terça-feira, 16 de agosto de 2022

Mike Davis ainda é um bom contador de histórias


Sam Dean
Los Angeles Times

Mike Davis: "Escrevo meus livros porque espero que as pessoas que os leem não precisem de doses de esperança ou finais felizes, mas que leiam para saber contra o que lutar, e lutem mesmo quando o combate parece sem esperança."

Ao final de junho, escrevi para Mike Davis para ver se ele estaria disposto a dar uma entrevista. Sua resposta: “Se não se importa com a longa viagem até San Diego, ficarei feliz em conversar. Estou em estado terminal de um câncer de esôfago metastático, mas ainda estou firme e em casa”.

Davis não tem papas na língua. No entanto, sabe como contar algumas histórias. Como essa: nascido em Fontana, criado em El Cajón, ele passou os anos 1960 na linha de frente de movimentos políticos radicais em Los Angeles, onde ingressou no Partido Comunista ao lado de Angela Davis. Em solidariedade, deu-lhe um carro: um chamativo Chevy de 1954. Um mês depois, em uma reunião do Partido, perguntou o que achava, apenas para saber que a bateria supostamente havia explodido e um mecânico simpático se ofereceu para se livrar do veículo gratuitamente.

Ou essa: em 1970, ele marchou nas linhas de piquete dos Teamsters [caminhoneiros], acompanhado de companheiros do sindicato, com espingardas de cano serrado por baixo de seus casacos e sob um sol escaldante de verão. Ele também teve que fugir da avalanche de xerifes que marchou no Parque Belvedere durante a Moratória Chicana.

Mas o que colocou Davis no mapa cultural é a história de Los Angeles, descrita em seu best-seller de 1990, Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles. O livro, leitura obrigatória para quem quer entender a cidade, detalha a história de Los Angeles como uma máquina corrupta construída para enriquecer sua elite, enquanto sua polícia, supremacista e branca, serviu como um cão de guarda para golpear, prender e matar desordeiros. Também alertou que outro iminente conflito, Watts 2.0, poderia estar no horizonte. Dezoito meses depois, em abril de 1992, a cidade convulsionou. Davis parecia um clarividente, embora dissesse que a raiva latente era evidente para qualquer um que saísse de dentro do próprio carro. Ele se tornou uma celebridade menor. Também começou a trabalhar com os líderes de tréguas entre gangues para defender o reinvestimento no sul de Los Angeles.

Seguiu-se uma série surpreendente de mais de uma dúzia de livros, variando de críticas e histórias do oeste americano a análises históricas abrangentes de como o desastre climático, o capitalismo e o colonialismo fizeram com que os pobres do mundo afundassem em suas engrenagens e nos colocam cara a cara com as calamidades futuras (incluindo pandemias virais globais, previstas em The Monster Knocks on Our Door [O monstro bate em nossas portas], de 2005. Recentemente, ele voltou ao tema de Los Angeles com Set the night on fire: L. A. In the sixties [Incendiar a noite: L.A. nos anos 1960], de 2020, uma história enciclopédica de Los Angeles nos anos 1960 contada através de movimentos sociais.

Cara a cara, Davis, de 76 anos, é hilário, infalivelmente generoso e, acima de tudo, parece amar as pessoas. Sua casa está cheia de livros (ele lê “500 páginas por dia”), répteis de estimação e uma coleção de arte e objetos de esquerda que ele compartilha com sua esposa, artista e professora Alessandra Moctezuma. Nossa conversa durou do meio-dia ao pôr do sol. Davis me presenteou com histórias de projetos inacabados e de foragidos que ele conheceu, de alunos perigosos (incendiários, perseguidores) e alunos perigosos (um príncipe fijiano que fora esfaqueado durante os trabalhos escolares por “passar a noite em Los Angeles”, mas ele o agradeceu), e o que ele considera suas verdadeiras paixões: a ecologia moribunda da Califórnia e as rochas ígneas, que ele viajou pelo mundo para coletar e armazenar em seu escritório, que virou garagem.

Esta entrevista foi condensada e editada.

Você decidiu interromper os tratamentos de quimioterapia para o câncer de esôfago. No que você pensa no dia a dia?

Em primeiro lugar, tenho muitas distrações. Leio cerca de 500 páginas por dia – história militar, exploração – e à noite me aconchego com meus filhos e assisto a algumas séries policiais. Sou um celta fatalista e tenho como exemplo minha irmã mais velha e minha mãe, que morreram como soldados russos em Stalingrado. Pretendo não decepcionar [minha família], ser tão sólido quanto eles. Eu não estou deprimido. O que mais me preocupava diante da morte – meu pai teve uma morte particularmente agonizante, cujo trauma nunca me deixou completamente – era a ideia de que também poderia ser tão traumático para meus filhos, que essa seria a memória deles de mim. Mas graças à lei da eutanásia assistida [da Califórnia], eu tenho controle sobre o ato final.

Mas, acho que o que mais penso é que estou extraordinariamente furioso e zangado. Se eu tenho algum arrependimento, é de não morrer em batalha ou em uma barricada como eu sempre imaginei romanticamente, lutando.

Você foi rotulado de “profeta da desgraça” após a publicação de Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles em 1992, no qual você parecia antecipar as revoltas de 1992 em resposta ao veredicto de Rodney King. Mas você se descreveu como um neocatastrofista, no sentido mais estrito de acreditar que a história, da história geológica à história política humana, ocorre mais em saltos violentos, como terremotos e impactos de meteoritos e revoluções, do que através de mudanças graduais. Você ainda se considera um catastrofista hoje?

Sim. Mas quero dizer catastrofista em dois sentidos. Um, em ressonância com Walter Benjamin, é a crença no surgimento repentino de oportunidades para saltar para um futuro quase utópico. Mas, claro, catastrófico também no outro sentido, em relação a eventos como pragas. Agora, nos meus últimos dias, eu me sento aqui com admiração e leio o jornal, e as pessoas dizem que precisamos de mais carvão, precisamos de mais petróleo, um ano após o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas ter deixado claro que certamente estamos entrando em um mundo com um aumento de pelo menos três graus Celsius, o que é quase inimaginável.

E o que tentei escrever e convencer as pessoas é que este é um genocídio planejado. Uma grande minoria, a mais pobre do planeta, está de alguma forma condenada. E quanto ao velho negócio de que, bem, discos voadores vão pousar e a humanidade vai se unir em uma causa comum, vejam os corpos se empilhando nas fronteiras e os muros sendo construídos. Sem escolha, os refugiados ambientais morrerão.

Seu livro mais recente, Incendiar a noite, é sobre a história do movimento de Los Angeles na década de 1960, e como o Departamento de Polícia de Los Angeles e os Xerifes, junto com o FBI, reprimiram brutalmente grupos ativistas.

Na minha opinião, o DPLA (Departamento de Polícia de Los Angeles) é irreformável. Mas o Departamento dos Xerifes é absolutamente aterrorizante. Até certo ponto, sempre foram: nos anos 1970 participei da Moratória Chicana e do Parque Belvedere, em todos os grandes comícios do Lado Leste, quando os xerifes vinham atirando. Mas eles nunca estiveram tão selvagens ou completamente fora de controle como estão agora.

O problema é a cultura e o contexto. Os xerifes mais velhos, como muitos dos mais velhos [do Departamento de Polícia de Los Angeles], são simplesmente irreformáveis. A solução real é demiti-los em massa, assumir as academias, desfazer as gangues e, muito importante, exigir que a polícia more nas áreas que patrulham, ou pelo menos dentro dos limites da cidade. Não há como ter um Departamento de Polícia ou um Departamento de Xerifes decente em uma cidade tão cheia de contradições econômicas e de classe como Los Angeles. Essa não é uma razão para não reformar, mas é uma razão para ser realista quanto aos seus limites.

Você passou grande parte de sua vida na linha de frente das lutas por justiça social e mudança política, do CORE [Congresso da Igualdade Racial] e SDS [Estudantes por uma Sociedade Democrática], no início, até o ativismo trabalhista e movimentos de solidariedade internacional em anos posteriores. O ato de se organizar parece ser baseado na esperança de mudar o mundo, mas seus livros pintam um quadro sombrio: colapso ecológico, corrupção política, supremacia branca, contínua impiedade para com os pobres do mundo. Como você mantém a esperança?

Para ser franco, não acho que a esperança seja uma categoria científica. E eu não acho que as pessoas lutam ou mantém seus rumos por esperança. Eu acho que as pessoas fazem isso por amor e raiva. Todo mundo sempre pergunta: Você não tem esperança? Você não acredita em esperança? Para mim, isso não é uma questão de racionalidade. Tento escrever da forma mais honesta e realista possível. E você sabe, eu vejo coisas ruins. Eu vejo uma cidade que está se deteriorando por baixo. Vejo as paisagens que são tão importantes para mim, como um californiano que está morrendo, irremediavelmente mudadas. Eu vejo o fascismo. Escrevo meus livros porque espero que as pessoas que os leem não precisem de doses de esperança ou finais felizes, mas que leiam para saber contra o que lutar, e lutem mesmo quando o combate parece sem esperança.


