terça-feira, 6 de outubro de 2026

Michael Löwy: Lula e a corrida pela virada

Thiago Gama
Outras Palavras

1º turno derrotou as esquerdas. Pensador ecossocialista adverte: democracia está em risco e mesmo contraditório, Lula é a única opção para deter o “trem suicida” do fascismo. Freá-lo é ganhar tempo para a construção de outros horizontes políticos.

Michael Löwy respondeu por escrito às perguntas desta entrevista quatro dias antes do primeiro turno. Quando escreveu que precisamos ganhar tempo, ninguém sabia ainda como terminaria a noite de domingo. Terminou com Flávio Bolsonaro em 47,03% dos votos válidos, 56.104.503 eleitores, e Lula em 45,16%, 53.879.538. Pouco mais de dois milhões de votos separam um do outro, e três semanas separam o país do dia 25 de outubro. No Congresso que toma posse em 2027, o PL terá a maior bancada que uma única legenda já teve desde 1988, com 121 deputados, e elegeu dezenove senadores de uma vez. A federação PSOL/Rede ficou a 185 votos de cumprir a cláusula de barreira no Espírito Santo, 1,49% onde precisava de 1,5%, e perdeu o fundo partidário e o tempo de televisão. Com ela caíram o PDT, o Avante, o Solidariedade. Dos dez partidos e federações que passaram a cláusula, um só é de esquerda.

Löwy tem oitenta e oito anos, sessenta e cinco deles vividos fora do Brasil. Diretor de pesquisa emérito do CNRS e diretor de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales, publica desde 1970, quando saiu A teoria da revolução no jovem Marx. Vieram depois As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen, sobre marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento, e Redenção e utopia, onde o messianismo judaico e a utopia libertária aparecem presos pela mesma afinidade eletiva. Com Robert Sayre escreveu Revolta e melancolia, o livro que separou o romantismo que quer o passado como destino daquele que rouba do passado a centelha para acender o futuro.

Em A guerra dos deuses mostrou que o PT, a CUT e o MST nasceram, em parte decisiva, nas comunidades eclesiais de base. Leu o surrealismo em A estrela da manhã, leu Kafka em Franz Kafka, sonhador insubmisso, leu Weber em A jaula de aço, leu a América Latina em Marxismo e teologia da libertação. Em 2001 assinou com Joel Kovel o manifesto que fundou o ecossocialismo. E em 2005 publicou Walter Benjamin, aviso de incêndio, a leitura das teses Sobre o conceito de história de onde vem a imagem que abre esta conversa. A revolução não é a locomotiva, é o gesto de puxar o freio.

Nas respostas que seguem, ele recusa o freio aplicado a uma cédula, chama o que está do outro lado de falso messias e lembra um nome próprio. Luiz Eduardo Merlino, jornalista, vinte e três anos, amigo dele, morto sob tortura em 1971 por ordem do coronel Ustra. Uma anistia passaria por cima desse nome.

Em 14 de janeiro de 1919, um dia antes de ser assassinada, Rosa Luxemburgo escreveu que a ordem reinava em Berlim e que aquela ordem estava construída sobre areia. A revolução voltaria a se erguer e anunciaria, para horror dos vencedores, o que ela sempre disse de si mesma. Eu era, eu sou, eu serei. Entre 1,49% e 1,5% havia cento e oitenta e cinco votos no Espírito Santo. Entre ontem e o segundo turno há três semanas. Nenhuma dessas distâncias é de pedra.

Começo pela pergunta que o senhor deve estar cansado de ver mal formulada. Em Aviso de incêndio, o senhor mostra que Benjamin inverte a metáfora de Marx. A revolução não é a locomotiva da história, é o gesto de puxar o freio de emergência. No Brasil, a imagem virou moeda corrente para descrever a catástrofe e quase nunca para descrever uma eleição. Pergunto, então, com todo o risco que isso tem. Um voto em Lula no dia 25 de outubro é freio de emergência no sentido benjaminiano, ou é exatamente o oposto, é embarcar na locomotiva e pedir que ela ande mais devagar? E o conceito sobrevive a ser aplicado a uma cédula, ou aplicá-lo ali o dissolve?

Para Walter Benjamin, o freio de emergência é uma revolução, não uma simples eleição presidencial. No caso do Brasil, a revolução seria uma ruptura com os fundamentos da civilização capitalista industrial moderna e o início de um processo de mudança radical cujo horizonte seria uma nova civilização, que chamo de ecossocialista, baseada na solidariedade, na justiça social e no respeito à natureza.

O voto em Lula é obviamente algo bem mais modesto, mesmo assim importantíssimo, porque permite que o condutor da locomotiva seja alguém disposto a diminuir a velocidade deste trem suicida. Precisamos ganhar tempo! Reduzir a velocidade é fundamental. O outro candidato, Flávio Bolsonaro, está claramente decidido a pôr lenha na fogueira, ou, se se prefere, carvão na fornalha da locomotiva. Do ponto de vista da preservação da floresta amazônica, uma questão decisiva não só para os povos da floresta, mas para toda a humanidade, Lula, ao contrário de seu adversário, tenta limitar os estragos. Não é o caso, infelizmente, do petróleo da Foz do Amazonas, que Lula está disposto a explorar.

O senhor estabeleceu em A guerra dos deuses algo que a ciência política brasileira ainda digere mal, que o PT, a CUT e o MST nasceram, em parte decisiva, dentro da Igreja, nas comunidades eclesiais de base, e não à revelia dela. O Lula de 1980 vinha das CEBs e do ABC. O Lula de 2026 negocia com a bancada evangélica. O que sobrou daquela origem dentro do partido, e um quarto mandato ainda deve alguma coisa a ela, ou a genealogia virou só história?

