucho las auto urbanizaciones y las ocupaciones de edificios, así que la lucha por la rehabilitación de los edificios ocupados, la lucha por la urbanización y consolidación de los asentamientos creo que va a ser una lucha muy importante.

Espero que haya una política importante de vivienda y que no volveremos a un programa como «Mi casa mi vida» porque creo que también esta es una discusión para todo lo que es reconstrucción poscrisis y pospandemia: un poco volver a lo que teníamos, la idea de que la vivienda y las políticas de vivienda históricamente han sido dibujadas por el sector de la industria, de la construcción civil y la industria financiera tiene que cambiar. Hay que insistir con que esto no puede ser, que las políticas de vivienda no pueden estar sometidas a la lógica financiera sino a la lógica de la necesidad de la gente y así generar políticas mucho más descentralizadas, de apoyo a las iniciativas populares vivienda, a las cooperativas que ya se organizaron, a las entidades y las experiencias de autogestión, que ya tenemos. Yo espero que tengamos un apoyo mucho mayor a estas propuestas y una visión mucho más crítica a lo que los programas de promoción masiva de vivienda en general en todas las partes del mundo incluso, no solamente, en Brasil.

Cómo planteas en tus trabajos, si miramos en clave global, existe actualmente un proceso de transformación que tiene que ver con la producción de la ciudad. Esto llevó a la reconfiguración del rol de los gobiernos locales y de los mecanismos de participación como así también la incorporación de organismos y leyes que atiendan la cuestión del hábitat. Sin embargo, muchas veces éstos se convierten únicamente en discursos, sin participación real. ¿Cuál es tu lectura sobre estos cambios institucionales?

Yo creo que la cuestión es definir el «locus de definición de la política pública». Especialmente en la política de vivienda, el locus de definición es la conversación con la industria de la construcción civil y la industria financiera y, por lo tanto, la pregunta central es cuántas nuevas viviendas podemos producir y cuánto crédito inmobiliario podemos poner. Esta es la pregunta central y no cuál es la necesidad de la gente. Cambiar totalmente el locus de definición implica hacer una lectura mucho más clara y desde abajo de las necesidades concretas de la vivienda.

También implica cortar el vínculo que hay entre las finanzas y las viviendas. Es imaginar maneras de organizar la vivienda que sean mucho menos susceptibles a la financiación. Por ejemplo, cooperativas, comicios colectivos, o sea, maneras colectivas y solidarias de organizar el vínculo con el territorio de tal manera que podemos ir generando espacios protegidos de la finalización espacios, reservados para la vida y no para la renta. Creo que esto es muy importante y que la política pública lo que tiene que hacer es apoyar estas iniciativas con recursos públicos, en vez de diseñar iniciativas que no dialogan con nadie.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Felices fiestas y un gran año 2022


 

Con la esperanza renovada en mejores días, les deseo a todas mis amigas y amigos unas excelentes navidades y un año 2022 lleno de alegrías, triunfos y realizaciones !! 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Chile, el triunfo de la esperanza y los desafíos del futuro

 

Fernando de la Cuadra y Aglae Casanova
Socialismo y Democracia

Me siento heredero de una larga trayectoria histórica, la de quienes,
 desde diferentes posiciones, han buscado incansablemente la justicia social,
la ampliación de la democracia, la defensa de los Derechos Humanos, la protección de las libertades.

Gabriel Boric, Primer Discurso como Presidente Electo, 19/12/2021

Han sido días de mucha tensión y ansiedad, pero finalmente la ciudadanía puede celebrar hoy el contundente triunfo del candidato de una amplia coalición de izquierda (Apruebo Dignidad). Gabriel Boric, con cerca del 56 por ciento de los votos, derrotó al representante de los residuos de una cultura pinochetista, el candidato de la ultraderecha José Antonio Kast.

En un balotaje marcado por el aumento de la afluencia a las urnas con relación a la primera vuelta (55% contra 47%, respectivamente), el pueblo de Chile logró, no solo elegir al presidente más joven de su historia, sino que también, al presidente con la mayor cantidad de votos en la era republicana del país. Los chilenos, y especialmente, las y los jóvenes se movilizaron para detener el avance de la extrema derecha que irrumpió en el escenario político con una campaña llena de prejuicios y mentiras, tal como ya se ha visto en otros países. En contraposición a ello, la coalición ganadora, echó mano a la creatividad, al despliegue territorial y al trabajo mancomunado de miles de voluntarios que se movilizaron para detener el odio y hacer triunfar la esperanza. La noche de la victoria millares de personas se desplazaron hasta el centro de Santiago y de las principales ciudades del país para celebrar el éxito de un proyecto político y social que pretende realizar las transformaciones urgentes que requiere Chile para caminar hacia una patria justa y solidaria a la cual aspiran las grandes mayorías de la nación.