Nas entrevistas de 2020, você expressou algum otimismo sobre a energia que viu nas ruas durante os protestos do Black Lives Matter. Dois anos depois, onde está essa energia?

Tenho idade suficiente para dizer com alguma autoridade que esta geração é diferente de qualquer outra geração do pós-guerra. A combinação de ver seus direitos retirados, por um lado, e enfrentar a perda de capacidade econômica, por outro, os radicalizou e deu às lutas, que alguns denunciam como políticas identitárias, uma força muito material. Os jovens se importam com o seu futuro. Antes de me aposentar do ensino na [Universidade da Califórnia] Riverside, não posso contar quantas conversas tive com jovens que estavam simplesmente agonizando. Eles eram os primeiros a ir para a faculdade em sua família e, de repente, seus pais perdiam seus empregos e eles não sabiam o que esperar, porque há tantas expectativas e tantos sacrifícios que foram feitos para eles irem à faculdade que, de alguma forma, isso se tornou em um futuro real. E isso estava quebrando.

Mas o maior problema político na América, agora, é a desmoralização de dezenas de milhares, provavelmente centenas de milhares de jovens ativistas. Parte do problema é a falta de estrutura organizacional, principalmente organizações de organizadores. Não há liderança que conduza o caminho.

Quero dizer que sou um apoiador de Bernie Sanders, mas a campanha de Sanders manteve essa ideia de que usamos movimentos para construir política eleitoral e política eleitoral para construir movimentos. Se você olhar para a história dos movimentos populares em relação à política eleitoral, isso quase nunca foi verdade. Quero dizer, Bernie e Alexandria Ocasio-Cortez e assim por diante, eles estão em todas as linhas de piquete e estão sempre a favor da causa correta, mas eles permitiram que o movimento nas ruas se dissipasse, e os jovens estão muito desmoralizados.

O que poderia estar acontecendo?

Por que a direita, a extrema direita, é a dona das ruas e não a esquerda? Não é como na Europa, onde em muitos países o ativismo juvenil está inativo ou em declínio. Existem milhões de pessoas iguais [a meu filho de 18 anos], mas quem diz a ele onde lutar ou o que fazer?

Quem te convida para uma reunião? Em vez disso, tudo o que eles recebem, e o que eu recebo todos os dias, são 10 solicitações dos democratas me pedindo para apoiar seus candidatos. Eu voto nesses candidatos. Eu acho que temos que apoiá-los, mas o movimento é mais importante. E esquecemos o uso da desobediência civil disciplinada e agressiva, mas não violenta. Por exemplo, as mudanças climáticas. Deveríamos estar sentados na sede de todas as companhias de petróleo, todos os dias da semana. Se poderia facilmente organizar uma campanha nacional. Temos toneladas de pessoas que estão dispostas a serem presas, que estão muito dispostas a fazê-lo. Ninguém está organizando isso.

Você disse que a desobediência civil agressiva – e não violenta – é necessária. Mas e a violência política? Você escreveu um livro sobre a história do carro-bomba, The Buddha Car [O Carro de Buda]. Você também viveu as duas revoltas de Los Angeles, era amigo dos Panteras Negras, morou em Belfast durante o conflito. Você está surpreso que não haja mais violência política nos EUA?

Me recordo, no auge do susto dos Panteras Negras, de dizer às pessoas: o incrível é que há tão pouca violência de negros contra brancos na história americana, em comparação com a violência implacável de brancos contra negros.

Mas não vimos o tipo de violência que vem da direita, nem vimos – porque não fomos suficientemente perigosos recentemente – o que vai acontecer quando todos os novos poderes de vigilância repressiva, toda a legislação antiterrorismo, atacar os movimentos progressistas. A reação dos democratas à guerra contra o terror, na maioria dos projetos de lei, tem sido remodelar um pouco as fronteiras, mas nunca tentar desmantelá-la.

Você escreveu recentemente sobre a megalomania por trás da invasão da Ucrânia por Putin, concluindo: “Nunca tanto poder econômico, midiático e militar se fundiram em tão poucas mãos. Elas deveriam nos fazer homenagear os túmulos dos heróis Aleksandr Ilitch Uliánov, Alexander Berkman e o incomparável Sholem Schwarzbard”. Eles eram todos assassinos ou tentaram assassinar pessoas, não?

Você estudou sobre o Sholem? Ele matou o grande herói do movimento de independência da Ucrânia [Symon Petliura]. Ele o matou em uma rua de Paris, e um júri de Paris o considerou inocente assim que ouviram a história dos pogroms e coisas assim. Mais ou menos como o júri de Angela Davis. Um grande personagem.

Um dos principais projetos de livros que nunca terminei, embora tenha sido entrevistado sobre ele e tenha sido publicado como um livro independente em francês, foi um projeto chamado Heroes of Hell [Heróis do inferno], que analisa a revolução violenta no século XIX e início do século XX. Os bolcheviques sempre se opuseram a atos de violência individuais, porque a Rússia tinha muita experiência com isso antes da revolução; o argumento leninista era que a ação de massa substituiu o ato heroico, o indivíduo heroico sacrificado pela classe. Fazia muito sentido.

Para mim, a violência política é algo que deve ser julgado muito mais racionalmente do que moralmente. E há casos: após a morte de Franco, a transição franquista para preservar o regime já estava preparada. [Luis] Carrero Blanco foi o sucessor ungido de Franco, e um grupo explodiu seu carro sobre uma catedral. Isso perturbou totalmente a sucessão e possibilitou uma relativa democratização. Do lado negativo, sabemos que se Fanni Kaplan não tivesse atirado em Lênin, talvez não houvesse Stálin.

Para mim é uma questão em aberto que depende do contexto e das condições. Eu, aliás, nunca apoiei os Weathermen. Na verdade, eu odeio profundamente os Weathermen. Essas pessoas fizeram exatamente o que os policiais teriam feito, e agora reinventaram a história para se tornarem heróis. Para mim, eles são apenas crianças ricas, junto com algumas crianças comuns, reproduzindo “Zabriskie Point“ para si mesmas.

Você não decidiu ir para a faculdade até os 30 anos, e seu primeiro livro, Prisoners of American Dream [Prisioneiros do sonho americano] foi lançado quando você tinha 40 anos. Você sempre quis escrever?

Não. Aprender a escrever é a coisa mais difícil que já fiz. Às vezes eu tinha que datilografar uma resma inteira de papel em uma máquina de escrever elétrica só para formular a primeira frase. Foi absolutamente brutal.

E por que você quis aprender isso?

Porque eu fui um fracasso miserável como organizador e palestrante. O primeiro discurso que fiz foi um comício antiguerra em Stanford, em 1965. Eu estava trabalhando em algum projeto maluco do SDS [Estudante para uma Sociedade Democrática] em Oakland. Consegui afugentar três quartos da multidão em cerca de cinco minutos. Passei anos em pequenos grupos tentando me reagrupar com grupos ainda menores, indo a todos os comícios, tentando isso e aquilo. E a escrita tornou-se a única habilidade útil para a atividade política, para o movimento.


Quem mais influenciou sua forma de escrever? O que você leu que te fez querer escrever?

Eu nunca li muita ficção, então a pouca que li foi muito influente, começando com As vinhas da ira. A linguagem bíblica e a cadência de Steinbeck. Então a New Left Review foi uma influência inicial na minha escrita e uma influência negativa de certa forma.

Uma das minhas influências literárias e intelectuais mais profundas foi o marxista galês Gwyn Williams. Ele havia saído do grupo de historiadores comunistas, [tinha sido] o primeiro a escrever um artigo em inglês sobre Gramsci, mas acima de tudo ele tinha esse domínio da história galesa em tantos níveis diferentes. Então, até certo ponto, eu queria que Los Angeles fosse…

O seu País de Gales?

Sim! E, claro, na história natural, a grande influência sobre mim foi meu amigo Steve Pyne. Ele é o historiador do fogo, e simplesmente um ótimo personagem no geral. Ele era bombeiro e foi para Stanford com uma bolsa de beisebol. Peguei seu livro quando estava com muita saudade de Londres e li sua história social do fogo na América. E, de repente, eu queria escrever a história ambiental de Los Angeles como uma história política e social.

Mas o verdadeiro núcleo da minha escrita era contar histórias. Eu disse a um dos meus colegas de Riverside que não sou escritor, mas sou um ótimo contador de histórias. E eu estive perto de alguns dos melhores contadores de histórias do planeta. Sabe, nos pubs de Belfast e nos bares de lenhadores de Butte, Montana, eu ouvi ótimas histórias.

Quais são algumas das reações mais surpreendentes que você viu ao seu trabalho?

Após o lançamento de Cidade de quartzo, tornei-me amigo íntimo de Kevin Starr. Começamos a debater. Ele era tão charmoso e envolvente que comecei a vê-lo para almoçar com sua esposa e ele era um frequentador regular do Bohemian Grove. Então, ele me convidou para o Bohemian Grove.

Sério?