A herança do que eu chamaria de cristianismo da libertação, ligado à Igreja, mas não necessariamente dentro da Igreja, existe ainda no PT e no governo de Lula. Mas ela é muito mais importante nos movimentos sociais, nas lutas de moradores, camponeses, indígenas, ecologistas. O Movimento dos Sem Terra, por exemplo. Seus fundadores eram agentes de pastoral da Comissão Pastoral da Terra. Desde o início o MST se definiu como movimento secular, sem afiliação religiosa, mas sua cultura política e seus rituais, como a famosa mística do Movimento, têm raízes profundas no cristianismo da libertação. Outros movimentos, como o Movimento dos Sem-teto, têm muitos filiados que são cristãos, católicos ou mesmo evangélicos. As comunidades de base já não têm o mesmo impacto que nos anos 1960 ou 1970, mas ainda estão bastante presentes nos movimentos populares dos bairros periféricos. Além do PT, outros partidos de esquerda, como o PSOL, têm uma participação significativa de cristãos da libertação entre seus militantes.

O senhor é um dos fundadores do ecossocialismo, coautor do manifesto com Joel Kovel. O governo Lula reduziu o desmatamento e, ao mesmo tempo, empurrou a fronteira petrolífera para a Margem Equatorial. Em termos estritamente ecossocialistas, e não eleitorais, esse governo é parte da solução ou uma versão mais apresentável do problema? E aqui vem o incômodo que eu não sei resolver. A crítica ecossocialista tem direito de ser feita na semana de um segundo turno, ou é justamente esse purismo que historicamente prestou serviço à direita?

O programa de Lula obviamente não é ecossocialista, e apresenta sérios limites do ponto de vista social e ecológico. A exploração do petróleo na Margem Equatorial, um desastre para a floresta, para a população local e para a humanidade, se esse petróleo for extraído e queimado, é apenas o exemplo mais evidente. A crítica ecossocialista a Lula se exerce, portanto, no primeiro turno, no segundo turno e depois das eleições.

Dito isto, nós, os ecossocialistas, sabemos que um governo Lula é infinitamente preferível a um governo da clique Bolsonaro, de caráter ecofascista, totalmente oposto a qualquer medida social ou ecológica. Um tal governo seria diretamente ecocida, e uma catástrofe para o Brasil, a América Latina e o planeta. Seria uma dramática regressão do ponto de vista da democracia, dos direitos indígenas, dos direitos das mulheres, do meio ambiente, da educação, da cultura, da sociedade. Entregaria o Brasil à sanha destruidora dos Estados Unidos de Donald Trump, o inimigo número um dos povos da América Latina e da natureza. Portanto, sem nenhuma hesitação, os ecossocialistas votarão em Lula da Silva, que, com todos os seus limites, é a única alternativa à catástrofe bolsonarista.

Em Revolta e melancolia, o senhor e Robert Sayre estabelecem que o romantismo se bifurca. Há a saída restauradora, que quer o passado como destino, e a saída revolucionária, que rouba do passado a centelha para acender o futuro. O bolsonarismo me parece romantismo anticapitalista na primeira chave, nostalgia de uma ordem perdida, a família, a nação, a caserna, tudo contra a modernidade sem nunca tocar no capital. Se a extrema direita ocupou a crítica romântica da modernidade, o que restou à esquerda? Existe romantismo revolucionário disponível no Brasil de 2026, ou a esquerda ficou com o papel que o senhor sempre temeu, o de partido da modernização e da administração? E, nessa tipologia, o que é um quarto mandato de Lula?

Veja, o romantismo, tal como o definimos, Sayre e eu, em Revolta e melancolia, é uma revolta contra o capitalismo em nome de valores de um passado pré-capitalista, real ou imaginário. O bolsonarismo não corresponde a essa definição. Ele não critica o capitalismo, muito pelo contrário, e o passado ao qual se refere, a ditadura militar, é apenas uma forma mais autoritária e brutal do próprio sistema do capital. Trata-se, como no caso do fascismo, daquilo que o historiador Jeffrey Herf chamava de modernismo reacionário. Identifica-se com o capitalismo, com a indústria e com a tecnologia moderna, hoje em dia a inteligência artificial, e rejeita apenas a herança da Revolução Francesa, a liberdade, a igualdade, a fraternidade.

Quem são os representantes do romantismo revolucionário no Brasil? Aqueles comunistas, ecologistas, ecossocialistas ou indigenistas que rejeitam a civilização capitalista e acreditam que temos muito a aprender com o modo de vida dos indígenas brasileiros. Não podemos voltar a viver na floresta, é certo, mas devemos estudar com interesse e respeito a crítica que os indígenas fazem ao mundo de mercadorias em que vivemos e a relação de harmonia que mantêm com o meio ambiente, as árvores, os animais, os rios.

A esquerda de governo, o quarto mandato de Lula, pertencem mais ao que eu chamaria de modernismo progressista. Sem questionar o próprio sistema capitalista, buscam a realização de reformas sociais progressistas. É uma espécie de social-liberalismo. Não rompe com o modelo neoliberal, mas busca realizar tudo o que é possível para os desfavorecidos, os pobres, os excluídos, com a condição de não mexer com os privilégios dos oligarcas. Os limites dessa política são evidentes, mas não se pode negar que ela tirou milhões de brasileiros da pobreza e levou adiante reformas importantes, como o fim da escala 6×1 e a isenção do imposto de renda para os mais pobres.