Es en parte la misma población que aprobó, contundentemente, la elaboración de una nueva constitución y que en mayo pasado escogió una Convención Constitucional que representa a los diversos grupos sociales, políticos, de género y etnias de Chile. La nueva Constitución que deberá someterse a un nuevo plebiscito (de salida) y, hacia la cual, ya se puede percibir la campaña de desprestigio que han emprendido los grupos más conservadores y retrógrados que desean continuar con la Carta Magna maquillada que se ha heredado de la dictadura cívico militar.

El Presidente electo Gabriel Boric, ya hizo la diferencia, en su compromiso de defender la Convención por la que él mismo luchó en las calles, reuniéndose con los convencionales encabezados por Elisa Loncón y Jaime Bassa, a sólo dos días del triunfo de su coalición, en contrapunto a lo que ha hecho Piñera y su gobierno en estos cinco meses y medio de funcionamiento de la entidad, la que vio dificultada su funcionamiento desde el primer día de su conformación, debido a que el gobierno no facilitó ni otorgó las condiciones más básicas y prácticas para su instalación y funcionamiento. El prolongado abrazo entre Boric y Loncón fue la imagen que marcó el día del encuentro, el que se caracterizó por la constructiva voluntad de un trabajo conjunto en pos del éxito de la Convención.

La derecha trató de instalar en los medios de comunicación y en las conversaciones cotidianas, la idea de que la sociedad chilena estaba polarizada, pero en realidad el único polo que existe hasta el momento es el de la ultraderecha, pues las fuerzas del cambio que apoyaron a Boric no representan a un polo de la ultraizquierda ni nada por el estilo. Es un proyecto que desea implementar mejores políticas públicas y sociales, más inclusivas y más universales.

Por cierto, los desafíos que deberá enfrentar el nuevo gobierno son enormes e, indudablemente, van a surgir muchos detractores, obstáculos y escollos por parte de los sectores empresariales que temen perder sus privilegios y, por supuesto, también vendrá el hostigamiento de una derecha ideológicamente pétrea ligada a la herencia pinochetista. Los cambios anunciados por el futuro presidente de ampliar la gratuidad en la educación, de expandir el sistema público de salud haciéndolo más universal, de transformar el sistema de pensiones a un modelo de reparto solidario y realizar la reforma tributaria, es decir, aumentar el impuesto a las megaempresas (mineras, forestales, agrícolas) y a las grandes fortunas para financiar estos cambios, son algunas de los principales materias sobre las cuales no existe un consenso nacional y que deberán ser debatidas en un Congreso bastante equilibrado o “empatado”, que posee una representación significativa de la derecha y de la extrema derecha.

Estas son algunas de las tareas pendientes que han dejado los sucesivos gobiernos desde la redemocratización del país, y especialmente de la propia Concertación, que aduciendo problemas de “correlación de fuerzas” no tuvo la voluntad política de emprender los cambios que la sociedad reclamaba con urgencia.

Pero Gabriel Boric ha ido más allá en sus propuestas de cambio, con un plan que refleja muchas de las demandas emanadas del estallido social ocurrido en octubre de 2019, cuando miles y miles de chilenos se dieron a las calles exigiendo no solo el fin del modelo neoliberal imperante, sino que también profundas transformaciones en temas como seguridad, zonas de sacrificio ambiental, conflicto en la Araucanía, entre muchos otros.

¿Una nueva oportunidad para la región?

La llegada de la coalición progresista como Apruebo Dignidad con Gabriel Boric a la cabeza, representa también una oportunidad para retomar los procesos de integración regional a partir de una mirada en clave progresista, superando el imperio exclusivo de los intercambios mercantiles entre las naciones del subcontinente. Temas como la crisis migratoria y la apertura de fronteras en un marco de respeto a los derechos de las personas, la abolición de la desigualdad de género, los problemas del narcotráfico y el comercio de armas, que asuma los desafíos para mitigar y revertir el cambio climático y la destrucción de los ecosistemas, el enfrentamiento de la pobreza y la exclusión, las respuesta a la pandemia y otras enfermedades catastróficas, el combate a grupos paramilitares de extrema derecha y las milicias urbanas, entre otros muchos temas, deben tener necesariamente una articulación hemisférica de largo plazo, que supere los acuerdos coyunturales según sea la orientación y conveniencia de gobiernos específicos para pasar a transformarse en políticas permanentes de los Estados que subscriben los respectivos acuerdos de cooperación y ayuda mutua.