Eu disse: “O quê? Eles nunca me deixariam entrar no Bohemian Grove em um milhão de anos”. Ele disse: “Ah, sim, eles vão. O único problema é que você nunca poderá filmar ou escrever sobre ele”. E então eu disse: “Que pena”. Meus amigos ficaram bravos comigo. Todos queriam que eu fosse para Bohemian Grove. Mas tudo o que acontece no Bohemian Grove é George Shultz e um bando de bilionários correndo por aí, fazendo xixi em sequoias como crianças de 7 anos. Recusei outros convites que realmente irritaram meus amigos. Recebi um convite para ir ao Vaticano.

Quem o convidou para o Vaticano?

O Gabinete do [Papa] Francisco. Por conta do meu livro Planeta Favela. E eu decidi não ir.

Antes de terminarmos, há alguma, não sei, exortação, chamada à ação, que você queira compartilhar?

Ah, não. Eu resisti a várias coisas, uma delas é a ideia dos roteiristas de que você tem que escrever algo profundo sobre sua própria demissão. Não tenho intenção de fazê-lo, nem qualquer compulsão para escrever algo fajuto-heroico. Quando minha irmã mais velha morreu, eu tinha certeza de que ia morrer também. Embora não soubesse que seria do mesmo câncer que ela teve. E escrevi dois poemas que mais ou menos resumem minha visão de vida, poemas simples. Ficarão para mais tarde.

Acho que as pessoas que leem minhas coisas entendem muito bem. Uma das razões pelas quais essa assistência para morrer é importante para mim é que também garante que eu não perca meu senso de humor. Mas o que minha irmã mais velha me ensinou quando recebeu o veredito final – e ela foi tão direta e corajosa quanto em tudo em sua vida – foi que esta é uma oportunidade de ensinar seus filhos a não ter medo disso. Ficar triste, mas não temer.

Sou apenas uma pessoa comum passando pelo que toda pessoa comum acaba passando em circunstâncias que não são especialmente trágicas. Exceto, talvez, por alguns da família. Mas não é preciso fazer declarações ponderadas. Tem sido mais divertido assistir o Golden State Warriors jogar, ou mistérios escandinavos, ou ler livros e, acima de tudo, relaxar e sair com a família. Tenho muita sorte de estar cercado por todo o amor que tenho aqui.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Se inicia un nuevo ciclo de movilizaciones contra Bolsonaro


Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

La sociedad brasileña ha comenzado a manifestarse por la defensa de los valores y prácticas democráticas que se han visto amenazadas por los seguidos anuncios de golpe realizados por el presidente y algunos de sus seguidores más radicales. Aunque las encuestas reflejan que un porcentaje mayoritario de la ciudadanía no piensa que un autogolpe se llegue a consumar, este peligro siempre va a estar pendiendo como una posibilidad que no se puede descartar a priori.

En dicho contexto, diversas entidades forjadas desde los movimientos sociales y partidos de izquierda han comenzado a retomar la agenda de movilizaciones de expresión nacional en los próximos dos meses que faltan para las elecciones. Hasta el momento dichos encuentros se encontraban restringidos a las actividades efectuadas en las principales ciudades del país como parte de la campaña del candidato del Partido de los Trabajadores, Lula da Silva.

Este nuevo ciclo de marchas y concentraciones quiere alertar al conjunto de la sociedad respecto a las intenciones del ejecutivo de no respetar el resultado de la próxima contienda electoral del 2 de octubre, apelando para ello en el argumento de la falta de credibilidad de las urnas electrónicas. Por el momento ya han sido anunciadas dos fechas para la realización de estas movilizaciones: este próximo 6 de agosto y el 10 de septiembre. Ellas ya no se articulan en torno a la consigna “Fuera Bolsonaro”, cambiando el eje hacia la defensa de las instituciones democráticas y las elecciones libres.

Además, dichas movilizaciones buscan establecer una llamada de atención para la escalada de violencia política alimentada desde la presidencia, como ya lo advertimos en una columna anterior (Bolsonaro estimula sin pudor el uso del asesinato político). Y por lo mismo, exigir el fin de dicha violencia que ha venido siendo levantada desde las milicias de extrema derecha que amenazan diariamente a través de las redes a quienes consideran los “enemigos de la patria”, a saber, el ex presidente Lula da Silva, miembros del Supremo Tribunal Federal, los órganos de la prensa o militantes de partidos de izquierda y centro izquierda.

La extrema derecha que existía en un estado larvado en el país, con el triunfo de Bolsonaro ha venido conquistando un espacio cada vez mayor en las redes sociales, pero también dentro de las instituciones del Estado, especialmente en las Fuerzas Armadas y las diversas policías que existen en Brasil (Federal, Civil, Militar, Rodoviaria y Ambiental). Estos grupos neofascistas han conseguido normalizar ciertos valores sociales como la legitimidad de asesinar a personas que cometen diversos tipos de delitos o de justificar el asesinato de opositores políticos que tendrían como objetivo destruir los cimientos de la patria. Para muchos de ellos, la derrota de Donald Trump en Estados Unidos, de José Antonio Kast en Chile y de Éric Semmour en Francia, transformó a Brasil en el último bastión en defensa de los valores del orden, la tradición, la familia y la propiedad. Para concretizar esta defensa vehemente de esos valores, tanto individuos como milicias y agrupaciones paramilitares se vienen armando en estos últimos años, lo cual ha sido apoyado incesantemente por la administración central.

En efecto, desde que asumió Bolsonaro hace 3 años y medio, el número de personas con licencia para poseer armas aumentó de una manera exponencial con un crecimiento en los registros de un 473 por ciento, según el Anuario Brasileño de Seguridad Pública. El ejecutivo editó hasta el momento 19 decretos, 17 actos administrativos, 2 resoluciones, 3 instrucciones normativas y 2 proyectos de ley que flexibilizan las reglas para facilitar el acceso a las armas y municiones.

Una de las principales consecuencias de este fenómeno es que la violencia política y las muertes en conflictos domésticos causadas por armas de fuego han aumentado considerablemente en los últimos años, lo que se puede apreciar por el volumen de crímenes con sello político o por motivo fútil o torpe (disputas de tránsito, entre vecinos, en la calle, etc.) que se suscitan diariamente en las más diversas localidades de Brasil. Algunos de estos homicidios son difundidos por la prensa, pero una parte significativa de ellos pasan totalmente inadvertidos para la inmensa mayoría de la población.


Otro hecho relevante, ha sido el contundente repudio a las declaraciones con señales golpistas que están surgiendo desde la sociedad civil. Nos referimos específicamente a la “Carta a las brasileñas y los brasileños en Defensa del Estado Democrático de Derecho”, elaborada por académicos y alumnos de la Facultad de Derecho de la Universidad de Sao Paulo, y que ha sido firmado por más de 650 mil personas y organizaciones civiles en poco menos de una semana. Cuando solo quedan dos meses para las elecciones de octubre, la Carta registra oportunamente en una de sus partes: “Al revés de una fiesta cívica, estamos pasando por un momento de inmenso peligro para la normalidad democrática, riesgo a las instituciones de la República e insinuaciones de desacato al resultado de las elecciones”. Y termina avisando que “En el Brasil actual no hay más espacios para retrocesos autoritarios. Dictadura y tortura pertenecen al pasado. La solución de los inmensos desafíos de la sociedad brasileña pasa necesariamente por el respeto al resultado de las urnas. ¡¡Estado Democrático de Derecho Siempre !!”.

Ciertamente la “Carta/Manifiesto” no resuelve los graves problemas que enfrentan los brasileños y brasileñas, pero ella representa una clara advertencia a quienes desean mantenerse indefinidamente en el poder, utilizando todos los artilugios posibles e infringiendo descaradamente las reglas del juego democrático. Es el momento para que el conjunto de las fuerzas políticas y sociales se unan para acabar con este desgobierno y juzgar a Bolsonaro y sus secuaces por todos los crímenes que han venido cometiendo en estos años de destrucción, odiosidad y barbarie.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Desde un diálogo de sordos a la caída de las máscaras


Antonio Elizalde Hevia
Socialismo y Democracia

La sabiduría de nuestro pueblo permitirá reabrir, tras la aprobación plebiscitaria del texto constitucional, las amplias avenidas con las que soñó el Presidente Allende.

Si un extraterrestre visitara Chile quedaría profundamente confundido con tanto ruido y tan pocas nueces. ¿Será cierto eso de que estamos perdiendo la oportunidad de reconstruir una casa común, de reaprender a escucharnos, de hacer política en serio, de aprender a empatizar y a cuidarnos mutuamente?

Una cuestión que me intrigó durante largo tiempo y que busqué explicarme, era la forma mediante la cual los huicholes (uno de los tantos pueblos (etnias) del sur de México toman decisiones en asuntos que los afectan como comunidad. Visto desde fuera, observas un grupo en el cual todo el mundo habla en forma simultánea, aparentemente nadie escucha a nadie, un bullicio impresionante, gente que va y viene, pero de pronto mágicamente, alguien alza la voz y comunica la decisión colectiva.