O senhor editou e defendeu Mariátegui, e a frase dele de que o socialismo latino-americano não pode ser decalque nem cópia, tem de ser criação heroica. O que, no lulismo de 2026, é criação e o que é decalque? Ligo essa pergunta a Redenção e utopia, onde o senhor mostrou a afinidade eletiva entre messianismo judaico e utopia libertária, e a ideia benjaminiana de uma débil força messiânica confiada a cada geração. Essa força ainda existe na política brasileira, ou o messiânico migrou inteiro para o outro lado?

Quando surge, em 1979, sob a direção do líder sindical do ABC, Lula da Silva, o Partido dos Trabalhadores é uma verdadeira criação heroica. Heroica porque enfrenta imediatamente o regime militar nas grandes greves operárias daqueles anos. Criação porque não é calco nem cópia, e sim algo novo, um partido operário que reúne a classe trabalhadora, as comunidades de base, os intelectuais de esquerda, veteranos da luta de classes como Mário Pedrosa e Apolônio de Carvalho, e grupos marxistas, trotskistas, maoistas. Um partido que consegue integrar todos esses componentes numa organização democrática, enraizada em comitês de base. E que vai adotar, em 1990, depois da queda do muro, um programa socialista, democrático, explicitamente anticapitalista.

Obviamente, o lulismo de 2026 está muito longe dessa primeira versão do PT. É apenas uma variante dos governos chamados progressistas da América Latina, que conseguem fazer algumas reformas significativas, mas perderam sua dinâmica subversiva, antissistêmica. No caso de Lula, os limites são ainda mais evidentes, em parte devido ao controle do Congresso pela direita corrupta e reacionária.

É exatamente para o outro lado que vou agora. Dark Horse, a cinebiografia de um Jair Bolsonaro condenado e preso, financiada com dinheiro ligado ao Banco Master, banco liquidado por insolvência, traz no papel dele Jim Caviezel, o ator que encarnou Cristo em Mel Gibson. O senhor passou a vida estudando a afinidade eletiva entre religião e emancipação. Aqui parece haver o contrário exato, messianismo sem utopia, redenção sem emancipação, o rosto do Cristo colado num líder que tentou um golpe. Isso tem nome na sua obra? É a estetização da política de que Benjamin falava, ou é uma figura nova, que as categorias de Redenção e utopia não alcançam, por que ali o messiânico ainda apontava para a libertação de alguém?

Para Walter Benjamin, o fascismo é um falso messianismo, e seus líderes são figuras do Anticristo, uma caricatura miserável do messianismo libertador. A história das religiões, e da política, está repleta de falsos messias, que se apresentam como salvadores e redentores e não passam de tiranos a serviço das elites dominantes. É o caso do Jair em questão, considerado messias ou mito por seus admiradores, mas que não passa de um obscuro cavalo, um dark horse, montado pela oligarquia brasileira. É pior do que a estetização da política a que se referia Benjamin, em outro contexto. É uma mitificação, uma mistificação da política. O Jair está longe de ser o único. Seu grande amigo e aliado, Donald Trump, é outro falso messias, que tem a cara de pau de se fazer representar, numa imagem criada pela inteligência artificial, como uma espécie de novo Cristo. Já alguns imperadores romanos, como Domiciano, exigiam ser adorados como dominus et deus. É uma velha história.

Em 2021, o senhor resenhou na En attendant Nadeau o livro de Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles sobre frei Tito de Alencar, o dominicano sequestrado e torturado pela ditadura, exilado na França, morto em 1974. Cinquenta e dois anos depois, um candidato à Presidência faz campanha pela liberdade de um homem condenado por tentativa de golpe, e o Congresso discute anistia aos golpistas. Parte importante do campo religioso brasileiro pede essa anistia. O senhor, que trabalhou a tese benjaminiana de que nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer, o que diz de uma eleição em que a anistia é plataforma? O que uma anistia faz com frei Tito?

A anistia dos golpistas de 2022 seria um ataque direto à democracia brasileira e um sinal verde para futuras tentativas de golpe militar. O mesmo vale para a anistia de Jair Bolsonaro, com um agravante. Ele nunca deixou de manifestar sua admiração pela ditadura militar e, em particular, pelo coronel torturador Ustra. Sua anistia seria um insulto à memória não só de frei Tito, mas de todas as vítimas da ditadura militar, os milhares de torturados e as centenas de assassinados pelo regime das casernas. Entre eles um amigo meu, Luiz Eduardo Merlino, jornalista de vinte e três anos, morto sob tortura por ordem do coronel Ustra. Como dizia Walter Benjamin, se o fascismo vencer, nem nossos mortos estarão em segurança.

A tese VIII diz que a tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que vivemos é a regra. Aplico ao concreto, as centenas de milhares de mortos na pandemia, o 8 de janeiro, a trama golpista julgada. Se Flávio Bolsonaro vencer em 25 de outubro, isso é ruptura, ou é a continuação de uma normalidade que os oprimidos brasileiros sempre conheceram, e o espanto é só nosso, dos que achavam estar fora dela? E, dos seus oitenta e oito anos, sessenta e cinco deles olhando o Brasil de fora, existe especificidade brasileira aqui, ou é mais um capítulo da onda que o senhor vem descrevendo desde os anos noventa?

Na história da luta de classes, a regra é a dominação das elites. A exceção é a revolução dos oprimidos, a revolta dos escravos com Espártaco, a dos servos camponeses com Thomas Müntzer, a dos proletários na Comuna de Paris e na Revolução de Outubro. Mas existem diferenças nessa dominação. O fascismo é a forma mais violenta, bárbara e destrutiva do poder das oligarquias. Não é uma exceção, é a forma mais brutal e desumana da regra. Por isso precisamos fazer todo o possível para que não volte, com o filho, o pesadelo que foi o governo do pai. Esperando que algum dia, com a revolução ecossocialista, possamos estabelecer aquilo que Walter Benjamin chamava de o verdadeiro estado de exceção, a emancipação dos oprimidos e dos explorados.

