terça-feira, 25 de agosto de 2026

Flávio Bolsonaro de sunga branca

Paulo Ghiraldelli
A Terra é Redonda

O marketing grotesco expõe o que o antipetismo encobre: o anseio por um mundo sem horizontes igualitários, em que a subalternidade do outro é a condição silenciosa para a própria autoestima

Flávio Bolsonaro colocou a mídia em choque ao apresentar seu marketing feito por meio de Inteligência Artificial. A figura que aparece nesse seu marketing mostra o rosto de Flávio em um corpo “sarado”, sem camisa e de sunga branca. A figura aparece com a faixa presidencial no peito e, para completar a bizarrice, bebe um “energético”.

Os petistas trataram de ridicularizar a propaganda, como se isso fosse possível. Não se ridiculariza o que já de partida capricha em ser ridículo. A imprensa, mesmo a mais condescendente com a direita, não aprovou. Vários jornalistas de canais disseram que foi um tiro no pé. Comentaram que havia sido uma afronta ao próprio eleitor bolsonarista.

Afronta? Bem, eu até concordo. Mas não foi um tiro no pé. Jair Bolsonaro usou da ideia de que era “autêntico” para se legitimar. Essa campanha teve êxito. Flávio Bolsonaro revela essa “autenticidade” também. A vida que ele propõe para si mesmo e seus amigos é a da figura que mostrou. Alguém da praia, um estilo playboy que vai da academia de ginástica para o carro de luxo, e que precisa sempre estar com o “energético” a tira colo, para uma eventual balada em casa noturna.

O típico eleitor bolsonarista não rejeita essa figura. Alguns a invejam, outros criaram os filhos para serem o garoto da sunga branca. Há os que não criaram os filhos assim, mas se tivessem dinheiro certamente o fariam. Há muita gente com essa mentalidade entre os bolsonaristas.

Mas isso é o que deseja metade dos eleitores brasileiros? Não! Mas uma boa parte do eleitorado bolsonarista, concorda com esse ideal de vida. O resto, os que não concordam, votarão em Flávio Bolsonaro assim mesmo. Flávio sabe que pode contar com o volume do antipetismo. Afinal, o antipetismo tem a idade do PT.

Aliás, sem o antipetismo, Flávio Bolsonaro não estaria pontuando tanto nas pesquisas. Ele é apenas isso: o candidato da desesperança. Também seu pai foi assim: os seus eleitores diziam não acreditar que o Brasil melhoraria com Jair Bolsonaro na presidência. Ele foi nitidamente o pregador do “realismo”. E essa doutrina é a da resignação.

Em termos sócio-econômicos, o antipetismo está no âmbito de grupos bem conhecidos: o pequeno comerciante, o pequeno e médio proprietário de terras, uma boa parcela dos profissionais liberais, enfim, trata-se do que em geral, pelo jargão, chamamos de “classe média”. Gente que possui um ódio danado do socialismo (que eles chamam de comunismo).

O sonho desse pessoal é poder ter uma vida que preserve hierarquias sócio-econômicas. Eles falam em liberdade. Mas o que desejam mesmo é que qualquer sinal de equalização social não vingue. Para essa gente a vida boa só será boa se sempre existirem pobres e ricos, de modo que sempre se possa sonhar em ser rico não para viver bem, mas para poder ter em quem mandar, os pobres. Um mundo sem hierarquias que extinga o mandonismo é insuportável para essas pessoas, mesmo no caso de muitas delas que, enfim, estão aquém de serem de “classe média”.

Uma sociedade como a nossa, que em termos históricos ainda está próxima dos últimos dias da escravidão, e que importou colonos para servirem como os escravos serviram, tem um profundo apreço pelo regime de servidão. São pessoas que imaginam a vida boa como aquela vida em que é possível ter alguém para mandar. Sem o sonho de humilhar o outro, essas pessoas não conseguem viver um dia sequer.

O dono do posto de gasolina que encontra comigo diz: “não há mão de obra mais, ninguém quer trabalhar, todo mundo quer ficar no sofá ganhando bolsa-família”. Eu não respondo nada. Então ele completa: “esses vagabundos, agora, querem folgar um dia a mais!”. “E o Lula gastando!”. Não respondo mais uma vez. Então ele percebe que está vociferando mágoa pessoal, e se afasta. Continua andando pelo posto, fingindo que está, como os frentistas, também trabalhando! Rosna sozinho, logo irá falar alto novamente, na orelha de outro cliente.

Esse dono do posto, pode apostar, tem uma sunga branca e não vê a hora de poder trair a esposa em uma balada, onde se apresentará com seus amigos. Tudo regado a bom uísque ao lado do “energético”. Seria um bom consumidor de Tadalafila, mas não precisa disso uma vez que possui uma arma no porta-luvas. Isso lhe dá a condição de macho.

Após passar na casa da amante, faz um happy hour que garanta, antes do jantar com a garota, uma meia hora com uma outra mulher, a que seja capaz de penetrá-lo. Que homem vitorioso! Os trabalhadores do posto o detestam e o invejam. Entre cinco deles, ao menos dois odeiam o PT tanto quanto ele.

Quando Lula diz que o que ele quer é “um país de classe média”, esse tipo que caracterizei acima sente um frio na coluna. Ele sabe que isso significa tornar muitos que estão empregados no seu posto, pessoas capazes de adquirir um estranho comportamento: poderão olhar para ele sem sentir diferença, mesmo que continuem ainda mais pobres que ele.

O que ele teme é que com a atenuação da desigualdade, diminua o número de pessoas que abaixa a cabeça para suas ordens. Por sua vez, os dois frentistas que comungam com ele o ódio ao PT temem que o mundo de equalização realmente venha, e que eles, mesmo melhorando de vida, não possam sonhar em mandar em alguém como o patrão manda neles.

Entra aí, também, a ideia de não deixar espaço para a emancipação da mulher. O mais pobre sempre conta com o papel subalterno da mulher. Ao menos alguém nesse mundo pode estar no lugar de me obedecer – eis o que o consola. Não se pode viver sem um pet obediente, pensa esse tipo de pessoa. Algumas mulheres acreditam nisso. Outras acreditam que até os homens que não pensam assim, estão na função castradora. O mandonismo é uma ideologia prática que se dissemina e nubla a realidade até da mulher livre. É uma desgraça.

O milicianismo que a família Bolsonaro tanto gosta, reproduz no âmbito do banditismo de colarinho branco ou do banditismo do favelado a mesma ideia de subalternidade, mas de maneira mais brutal. Nesse caso, as obediências são cobradas a todo momento. A desobediência é a morte.

Não é máfia. Não se trata de cobrar a fidelidade, mas sim a sabujice, a demonstração de medo, a afeição que se pode ter por quem tem dinheiro. Isso que está no coração do bolsonarismo é o germe da deterioração social. Se isso se instala no topo do poder, todas as instituições se corrompem em velocidade inaudita.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Trotsky em Cuba

Samuel Farber 
Jacobin

O revolucionário russo Leon Trotsky foi assassinado por um agente stalinista no dia 20 de agosto de 1940, na cidade de Coyoacán, México. Resgatamos aqui seus últimos anos de vida, narrado pelo escritor cubano Leonardo Padura.

Há algum tempo, o escritor cubano Leonardo Padura explora seu desencanto com algumas das realidades de sua amada cidade por meio de seus romances sobre o detetive Mario Conde. Mas é em seu O Homem que Amava os Cachorros, que suas reflexões sociais e políticas sobre o socialismo e a liberdade – em Cuba e fora dela – alcançam sua maior profundidade.

Padura entrelaça as histórias do revolucionário russo Leon Trotsky e de seu assassino, o comunista catalão Ramón Mercader, que ele traz pelas lentes de um narrador cubano, um jornalista despedido do cargo por motivos políticos e forçado a trabalhar como revisor para um diário veterinário.

O fato histórico de que Mercader viveu em Cuba por cerca de quatro anos no final dos anos setenta, trabalhando como assessor do repressivo Ministério do Interior (e que sua mãe Caridad trabalhou durante sete anos como funcionária encarregada de relações públicas na embaixada cubana em Paris nos anos 60), dá a Padura os meios para conectar o assassino com o jornalista. Eles se encontram um dia quando Mercader, acompanhado por um guarda-costas, está passeando com seus amados cachorros na praia de Santa María del Mar onde o jornalista tinha ido ver o pôr do sol.