Para Boric, “la justicia ambiental es también justicia social”, y considera que la sostenibilidad, la participación ciudadana y la defensa ambiental van de la mano con el desarrollo del país. En su primer discurso como presidente electo, hizo referencia directa a las zonas de sacrificio declarando un rotundo “No a Dominga”, uno de los proyectos más controversiales de la minería del hierro de Chile. Asimismo, se comprometió meses antes de las elecciones recientes a que, un eventual gobierno liderado por él, ratificaría y firmaría, durante los dos primeros meses de mandato, el primer acuerdo regional ambiental de América Latina y el Caribe, más conocido como acuerdo de Escazú, suscrito por la mayoría de los países de la región en 2018 que vincula, entre otros temas, derechos humanos y medio ambiente.

Probablemente el nuevo presidente intente reposicionar a Chile dentro de un nuevo ciclo progresista, estimulando la reconfiguración de acuerdos de integración regionales con ese sello, fortaleciendo el discurso crítico a las políticas neoliberales que han provocado el empobrecimiento y la exclusión de vastos sectores en Sudamérica y promoviendo alternativas con mayor énfasis en un desarrollo basado en el bienestar de las personas y no en el mero crecimiento del PIB, como ha sido la realidad hasta este momento.

Por otra parte, con la derrota del neofascista Kast, el proyecto retrógrado del Bolsonarismo pierde fuerza en Latinoamérica, generándose un “efecto demostración” virtuoso que podrá inaugurar un nuevo ciclo de gobiernos progresistas preocupados con el porvenir de sus pueblos y no con la imposición de políticas ultra liberales y depredadoras del ambiente sustentadas por regímenes con vocación autoritaria y regresivos en el ámbito moral, educativo y cultural. Ojalá que esta victoria de las fuerzas democráticas de izquierda en Chile sea la consolidación de un nuevo ciclo de transformaciones para América Latina.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Paulo Brondi: “Jair Messias Bolsonaro é a parte podre de um país adoecido.”


Paulo Brondi
Socialismo y Democracia

Bolsonaro é um cafajeste. Não há outro adjetivo que se lhe ajuste melhor. Cafajestes são também seus filhos, decrépitos e ignorantes. Cafajeste é também a maioria que o rodeia. Porém, não é só. E algo que se constata é pior. Fossem esses os únicos cafajestes, o problema seria menor. Mas, quantos outros cafajestes não há neste país que veem em Bolsonaro sua imagem e semelhança? Aquele tio idiota do churrasco, aquele vizinho pilantra, o amigo moralista e picareta, o companheiro de trabalho sem-vergonha… 

Bolsonaro, e não era segredo pra ninguém, reflete à perfeição aquele lado mequetrefe da sociedade. Sua eleição tirou do armário as criaturas mais escrotas, habitués do esgoto, que comumente rastejam às ocultas, longe dos olhos das gentes. Bolsonaro não é o criador, é tão apenas a criatura dessa escrotidão, que hoje representa não pela força, não pelo golpe, mas, pasmem, pelo voto direto.

Não é, portanto, um sátrapa, no sentido primeiro do termo. Em 2018 o embate final não foi entre dois lados da mesma moeda. Foi, sim, entre civilização e barbárie. A barbárie venceu. 57 milhões de brasileiros a colocaram na banqueta do poder. Elementar, pois, a lição de Marx, sempre atual: “não basta dizer que sua nação foi surpreendida. Não se perdoa a uma nação o momento de desatenção em que o primeiro aventureiro conseguiu violentá-la”.

Muitos se arrependeram, é verdade. No entanto, é mais verdadeiro que a grande maioria desse eleitorado ainda vibra a cada frase estúpida, cretina e vagabunda do imbecil-mor. Bolsonaro não é “avis rara” da canalhice. Como ele, há toneladas Brasil afora. A claque bolsonarista, à semelhança dos “dezembristas” de Luís Bonaparte, é aquela trupe de “lazzaroni”, muitos socialmente desajustados, aquela “coterie” que aplaude os vitupérios, as estultices do seu “mito”. Gente da elite, da classe média, do lumpemproletariado. Autodenominam-se “politicamente incorretos”. Nada. É só engenharia gramatical para “gourmetizar” o cretino.