A onda neofascista não é uma especificidade brasileira. Ela é planetária. Já governa a principal potência imperialista, com Trump, e o país mais populoso do planeta, a Índia de Modi, além de vários países da América Latina, e já ameaça vários países da Europa. Se o Brasil conseguir parar essa onda catastrófica nas eleições de outubro, será um sinal encorajador para o mundo todo. Caso contrário, o conjunto do continente americano, com a exceção do México e do Canadá, estará sob a bota neofascista. Para mim, Trump, Bolsonaro, Milei são manifestações do neofascismo.

Não se trata de uma repetição do nazifascismo dos anos 1930. Não temos Estados totalitários, campos de concentração, tropas de choque uniformizadas, políticas econômicas nacional-corporativas. A principal diferença é a política econômica, porque o neofascismo é fanaticamente neoliberal. Mas tem em comum com o fascismo clássico o racismo, a xenofobia, o ódio ao comunismo e a qualquer forma de esquerda, o culto do Chefe e o autoritarismo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

La urgencia de remontar esta nueva batalla electoral

Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

Antes del pleito de este domingo, la casi totalidad de las encuestas daban como ganador al presidente Lula da Silva -aunque por un estrecho margen-, en torno de dos o cuatro puntos porcentuales. Con el 100 por ciento de los cómputos escrutados ya en la madrugada, esta situación se invirtió y aparece Flavio Bolsonaro con un 47,03 por ciento de los votos, frente al actual mandatario que obtuvo un 45,16 por ciento, es decir, poco menos de 2 puntos de diferencia.

Estos datos representan una sorpresa evidente, no obstante, no implican una catástrofe incontrarrestable. Las estrategias que surgen en primera instancia se orientan a obtener el voto otros tres candidatos (Cury, Santos y Caiado), que juntos obtuvieron el 7,31 por ciento de los sufragios. Indagaciones recientes revelaron que muchos de los electores de esos 3 candidatos derrotados se inclinarían por Flavio Bolsonaro, aunque la mayoría de ellos poseen una fuerte resistencia o rechazo a los dos candidatos que continúan en la disputa presidencial.

Por lo mismo, el verdadero trabajo para construir una mayoría en la segunda vuelta debe orientarse hacia quienes anularon, votaron en blanco y, especialmente, hacia quienes no comparecieron a las urnas. Estos últimos superan el 20 por ciento de los electores, lo cual suma más de 33 millones de votantes. Es un conjunto considerable de personas que es ineludible convencer en tres semanas, personas que desistieron de la idea de que su voto puede hacer la diferencia para mejorar sus condiciones y su calidad de vida.

Va a ser una lucha titánica sacar a estos millones de potenciales electores de su pasividad y revertir su decepción con la política y su ausencia de credibilidad en la participación ciudadana, pero es un esfuerzo urgente y necesario que va a ser asumido desde ahora por el equipo y los apoyadores del presidente Lula. La misma noche de la contienda y después de conocerse los resultados, Lula declaró que “El resultado es muchas veces inesperado, confieso de que estaba convencido de que iría a ganar en la primera vuelta, pero eso ya sucedió en otras ocasiones. A partir de mañana comenzaremos una nueva campaña, una campaña apenas entre dos candidatos, donde podremos mostrar la diferencia entre las propuestas que existen para Brasil”.

Dependiendo de la disposición y del trabajo que se despliegue en estas próximas semanas es probable que Lula da Silva consiga su cuarto mandato al frente de los destinos del país. Sin embargo, de ganar la elección, su mayor desafío seguirá siendo como lidiar con un Congreso tomado por la extrema derecha. En efecto, el Partido Liberal, del clan Bolsonaro, consiguió elegir a 19 senadores, que se suman a los 9 que permanecen. Otros partidos de extrema derecha (Novo) y de derecha (Unión Brasil, Republicanos, PP o PSD) ocuparán otras 28 sillas en el Senado, creando una mayoría confortable de más de dos tercios entre los 81 senadores. En la Cámara de Diputados, la situación es parecida, con una expresiva presencia de los partidos de extrema derecha y de derecha a partir de 2027.

Con el desplazamiento del poder desde el Ejecutivo hacia el Legislativo, utilizando para ello los mecanismos de las enmiendas parlamentarias y los fondos partidarios basados en el resultado de las elecciones, la tendencia será que los partidos del espectro de ultraderecha tendrán mayor autonomía para consolidar su vida política y financiera, pudiendo chantajear con mayor vigor al gobierno Lula, en caso de ser reelecto. Un escenario nefasto que ha llevado incluso a algunos analistas a señalar que el Presidente Lula se debería proteger de este futuro complejo y desistir de su empeño para obtener un nuevo mandato.

Obviamente que la cuestión no es así tan fácil de resolver y esa decisión tampoco pasa por una decisión personal, como lo ha señalado el propio presidente Lula. En estos momentos Brasil y México son los únicos países capaces de liderar la contención a la arremetida de una derecha neofascista que asola al continente. Si la situación actual es dramática, un triunfo del bolsonarismo en Brasil acabará con cualquier manifestación de soberanía y autonomía por parte de nuestros países, que se vienen doblegando abyectamente a los caprichos de Trump y sus secuaces. Con todas las dificultades en el horizonte, el pueblo brasileño que todavía cree en la democracia y en la independencia deberá aumentar sus esfuerzos para salir triunfante este próximo 25 de octubre. De lo contrario, tiempos aún más sombríos se abatirán sobre nuestra región.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

América Latina: a ultradireita tem projeto?