Consultada una antropóloga amiga que trabaja en esas comunidades respecto a cómo ocurría esto, me dijo algo que yo ya había experimentado, y es que el hecho de escuchar simultáneamente tantas voces, tantos datos, tantas opiniones se llega a un punto de saturación, pues lo que era información cuando supera ciertos umbrales de magnitud, de estridencia, de agregados inevitables como estilos y formas de presentación, termina por transformarse en bulla y en estruendo. Y nuestro organismo reacciona bloqueando lo que antes consideraba información.

Valga la analogía para la interpretación que busco hacer para esclarecer la coyuntura actual. Durante muchos años, incluso décadas, en nuestro país vivimos inmersos en un clima comunicacional y de conversaciones ciudadanas en el cual se escuchaba una agobiante y monocorde letanía que exaltaba los logros obtenidos como nación. Se nos hizo creer que éramos excepcionales, que estábamos en un continente equivocado. Éramos un modelo a imitar según el Banco Mundial y el FMI. Si bien hubo voces disidentes (Tomás Moulián, Chile actual: anatomía de un mito; el PNUD y Pedro Güell y su diagnóstico del malestar, entre varios otros) fueron voces muy poco escuchadas y siguió avanzando la difusión del mito meritocrático y la ideología del hiperconsumo individualista.

Nadie podría negar el enorme avance en la materialidad de la existencia de la sociedad chilena, pero esos avances no han llegado a todos y más aún han sido al costo de una sobre-explotación desmedida de los ecosistemas que conforman nuestro territorio, y además de la explotación de quienes viven de un salario e incluso de la auto-explotación de una alta proporción de quienes ejercen de emprendedores, muchos de ellos modestos trabajadores cuentapropistas. Nuestros índices de deterioro de la salud mental son, comparados internacionalmente, abismantes. El profundo malestar que se fue acumulando y que recorría la sociedad chilena eclosionó en la forma de un estallido social.

La respuesta que buscó la institucionalidad política -el poder constituido- para evitar recurrir nuevamente a la represión militar, fue convocar a un plebiscito para decidir si se constituía una asamblea constituyente (recuerdo al respecto el extenso y estéril debate por la denominación, si era constitucional o constituyente). Lo cual fue zanjado en un plebiscito en el cual ocho de cada diez electores votaron Apruebo. Luego se procedió en una elección posterior a elegir a los 155 integrantes del poder constituyente, conformando una asamblea paritaria y con representación de los pueblos originarios.

Los resultados fueron una manifestación del profundo descrédito y enojo del electorado hacia las elites y la institucionalidad política, llamada peyorativamente "clase política", eligiendo a un conjunto de ciudadanos no acostumbrados al debate y al diálogo, pero que eran también expresión de la diversidad que nos recorre, con sus claroscuros, escándalos y salidas de libreto. Circunstancia que fue aprovechada por los sectores que habían llamado al Rechazo y amplificada por los medios de comunicación. Se generó así un clima de desprestigio de aquellos que venían a sustituir, transitoriamente, a la deteriorada clase política. Se acusó a los convencionales de no hacer el trabajo para el cual los habíamos elegido, que no iban a ser capaces de redactar el texto a plebiscitar.


Día a día durante meses, se vio y escuchó en los medios masivos transformar propuestas minoritarias y en muchos casos extremas en generalizaciones de carácter casi infernal o caótico. Sin embargo, primó el sentido común construido en un colectivo que aprendió a escucharse, a dialogar, a debatir razonablemente y con respeto, y a terminar haciendo efectivamente aquello que les correspondió hacer: un texto constitucional que, en palabras de especialistas, aporta novedad a las teorías jurídicas existentes, tanto por su contenido como por la forma del cuerpo que le dio origen (con representación de los pueblos originarios y paritario). Algo de lo cual sentirnos orgullosos como sociedad por el aporte que Chile le hace al mundo. El texto es algo que no dejó contento a todo el mundo.

Era de esperar. Primero, porque hubo convencionales elegidos para representar a quienes llamaron a votar Rechazo a la propuesta de nueva Constitución y que hicieron su trabajo: obstaculizar todo lo posible los avances logrados en el debate interno y hacer llegar a los medios masivos, todos los desatinos y propuestas extremas que se ventilaron en el debate.

Segundo, porque los sectores que han dominado y manejado, a su antojo, durante décadas el rumbo del país, y que son dueños y por lo tanto controlan la línea editorial de casi todos los medios de comunicación masivos, ven que esta propuesta afecta sus intereses ya que modifica radicalmente el sustrato jurídico que sustenta el modelo económico que se implantó en Chile durante la dictadura y que les ha permitido lograr niveles de poder enormes gracias a una acumulación patrimonial y concentración de los ingresos excepcionales en términos comparativos a nivel mundial.

Tercero, porque nuestra sociedad ha generado un importante proceso de movilidad social ascendente -si bien persisten paralelamente amplios sectores de población marginalizada y excluida-, y en estos sectores se ha ido conformando una "ideología de subclase" y es ahí donde se han constituido grupos como una casta "tecno-burocrática", que transita cómodamente entre lo público y lo privado, sustentada en términos fetiche (como les llama mi amigo José Manuel Naredo) como el "mérito", el "trabajo esforzado", "el crecimiento económico", la "selectividad", la "focalización", el "emprendedorismo", los "nichos de mercado", las "acreditaciones", y así un sinfín de no-conceptos o nociones vacías que han calado muy profundo en su imaginario.

Estos sectores ven en la propuesta de texto un riesgo de desmoronamiento de todo el palimpsesto en el cual habían aprendido a desenvolverse a sus anchas. Por tal razón constituyeron inicialmente un grupo que los representó al interior de la Convención, posteriormente, al desarticularse este grupo en el debate y los acuerdos surgidos entre los convencionales, tuvieron que enfrentarse al texto propuesto y conformaron el grupo Amarillos por Chile.

Todo parecía ir muy bien cuando los medios seguían explotando los rumores y trascendidos del operar del texto en proceso y las encuestas marcaban un mayoritario respaldo a la opción del Rechazo. Pero cuando finalmente se dio a conocer el texto definitivo y éste comenzó a difundirse masivamente, comenzaron a cambiar las evaluaciones que se hacía en el potencial electorado de la propuesta de texto. Hubo que cambiar la estrategia y apareció así el grupo autodenominado "Centroizquierda" que reúne y hace por fin visibles a muchos personajes que expresan esta "ideología de subclase", constituida en algo así como los "administradores del fundo", quienes hasta antes del estallido han sido el sustento de la mantención del enfoque neoliberal en el quehacer del Estado en Chile, durante las tres últimas décadas. Por fin entonces en este baile de máscaras se comienza a develar ¿Quién es quién? 

La sabiduría de nuestro pueblo permitirá reabrir, tras la aprobación plebiscitaria del texto constitucional, las amplias avenidas con las que soñó el Presidente Allende. No será fácil transitarlas, aunque estarán pavimentadas de buenas intenciones, existirá la urgencia de dar cuenta de demandas justas, aunque insatisfechas, que habrá que ir encauzando y resolviendo día a día. Gracias al entusiasmo y los sueños de futuro de las nuevas generaciones, sumados a la voluntad de lucha de la vieja militancia social y política, harán renacer el principio de esperanza del cual nos habló Ernst Bloch. El sueño de construir una sociedad en la cual el respeto de la Naturaleza, la dignidad, la justicia y la fraternidad se hagan costumbre y que nos permita así avanzar hacia ser mejores humanos.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

La revolución política de Francia Márquez


Estefanía Santoro
Página 12

La recientemente electa vicepresidenta de Colombia vuelve a Argentina en una nueva edición del Proyecto Ballena. Una visita muy esperada de quien revolucionó la política internacional: se trata de la primera mujer, negra, afrodescendiente, popular y feminista que alcanza un cargo político tan importante.

El día que Francia Márquez pisó por primera vez la casa de la presidencia tuvo un gesto que pasó a la historia. Mientras la vice saliente Marta Lucia Ramírez ignoraba a las empleadas domésticas de la casa, Francia se detuvo para estrechar la mano de cada una de ellas.

Francia es la esperanza de cambio en Colombia para vivir sabroso, es decir, “sin miedo, en dignidad y con garantía de derechos” en sus propias palabras, una filosofía de vida de las comunidades afrocolombianas. Esta vicepresidenta es una luz que llegó para alumbrar a un pueblo que estuvo en las sombras de la represión, el despojo, el hambre y la pobreza.

La historia de vida de Francia Márquez es lo que la convierte en una figura política única. Se crió en los barrios, sabe lo que significa trabajar en una mina de oro, no sólo estuvo en las profundidades de la tierra para sobrevivir y mantener a su familia, también trabajó en agricultura, gastronomía y fue empleada de casas particulares. A los 16 tuvo a su primer hijo, era el único sostén de la familia. Su vida hace carne “lo personal es político”, que hoy Francia esté ocupando el cargo de vicepresidenta revoluciona a una Colombia en la que meses antes gobernaban las elites. Por primera vez, los sectores empobrecidos y la clase trabajadora sienten que unx de lxs suyxs está ahí arriba, representando sus intereses y no los de un pequeño núcleo adinerado.