Jair Messias é um “macho” de meia tigela. É frágil, quebradiço, fugidio. Nada tem em si de masculino. É um afetado inseguro de si próprio. E, como ele, há também outras toneladas por aí. O bolsonarismo reuniu diante de si um apanhado de fracassados, de marginais, de seres vazios de espírito, uma patuléia cuja existência carecia até então de algum significado útil. Uma gentalha ressentida, apodrecida, sem voz, que encontrou, agora, seu representante perfeito. O bolsonarismo ousou voar alto, mas o tombo poderá ser infinitamente mais doloroso, cedo ou tarde. Nem todo bolsonarista é canalha, mas todo canalha é bolsonarista. Jair Messias Bolsonaro é a parte podre de um país adoecido.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Um neoliberal fascista


Enzo Traverso/Rosane Pavam
Jacobin Brasil

Assim o historiador italiano Enzo Traverso definiu Jair Bolsonaro numa conversa com a Jacobin Brasil: um presidente em guerra contra os pobres, submisso ao capital financeiro internacional e que usa a mentira nas redes sociais como base política para retratar uma realidade paralela.

Aos 64 anos, o italiano Enzo Traverso é uma estrela em ascensão. Ele mora nos Estados Unidos, onde ensina história política e intelectual na Universidade de Cornell e, embora não se entenda midiático, é um autor cujos livros escritos de maneira direta instigam o pensamento no caminho da compreensão geopolítica e da ação crítica.

Historiador, Traverso não teme tocar nas feridas do presente. Ele constata um momento “pós-fascista” internacional, que seria caracterizado não exatamente pelo nacionalismo, marca de um fascismo antigo, mas pela submissão às leis financeiras internacionais. Mais que isso, o descompromisso com os fatos seria o fundamento de ação dos pós-fascistas, enquanto, para o fascismo clássico, imaginar um futuro grandioso embasava a ação política.

Suas palavras para o Brasil atual são aterradoras. Um presidente como Jair Bolsonaro, abertamente submisso ao capital financeiro e espelhado na ditadura civil-militar, seria, segundo Traverso, mais do que um pós-fascista, antes um neofascista liberal que exerceria um populismo personalista, trabalharia para a extinção do pobre e exerceria o racismo sem pudor, enquanto a extrema direita europeia, por comparação, ainda precisaria instigar o pavor ao Islã para implantar sua xenofobia.

A jornalista Rosane Pavam conversou com ele sobre o papel dos intelectuais hoje, o perigo e o poder das redes sociais e como o seu novo livro pode explicar o que vem acontecendo no Brasil.

Em seu livro As novas faces do fascismo: populismo e a extrema direita (editora Âyiné, 2021), você propõe intitular o momento presente de pós-fascista, já que a extrema direita assume o poder em alguns países sob novo formato, ainda em desenvolvimento. Mas chamá-lo de pós-fascista não diminuiria sua força?

A extrema direita é uma constelação muito variada e tem características distintas em diferentes países. Na Europa, distanciou-se do fascismo e sua ascensão depende em grande parte de sua capacidade de aparecer como uma alternativa – nacionalista, conservadora e xenófoba, mas ainda uma alternativa – às políticas neoliberais da União Europeia e do Banco Central europeu. Quando entra no governo, ela busca a mediação, mas seu perfil não é neoliberal. No Brasil, a situação é diferente: Bolsonaro afirma sua filiação à ditadura militar e sua política é abertamente neoliberal. No Brasil estamos diante de uma forma específica de neofascismo neoliberal ou neoliberalismo fascista.

O Brasil de Jair Bolsonaro de algum modo evocaria a Itália de Benito Mussolini?

O populismo, o estilo demagógico, os comportamentos transgressivos são típicos de uma certa retórica fascista. Sob muitos pontos de vista, Bolsonaro lembra Mussolini, mas esses são aspectos formais, externos. Mussolini não era um agente do capital financeiro, ele havia integrado o capitalismo em seu projeto de expansionismo militar, colonial, e lançou uma campanha contra a Liga das Nações que impôs sanções econômicas à Itália fascista após a guerra na Etiópia. Bolsonaro defende uma política neoliberal e uma guerra contra os pobres, se considerarmos suas políticas públicas em termos de saúde, educação e serviços sociais. Seu autoritarismo não é apenas nacionalista, mas abertamente fascista.

Nesta sociedade pós-fascista, as redes sociais têm feito usuários acreditarem em “verdades” que não passam de falsidades, às vezes muito evidentes. Como um absurdo desses pôde se estabelecer?

Em sua vigência, o fascismo fez “sonhar” e pintou um futuro mítico. Hoje, o pós-fascismo é incapaz de projetar a sociedade no futuro – seu imaginário não tem uma dimensão “prognóstica”. Mas ele inventa uma realidade paralela que espalha pela mídia, cria enredos e transfigura seus inimigos, pintando um retrato que absolutamente não corresponde à realidade. Existe uma continuidade entre Bolsonaro ou Trump e o fascismo? Sim, seu traço comum são as mentiras, eles não suportam a verdade.