Álvaro García Linera
Outras Palavras

Ela governa quase toda a região. Mas, quando se volta a falar em soberania, propõe um neoliberalismo mofado e recolonial. Espera em vão por capital externo. Não mobiliza esperanças, mas rancor. É frágil, desde que surja horizonte de justiça social.

Uma onda reacionária varre a América Latina. Com exceção do México e Brasil (as duas maiores potências da região), Uruguai e Guatemala, os demais países (Argentina, Chile, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador, Paraguai, El Salvador, Honduras, Panamá, etc.) elegeram governos autoritários de extrema-direita. Isso ocorreu no segundo turno das eleições, por uma margem estreita, mas esses governos estão no poder e expressam um sentimento de ressentimento e agressividade política anti-igualitária, forte em parcelas da população.

Não estamos lidando com a direita liberal tradicional ou “republicana” que caracterizou o neoliberalismo triunfante da década de 1980. Naquela época, ele procurava ser o porta-estandarte de um destino universal e final para a humanidade, centrado no livre mercado, na globalização, no multiculturalismo e no Estado mínimo.

A extrema-direita de hoje não promete um futuro de paz mundial baseada nos mercados, mas sim uma purga apocalíptica dos ateus que se opõem às hierarquias “naturais” do empregador sobre empregado, do homem sobre mulher, da branquitude sobre todas as outras etnias e do rico sobre o pobre. Mais do que uma utopia, o que ela ostenta é uma “guerra santa” contra o comunismo, contra os imigrantes, contra os direitos e os bens públicos. Para a extrema-direita, não há paraíso a alcançar, apenas as brasas de um Armagedom onde purificar os desvios de uma humanidade corrompida por aspirações de igualdade.

Se, no passado, os movimentos de direita se apoiavam na superioridade de suas crenças e estabeleciam um caminho pelo qual toda a humanidade alcançaria um objetivo comum — o chamado “fim da história” —, a direita atual acredita que a conversão de apóstatas não é mais possível. Portanto, muros devem ser construídos para impedir que migrantes “invadam” seus países — como na fronteira entre o México e os Estados Unidos; civilizações devem ser “exterminadas”, como em Gaza ou no Irã; e aqueles que têm condições financeiras devem se tornar uma “espécie multiplanetária” colonizando Marte, como propõe Elon Musk.

Estão convencidos de que não há mais espaço, água, combustível, riqueza ou meio ambiente suficientes no mundo para serem compartilhados por todos os seres humanos e que, portanto, todos esses recursos devem ser concentrados e preservados para o benefício de poucos, os “vencedores”, enquanto o restante dos perdedores é lançado nas chamas do inferno.

Essa extrema-direita fanática cresceu no início do século XXI, quando o neoliberalismo regional entrou em crise e a sociedade abraçou um descontentamento generalizado. Ela se fortaleceu entre as classes médias ressentida, nos locais onde governos de esquerda chegaram ao poder e promoveram processos de ascensão social para as classes trabalhadoras. E chegou ao poder nos locais onde governos progressistas não conseguiram atender às expectativas de bem-estar das classes empobrecidas.

No entanto, diferentemente do que ocorreu nos ciclos anteriores de ascensão da extrema-direita na América Latina, que duraram trinta anos, a extrema-direita atual apoia-se em um projeto social atrofiado e míope que, economicamente, contraria as tendências globais emergentes.

Nas décadas de 1940 e 1950, os movimentos progressistas continentais impulsionaram a industrialização, a nacionalização dos recursos naturais e a expansão dos direitos, coincidindo com o crescimento do Estado de bem-estar social e o aumento da intervenção estatal nas economias dos países mais influentes da economia global. O período militar autoritário que ocorreu na fase posterior desse ciclo foi alimentado pelo ressentimento das classes médias, que se sentiam igualadas pela ascensão da classe trabalhadora; Mas não alterou fundamentalmente o modelo de crescimento baseado no mercado interno e no desenvolvimentismo.

A ascensão da direita neoliberal continental no final da década de 1970 e na década de 1980 caminhou lado a lado com a onda expansiva do globalismo neoliberal que varria o mundo, liderada por Reagan e Thatcher. Com pouca criatividade e muita mediocridade, a direita regional simplesmente copiou e colou o manual neoliberal emanado do Banco Mundial e do FMI. Hoje, porém, a situação é muito diferente.

As grandes potências que impulsionam a economia mundial, como os Estados Unidos, a China e a União Europeia, aumentam as tarifas contra o livre comércio, promovem políticas industriais para criar mercados a partir do Estado, tornam-se protecionistas, transformam seus Estados em acionistas de empresas estratégicas e estabelecem metas de soberania energética ou tecnológica, em vez de se curvarem às “vantagens comparativas”. Na América Latina, porém, os governos de extrema-direita se apegam anacronicamente à nostalgia de um globalismo de livre mercado extinto.

Paradoxalmente, o único defensor ferrenho do “livre mercado” é a China “comunista”, cujo Estado controla entre 20 e 40% do PIB. Enquanto isso, a extrema-direita clama pela “abertura para o mundo”, mesmo quando o mundo ergue barreiras tarifárias para proteger o pouco que resta de suas indústrias da produtividade avassaladora das empresas chinesas. Impõe uma austeridade fiscal brutal, na esperança de que o investimento estrangeiro direto (IED) inunde o país e se torne a força motriz por trás do crescimento econômico expansivo em todos os setores.

Mas o mundo de 2026 não é o mesmo de 1995, quando o investimento estrangeiro direto experimentou um crescimento global espetacular e os países em desenvolvimento ofereciam uma alta taxa de lucro graças à privatização de empresas públicas e seus mercados cativos.