Sem expor sua identidade, Mercader revela muito de sua vida ao jornalista cubano, fingindo que está falando de uma terceira pessoa e não de si mesmo. E é por meio dessa convenção artística que Padura articula suas idéias sobre o stalinismo, sua psicologia e seus horrores, tanto na esfera da alta política quanto no plano individual. Ao contrário do estereótipo de comunistas semelhantes a robôs, Padura apresenta uma visão diferenciada de uma série de personalidades comunistas. Apesar do peso esmagador da ortodoxia ideológica e do terror, a individualidade de Mercader permanece.

Mercader é inicialmente um comprometido revolucionário lutando do lado republicano na Guerra Civil Espanhola, uma pessoa pensante com uma mente independente. Essa independência começa a ruir sob a pressão de seus camaradas comunistas, que continuamente o lembram de que “o partido está sempre certo e se você não entende, não importa: você tem que obedecer”.

Isso é minado ainda mais quando, depois de ter sido recrutado por oficiais da inteligência soviética, seu superior o informa no meio da Guerra Civil que o próprio Stalin ordenou o expurgo do comando republicano leal ao presidente socialista Largo Caballero. Com isso, Padura também desafia um dos muitos mitos sobre o papel do Partido Comunista e da URSS como salvadores da República Espanhola que ainda prevalecem em grande parte da esquerda internacional.

O golpe final na capacidade já decadente de Mercader de raciocinar de forma independente ocorre quando, em uma das cenas mais assustadoras do livro, o ativista comunista é transformado, em um campo de treinamento na URSS, no soldado anônimo número treze e é compelido a matar um homem desamparado e esfarrapado por ser um “cachorro trotskista, inimigo do povo”.

Ooutro comunista no romance de Padura é Trotsky, um homem que também amava cães. Com profundo conhecimento e compreensão da obra do líder bolchevique, o escritor cubano o descreve com genuína simpatia: perdido no exílio, privado da cidadania soviética e incapaz de encontrar asilo em qualquer país até que o presidente mexicano Lázaro Cárdenas lhe dá abrigo no México.

O Trotsky de Padura é um homem perseguido – muitos de seus parentes e seguidores foram assassinados por ordem de Stalin. Mas existem diferentes tipos de pessoas perseguidas. Existem aqueles como Nelson Mandela que, durante suas décadas sombrias na prisão, foi apoiado por um grande movimento social e político. E há quem, como Trotsky, perceba, como Padura o fez dizer: “Estou cada vez mais só, sem amigos, sem camaradas, sem família… Stalin levou todos eles. ”

Compreender essa solidão permite a Padura descrever um Trotsky que não se surpreende com as confissões absurdas extraídas das vítimas dos grandes expurgos dos anos 30 na URSS, mas que se entristece muito com a confissão auto-incriminatória de Christian Rakovsky, seu antigo camarada na luta contra Stalin, no terceiro julgamento de Moscou em 1938.

Instigado pela simpatia ao líder russo, Padura mostra Trotsky censurando-se internamente por não ter reconhecido os excessos que ele mesmo cometeu ao tentar defender a sobrevivência da revolução, “embora nunca o admitisse publicamente”, afirma o autor. O Trotsky imaginado por Padura lamenta as ações que tomou para militarizar os sindicatos ferroviários e as políticas coercitivas aplicadas durante a reconstrução pós-Guerra Civil, a substituição de dirigentes sindicais e até mesmo seu papel no esmagamento sangrento da revolta de Kronstadt.

Estas são especulações plausíveis, embora excessivas, de Padura à luz das revisões que Trotsky fez durante os anos 30 sobre muitas das idéias políticas que ele havia adotado particularmente durante a Guerra Civil de 1918-20 – revisões que o fizeram rejeitar, por exemplo, o princípio do partido único como pedra angular do socialismo no poder. Ao mesmo tempo, essas podem muito bem ser as projeções de Padura refletindo retrospectivamente sobre como um sistema semelhante foi implantado em seu próprio país.

Padura, vivendo sob uma espécie de comunismo em Cuba, também destaca Trotsky como um crítico literário que afirma, sem hesitar, que “tudo é permitido na arte”. Não por acaso, o escritor cubano destaca a ocasião em que André Breton, em sua visita ao México, diz a Trotsky que tudo é permitido na arte exceto ataques à revolução proletária. Trotsky responde que na arte nenhuma restrição pode ser permitida – que não há nada que uma ditadura deva impor ao criador sob a desculpa de necessidade histórica e política, e que a arte deve obedecer apenas às suas próprias exigências.

Com tanta simpatia e respeito pela verdade histórica como pela forma que trata Trotsky, seria um grande erro ver Padura como simpatizante do trotskismo. Sem diminuir a notável realização de Padura em retratar não apenas Trotsky, o homem, mas também Trotsky, o pensador político, ele falha em compreender, talvez por causa de sua própria formação política, certos conceitos estratégicos do pensamento trotskysta.

Padura apresenta com precisão a dura crítica de Trotsky ao comunismo alemão e sua política suicida em relação ao nazismo que tratava a social-democracia (“social fascismo”, de acordo com a linguagem dos stalinistas) como equivalente ao nazismo. Mas ele erroneamente deixa implícito que Trotsky defendeu uma espécie de Frente Popular de todas as forças de “centro e esquerda” para combater o nazismo e o fascismo. Em vez disso, ecoando o Comintern do início dos anos 20, Trotsky propôs uma política da Frente Unida que reuniria todas as forças da classe trabalhadora, que incluía a social-democracia, mas excluía os partidos burgueses, independentemente de quão liberais e democráticos eles fossem.

Em outras palavras, Trotsky apoiava uma política de classe, não uma política “popular”. Ele supôs, como no caso da Espanha, que a oposição ao fascismo só poderia ter sucesso se fosse baseada na mobilização dos interesses de classe, o que acabaria por levar à revolução socialista – a única alternativa real ao fascismo para Trotsky, dada a decadência da sociedade capitalista, mesmo em suas versões democráticas.

Qualquer dúvida que possa ter permanecido sobre as possíveis inclinações trotskistas de Padura foi removida por sua recente entrevista ao Espacio Laical, a publicação liberal católica cubana, onde ele disse que Trotsky tinha sido tão “fanático” quanto Mercader – uma declaração que parece completamente em desacordo com o espírito e a letra de O Homem que Amava os Cachorros.


Ainda assim, o personagem principal de O Homem que Amava os Cachorros não é Leon Trotsky nem Ramón Mercader. É a única figura da trama totalmente fictícia, a única das três que é cubana: o próprio narrador. Iván é um jovem jornalista que já foi punido duas vezes pelo sistema por ser muito independente na época que conhece Mercader.

Pouco depois de se formar na universidade, as autoridades o enviaram para a longínqua cidade de Baracoa para trabalhar como chefe da estação de rádio local – uma ação destinada a servir como um “corretivo” do governo cubano para “me derrubar e me impor este mundo”. Na segunda vez, ele foi enviado para trabalhar para uma revista veterinária como revisor. Então, para aumentar seus infortúnios profissionais, seu irmão é excluído da universidade por ser gay e desaparece ao tentar fugir para os EUA.

A história pessoal de Iván começa a se desenrolar na década de setenta, período que marca os quatro anos em que Mercader residiu em Cuba como assessor do Ministério do Interior e também o ponto alto da repressão política e cultural do stalinismo na ilha.

Foi durante esses anos “amargos” que Iván foi marginalizado e reprimido pelas autoridades cubanas – justamente quando começava a se revelar como escritor sério. Iván esclarece que a vida de escritores como ele não corria perigo naquela época. Em vez disso, o sistema os transformou em nada. Ou seja, conta Iván, quando soube o que era o medo:

Acho que naqueles anos devemos ter sido os únicos membros de nossa geração em toda a civilização estudantil ocidental que, por exemplo, nunca colocaram um baseado entre os lábios e que, apesar do calor correndo em nossas veias, nos libertaríamos tardiamente do atavismo sexual, liderado pelo maldito tabu da virgindade (não há nada mais próximo da moralidade comunista do que os preceitos católicos); no Caribe espanhol éramos os únicos que vivíamos sem saber que estava nascendo a salsa ou que os Beatles (os Rolling Stones e Mamas and the Papas também) eram os símbolos da rebelião e não da cultura imperialista, como nos diziam muitas vezes; e além disso, éramos, na época, os menos informados sobre a extensão das feridas físicas e filosóficas produzidas em Praga por tanques que funcionavam como mais do que ameaças, sobre o massacre de estudantes em uma praça mexicana chamada Tlatelolco, sobre a devastação histórica e humana desencadeada pela Revolução Cultural do nosso querido camarada Mao, e sobre o nascimento, para as pessoas da nossa idade, de outro tipo de sonho, morto nas ruas de Paris e nos concertos de rock da Califórnia.