Resistir desde la alegría y la lucha popular

“Lo que les molesta a muchos es que una mujer que pudo ser su empleada doméstica, pueda dirigir el país”, dijo y es por eso que Francia es también rebeldía antipatriarcal, alejada del feminismo liberal habla de la construcción colectiva y del rol de la mujeres negras que siempre fueron relegadas a trabajos precarios y de servidumbre. “Estamos aquí para irrumpir contra la política hegemónica que está acostumbrada a ver hombres blancos privilegiados de élite gobernar. Esos hombres han gobernado desde sus lugares de privilegio, desde lugares de exclusión, usando la violencia como parte de la política.

Estamos aquí para construir desde el amor, desde la alegría, desde la resistencia y desde la lucha popular. Representamos esa agenda de los y las nadies, de quienes no tienen voz, de las personas que en este país no cuentan para la política”, dijo en febrero durante una entrevista con la agencia Colombia Informa. “Soy porque somos” fue su lema de campaña, reconociéndose parte de una comunidad con base en la organización comunitaria. Esa frase proviene de la filosofía africana “ubuntu” que refiere a la idea de tener en cuenta al otrx, el ser y vivir en comunidad, incluso con la naturaleza, alejada de la idea de adueñarse de esta.

Por Marielle y contra el extractivismo

La misma frase con la que Marielle Franco tituló uno de sus textos publicado en el blog Agoraéquesãoelas, del diario Folha de São Paulo en 2016. En sintonía con Francia, la consejala brasileña fue recordada por Sofía Petro, estudiante de Ciencias Políticas e hija mayor de Gustavo Petro, -presidente electo de Colombia y pareja de fórmula de Francia- cuando en la segunda vuelta de las elecciones presidenciales se mostró al lado de su padre con una remera que tenía el rostro de Marielle.

Francia dedicó su vida al activismo por los derechos humanos y la defensa del medio ambiente, denunciando el avance del extractivismo, otra de las banderas que hoy levanta desde la vicepresidencia con total coherencia política. Desde 1994 defendió junto a su comunidad el Río Ovejas enfrentando el avance de proyectos mineros en territorio ancestral y desde ese momento no paró. Francia se convirtió en una referente socio ambiental no sólo en su país, sino también a nivel mundial, lo que la llevó a recibir el Premio Medioambiental Goldman en 2018. “Hicimos muchas movilizaciones para parar la minería que estaba envenenado con mercurio nuestro territorio donde no hay agua potable y tenemos niñas y niños con mercurio en la sangre. Eso es parte del racismo ambiental porque no en todos lugares se envenena“, recordó el año pasado en su paso por la Facultad de Ciencias Sociales.

Francia Elena Márquez Mina tiene 40 años, nació en el norte del Departamento del Cauca, es abogada, realizó su tesis en la Universidad Santiago de Cali sobre racismo y consulta previa en Colombia. Es referenta del Proceso de Comunidades Negras de Colombia (PCN), una red de organizaciones afrocolombianas que en la década del 90 articuló por la defensa de los derechos étnicos, culturales y territoriales.

En 2020 la violencia en Colombia aumentó a niveles alarmantes y el 11 de agosto de ese año cinco adolescentes afrodescendientes de 16 años fueron asesinados en Cali. El hecho se conoció como la Masacre de Llano Verde y es un ejemplo del desastre social que causó la urbanización de familias víctimas del conflicto armado que en 2013 y 2014 fueron reubicadas en un proyecto de vivienda social pero sin ningún tipo de contención estatal, con la marginalidad como único destino, sin colegios, centros de salud, policía, transporte formal, centros de cuidado infantil, comunitarios o espacios de recreación. Ese suceso doloroso fue lo que impulsó a Márquez a presentarse como candidata a presidenta de Colombia.

“Hemos avanzado en un paso muy importante: después de 214 años logramos un gobierno del pueblo, un gobierno popular. El Gobierno de la gente de las manos callosas, el gobierno de la gente de a pie, el gobierno de los nadies y las nadie de Colombia. Vamos, hermanos y hermanas a reconciliar esta nación, vamos por la paz de manera decidida, sin miedo, con amor y con alegría, vamos por la dignidad, por la justicia social. Vamos las mujeres a erradicar el patriarcado en nuestro país, vamos por los derechos de la comunidad diversa LGBTI. Vamos por los derechos de nuestra madre tierra, de la casa grande, a cuidar nuestra casa grande, a cuidar la biodiversidad. Vamos juntos a erradicar el racismo”, con estas palabras cerró Francia su emocionante discurso de asunción como vicepresidencia.

Atrás quedaron las imágenes de la violencia atroz que desplegó el gobierno de Iván Duque durante el Paro Nacional que comenzó el 28 de abril en contra de la reforma tributaria. Hoy Colombia respira otros aires de naturaleza antiracista, feminista y popular.

Libertad sin límites


 

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Marx no era un pensador eurocéntrico


Kevin B. Anderson
Jacobin América Latina

Los críticos de Marx lo acusan de haber impuesto ilegítimamente un modelo de desarrollo histórico en el mundo no europeo. Pero la verdad es que Marx rechazó el pensamiento eurocéntrico y desarrolló una perspectiva sofisticada de la historia mundial en toda su diversidad y sus complejidades.

A pesar del renovado interés en su crítica del capitalismo, los ataques contra Marx no cesan. Con ejes distintos, todos comparten el postulado de que Marx está muerto, que pasó de moda y que fue superado por las nuevas teorías y por el curso de los acontecimientos. Pero si es verdad que el marxismo está muerto, ¿por qué sus críticos sienten la necesidad de insistir tanto en el tema, de «demostrar» su punto de vista una y otra vez?

La respuesta verdadera es obvia. El marxismo nunca murió, aunque a lo largo de los últimos 150 años su influencia menguó y atravesó ciclos de letargo y resurrección. De ahí la necesidad de los críticos de Marx que intentan enterrarlo, sin éxito por ahora.

La crítica de Edward Said

La perspectiva liberal estándar sostiene que el socialismo marxista conduce hacia el totalitarismo y hacia un eventual colapso económico. En síntesis, los «experimentos» marxistas —¡miren lo que pasó en la URSS!— son peligrosos y deberíamos apegarnos a la alternativa más viable, el capitalismo liberal. Sin embargo, después de la Gran Recesión y del crecimiento de tendencias fascistas que salieron fortalecidas de la era Trump, surgieron dudas sobre el futuro del capitalismo y la democracia liberal que debilitan este tipo de argumentos.

Una acusación contra Marx que tiene más difusión, especialmente entre los intelectuales progresistas y los académicos, está centrada en la noción de que Marx era eurocentrista, es decir, un pensador del siglo diecinueve que desentona con la sensibilidad multirracial y anticolonial del siglo veinte. Esta línea crítica ganó bastante visibilidad con la publicación de Orientalismo (1978) de Edward Said.

Said encuentra dos puntos débiles en Marx. En primer lugar, el autor denuncia la supuesta adscripción de Marx al gran relato o serie unilineal de etapas de desarrollo económico y social. De acuerdo con esta perspectiva, Marx habría utilizado sin ninguna justificación este modelo unilineal, fundado en la historia de Europa occidental, para analizar y medir las sociedades no capitalistas de otras regiones. En segundo lugar, Said acusa a Marx de etnocentrismo, hasta de racismo, en función de sus descripciones de las sociedades no europeas.

Como parte de la primera crítica, Said escribió que para Marx, el imperialismo europeo era parte de la marcha adelante de la «necesidad histórica» que terminaría conduciendo a toda la humanidad hacia el progreso. Como destaca Said, los escritos de 1851 de Marx sobre la India publicados en el New York Tribune muestran un nivel sorprendente de respaldo del colonialismo británico.

Marx describió a los británicos como «superiores, y, por lo tanto, inalcanzables para la civilización india», además de definir a la India como una sociedad estática, incapaz de ejercer mucha resistencia contra el imperialismo. La posición de Marx queda resumida en las palabras de Said: «Incluso cuando estaba destruyendo Asia, Gran Bretaña estaba haciendo posible una verdadera revolución social».

Tal vez el ejemplo más evidente del tipo de problema que Said está destacando no esté en los escritos de 1853 sobre la India, sino en el Manifiesto del Partido Comunista (1848). En este texto, Marx y Engels parecen elogiar la penetración imperialista contra China:

La burguesía, con el rápido perfeccionamiento de todos los medios de producción, con las facilidades increíbles de su red de comunicaciones, lleva la civilización hasta a las naciones más salvajes. El bajo precio de sus mercancías es la artillería pesada con la que derrumba todas las murallas de la China, con la que obliga a capitular a las tribus bárbaras más ariscas en su odio contra el extranjero. Obliga a todas las naciones a abrazar el régimen de producción de la burguesía o perecer; las obliga a implantar en su propio seno la llamada civilización, es decir, a hacerse burguesas.

Marx no solo parece celebrar el «progreso» que conlleva el colonialismo, sino que también califica a los chinos de «bárbaros». Este tipo de lenguaje nos lleva a la segunda crítica de Said, la acusación de eurocentrismo.