Hoje, não existem mais grandes empresas para privatizar e, pior ainda, o Investimento Estrangeiro Direto (IED), que antes era a força motriz das economias mundiais, encolheu. Tendo atingido níveis entre 4% e 5% do PIB global nas décadas de 1990 e início de 2000, desde a crise de 2008 sua importância tem diminuído constantemente. Hoje, mal chega a 1% do PIB. É claro que o investimento estrangeiro continua a fluir globalmente e dentro do continente — principalmente para o México e o Brasil, atuais bastiões progressistas —, mas agora, como percentual do PIB, mal chega a um quarto do que já foi. Além disso, é mais seletivo: indústria manufatureira em países com grandes mercados garantidos (Brasil, México). Para o restante, principalmente matérias-primas e energia. Em tempos de crise, o capital prefere refugiar-se em títulos do Tesouro dos EUA, que agora oferecem taxas de juros de 4,8% por dez anos, ou em megainvestimentos em Inteligência Artificial no mesmo país.

Na Argentina, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) atingiu 8,5% do PIB em 1999. Entre 2005 e 2015, oscilou entre 2% e 3% do PIB. Sob o governo “libertário”, caiu para 1,8% em 2024 e para 0,5% em 2025. O Banco Mundial estima que se aproximará de 1% em 2026. Os setores visados por esse investimento são hidrocarbonetos, mineração e, em menor escala, finanças. O Equador segue uma trajetória semelhante: no final do século XX, o IED atingiu 3% do PIB; em 2023 e 2024, caiu para 0,5%. E em 2025, mal se aproximou de 1%. No Peru, durante a década de 1990 e entre 2005 e 2015, o IED oscilou entre 4% e 7% do PIB. Nos últimos anos, tem variado entre 1% e 3%.

Nesses e em outros casos, o IDE perdeu a importância que outrora detinha para o crescimento e a estabilidade econômica. Além disso, trata-se de investimento em enclaves, focado na extração de matérias-primas, com lucros externalizados para os países de origem, impedindo, assim, qualquer efeito estimulante sobre o restante da economia. Essa situação assemelha-se bastante à economia de enclaves coloniais do século XVI.

Por um lado, centros de alto investimento, alta rentabilidade, baixa utilização da mão de obra e baixa retenção nacional de excedentes; e, por outro, um mar de atividades manufatureiras e de serviços caracterizadas por baixa produtividade, baixos salários e alta utilização da mão de obra.

Esse cenário deprimente também se reflete nos investimentos públicos e privados nacionais em países governados pela extrema direita. Durante os anos do neoliberalismo globalista (entre 1990 e 2000), o investimento total nesses países variou entre 21% e 24% do PIB. De 2015 a 2025, o investimento flutuou entre 18% e 19% (CEPAL, 2026). A Argentina, nos últimos três anos, apresentou uma taxa de investimento de 15% a 16% do PIB (INDEC, 2026). O Equador, 18% do PIB, e assim por diante.

Em comparação, países com industrialização recente e alto crescimento econômico, como os que compõem a ASEAN, têm taxas de investimento em torno de 30% do PIB. De modo geral, sob governos de extrema-direita, o investimento público e privado, principal motor do crescimento e da criação de riqueza, caiu em porcentagem do PIB, comparado com os dois períodos de expansão econômica (1990-2000 e 2005-2015).

Os “ajustes” nos gastos públicos, a redução de impostos para os ricos e a privatização de áreas periféricas que ainda eram estatais não representam qualquer injeção de capital na economia. São meramente formas de extração predatória de recursos públicos para depositá-los nas mãos de entidades privadas habituadas à busca de privilégios. O resultado é uma economia estruturalmente estagnada, caracterizada por altos níveis de precariedade, que não consegue gerar um processo estratégico de expansão do bem-estar nacional e, portanto, está propensa a incubar continuamente intensos ciclos de agitação social.

Ao contrário do que a extrema-direita americana ou europeia busca promover com um neoestatismo produtivista de longo prazo, a extrema-direita latino-americana atolou-se num neoliberalismo globalista mofado, com um futuro decapitado, que tende a transformar os países em protetorados coloniais das grandes potências que detêm projetos históricos.

Ora, se a extrema-direita não defende um projeto econômico capaz de capturar de forma crível a esperança social, por que, apesar de seu fracasso econômico prematuro, mantém uma base social considerável de apoio político que varia entre 20% e 40% do eleitorado?

Certamente, as decepções anteriores geradas pela incapacidade da esquerda e dos movimentos progressistas em superar a crise econômica (inflação, escassez, recessão) contribuem para a relevância contínua da direita. Mas isso não basta. Para explicar seus níveis de apoio, é necessário compreender que a extrema direita emergiu munida de duas armas: por um lado, a promessa de pôr fim a alguns dos aspectos mais significativos da crise econômica; e, por outro, a promessa de reparação moral para aqueles prejudicados pela crise.

A primeira espada está se desfazendo rápida e irreversivelmente; mas a segunda está sendo empunhada com habilidade ardente. O ódio vingativo, transformado em política de Estado contra direitos, migrantes, “esquerdistas”, comunistas, kirchneristas, petistas, povos indígenas, feministas ou qualquer aparência de igualdade social, desempenha o papel de uma expiação coletiva que dilui a ilusão de um futuro de bem-estar. Se não há futuro próspero, que ao menos haja o prazer da crueldade exercida contra aqueles considerados irremediavelmente diferentes.