Em seguida, situando-se nos anos 90, Iván revisita o nascimento e a morte das esperanças suscitadas pela Perestroika, a descoberta da verdade sobre o ditador romeno Nicolae Ceaucescu, os horrores da Revolução Cultural na China e a decepção por ter descoberto que o grande sonho de emancipação humana e igualdade estava mortalmente doente, e que genocídios como o cometido no Camboja pelo regime do Khmer Vermelho de Pol Pot foram cometidos em seu nome. O que parecia indestrutível havia se rasgado nas costuras.

Leonardo Padura, é um dos principais representantes de um novo ambiente intelectual e cultural da ilha que apoia a liberalização e democratização da sociedade cubana. Mas ele está em uma posição única no sistema cubano: embora tolerado e até festejado, sua obra mais crítica não foi divulgada ao grande público. Ele parece ter alcançado um grau muito maior de independência das autoridades do que outros artistas e intelectuais conhecidos na ilha.

Assim, ele tem apoiado criticamente o programa de reforma do governo, mas tem agido com muito mais independência do regime do que outros artistas e intelectuais cubanos de renome – por exemplo, abstendo-se de endossar muitas das declarações denunciando dissidentes patrocinados pelo aparato cultural do Estado cubano. Como o próprio Padura sugeriu em várias ocasiões, isso foi possível em parte devido à sua independência econômica do governo, que foi conquistada com a publicação de suas obras no exterior.

Nos agradecimentos ao final de O Homem que Amava os Cachorros, Padura escreve que a “semente” do livro começou a germinar em sua mente durante uma visita que fez, pouco tempo antes do colapso do bloco soviético, a casa de Trotsky no bairro de Coyoacán na Cidade do México, um museu que para ele era “um verdadeiro monumento à ansiedade, ao medo e ao triunfo do ódio durante a época em que os Trotsky moravam lá”.

Quinze anos depois, com a URSS morta e enterrada, diz o romancista cubano, ele contou a história do assassinato de Trotsky “para refletir sobre como a grande utopia do século XX foi corrompida”. Vergonhosamente, após ter sido publicado e comentado favoravelmente pela imprensa oficial da ilha, e mesmo tendo recebido o Prêmio Nacional de Literatura em 2012, a tiragem da edição cubana de seu livro foi tão pequena que ficou indisponível logo após sua apresentação pública.

O governo cubano quer matar dois coelhos com uma cajadada só: relaxar alguns controles políticos e ao mesmo tempo impedir a difusão de idéias que podem subverter seu monopólio de poder. Padura não foi censurado ou reprimido pelo governo cubano. Mas, semelhante a seu narrador Iván, ele foi modulado para ter menos importância do que deveria.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Fidel: la paciencia de la revolución

Jaime Ortega
Socialismo y Democracia

De la gesta del Moncada a la «batalla de ideas», el legado de Fidel Castro ofrece una lección de paciencia revolucionaria y de la indisoluble unidad entre soberanía y socialismo. A cien años de su nacimiento, repasamos las claves de un proyecto que mantuvo la dignidad popular y el internacionalismo como banderas emancipatorias bajo el asedio imperial. Su legado enseña la necesidad de la paciencia revolucionaria: comprender que para salvaguardar la independencia nacional es imprescindible romper con el capitalismo y perseverar en la vía socialista.

El 3 de octubre de 1965, durante la constitución del primer Comité Central del que luego sería el Partido Comunista de Cuba, Fidel Castro pronunció un discurso en el que señaló que los revolucionarios debían saber esperar, tener paciencia y no desesperar ante las dificultades. Bajo esta premisa debemos leer y comprender su aporte al movimiento político revolucionario y a las izquierdas globales. La antología preparada por Marc Sayous y prologada por Ignacio Ramonet es una excelente primera aproximación al vasto universo que encierra el nombre de Fidel. Trinchera de ideas aparece en un momento altamente emotivo por el centenario del comandante histórico y especialmente delicado ante la renovada embestida imperial sobre la isla.

Compuesto por 25 textos —la mayoría acompañados por breves páginas de contextualización—, el volumen ofrece una muestra de lo que significó la voz del líder revolucionario, tanto en el transcurso del proceso insurreccional como en la emergencia de una posición política socialista en el Caribe y América Latina. Estos materiales, que abarcan desde 1953 hasta la primera década del siglo XXI, dan cuenta de la variedad en el uso de la palabra: desde los discursos densos y meticulosamente articulados de los primeros años hasta las intervenciones breves pero contundentes de su etapa final.

En algún momento de su larga amistad, Gabriel García Márquez escribió que el comandante había cultivado el oficio de la palabra hablada como sello distintivo para dialogar y convencer al pueblo cubano. Varios testigos de los primeros años de la revolución —desde la mexicana Sol Arguedas hasta el argentino Ezequiel Martínez Estrada— destacaron el carácter pedagógico de las maratónicas jornadas en las que Fidel conversaba con el pueblo en la plaza pública. Es este quizás el principal registro desde el cual abordar sus ideas, el de la palabra hablada; según el compilador, la cifra de discursos contabilizados supera los mil, a lo que habría que sumar sus intercambios con delegaciones extranjeras, sus escritos teóricos y las extensas entrevistas publicadas en forma de libro a lo largo de varias décadas.

Sin embargo, su obra solo cobra dimensión plena en la articulación entre palabra y acción; en la facultad de conducir a través de la voz y forjar una manera de comprender el mundo, el lugar del continente y las urgencias del tiempo histórico. En este centenario de Fidel volvemos a su figura porque la región exige nutrir los programas políticos con aquello que se cultivó durante décadas al amparo de una visión radical y consecuente de la liberación nacional, de la soberanía entendida como cooperación entre iguales y del socialismo como proyecto histórico enraizado en las luchas de los pueblos. Entre esa vasta constelación de experiencias, Fidel es el «profeta de una aurora» —la de la liberación nacional, como definió el Che Guevara—, una batalla crucial que el líder cubano encabezó manteniendo la unidad indivisible entre patria, revolución y socialismo.

El discurso del método de la descolonización

Como cabe esperar, la antología se abre con el célebre alegato de defensa que Fidel pronunció tras su detención por el fallido asalto al Cuartel Moncada: La historia me absolverá. Sin saberlo en aquel momento, la gesta del Moncada se convertiría en el nombre de una posibilidad, en la latencia de un proyecto y en algo más que una promesa a futuro: la síntesis entre la independencia real de la nación frente al neocolonialismo y un horizonte de superación de las principales directrices del capitalismo.

René Depestre, el poeta haitiano que vivió y escribió durante el impulso inicial de la revolución, señaló que aquel «revés victorioso» del 26 de julio había legado en el alegato de Fidel el verdadero «discurso del método» de la descolonización. Y lo hizo, esencialmente, al superar la escisión entre los grandes objetivos de la liberación nacional y la construcción de un horizonte socialista. Dicho de otro modo: en aquel documento se sembró la certidumbre de que para ser independientes era preciso escapar del capitalismo, y que para romper con este no había otro camino que desmantelar el sistema colonial bajo su forma renovada. El efecto de aquel alegato fue soldar de manera indisoluble la liberación nacional con el socialismo.

Por eso, cuando tras el colapso del bloque soviético Cuba entra en el Periodo Especial, Fidel se dirige a sus compatriotas afirmando que no hay modo de salvaguardar la independencia sin preservar la revolución, y que para ello es imprescindible perseverar en la vía socialista, aun si la conceptualización de esta debe reconfigurarse a la luz del tiempo y la experiencia acumulada, con sus errores, crisis y recomposiciones. Esta ardua tarea emancipó al socialismo cubano de ser un mero reflejo de las estepas europeas en los llanos del Caribe, demostrando que, a diferencia de los modelos centroeuropeos derrotados, el proyecto isleño respondía a causas y necesidades propias.