Said incluye a Marx en una serie de pensadores europeos que incluye «desde Renan hasta Marx», que desarrolló un «sistema de verdades, verdades en el sentido nietzscheano del término»: «Por lo tanto, es verdad que todo europeo, en sus eventuales dichos sobre Oriente, era consecuentemente racista, imperialista y casi completamente etnocéntrico».

La trayectoria de Marx

¿Estos argumentos son válidos? ¿Era Marx realmente eurocentrista en el doble sentido del término, a saber, un teórico que construyó un gran relato abstracto que terminó subsumiendo la historia y la cultura del mundo bajo las categorías de Europa occidental, y un etnocentrista que adoptó una actitud condescendiente (o peor) hacia las sociedades ajenas a Europa occidental?

La respuesta no es en absoluto sencilla. A diferencia de algunos marxistas, pienso que, aunque estas críticas son exageradas, tenemos que reconocer su validez parcial, al menos cuando se trata de los primeros escritos de Marx —de 1848 a 1853— sobre las sociedades no occidentales. Pero la noción de un Marx eurocéntrico no se sostiene cuando uno examina todos sus escritos considerando el período que abarca de 1841 a 1883, porque Marx fue un pensador que nunca dejó de reelaborar y desarrollar su aparato conceptual.

Antes que anda, es difícil afirmar que eso hoy llamamos eurocentrismo y etnocentrismo hayan sido los únicos tonos que Marx hizo sonar, incluso en sus primeros textos sobre la India y China. Los problemáticos escritos sobre India también contenían pasajes como este:

Los indios no cosecharán los frutos de los nuevos elementos de la sociedad esparcidos entre ellos por la burguesía británica hasta que en Gran Bretaña las clases ahora dominantes hayan sido reemplazadas por el proletariado industrial, o hasta que los hindúes se hayan vuelto suficientemente fuertes como para terminar de una vez con el yugo inglés. En cualquier caso, es dado esperar, en un período más o menos lejano, la regeneración de este interesante y enorme país, cuyos gentiles nativos […] sorprendieron a las autoridades británicas por su bravura y cuyo país es la fuente de nuestras lenguas y de nuestras religiones.

Marx no solo muestra un gran aprecio por la cultura india y por las civilizaciones, sino que también adopta la posición, rara entre los europeos de su época, de defender la independencia de India. En segundo lugar, las perspectivas de Marx sobre India y sobre China cambiaron considerablemente en 1856-1858, en respuesta a la resistencia masiva que estas sociedades empezaron a ejercer contra el imperialismo británico. En artículos de Tribune rara vez citados, Marx pone el eje, no en el «atraso» de Asia, sino en la brutalidad colonial de la segunda guerra del Opio contra China. Es evidente en este fragmento de un artículo de Tribune publicado en 1856:

Los ciudadanos inocentes y los comerciantes pacíficos de Cantón fueron masacrados, sus casas fueron destruidas y su humanidad violada […]. Los chinos tienen como mínimo noventa y nueve heridas de las que quejarse contra una de parte de los ingleses. En respuesta a la revuelta Sepoy que irrumpió en 1857 en India, Marx respaldó de nuevo a los rebeldes indios contra los británicos en las páginas de Tribune. En una carta de 1857 dirigida a Engels también usó el término «nuestros mejores aliados» en una época en la que la clase obrera europea atravesaba un período de inactividad.

En tercer lugar, la noción de Marx de etapas de desarrollo histórico también sufrió cambios importantes a fines de los años 1850. En La ideología alemana de 1846, él y Engels postularon una teoría de etapas socioeconómicas, que después denominaron modos de producción: las sociedades sin Estado, las sociedades esclavistas de Grecia y de Roma y el feudalismo fundado en la servidumbre de la Europa occidental medieval, precedían al capitalismo con su régimen de trabajo asalariado libre y anticipaban un comunismo moderno en el futuro, que estaría fundado en el «trabajo libre y asociado». En síntesis, el desarrollo recorre la serie modo de producción «primitivo»-esclavista-feudal-burgués-socialista.

Sin embargo, en 1857-1858, en los Grundrisse, Marx expandió su marco conceptual e introdujo, junto a los sistemas grecorromano y feudal europeos, un modo de producción asiático que vinculó especialmente con los imperios precoloniales de la India, de China y de Oriente Medio. Marx también hizo referencia a este marco extendido en El capital, donde escribió sobre los «modos de producción asiático, antiguo, feudal y burgués moderno».

Cabe pensar que el modo de producción asiático (MDA) es un homólogo de las sociedades grecorromanas y feudal. El MDA es importante sobre todo como un indicador de que Marx no estaba intentando hacer encajar toda la historia humana en la trayectoria esclavismo-feudalismo-capitalismo. Desafortunadamente, la mayoría de los seguidores de Marx —especialmente en la Unión Soviética— insistieron en el programa de hacer entrar las sociedades de clase precapitalistas no occidentales, incluidos los imperios agrarios centralizados con importantes centros urbanos, en la camisa de fuerza del feudalismo.

Una teoría no es una llave maestra

Este tipo de temas ocuparon el centro de los escritos tardíos de Marx —de 1877 a 1882—, período en el que empezó a estudiar obras de antropología y de historia social sobre una gran variedad de sociedades pastoriles y agrarias no occidentales, desde la India hasta América Latina y desde Rusia hasta África del Norte. A esta altura, Marx había aprendido ruso para investigar la estructura social de ese país, donde para su sorpresa se publicó, en 1872, la primera traducción completa de El capital.

Partes considerables de las notas de investigación de Marx sobre este período, sobre todo las que tratan sobre la India, fueron publicadas y otros textos están en preparación. Marx también escribió dos cartas conceptualmente relevantes sobre una de estas sociedades agrarias, Rusia.

En esta época, Rusia todavía estaba determinada por una estructura social fundamentalmente agraria fundada a nivel local en las comunas rurales. Estas comunas, aunque estaban bajo control de una monarquía despótica anclara en las clases terratenientes, poseían cierto nivel de propiedad colectiva y acuerdos de trabajo que eran inconsistentes con las disposiciones sociales del feudalismo de Europa occidental.

Marx abordó dos preguntas importantes en estas cartas. En primer lugar, ¿estaba Rusia destinada a seguir el camino de desarrollo de Europa occidental? En segundo lugar, ¿sus comunas rurales tenían potencial revolucionario o anticapitalista, o era necesario que sus habitantes fueran despojados de sus tierras y formaran un proletariado industrial compuesto de asalariados en un proceso que Marx denominó «acumulación primitiva de capital»?

Muchos académicos consideran que este rumiar de Marx sobre Rusia concernía también a otras sociedades agrarias del Sur Global a las que dedicó sus últimos años de estudio. En una carta de 1877 dirigida a intelectuales rusos de izquierda, Marx negó enfáticamente haber creado una teoría general y transhistórica sobre el desarrollo social:

Así, acontecimientos de semejanza impactante, que toman lugar en contextos históricos diferentes, conducen a resultados completamente dispares. Estudiando cada uno de estos procesos por separado, sería fácil descubrir la clave de este fenómeno, pero esto nunca se lograría con la llave maestra de una teoría histórico-filosófica general, cuya máxima virtud consiste en ser suprahistórica.

Aquí Marx parece negar, avant la lettre, la acusación de construir un «gran relato» eurocéntrico.

La vía rusa

El contexto inmediato de estos debates era la pregunta, que se planteaban los intelectuales rusos, de si su sociedad, en caso de querer progresar, estaba «inevitablemente» destinada a seguir el camino de Europa occidental. En 1881, Marx escribe sobre este punto a Vera Zasulich:

Al tratar de la génesis de la producción capitalista, yo he dicho que su secreto consiste en que tiene por base «la separación radical entre el productor y los medios de producción» […] y que «la base de toda esta evolución es la expropiación de los agricultores. Esta no se ha efectuado radicalmente por el momento más que en Inglaterra… Pero todos los demás países de Europa Occidental siguen el mismo camino» [columna 1 de la edición francesa de El Capital citado, col. 2, p. 315]. Por tanto, he restringido expresamente la «fatalidad histórica» de este movimiento a los países de Europa Occidental.

De nuevo, Marx estaba negando haber creado un modelo unilineal de desarrollo social fundado en la trayectoria de Europa occidental. En este contexto, también debemos notar que en sus notas de investigación sobre la India de este período, ataca explícitamente la perspectiva de que la India precolonial era una sociedad feudal.

En este período, Marx también abordó las contradicciones sociales de la sociedad rusa, donde a esta altura había surgido un movimiento revolucionario importante. No solo negó ante sus interlocutores rusos que sus teorías demostraran que las comunas rurales debían ser «inevitablemente» destruidas en un proceso de acumulación primitiva de tipo europeo occidental. También afirmó que estas comunas eran la base social de un nuevo tipo de movimiento revolucionario.

Este movimiento marcaría un paralelo con, pero no seguiría la misma línea que, la clase obrera europea, como escribieron Marx y Engels en el prefacio a la edición rusa de 1892 de El manifiesto…:

[S]i la revolución rusa da la señal para una revolución proletaria en Occidente, de modo que ambas se completen, la actual propiedad común de la tierra en Rusia podrá servir de punto de partida para el desarrollo comunista.