Essa perversão moral da esperança dilacera o tecido social e, embora possa ser passageira, suas consequências para a coesão coletiva serão duradouras. A maneira de combatê-la não é simplesmente através da fúria invertida. Embora em tempos de crise possa ser necessário personificar os responsáveis por delitos sociais — neste caso, focando-se em uma ínfima minoria dos poderosos —, o que se exige, acima de tudo, é uma restauração ousada de uma esperança plausível, centrada em um projeto produtivo e socialmente justo, capaz de abalar os alicerces das antigas e degradadas estruturas econômicas e mentais. Porque, para que a esquerda tenha novamente uma chance de liderar a nação, não deve fazê-lo apenas tentando administrar as condições de estagnação e desastre.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Ayotzinapa: avances y pendientes


Editorial
La Jornada

A 12 años de la desaparición de los 43 normalistas de Ayotzinapa, la Fiscalía General de la República presentó su primer informe público sobre el caso en el presente sexenio. Entre los nuevos elementos de investigación presentados se cuentan el hallazgo de restos óseos, documentos oficiales y un horno crematorio clandestino, entre otros indicios, en la funeraria El Ángel, el Servicio Médico Forense (Semefo) y un predio en Iguala, Guerrero, los cuales estuvieron bajo control del grupo criminal Guerreros Unidos.

Lo que se ha dado a conocer acerca de la operación del Semefo y la casa fúnebre pinta un cuadro estremecedor acerca de la descomposición institucional imperante en la entidad en 2014. Ambas instancias, así como el panteón municipal, eran administradas por una misma familia (los Rueda Mazón), además de que el Semefo y la funeraria eran contiguas y tenían acceso directo. Es de sentido común que el Servicio Médico Forense, encargado de certificar las causas de muerte y expedir autorizaciones para sepultar o incinerar un cuerpo, debe ser una dependencia pública sujeta a los más estrictos controles, pero en Iguala se encontraba concesionado a los Rueda Mazón bajo la supervisión del gobierno de Guerrero.

A la luz de los acontecimientos, dicha vigilancia sólo puede caracterizarse como deficiente o inexistente. Durante un cateo efectuado a la funeraria en octubre de 2025 se encontró un fémur humano guardado en un cajón, un arma de fuego, un horno crematorio sin registro oficial y, lo más grave, documentos oficiales en blanco firmados y sellados, con los cuales “una muerte violenta podía hacerse constar como natural, un traslado podía documentarse con datos falsos, una inhumación podía quedar respaldada con un registro que no correspondían con la realidad”.

Dos meses después, un segundo cateo en el Semefo dio con restos óseos sin registro, cuerpos con carpetas duplicadas, restos con referencias de fechas de 2014, restos óseos calcinados y piezas dentales. Está claro que semejante descontrol es favorable al crimen organizado y configuraba un entorno ideal para quienes desaparecieron a los estudiantes. Lo hallado obliga a emprender una revisión a nivel estatal e incluso nacional a fin de identificar irregularidades en todos los servicios forenses y asegurarse de que éstos sean una herramienta al servicio de la justicia, no de los delincuentes.

Por otra parte, se estableció la identidad de quienes hicieron llamadas vinculadas con el caso, incluidas las realizadas con equipos de los normalistas días y hasta semanas después del ataque perpetrado entre el 26 y 27 de septiembre de 2014. Por ejemplo, se sabe que el dueño del velatorio, Rodolfo N, estuvo en contacto con miembros de Guerreros Unidos y que una semana después de la noche de Iguala usó el teléfono móvil del estudiante Julio César Mondragón, quien fue asesinado y desollado. Al poner nombre a los involucrados en estas llamadas se han podido ejecutar nuevas detenciones.

En el rubro de arrestos, destaca el de Ángel Aguirre Rivero, gobernador de la entidad cuando se cometieron los hechos y presunto culpable de ordenar la destrucción de grabaciones de seguridad que mostraban lo ocurrido a los muchachos en el Palacio de Justicia. Su puesta a disposición de las autoridades abrió la esperanza de que se revele información oculta durante todo este tiempo. En este sentido, debe recordarse que el caso Ayotzinapa encierra dos grandes interrogantes: qué pasó y dónde están los normalistas; y cómo se organizó el encubrimiento de los participantes en el crimen. A más de una década de distancia, es evidente la imposibilidad de resolver lo primero sin ubicar y judicializar a quienes destruyeron pruebas, sembraron pistas falsas, inventaron una narrativa distractora y se encargaron de negar la justicia a las víctimas indirectas, es decir, a las familias que siguen exigiendo la aparición de los suyos.

Junto a los adelantos persisten grandes pendientes. Estados Unidos negó la extradición y concedió asilo a José Ulises Bernabé García, juez que puso a 17 estudiantes en manos de policías municipales, quienes a su vez los entregaron a delincuentes. El régimen de Israel protege a Tomás Zerón de Lucio, considerado principal productor de la “verdad histórica” y manipulador de evidencias.

Cabe esperar que los avances permitan acelerar el esclarecimiento pleno de lo ocurrido y fincar responsabilidades a los máximos involucrados en los niveles estatal y federal. Las investigaciones deben seguir con total disposición para escuchar y tomar en cuenta el parecer de los padres, sin cuya participación no puede haber justicia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A imprensa na guerra híbrida

Luís Nassif
Jornal GGN

Por que essa insistência dos jornalões numa campanha que arruína sua própria credibilidade e não convence sequer seus próprios jornalistas?

Em plena Lava Jato houve uma reunião reservada entre Lula e Emílio Odebrecht, presidente da construtora. Um dos assuntos tratados foi a posição da Rede Globo na campanha de desestabilização. Emílio foi taxativo: "Os Estados Unidos conseguiram amarrar a Globo". O relato me foi feito por pessoa presente ao encontro.