En Fidel, el concepto de socialismo de los años setenta difiere del de los noventa: si en el primero primaba una lógica racionalizadora y organizativa excesiva, en el segundo el énfasis se desplaza hacia la voluntad solidaria de una sociedad bajo asedio permanente. Resulta particularmente provechoso releer el discurso de 1968 en el que Fidel sostiene que en Cuba ha habido «una sola revolución», donde ya se aprecia la originalidad de una concepción que anuda soberanía y socialismo al tiempo que despliega una interpretación histórica de gran densidad.

Asimismo, en varias de estas alocuciones se percibe la certeza de estar construyendo una alternativa que, si bien abraza abiertamente el socialismo, no reniega de las herencias históricas de los pueblos. En ese sentido, la intuición de Depestre cobra todo su valor: la formulación de un «discurso del método de la descolonización» radica en haber habitado la tensión entre la universalidad del socialismo y la singularidad de su realización nacional. Descolonización no como un simple marco epistemológico o académico —al que hoy se halla frecuentemente reducida—, sino como la capacidad de los pueblos para aprehender su propia historia y orientarla hacia un fin emancipatorio. Cuestionar el imperio del egoísmo y la competencia implicaba forjar una concepción renovada de la cultura y del pasado. La descolonización era, en definitiva, la conquista de una liberación en clave nacional, mental y cultural.


Revolución: soberanía y cultura

Con todo, sería un error reducir el programa fundacional del Moncada y el 26 de Julio a la alocución de 1953, por decisiva que haya sido. El torrente que desencadenó quedó registrado en las páginas de los discursos pronunciados en los momentos más dramáticos entre 1959 y 1961, reforzado luego en 1968 al calor de la reorganización del campo político cubano. En ellos se articula una amalgama que en Fidel adquirió forma de simbiosis: revolución, soberanía y cultura. Para el líder cubano, revolución y soberanía eran indisolubles, más aún al encarar las primeras agresiones de envergadura por parte de Estados Unidos.

Sin embargo, esta concepción no se agotaba en la idea del Estado como mero articulador de una población y sus capacidades técnicas o productivas. En Fidel, la soberanía responde en lo inmediato a la defensa frente al hostigamiento imperial. Pero defender la revolución exigía transformar las condiciones mismas del ejercicio de la soberanía, es decir, que esta fuera real, concreta, específica. Porque, a contramano del sentido común académico dominante en el espacio cubano-americano contemporáneo, Fidel comprendió que «de la soberanía sí se come» y que, para garantizar las necesidades materiales de la población, la soberanía debe construirse de manera ininterrumpida.

Por ello es clave remarcar cómo Fidel orientó la experiencia revolucionaria hacia la creación y el desarrollo de capacidades públicas para satisfacer demandas fundamentales como la salud y la educación. No es casual que los grandes proyectos neoliberales de mercantilización hayan apuntado precisamente contra esos dos pilares en su intento de refundar la sociedad sobre bases individualistas. Y si bien este debe ser un esfuerzo continuo y sostenido, los años de auge revolucionario mantuvieron siempre estos dos ejes como cimientos innegociables.

A su vez, la dimensión cultural —la creación artística y la praxis intelectual— nunca fue ajena al ideario de Fidel. Sus célebres Palabras a los intelectuales de 1961, pronunciadas cuando aún no se había disipado el humo de Playa Girón, ratificaron la alianza entre cultura, educación y revolución bajo la convicción de que no hay patria posible sin una intelectualidad capaz de desplegar sus potencias simbólicas y creativas. Aunque los marcos teóricos decoloniales hegemónicos suelan ignorarla, la apuesta cubana constituye una de las experiencias de descolonización integral más acabadas, al combinar la soberanía popular con el desplazamiento de la competencia como eje articulador de las relaciones humanas e internacionales.

Más tarde, en las postrimerías del siglo XX, la formulación de la «batalla de ideas» invita a una lectura gramsciana del núcleo del socialismo concebido por Fidel: la cultura no como un molde rígido, sino como relación social en constante construcción. En la «batalla de ideas» se jugaba la hegemonía de un proyecto socialista capaz de echar raíces en la conciencia y la voluntad, y no solo en la reproducción material o en el consumo de bienes (un consumismo desmedido contra el cual el propio Fidel advirtió tempranamente por sus secuelas ambientales). La dimensión material, si bien indispensable, no era para él el único ni el principal factor de cohesión social.

Solidaridad internacional

De igual modo, resultaría reduccionista encasillar a Fidel en un nacionalismo estrecho o en un soberanismo endogámico que pretendiera agotar el proyecto revolucionario «en un solo país». Sus intervenciones, especialmente desde la década de 1970, reflejan la noción más radical de la solidaridad internacional y, con ella, la ampliación de la noción de liberación nacional.

Fidel comprendió que la soberanía de una nación solo es plenamente efectiva si todas gozan de la misma prerrogativa; es decir, si existen las condiciones para que el derecho a la autodeterminación pueda ser ejercido en igualdad de condiciones por una potencia o por un país pequeño. Allí aflora la dimensión radicalmente comunista de su pensamiento: la extinción paulatina de las tutelas estatales e imperiales solo es viable en la medida en que todos los pueblos accedan al ejercicio pleno de su soberanía. Fidel, cuyo origen ideológico había partido del nacionalismo revolucionario, avanza hacia el socialismo al situar la cooperación y la solidaridad desinteresada como premisas de la acción política.

Esta orientación se tradujo en el respaldo activo de parte de Cuba a las luchas en Vietnam y en África. El papel de los combatientes cubanos en la liberación de diversos países del continente africano y en la aceleración del fin del régimen racista del apartheid es bien conocido. Lejos de negar la soberanía, el internacionalismo la expandía como un principio universal de respeto mutuo. El pueblo cubano pagó un alto costo en vidas, recursos y presiones diplomáticas por sostener esa política exterior solidaria. Una lección histórica que no puede ser olvidada ni menoscabado el reconocimiento de las voluntades que combatieron a miles de kilómetros en favor de la liberación de los pueblos, pues ello configura un nivel de compromiso destacable y es expresión de esa otra cara del socialismo cubano.


Fidelidad revolucionaria, pese a todo

Buena parte de los textos de la antología se sitúan en la compleja encrucijada entre la ofensiva neoliberal y el derrumbe de la experiencia del socialismo soviético. En aquel momento, la presión de la intelectualidad liberal, los medios masivos de comunicación y los centros de poder buscaba doblegar a Cuba para forzarla a ceder ante el canto del cisne de las transiciones neoliberales que pulularon por el continente. Sostener la fidelidad revolucionaria implicó altísimos costos sociales, políticos y económicos, pero preservó la independencia nacional frente a los dictados de la privatización y el despojo en nombre de la democracia liberal. Frente al abandono de antiguos aliados —especialmente la intelectualidad desencantada que afloró por aquellos años—, la resistencia cubana evitó el colapso y la derechización que afectaron a otras latitudes.

A tres décadas de distancia, destaca no solo la firmeza doctrinaria de aquel rumbo, sino la pervivencia de un proyecto que, con sus defectos y contradicciones, mantuvo siempre un espíritu de solidaridad y un horizonte de construcción de un mundo solidario y fraterno. El contraste resulta elocuente ante una Europa del Este tironeada desde la «transición» hacia formas fascistas, operando como verdaderos enclaves coloniales del poder imperial y como fuente de inspiración para las actuales corrientes derechistas globales. Frente a ese espejo, Cuba continuó su marcha como ejemplo de dignidad e independencia.

Las lecciones de aquel período deberán discutirse con la frialdad que solo habilita el paso del tiempo. La negativa a sumarse al carro de la glásnost y la perestroika, optando en su lugar por el Proceso de Rectificación de Errores, fue una decisión crucial. En ella se dirimió el debate sobre el valor, el mercado y el trabajo, algo que, más allá del caso cubano, debería involucrar a las izquierdas de manera global, toda vez que ahí se juega el destino mismo de los proyectos poscapitalistas. Recuperando el viejo debate protagonizado por el Che Guevara en los años sesenta, aquella discusión debió volver a plantearse, aunque en un escenario adverso y con escaso margen para la innovación. Dicha coyuntura obligó a abandonar las certidumbres dogmáticas del modelo soviético para interrogarse críticamente sobre la naturaleza de la transición socialista. En ese marco, sostener la cohesión entre pueblo y Estado resultó determinante: la experiencia de Europa del Este demostró que la penetración del capital es más devastadora allí donde las élites se fragmentan y su divorcio con el entramado popular es más profundo.