Seria possível propor uma regulamentação das redes sociais para o bem do regime democrático? Sob quais condições?

A regulamentação das redes sociais é um assunto delicado. Por um lado, é necessário: as redes sociais devem estar sujeitas às mesmas leis que regulam a imprensa escrita e a televisão na maioria dos países democráticos; não se pode mentir impunemente, insultar os adversários, inventar tramas. A ética da discussão exige regras em um país livre. Por outro lado, se um poder autoritário regula as redes sociais, o risco é censurá-las, amordaçá-las, como ocorre na China. Acho que existem duas soluções: por um lado, deveria haver órgãos de controle independentes do governo ou da presidência, não sujeitos ao poder político; por outro lado, deveriam existir leis contra o monopólio das redes de televisão, porque elas constituem uma alternativa às informações controladas pelo poder financeiro e político.

Você afirma que o secularismo é o caminho percorrido pela extrema direita para exercer o racismo contra os povos islâmicos na Europa. E que, portanto, o exercício da blasfêmia deveria ser evitado em países seculares. Por que a liberdade de blasfemar não pode ser preservada?

Nunca propus leis contra a “blasfêmia” ou contra a sátira. Sempre considerei as caricaturas do jornal francês Charlie Hebdo islamofóbicas, sexistas e racistas, mas jamais propus censurá-las. A sátira política é indispensável em um país livre. O problema é fazer bom uso dela. Defender a liberdade de expressão significa defender o direito dos inimigos de se expressarem livremente. Caricaturas “blasfemas” são transgressivas e têm potencial crítico nos países muçulmanos, onde muitas vezes se veem censuradas e incomodam o poder. Nos países democráticos da União Europeia, as caricaturas contra a religião islâmica estigmatizam em muitos casos uma minoria, as classes populares, os imigrantes, os “diferentes”. Gostaria de estender o exemplo: a sátira contra o obscurantismo dos rabinos é divertida na imprensa israelense; na Alemanha nazista, ele apenas fez rir os antissemitas.

Você vê algum problema no crescimento das políticas identitárias?

Nada tenho contra as políticas identitárias se elas não forem concebidas como a reivindicação de identidades isoladas, separadas e incapazes de dialogar com os demais componentes da sociedade e as demais forças interessadas em uma transformação social e política. A solução não está na negação das identidades, mas na sua coexistência. O conceito de interseccionalidade permite que as identidades sejam articuladas em formas não hierárquicas, mas igualitárias, evitando que entrem em conflito. Identidades de gênero, classe e raça podem coexistir. Acredito que a noção de interseccionalidade é muito importante para um país grande como o Brasil, onde coexistem minorias e comunidades muito diferentes. Essa diversidade é sua riqueza.

Você se considera um intelectual midiático? Que problemas existem em trabalhar com a mídia atual?

Eu sou historiador e não estou muito na mídia de nenhum país. Certamente não sou um “intelectual midiático”. Mas acho que precisamos esclarecer o uso das palavras. O conceito de intelectual nasceu há mais de um século, na França, com o caso Dreyfus, e ao mesmo tempo em outros contextos linguísticos. Na época, os intelectuais eram uma elite, porque detinham o monopólio da expressão escrita, quando a grande maioria da população era excluída e a cultura era dominada pela imprensa. Régis Debray a define como a era da “grafosfera”, que terminou na década de 1960. Hoje, graças à universidade de massa, a cultura não é mais monopolizada por uma elite. Além disso, vivemos agora na esfera do vídeo, onde a cultura é dominada pela imagem. Posso dizer que sou um intelectual, porque meu trabalho é ler, escrever livros e artigos e ensinar, mas certamente não poderia dizer que integro uma elite. Isso seria bastante ridículo. Os “intelectuais midiáticos” geralmente não são intelectuais, não exercem nenhum espírito crítico, são agentes da indústria cultural e gerenciam a comunicação do poder.

Como pode um intelectual exercer livremente a crítica para sensibilizar a população sobre seus problemas? Depois de Jean-Paul Sartre, o intelectual ainda deve alertar essas consciências?

Não quero idealizar Sartre, uma figura que deve ser historicizada e cujas contradições não podem ser ignoradas. Mas acho que o intelectual ainda tem um papel a cumprir: ele deve falar a verdade, por mais incômoda que seja, criticar o poder, defender os fracos e não se preocupar com a própria popularidade. Se esse é o papel do intelectual, no Brasil de hoje o intelectual só pode ser antifascista, antirracista e anticapitalista.