Aquí Marx propone un concepto multilineal de la revolución, en el que las comunas rurales de Rusia podrían convertirse en un aliado importante de las clases obreras industriales de Europa occidental. Pero Marx va todavía más lejos y argumenta que un levantamiento campesino de este tipo en la periferia del capitalismo podría llegar primero y convertirse en el «punto de partida» capaz de desatar un movimiento revolucionario a nivel europeo.

Al mismo tiempo, Marx nunca defendió la posible autarquía de una sociedad agraria. Sin vínculos con los países más desarrollados, pensaba, una revolución campesina en Rusia sería incapaz de conducir a una forma viable de comunismo moderno. En cambio, Marx defendía una revolución mundial contra un sistema mundial de dominación de explotación, el capitalismo.

Un Marx contemporáneo

En este sentido, el Marx tardío se alejó de toda teoría unilineal del desarrollo fundada en Europa occidental y a la que debía adecuarse todo el resto del mundo. Lejos de mostrar una actitud condescendiente con las sociedades de la periferia capitalista, estos escritos exhiben una cualidad exactamente opuesta: una teoría sobre su potencial revolucionario.

En la época en la que la crítica de Marx elaborada por Edward Said empezaba a tomar vuelto, muchos intelectuales defendieron un punto de vista similar al que sostengo. Rosa Luxemburgo, la liberación femenina y la filosofía marxista de la revolución (1982), escrita por mi mentora, Raya Dunayevskaya, y en El Marx tardío y la vía Rusa (1983) de Teodor Shanin, destacaron la noción de un Marx tardío que desarrolló una perspectiva multilineal y verdaderamente mundial de la sociedad y de la revolución, y que llegó a plantear cuestiones de género.

Estas interpretaciones de Marx no recibieron mucha atención en un período definido por el neoliberalismo, el posestructuralismo, el posmodernismo y las sentencias de «muerte» del marxismo. En los años sucesivos, el debate sobre el Marx tardío avanzó lentamente. Espero que el retorno a Marx que parece definir el presente sea un momento propicio para el desarrollo de estas perspectivas.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Bajo el dominio de los gusanos


Eliane Brum
El País

Por qué la campaña electoral de Brasil en 2022 es aún más violenta que en 2018

En la campaña electoral de 2018, en Brasil, los resentidos salieron de su capullo para metamorfosearse al revés. Orgullosos de su esencia, apaleaban a las personas LGBTQIA+, les gritaban a los negros que “volvieran a los barracones”, juraban barrer a los indígenas de la Amazonia, destruían centros religiosos afrobrasileños. Era la venganza de los resentidos que habían acumulado rencor durante décadas ante el avance de los derechos y de aquello que denominan “la prisión de lo políticamente correcto”. Su acción fue decisiva para elegir a su portavoz, el entonces candidato Jair Bolsonaro. La campaña electoral de 2022, en la que Bolsonaro busca reelegirse, es mucho peor.

Tras casi cuatro años en el poder utilizando la máquina del Estado para minar la democracia, el bolsonarismo ha infiltrado más profundamente sus raíces podridas en las instituciones brasileñas y en organizaciones de la sociedad civil. Si en 2018 los peores ataques los llevaban a cabo individuos o grupos, en 2022 provienen de parlamentos y asociaciones. Aunque ambos escenarios sean espeluznantes, la diferencia es sustancial. Y muestra que la corrosión de la sociedad brasileña aún será más difícil de revertir de lo que piensan los más pesimistas. Como el personaje de Smith en la icónica serie Matrix, Bolsonaro se replica por millones. Aunque no se reelija ni sea capaz de consumar el golpe de Estado que prepara por si pierde, miles de Bolsonaros se reelegirán en el Parlamento y seguirán ocupando cargos de poder en todas las esferas.

Entre las más recientes agresiones cometidas por instituciones públicas se encuentra la solicitud que presentó una partidaria de Bolsonaro en el Estado de Santa Catarina para abrir una Comisión de Investigación. La diputada Ana Campagnolo quiere investigar a una niña que a los 10 años se quedó embarazada tras ser violada y, aunque sea un derecho legal, solo consiguió abortar después de luchar mucho. Para abrir una investigación en ese Parlamento se necesitan 14 votos. Campagnolo consiguió 21: más de la mitad de los diputados está dispuesta a utilizar su mandato para criminalizar a una niña que ahora tiene 11 años y ya ha sufrido una violación, un embarazo y un aborto.

Entre los más recientes ataques de organizaciones de la sociedad civil se encuentra la carta que las asociaciones y federaciones de la industria de Pará enviaron a la Presidencia de la República clamando que abandone la Convención 169 de la Organización Internacional del Trabajo, que establece la necesidad de realizar una consulta “libre, previa e informada” a las comunidades indígenas y tradicionales que puedan verse afectadas por proyectos económicos. En 2021, la Amazonia perdió 18 árboles por segundo, pero la élite económica del Estado campeón en deforestación se siente autorizada a exigir que se silencie oficialmente a los guardianes de la selva.

Hace poco más de una semana, un hombre invadió la fiesta de otro que celebraba su cumpleaños con una decoración pro-Lula en la ciudad de Foz de Iguazú. Lo mató a tiros, ante todos los invitados, gritando “Aquí somos de Bolsonaro”. La Policía Civil afirmó que no se trataba de un crimen político. Y gran parte de la prensa responsabilizó no a la destrucción de los adversarios que promueve Bolsonaro, sino a la “polarización”, como si ambos lados fueran igualmente violentos. Así se pudre un país.

Bolsonaro puede perder las elecciones, pero la bestialidad de lo que representa no solo circula por las calles a plena luz del día, como en 2018, sino que, en 2022, también lidera gran parte del aparato institucional en todas las áreas. Bolsonaro ya ha ganado, aunque pierda. Y derrotarlo será una lucha que durará mucho más que una generación.

quarta-feira, 20 de julho de 2022

¿Cómo enfrentar la pesadilla brasileña?


Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

En una bizarra -pero no menos preocupante- reunión convocada por la Presidencia de la República para un grupo de embajadores a inicios de esta semana, el ex capitán insistió en realizar ataques a las urnas electrónicas y poner en duda la transparencia de las futuras elecciones que se llevarán a cabo en octubre. En una transmisión en directo por un Canal Oficial (TV Brasil), a la cual no tuvo acceso la prensa audiovisual o escrita, el presidente Bolsonaro no solamente efectuó acusaciones infundadas sobre la seguridad y confiabilidad del sistema electoral, como también acusó a tres miembros del Supremo Tribunal Federal (STF) y del Tribunal Superior Electoral (TSE) de estar propiciando un escenario en que los votantes serán fraudados.

A pesar de que diversos juristas y constitucionalistas señalaron que el cuestionamiento del jefe del Ejecutivo al sistema electoral constituye un crimen pasible de provocar una casación de su mandato, esta “afrenta” a las instituciones democráticas no ha tenido una respuesta a la altura por parte de las mismas instituciones y poderes del Estado que Bolsonaro insiste en denigrar. Aparte de algunas declaraciones y advertencias a sus palabras, los principales actores de la vida política y los medios en general no han denunciado la gravedad del aviso de Golpe que estaría incitando Bolsonaro en el caso de que las urnas no le sean favorables para obtener su reelección. En su discurso, que muchos han evaluado como el discurso de un perdedor, el mandatario cuestiona desde ahora el probable resultado que le daría la victoria al ex presidente Lula da Silva.

En su monumental biografía novelada de Benito Mussolini (M. El hijo del siglo), el escritor italiano Antonio Scurati nos relata que luego del atentado con granadas perpetrado contra una multitud que marchaba por la Via San Damiano, en la que murieron algunos participantes, Mussolini y una parte de sus secuaces fueron arrestados al día siguiente bajo la acusación de “atentado a la seguridad del Estado y formación de un bando criminal”. Después de haber sido sometido a interrogatorios por su responsabilidad en el atentado, Mussolini es dejado en libertad, permaneciendo solo 24 horas detenido. A su favor intervino el Director del Corriere della Sera, Luigi Albertini, un connotado pensador liberal para quien el desastre electoral de los fascistas en esas recientes elecciones no ameritaba un tratamiento drástico contra ellos. En su argumentación Albertini señalaba: “Mussolini es un desastre, no hagamos de él un mártir”.

La experiencia histórica del nazismo y el fascismo deberían ser una clara advertencia para que las sociedades democráticas se mantengan en alerta y activen prontamente los frenos necesarios para contraponerse a las embestidas autoritarias de la extrema derecha. En caso contrario, dichas sociedades pueden sucumbir a los desbordes tiránicos de un líder y un pequeño grupo que impone su proyecto con el recurso de la violencia y las armas, tal como podría suceder en el caso brasileño.

Al igual que en la bestial declaración de Millán Astray en la Universidad de Salamanca luego del triunfo de los franquistas en la Guerra Civil Española, el deleznable Jair Bolsonaro también quiere hacer suyo el perverso eslogan de “Viva la muerte, muera la inteligencia”. Para ello viene trabajando desde que asumió hace 3 años. Con casi 700 mil fallecidos por la pandemia e indicadores de desempleo, miseria y hambre que no se veían hace décadas, Brasil también enfrenta una crisis en sus indicadores de salud mental, sin precedentes en la historia nacional.