La tenacidad del líder, la voluntad del pueblo cubano por mantener su independencia y los cambios operados desde fines de los noventa en América Latina abrieron un escenario diferente al comenzar el siglo XXI, momento en que la presencia de Fidel en el espacio público comenzaba a declinar. La presencia de Cuba como referencia histórica contribuyó a alimentar las sucesivas olas de gobiernos populares y progresistas en la región.

Trinchera de ideas ofrece insumos valiosos tanto para profundizar la reflexión sobre el socialismo como para examinar con sentido crítico las encrucijadas del movimiento revolucionario cristalizado como proyecto político y estatal. Cuba, como cualquier sociedad, puede ser criticada pero a condición de situar las coordenadas históricas de sus decisiones y examinando las correlaciones de fuerza concretas, lejos de moralismos o abstracciones teóricas.

Hoy, a la distancia, resulta evidente que ningún país puede realizar plenamente su independencia rodeado de Estados vasallos, y que el sacrificio prolongado de una población no es deseable ni sostenible de manera indefinida. El pueblo cubano debería ser libre de decidir con quien intercambiar, dialogar y negociar. Libre debería ser también para elegir sus formas de organización política, su modelo económico y su cultura sin el estrangulamiento de un bloqueo tan violento como ilegítimo. Pero, en lugar de ello, en este 2026 el recrudecimiento del cerco energético evidencia la gravedad de la situación y la tibia respuesta de muchos gobiernos de la región. El pueblo de Cuba merece el ejercicio pleno de su soberanía. El poder imperial que la asfixia, junto a sus acólitos académicos, periodísticos e intelectuales, pasarán a la memoria histórica como los copartícipes del sufrimiento de todo un pueblo.

La cita martiana que da título a la obra condensa el núcleo de la impronta ideológica de Fidel: las «trincheras de ideas» son aquellas donde el acumulado histórico de los combates del pasado sirve como pertrecho para las batallas del presente; donde la herencia intelectual construye los horizontes de futuro.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Democracia made in USA. La rebelión de los “socialistas democráticos”

Aleardo Laría Rajneri
El cohete a la luna

Un Estado en guerra permanente no puede ser un Estado democrático, porque imperialismo y democracia son incompatibles.

Sheldon S. Wolin (1922-2015) fue un filósofo y politólogo estadounidense, profesor emérito de la Universidad de Princeton, considerado uno de los más destacados teóricos de la democracia norteamericana. Su obra más difundida ha sido Democracia SA. La democracia dirigida y el fantasma del totalitarismo invertido, publicada en español por la Editorial Katz en 2008. La incisiva crítica que Wolin formula tiene enorme actualidad en momentos en que existe una rebelión de las bases del Partido Demócrata, liderada por una corriente de “socialistas democráticos”, que aspira a provocar una renovación en el interior del partido.

En las primarias demócratas para el Senado, que han tenido lugar el martes en Michigan, el médico Abdul El-Sayed ha derrotado por un estrecho margen a la representante del establishment demócrata Haley Stevens, en una contienda ampliamente considerada como un referéndum sobre Israel, la influencia del Comité de Asuntos Públicos Estadounidense-israelí (AIPAC) y la postura del Partido Demócrata sobre ambos temas. La relevancia que tenía la elección ha quedado de manifiesto con la reacción del Presidente Donald Trump a la victoria de El-Sayed, calificándola de “una gran noticia para el Partido Republicano” y tachando a El-Sayed de “perdedor comunista que odia a los judíos e Israel”.

La democracia dirigida

En Democracia SA, Sheldon S. Wolin describe a la democracia dirigida o administrada como el espectáculo rutinario de la política electoral, donde el papel de la ciudadanía se va difuminando para quedar reducido estrictamente al ejercicio del voto. Los ciudadanos desorientados dejan las manos libres a líderes populistas que no dudan en imponer la agenda de las grandes corporaciones. A esta democracia administrada, meramente gestionada en beneficio de las corporaciones, Wolin la considera una nueva forma de totalitarismo, al que llama totalitarismo invertido por oposición al totalitarismo clásico. “El totalitarismo invertido marca un momento político en el que el poder corporativo se despoja finalmente de su identificación como fenómeno puramente económico, confinado principalmente al terreno interno de la empresa privada, y evoluciona hasta transformarse en una coparticipación globalizadora con el Estado: una transmutación doble de corporación y Estado. La primera se vuelve más política, el segundo más orientado al mercado”. Es invertido porque a diferencia del totalitarismo clásico no surge de una revolución desde abajo para conquistar el poder, sino que busca la desmovilización de las masas desde arriba para devolverlas a un estado de neutralidad e impotencia.

Wolin, que escribió su ensayo antes de que aparecieran personajes como Trump, Milei, Bukele o Bolsonaro, añade que el predominio del ejecutivo y el dominio de la élite son elementos básicos del totalitarismo invertido. La antidemocracia no adopta la forma de ataques explícitos a la idea del gobierno por el pueblo, pero significa alentar lo que denomina “desmovilización cívica”: “Se alienta a los ciudadanos a desconfiar del gobierno y de los políticos; a concentrarse en sus propios intereses; a quejarse de los impuestos; a cambiar el compromiso activo por las gratificaciones simbólicas del patriotismo, la soberbia moral colectiva y la proeza militar”.

Sobre todo, se promueve la despolitización envolviendo a la sociedad en una atmósfera de temor colectivo y de impotencia individual, por la pérdida de los puestos de trabajo, la incertidumbre sobre los planes de jubilación, los costos médicos elevadísimos y los gastos de educación en ascenso. Se instala un perpetuo estado de preocupación, donde los ciudadanos anhelan estabilidad política más que compromiso cívico; protección más que participación política. En Estados Unidos los recursos que podrían usarse para mejorar la atención sanitaria, la educación y la protección del medio ambiente son destinados a cubrir los exorbitantes gastos de defensa, que consumen el porcentaje más elevado del presupuesto nacional.

El establishment demócrata

Bajo el totalitarismo invertido el Partido Demócrata ha venido cumpliendo la función de una falsa oposición. Según Wolin, “se ha despojado de sus elementos reformistas y ha desconocido el rótulo de liberal para quedar atrapado por nuevas reglas de juego que prescriben que un partido existe para ganar elecciones más que para promover la concepción de la buena sociedad”. El poder de las corporaciones se traduce en la proliferación de lobbistas en Washington, lo que demuestra a quiénes realmente se está representando. Si los candidatos demócratas finalmente resultan elegidos gracias a la financiación obtenida de las corporaciones, quedarían tan condicionados que no podrían alterar significativamente el rumbo de la sociedad. De allí que los socialistas democráticos sostengan la necesidad de terminar con el dinero opaco de la política.

Es cierto también que el Partido Demócrata vive atormentado por un dilema desde 2016, cuando Bernie Sanders perdió las primarias contra Bill Clinton. Ha sido el argumento de la “elegibilidad” el que ha llevado a optar siempre por los candidatos moderados con la idea de que los candidatos situados más a la izquierda podían asustar a algunos votantes. Desde entonces, muchos progresistas están enojados con la cúpula del Partido Demócrata porque ese argumento solo ha servido para preservar el inmovilismo y perder las elecciones frente a los candidatos republicanos disruptivos como Trump. Lo cierto es que los demócratas tradicionales perdieron las elecciones presidenciales de 2016 y 2024, entregando el control del gobierno a los republicanos, de modo que hay motivos para que haya afiliados irritados. Las fallidas campañas presidenciales de Sanders en 2016 y 2020 sentaron las bases para el reciente levantamiento, que comenzó el año pasado con la elección de Zohran Mamdani, el popular alcalde socialista demócrata de Nueva York. Desde entonces, los votantes de las primarias demócratas han elegido a más candidatos comprometidos con la defensa firme de los valores progresistas.


La campaña de El-Sayed

La campaña en Michigan enfrentó a El-Sayed, un político carismático de 41 años, de religión musulmana y médico de salud pública, respaldado por el senador Bernie Sanders, contra la representante Haley Stevens, que contaba con el apoyo de gran parte del establishment demócrata. Los videos de la campaña de El-Sayed lo muestran como una persona ingeniosa y jovial. En 2007, fue el mejor alumno de su promoción en la Universidad de Michigan y por ese motivo leyó el discurso de fin de curso en presencia del Presidente Clinton. Haley Steevens recibió en su campaña más de 30 millones de dólares provenientes de donantes proisraelíes, pero El-Sayed tuvo la habilidad de utilizar en su contra ese apoyo financiero. El Comité de Asuntos Públicos Estadounidense-israelí (AIPAC) acusó a El-Sayed de adoptar una “retórica extremista”, de impulsar “falsas acusaciones de genocidio” y de apoyar la suspensión de la ayuda a Israel.

Efectivamente, El-Sayed ha calificado la actuación del gobierno israelí en Gaza como un “genocidio” y ha afirmado que Estados Unidos no debería financiar militarmente esas acciones. Por ese motivo ha pedido poner fin a la ayuda militar incondicional de Estados Unidos a Israel, argumentando que la asistencia exterior debería estar sujeta al respeto de los derechos humanos y que los recursos deberían priorizar necesidades internas de Estados Unidos. Al vincular persistentemente la ayuda militar estadounidense a Israel con las necesidades insatisfechas en su propio país, El-Sayed ha estado dando forma a una versión progresista de la política de “América First”, afirma el analista Peter Beinart. El-Sayed ha insistido en que criticar al gobierno de Israel no es antisemita y ha condenado el antisemitismo de forma explícita, afirmando que combatir el antisemitismo y la islamofobia son obligaciones morales igualmente importantes. Cuando CNN le preguntó a El-Sayed en julio si se podía ser sionista y progresista a la vez, respondió que “toda definición de un Estado (supremacista) judío termina por articular valores antiliberales, absolutamente todas”.

Los fondos oscuros

En Estados Unidos, la financiación de los partidos políticos y de las campañas electorales depende casi por completo de fondos privados. Se basa en donaciones individuales —limitadas por la ley a determinado importe—, aportaciones ilimitadas de los propios candidatos y grandes sumas canalizadas a través de comités y organizaciones sin límite de gasto amparadas por la libertad de expresión. Según el Tribunal Supremo, en la decisión adoptada en 2010 en el fallo Citizens United, limitar el gasto electoral vulnera la Primera Enmienda de la Constitución, lo que ha permitido el flujo ilimitado de fondos corporativos. Los Comités de Acción Política (PAC) son organizaciones que reúnen dinero de ciudadanos para entregarlo a las campañas, pero están sujetos a restricciones de cantidad.

Sin embargo, los súper-PACs (Comités de Acción Política Superiores) recaudan fondos ilimitados de personas ricas, empresas y corporaciones. Si bien no pueden coordinarse de forma directa con la campaña del candidato, pueden gastar millones en anuncios independientes para apoyarlo. Se supone que los súper-PACs deben operar independientemente de los candidatos y partidos políticos, pero esta independencia está definida por reglas débiles que casi nunca se cumplen, de modo que terminan formando parte del aparato de campaña de cada partido. A los súper-PACs deben sumarse las organizaciones sin fines de lucro (dark money), entidades exentas de revelar la identidad de sus donantes que pueden invertir sumas millonarias y anónimas en el debate político.

Los socialistas demócratas han venido adoptando posturas muy críticas hacia los fondos opacos empleados en las campañas electorales. Consideran que las donaciones cuyos financiadores permanecen ocultos permiten que grandes intereses económicos influyan en la política sin rendir cuentas, lo que reduce la transparencia y debilita la confianza pública. Sostienen que las grandes corporaciones, los multimillonarios y los grupos de presión pueden ejercer una influencia desproporcionada sobre el proceso democrático. Por consiguiente, defienden leyes que obliguen a revelar quiénes financian las campañas políticas y la publicidad electoral y buscan eliminar estructuras que permiten ocultar la identidad de los donantes. Varios proyectos de ley canalizando estas iniciativas duermen el sueño de los justos en el Congreso norteamericano.

El Centro Brennan para la Justicia publicó recientemente una encuesta que muestra que los votantes estadounidenses creen que el país se enfrenta a un grave problema de corrupción corporativa, y que una amplia mayoría apoya la adopción de medidas importantes para acabar con el papel del dinero opaco en la política estadounidense. La encuesta, que consultó a 2.000 votantes registrados en todo el país, reveló que el 79% apoya “una enmienda constitucional para restablecer los límites al financiamiento electoral”.

La renovación

La posibilidad de que los demócratas ganen las elecciones de medio término en noviembre, dada la magnitud de los errores políticos cometidos por Trump, es muy elevada. El-Sayed se enfrenta ahora al enorme desafío de obtener una victoria en un Estado bisagra como Michigan el próximo 3 de noviembre. Lo primero que tiene que hacer es unificar al Partido Demócrata, que en estas elecciones internas ha quedado partido en dos. El escaño del Senado en disputa está ahora en manos de los demócratas y si lo perdieran se complicaría el plan de hacerse con el control de la cámara alta. Hasta ahora el Partido Demócrata ha sustentado la teoría de que un centrista tendría más posibilidades de ganar unas elecciones generales en un Estado como Michigan. Pero la irritación que se ha ido acumulando contra las políticas erráticas de Trump, su irresponsable guerra contra Irán y sus idas y venidas del brazo de Netanyahu —una figura definitivamente asociada con el genocidio en Gaza— permiten pensar que muchos electores se inclinarán por los candidatos más radicales en la oposición al trumpismo.

Sería deseable que las propuestas de los socialistas democráticos, consistentes en reforzar los servicios públicos, establecer una sanidad universal, fijar un salario mínimo digno o aumentar los impuestos a las grandes fortunas, vayan calando en el Partido Demócrata y reciban luego el respaldo de millones de votantes. Por otra parte, como advirtiera Wolin, nunca habrá un retorno a la verdadera democracia en Estados Unidos mientras no se reduzca el poder de las corporaciones y del complejo militar-industrial. Un Estado en guerra permanente no puede ser un Estado democrático, porque imperialismo y democracia son incompatibles. Las desaprensivas acciones de Trump en el terreno interno e internacional probablemente terminen siendo un inesperado incentivo para la adopción de políticas democráticas equitativas y justas.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Brasil enfrentado a sus fantasmas

Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

Faltan apenas dos meses para que las elecciones de octubre sean realizadas y la mayoría de los candidatos está en campaña, pese a que el inicio de la corrida electoral solo comienza oficialmente el 16 de agosto. Casi todas las coligaciones ya escogieron sus candidatos a presidente y vicepresidente, siendo que la Federación Brasil de la Esperanza, el pacto entre el PT y otros dos partidos (PV y PC do B) junto al PSB, PSOL, Rede y PDT ya confirmaron al actual presidente Lula da Silva y a su vice Geraldo Alckmin como los representantes de ese conglomerado de centro izquierda para la próxima contienda.

Por su parte, Flavio Bolsonaro todavía no define el nombre de su vicepresidente y viene encontrando resistencia de los partidos de derecha para adherir a su campaña. Recientemente la coligación Unión Brasil y Progresistas afirmaron que se mantendrán imparciales en esta coyuntura y Republicanos se encuentra todavía definiendo la posición que asumirá con relación al candidato de la extrema derecha. De hecho, Bolsonaro efectuó una invitación a la senadora Tereza Cristina del Partido Progresistas y ex ministra de agricultura del gobierno de su padre Jair, pero ella declinó de esta invitación alegando motivos personales.

Aparentemente el escenario parece favorable y con “cielo despejado” para la candidatura de Lula da Silva, aunque nunca hay que confiarse de los caminos que se transitan hasta la llegada de un triunfo seguro para día de las elecciones. La derecha y la extrema derecha de Brasil cuentan con el apoyo de importantes grupos empresariales que dominan ampliamente los medios de comunicación y pueden detonar una campaña en contra de Lula en este periodo de tierra derecha, influyendo finalmente en la decisión de un porcentaje significativo del electorado que hasta ahora se ha mantenido distante y neutro frente al futuro pleito electoral.

Un estudio reciente del Instituto Nacional de Ciencia y Tecnología (INCT)constató que en Brasil existen 1.091 ciudades que han cambiado la orientación de sus votantes, pasando de inclinarse por los candidatos de la izquierda o centro izquierda en una votación para votar por los representantes de la derecha o extrema derecha en otra votación. Estas son las llamadas “ciudades péndulos”, que son definidas como aquellos locales en los cuales no se encuentra alineada de manera estable a ninguna de las diversas fuerzas políticas en disputa. En esta clasificación se considera a aquellas ciudades que cambiaron al conglomerado vencedor durante la segunda vuelta en dos o más oportunidades a lo largo de los últimos 20 años.