Según un estudio realizado recientemente por el Centro Datasus, la cifra de suicidios sube alarmantemente, siendo que el número de óbitos por esta causa aumentó el doble en los últimos 20 años, pasando de casi 7 mil decesos en 2000 a más de 14 mil muertes auto provocadas en el año 2021. La curva que expone las cifras brasileñas van a contramano de la tendencia mundial – a pesar de la pandemia- y los especialistas atribuyen esta grave situación al aumento de la pobreza, la desigualdad, la desesperanza, la exposición a eventos de violencia y la inexistencia de una política efectiva de contención y prevención de la depresión y el suicidio.

Cada día se desmantela alguna política pública, especialmente la política social, que había sido construida a través de muchos años de gobiernos que intentaban disminuir la desigualdad escandalosa y enfrentar los altos índices de pobreza y exclusión. A pesar de su incompetencia en la gestión gubernamental, el ex capitán y sus ministros han demostrado extrema eficacia para desmontar el Estado brasileño, tal como ya lo hemos apuntado en una columna anterior (La paradoja de un gobierno devastador).



Por lo mismo, la interrogante que se mantiene en el aire es si las instituciones republicanas serán capaces de colocar un basta a las atrocidades que viene cometiendo el gobierno de extrema derecha y si las fuerzas sociales serán capaces de contraponerse a las amenazas golpistas propaladas por el presidente y su núcleo de incondicionales. Hasta ahora las organizaciones sindicales, los movimientos sociales y la ciudadanía en general, se han mantenido en una pasividad asustadora para enfrentar los desvaríos de Bolsonaro.

Es de esperar que en la medida que se inicien las campañas para la próxima contienda electoral, las personas estén dispuestas a salir a la calle para exigir un juicio por los crímenes cometidos por este desgobierno, aun cuando sus resultados se vean obstaculizados por la complicidad de políticos, jueces y empresarios que siguen defendiendo la actual administración. El pueblo, los ciudadanos deben ocupar el protagonismo indiscutible a ellos asignados para detener el oscurantismo y la expansión de la estrategia del miedo y la mentira. Son ellos los convocados a dar un giro definitivo a este periodo de penumbras y ocupar las calles, plazas y espacios públicos de ciudades, pueblos y villas de todo Brasil. De no ser así, una mancha de infamia se apoderará del país y la desidia de las entidades políticas y de las instituciones sometidas al poder despótico pavimentarán el camino para que las expresiones nefastas del neofascismo se consoliden para la desgracia de la inmensa mayoría de los brasileños.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

O país de Bolsonaro


Ruy Castro
Folha de Sao Paulo

Talvez, hoje, Brasil seja o único país no mundo em que o povo assiste de casa à sua demolição

Em 2020, no auge da pandemia sem vacina, sem isolamento e sem controle em seu governo, Jair Bolsonaro declarou que o brasileiro precisava ser estudado. "Ele se joga no esgoto e não pega nada!", ejaculou. A frase nos custou milhares de vidas, mas não seria Bolsonaro a se importar com isso. E eu não diria que o brasileiro deva ser estudado, mas os seguidores dele, sim. Bolsonaro os joga diariamente num esgoto —profissional, financeiro, sanitário, educacional, moral— e eles não pegam nada. Tanto que votarão nele.

Um homem é assassinado pelo ódio político insuflado por Bolsonaro. Bolsonaro, coerente, culpa o assassinado e se solidariza com o assassino. E o irmão do assassinado, que é eleitor de Bolsonaro, não apenas aceita falar com ele ao telefone como afirma que Bolsonaro é contra a violência e não tem nada com o crime. Em que país vive esse sujeito a quem não chegam os discursos de Bolsonaro pregando exatamente o que matou seu irmão?

Em que país vivem seus seguidores, infensos à inflação (nos dois dígitos), ao desemprego (11 milhões de pessoas neste momento), à fome (35 milhões) e à pobreza (63 milhões)? E que país é este, sem corrupção, em que todo o dinheiro roubado no passado virou moeda de troco diante dos R$ 60 bilhões que Bolsonaro já desviou para se reeleger?

Este país é o Brasil, onde, por muito menos, presidentes se mataram com um tiro no peito e foram depostos ou impichados. É o país que, outrora tão vigilante à menor suspeita de subversão, baderna e terrorismo por grupos clandestinos, assiste bovinamente à prática de tudo isso, só que agora pelo próprio Estado. E é o país em que, outro dia mesmo, milhões estavam gritando nas ruas.

Bolsonaro tem razão: o brasileiro precisa ser estudado. Deve ser hoje o único povo do mundo que assiste à demolição de seu país, horária, descarada, em todos os níveis, e fica quieto em casa, se tiver uma.

terça-feira, 12 de julho de 2022

Bolsonaro estimula sin pudor el uso del asesinato político


Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

El asesinato del militante del Partido de los Trabajadores (PT), Marcelo Arruda, ocurrido el último fin de semana en la ciudad de Foz do Iguaçu, demuestra fehacientemente como el gobierno y su gabinete del odio viene instigando el crimen político a escasos meses de las elecciones del 2 de octubre. Desde que asumió en 2019, Bolsonaro se ha caracterizado por amenazar de muerte a los opositores, especialmente de fusilar a aquellos que él denomina de Petralhada (militantes o simpatizantes del PT).

Hasta la presente fecha, son innumerables las declaraciones destempladas del ex capitán para hacer uso de las armas contra quienes no profesan sus ideas, inspiradas en el falso eslogan de la defensa Dios, la familia y la patria. Cualquier opción diversa de su propuesta debe ser enfrentada con violencia y con la fuerza de las armas si es necesario, apelando incluso a la intervención de las Fuerzas Armadas en caso de que su candidatura no salga reelecta en los próximos comicios.

En su discurso retorcido, Bolsonaro y sus seguidores vienen sembrando el odio entre los brasileños y la prensa audiovisual y escrita atribuye esta violencia política a lo que erróneamente llaman de una radicalización de posiciones. Pero la realidad es que los únicos radicales que han ejecutado acciones criminales en estos últimos 3 años son los partidarios de la extrema derecha que no solamente han eliminado a adversarios políticos y miembros de grupos vulnerables, sino que también defensores de comunidades indígenas y del medioambiente, como es el reciente caso de Bruno Pereira y Dom Phillips, que fueron asesinados por orden de un político bolsonarista y traficante local.

Desde que asumió el actual gobierno, Brasil ha visto aumentado exponencialmente la compra y el uso de armas de fuego, fenómeno que ha sido el resultado de la flexibilización legal para el porte de armas dictaminado por la autoridad. Según cifras oficiales, solo el año pasado el registro de nuevas armas de fuego alcanzó la marca de casi 250 mil artefactos inscritos en la Policía Federal. Esto representa un aumento de más del 300 por ciento con relación a las 51 mil piezas registradas en 2018, antes de que Bolsonaro asumiera la presidencia de la República con la promesa de facilitar el acceso a las armas de los ciudadanos comunes. El efecto concreto de dicho incentivo, es que la tenencia de armas en manos de particulares prácticamente se cuadruplicó en el curso de los tres últimos años. La normativa vigente, hecha efectiva a través de decretos, permite que un miembro de un Club de Caza y Tiro pueda adquirir hasta 60 armas de fuego, incluso de fusiles de alto poder, lo cual no era permitido hasta hace poco tiempo atrás.

Sin embargo, investigaciones realizadas en este mismo período han podido verificar que el apoyo a la facilitación para el porte de armas de fuego es solamente aprobado por un 30 por ciento de la población, precisamente el mismo porcentaje que sigue sustentando al ex capitán en su proyecto de reelección. Ahora tenemos la amarga constatación que la pose de armas en manos de individuos y grupos armados de la extrema derecha puede desencadenar muchas tragedias en esta fase final de la campaña electoral y lejos de hacer un llamado a la calma y la ponderación, el presidente genocida sigue estimulando a sus seguidores a hacer un uso desmedido de la violencia política para provocar el miedo y la desazón entre sus adversarios y en el conjunto de los electores menos posicionados.

Muchos especialistas y comunicadores sociales advierten del peligro inminente que enfrenta Brasil en este periodo sombrío de su vida política, aunque con argumentos maliciosos y tendenciosos muchos de ellos no son capaces de advertir que la mayor amenaza para la convivencia política y la vida democrática está representada por el presidente y los grupos neofascistas que lo apoyan. La interrogante que permanece en el aire es saber si las instituciones, los partidos políticos, las organizaciones de la sociedad civil y la ciudadanía en general están preparados para contener esta espiral violentista que puede comprometer seriamente el futuro del país. Por lo mismo, la tarea urgente de la hora presente implica no solamente derrotar a Bolsonaro en octubre próximo, sino que también acabar con el bolsonarismo y todo su legado de odio e infamia que asola a los hijos de este suelo, de esta Patria llamada Brasil.