En esta ocasión, las ciudades péndulos reúnen a más de 34 millones de votantes y pueden inclinar ciertamente la balanza del candidato que saldrá triunfante en octubre y sus tendencias serán sin duda decisivas cuando se produzca la votación, considerando que una disputa presidencial apretada puede desplazarse para cualquiera de los dos ejes principales, es decir, la reelección del actual mandatario o la victoria del bolsonarismo de la mano del primogénito del ex capitán.

Sin embargo, aun cuando las preferencias del electorado decidan darle nuevamente su apoyo al candidato de la situación, resulta preocupante que las alianzas que viene tejiendo el candidato Lula reproducen la amplitud del espectro que caracteriza su actual mandato, con ministros de partidos de la derecha en su gabinete.

Desde el impeachment de Dilma Rousseff, la derecha brasileña viene adquiriendo un protagonismo evidente en el escenario político nacional, solo comparable al existente durante el periodo de la dictadura militar (1964-1985), prácticamente controlando las dos cámaras del Congreso y fortaleciendo su presencia en los corrales electorales por medio de las enmiendas secretas y otros artilugios para reproducir su poder en los diversos territorios.

El triunfo de Lula en el año 2022 generó la expectativa de un nuevo ciclo político, efectivamente progresista, con un gobierno impulsando los cambios urgentes que el país necesita: mayor gasto en programas sociales, reformas políticas, tributarias, del sistema de pensiones, mayor regulación de los mercados especulativos, combate a la corrupción, preocupación y acciones en defensa del medioambiente, penalización del feminicidio, promulgación de un marco legal contra la discriminación, etc.

En cambio, los pactos políticos de la base gobiernista, de extrema amplitud, instauraron una administración débil, precaria, amarrada, dependiente de los humores del centrão, que nunca se ha comprometido verdaderamente con la defensa de la democracia y las instituciones de la República y que ciertamente no tendrían ningún pudor en ser parte de un gobierno de extrema derecha, caso que Flavio Bolsonaro resulte ganador en dos meses más o que apoyarían sin problema un golpe de Estado que les permita seguir usufructuando de los recursos públicos.

Cuando me instalé por primera vez en Brasil, allá por fines de agosto de 1992, el país se encontraba en pleno proceso de impeachment del presidente Fernando Collor de Mello. El ánimo era de inicio de una nueva fase política que se dirimía entre dos corrientes de un ciclo socialdemócrata identificados, por una parte, un sector que representaba a los grupos de la centroderecha en el partido Socialdemócrata Brasileño (PSDB), liderado por Fernando Henrique Cardoso y, por otra parte, un segmento de centro izquierda liderado por Lula da Silva, presidente del Partido de los Trabajadores (PT).

Comparativamente, el panorama actual es más pesimista. Es un embate entre un proyecto que busca insistir en la justicia social y en la defensa de los valores democráticos, frente a una extrema derecha retrógrada, agresiva, que miente descaradamente y que cuenta con las plataformas y redes sociales que reproducen esas mentiras. Es Brasil enfrentado a sus eternos fantasmas heredados de un pasado clasista y discriminatorio, cuyas elites no quieren abrir mano de sus privilegios y utilizan todos y cualquier tipo de recursos para mantenerse en el poder. Este es un país que desea dar un salto hacia un futuro con mayor justicia social y dignidad para sus habitantes, pero que se encuentra atado por los lazos simbólicos y concretos de un autoritarismo estructural forjado en la matriz esclavista, el movimiento nazifascista de los años treinta (integralismo), la dictadura militar y el bolsonarismo contemporáneo.

De esta forma, la extrema derecha continúa manteniendo su poder político y su influencia sobre un electorado cautivo que, aunque actualmente no expresa una mayoría electoral invencible, sigue representando un porcentaje nada despreciable de la población brasileña, socavando los avances sociales de la gestión petista y siendo una plataforma permanente para alimentar el discurso del odio, la mentira y el radicalismo de extrema derecha. La derrota de estas fuerzas del oscurantismo y la regresión debe ser un punto central en el horizonte y en la agenda de un país que se libere definitivamente de sus fantasmas castradores.

sábado, 25 de julho de 2026

O tarifaço e a hora do Brasil

José Luís Fiori
Outras Palavras

Soberania não é algo estático nem definitivo. Defendê-la passa por enfrentar ingerências externas – e também o atraso de setores da elite brasileira. Afinal, Trump não oferece projeto e ainda a penaliza com sanções. Estão abertas oportunidades do país construir seus próprios rumos.

A opinião do presidente Donald Trump não deve ter tido grande influência na vitória dos candidatos de extrema-direita nas recentes eleições presidenciais sul- americanas. Esta é uma ideia que pode afagar o ego do presidente americano e assustar setores da esquerda mais ressabiada, mas, no mundo real, Trump é hoje uma figura cada vez mais impopular no mundo todo, e também na América do Sul.

Não quer dizer que algumas grandes big techs e grupos financeiros de extrema-direita não tenham intervindo nessas eleições, mas isto não chega a ser uma grande novidade. Durante a Guerra Fria, os EUA promoveram 72 intervenções diretas e mudanças de regime em todo o mundo, e só na América Latina, participaram de 18 golpes de Estado entre 1952 e 1973.

O que é realmente novo é o governo americano apoiando abertamente candidatos de direita ou extrema-direita, sem propor ou oferecer nenhum tipo de projeto, estratégia ou utopia de desenvolvimento nacional no caso de vitória de seus candidatos. Ao longo da Guerra Fria, os EUA encomendaram às FFAA sul-americanas o “combate aos comunistas”, mas ao mesmo tempo propuseram aos governos locais, pelo menos até a década de 70, um grande projeto ou “utopia desenvolvimentista”.

E depois dos anos 80 e 90, os EUA propuseram e defenderam a “utopia da globalização” e das “reformas neoliberais” em troca do apoio à sua “guerra imperial contra o terrorismo. Mas agora, nesta terceira década do século XXI, o único projeto proposto pela Administração Trump aos seus seguidores é o da “caça aos narcotraficantes” e aos “imigrantes ilegais” e, sempre que possível, seu confinamento em campos de concentração, ao estilo do presidente Nayib Bukele, de El Salvador.

Como consequência quase direta dessa falta de projeto, logo depois da vitória, muitos desses novos governos vêm enfrentando situações de ruptura e “convulsão social”, com queda rapidíssima de popularidade, uma vez que só propõem repressão e desmontagem de seus próprios Estados, sem contar com nenhum tipo de ajuda dos EUA que não seja policial ou militar, com exceção da Argentina, que foi salva da falência pela intervenção financeira direta dos EUA.

Pelo contrário, quase todos esses novos vassalos norte-americanos foram penalizados com a imposição das tarifas de Donald Trump, que reduziram seu acesso aos mercados norte-americanos. E mesmo no caso da catástrofe venezuelana recente, os EUA não forneceram nenhuma ajuda excepcional, nem mesmo se dispuseram a suspender ou aliviar suas sanções que paralisam a capacidade de ação do governo venezuelano.

Além disso, apesar de sua suposta unidade ideológica, esses novos governos de direita e extrema-direita carecem de qualquer tipo de unidade ou objetivo estratégico comum. E o mais provável, na próxima década, é que sigam na condição de pequenos Estados com economias “primário-exportadoras” isoladas e irrelevantes do ponto de vista geoeconômico — e mais ainda, do ponto de vista das grandes questões da geopolítica mundial.

O Brasil é uma grande exceção nesse quadro declinante do continente sul-americano. É o quinto maior país do mundo, e sua economia inclui-se entre as 10 maiores do sistema capitalista. No início do século passado, era um país agrário, com um Estado fraco e fragmentado, e com um poder econômico e militar muito inferior ao da Argentina. Hoje, na terceira década do século XXI, o Brasil possui um produto que representa cerca de 50% do PIB total do continente sul-americano, é o país mais industrializado da América do Sul, e o principal player internacional do continente sul-americano.

Além disso, é o país do continente com maior potencial de crescimento, se tomarmos em conta seu território, população, capacidade de produção agrícola e dotação de recursos energéticos, de minerais estratégicos e de “terras raras” (com a segunda maior reserva do mundo). Dispõe de uma matriz energética limpa e de uma gigantesca reserva hídrica que o candidata a uma posição de destaque na chamada “quarta revolução industrial”, comandada pelos avanços no campo da robótica e da inteligência artificial.

No campo das relações internacionais, o Brasil mudou de rumo várias vezes nas últimas décadas. Mas com relação aos EUA, suas elites conservadoras e liberais, civis e militares têm mantido um apoio majoritário à Doutrina Monroe, desde os tempos de Joaquim Nabuco, um dos patriarcas de sua política externa. Mais recentemente, entretanto, mesmo com algumas interrupções, o governo vem construindo uma nova estratégia de inserção internacional do Brasil, lutando por aumentar seus graus de autonomia em um mundo cada vez mais “multipolar”, sem aceitar qualquer tipo de alinhamento automático com relação às Grandes Potências que dominam o sistema internacional. Foi com esta perspectiva que o Brasil se associou à China, Índia, Rússia e África do Sul, para constituir o grupo do BRICS, o bloco internacional que mais cresceu nos últimos anos, tornando-se hoje num dos maiores obstáculos ao mandonismo do governo de Donald Trump.

Esta estratégia atual do Estado brasileiro não se enquadra no “terceiro-mundismo” do século XX, nem parece ser a de um candidato apenas à liderança da “periferia mundial”, ou mesmo do chamado Sul Global. Suas posições e pronunciamentos têm apontado na direção de um universalismo cosmopolita e igualitário, e de um multilateralismo que respeita as diferenças civilizatórias e assimetrias de poder no sistema interestatal. O Brasil tem se movido entre as nações do Norte e do Sul, do Leste e do Oeste, sem fazer distinções ideológicas ou discriminar países em função de seus regimes políticos, ou pertencimentos culturais e religiosos. Além disso, o Brasil tem se oposto radicalmente a todas as tentativas de bipolarização do sistema mundial, com base em qualquer tipo de posicionamento ou estratégia das atuais Grandes Potências.

Em uma perspectiva histórica e comparativa de mais longo prazo, pode-se antecipar que, para seguir por esse caminho, o Brasil necessitará de enorme persistência e continuidade, e de uma estreita coordenação entre suas políticas externa e de defesa, e sua política econômica interna. Difícil também será o Brasil descobrir um novo caminho de afirmação de sua liderança e poder internacional, dentro e fora da América do Sul, que não utilize a mesma arrogância e violência que europeus e norte-americanos empregaram para conquistar, submeter e “civilizar” suas colônias e protetorados.

Por tudo e com tudo, não há dúvida de que a grande batalha geopolítica sul-americana será travada no Brasil neste segundo semestre de 2026. Nesse embate, o Brasil precisa ter claro que é próprio dos impérios desrespeitar sistematicamente as fronteiras dos Estados nacionais, e que países que têm projetos autônomos lutam permanentemente por suas soberanias.

Soberania não é algo estático nem definitivo, é uma condição que se conquista exercendo-a e defendendo-a continuamente, sem jamais considerá-la assegurada, nem mesmo pelo Direito Internacional ou pelas instituições multilaterais que vêm sendo sistematicamente atacadas e desrespeitadas. O Brasil vem enfrentando uma disputa em defesa de sua soberania, contra um poder assimétrico e imperial, e contra setores de sua própria elite civil e militar, que é “binária” e subserviente por sua própria natureza, incapaz de entender a complexidade do mundo contemporâneo.

Trata-se de uma conjuntura extremamente complexa e desafiadora, mas é também a hora em que o Brasil poderá abandonar sua longa dependência externa, assumindo seu próprio comando, dentro do sistema mundial e frente à história da humanidade.

terça-feira, 21 de julho de 2026

La furia de la naturaleza frente a la ignorancia y la arrogancia

Adolfo Estrella
El Desconcierto

La naturaleza está asediada y pocos son los que la defienden con convicción, rotundidad y vehemencia. Por eso ella, sola, resiste y se rebela con furia.

La naturaleza está iracunda. Tras siglos de daño acumulado que han modificado con profundidad y dramatismo sus flujos y ciclos, en Chile y en todo el planeta Tierra, la naturaleza se rebela. Sus metabolismos energéticos llevan tiempo alterados por la acción humana. La naturaleza está siendo asediada y responde con rabia frente a los ataques.

Lo que se ha alterado son los equilibrios de sus ecosistemas, hasta el punto de que las posibilidades de volver a muchos de sus estados metabólicos anteriores son nulas. El daño está hecho y, en muchas de las dimensiones de la vida sobre el planeta, ya no hay marcha atrás. Al caos climático se añaden el agotamiento energético, la contaminación generalizada y la pérdida de biodiversidad. Todo esto está estudiado, modelizado y publicado. «El que tenga ojos para ver, que vea; y el que tenga oídos para escuchar, que oiga».

Mientras una parte importante de la geografía chilena se ahoga con lluvias torrenciales, en Europa la población resiste como puede temperaturas inéditas y mortales. Desde hace años se repite lo mismo: los indicadores de temperatura de los océanos, de pluviosidad, de sequías, de huracanes y de muchos otros fenómenos alcanzan valores «nunca vistos». Los umbrales se ven sobrepasados continuamente y las anomalías del clima se han vuelto «normales».

En Chile, esta reciente avalancha de agua se fue creando a miles de kilómetros de distancia, viajó por los mares australes y chocó con la cordillera de los Andes. Y el agua bajó por los cauces por los que siempre ha bajado y allí se encontró con tierras resecas, no absorbentes, y con la mezcla fatal de especulación inmobiliaria y políticas de planificación y adaptación insuficientes. Y, por supuesto, también se encontró con viejas y nuevas pobrezas vergonzantes de un país profundamente clasista y desigual, que, sin embargo, ha elegido como gobernantes a los peores.

Con furia responden los ecosistemas a las agresiones antrópicas, es decir, a las causadas por la acción humana mediada por un sistema de producción y consumo depredador. Esto no es parte de ningún «ciclo natural», como quieren hacernos creer los negacionistas de todo pelaje. La evidencia científica muestra, sin ambigüedad, la profundidad de los daños y a sus responsables.

Curiosamente, los mismos que niegan el caos climático son los que aceptan con toda naturalidad y confianza las previsiones del tiempo para verificar las condiciones de su viaje a la playa el fin de semana. Pero sucede que los modelos de previsión del tiempo (a plazo corto) y del clima (a plazo largo) tienen el mismo sustento estadístico y probabilístico. Es la misma ciencia, la misma técnica y el mismo cálculo.

La naturaleza es un complejo mecanismo de acciones y retroacciones: los eventos producen efectos y estos vuelven sobre sus causas. No hay linealidad en las dinámicas naturales. Y hay umbrales que ya se han cruzado sin vuelta atrás. Por ello, las acciones de adaptación son más relevantes que las de mitigación en un país como Chile, cuya contribución neta al efecto invernadero es mínima.

La agresión a la naturaleza promovida por la voracidad expansionista del capital tiene en Chile, en la figura de Vicente Pérez Rosales, su epítome, quien fue nombrado «agente de colonización» en 1850. Para recibir en el sur a colonos alemanes, transformó extensos y húmedos bosques de la zona en tierras de labranza. En sus memorias relata cómo, en determinada época, alrededor del lago Llanquihue el sol estuvo «empañado» durante tres meses como efecto de los fuegos que había ordenado iniciar, quemando «las selvas que ocupaban gran parte del Valle Central al sudeste de Osorno».

La ceguera frente a la naturaleza alcanza, con los actuales gobernantes, niveles que hacen probablemente sonrojar a cualquier niño que haya recibido unas pocas clases de ecología básica. Decir que el agua de los ríos «se pierde en el mar» o que los proyectos extractivos y la especulación inmobiliaria son más importantes que las «arañitas» o los humedales es una muestra vergonzosa, entre muchas otras, de la mezcla perversa de ignorancia y arrogancia a la que nos tienen acostumbrados los dueños del país.

Pero esto es la caricatura de lo que sucede prácticamente en toda la clase política, incluso con las llamadas izquierdas y centroizquierdas, que no han salido nunca del modelo productivista-extractivista ni de la defensa irreflexiva del políticamente correcto «desarrollo sostenible». La naturaleza está asediada y pocos son los que la defienden con convicción, rotundidad y vehemencia. Por eso ella, sola, resiste y se rebela con furia.