 Provavelmente referia-se ao inquérito da Fifa, que alcançava a Globo em cheio, por negociações de contratos de copas na América do Sul. A Globo efetivamente se livrou. O peso da condenação recaiu sobre J. Hawilla, seu braço operacional.

Este é o primeiro passo para entender a posição dos grupos de mídia em relação à campanha eleitoral atual, que transformou um caso irrelevante — a atuação de Fábio Luís Lula da Silva, sem nenhum contrato fechado com o governo — em cobertura maior do que os crimes comprovados atribuídos a Flávio Bolsonaro.

A atuação da mídia é hoje mais imprudente do que nos tempos da Lava Jato. Lá, havia crimes a serem apurados. Criou-se uma onda tão forte, um movimento de manada, que arrastou ou silenciou jornalistas, intimidou ministros do Supremo e escancarou o país ao bolsonarismo que se seguiu.

Hoje o caso é mais grave. Não há crime a ser investigado, apenas movimentações, tentativas de lobby que não resultaram em um contrato sequer. É uma manipulação reiterada dos três jornalões, mantendo Fábio Luís no foco através da repetição de acusações, totalmente conduzidos pelas fontes — um delegado da Polícia Federal provavelmente servindo no gabinete de André Mendonça.

Por que essa insistência dos jornalões numa campanha que arruína definitivamente sua própria credibilidade e não convence sequer seus próprios jornalistas? A explicação está na guerra híbrida.

A ofensiva de Trump

Em 2025, a Casa Branca justificou medidas contra o Brasil citando “censura” e proteção da liberdade de expressão de americanos. Em julho daquele ano, sancionou Alexandre de Moraes sob a Lei Magnitsky Global, acusando-o de usar o cargo para autorizar prisões preventivas arbitrárias e suprimir a liberdade de expressão no Brasil; em setembro, estendeu a sanção à mulher do ministro e a uma empresa ligada à família. As sanções foram retiradas em dezembro de 2025, dias depois de uma ligação entre Trump e Lula, no mesmo movimento em que Washington começou a recuar de tarifas pesadas sobre produtos brasileiros.

Em julho de 2025, a Casa Branca já havia declarado formalmente que ações brasileiras ameaçavam a segurança nacional, a política externa e a economia dos EUA, afetando cidadãos e empresas americanas. A partir daí, a USTR (Representação Comercial dos EUA) enquadrou práticas brasileiras relativas a comércio digital e plataformas americanas numa investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Em 1º de junho de 2026, concluiu que essas práticas eram “acionáveis”; em 15 de julho, anunciou tarifa adicional de 25% sobre boa parte das importações brasileiras, em vigor desde 22 de julho. A partir daí, há um arsenal de medidas. Em sete níveis.

1. A arma mais sutil: publicidade das multinacionais americanas

Imagine a Globo, a Folha, o Estadão, o UOL ou qualquer outro veículo brasileiro publicando material que Washington considere parte de uma estrutura de “censura”, de perseguição a aliados de Trump ou de pressão sobre empresas americanas.

O governo não precisa ordenar à Coca-Cola, ao Google, à Meta, à Amazon, à Microsoft, à Visa, à Mastercard, à GM etc. que parem de anunciar. Basta criar um risco de compliance. Uma orientação administrativa, uma declaração do Departamento de Estado ou uma investigação do Congresso americano podem sustentar que financiar determinadas organizações brasileiras representa apoio econômico a agentes envolvidos em violações da liberdade de expressão de americanos.

Nesse momento, o problema muda de natureza. A decisão deixa de ser do diretor de marketing brasileiro e passa para o compliance, o jurídico e as relações governamentais da matriz nos EUA. Isso pode produzir de-risking: “não sabemos se haverá sanção, mas é melhor não correr o risco.” É provavelmente a forma mais eficiente de pressão, porque não deixa a impressão digital de uma ordem governamental.

2. OFAC e Global Magnitsky: a arma nuclear financeira

Aqui existe precedente concreto brasileiro. O Tesouro americano colocou Alexandre de Moraes na lista de sanções Global Magnitsky em julho de 2025 e, depois, atingiu sua mulher e uma empresa vinculada à família. Essas designações foram retiradas em dezembro de 2025.

Se o governo resolvesse sancionar um empresário de mídia, executivo, empresa ou organização ligada a um grupo de comunicação, o efeito poderia ser muito maior do que simplesmente congelar patrimônio nos Estados Unidos. O sistema OFAC gera enorme aversão a risco: bancos internacionais, bandeiras de cartão, processadores de pagamento, plataformas tecnológicas, seguradoras e fornecedores americanos passam a examinar a relação. Uma sanção dirigida ao controlador ou à empresa central de um conglomerado poderia contaminar comercialmente outras empresas do grupo.


3. Vistos: pressão sobre jornalistas, executivos e organizações

Esse instrumento já deixou o terreno hipotético. Em maio de 2025, o secretário de Estado Marco Rubio anunciou uma política de restrição de vistos voltada a “estrangeiros que censuram americanos”, visando autoridades que “exigem que plataformas de tecnologia americanas adotem políticas globais de moderação de conteúdo” ou pratiquem censura que ultrapasse sua jurisdição e alcance os Estados Unidos.

A política chegou a atingir europeus ligados à regulação de plataformas e a pesquisadores de desinformação. Transposta ao Brasil, poderia atingir — dependendo da interpretação do Departamento de Estado — autoridades, dirigentes de ONGs, pesquisadores e eventualmente pessoas ligadas a organizações de mídia que Washington acusasse de participar de mecanismos de censura.

Há, porém, uma ressalva importante: a política já sofreu limitações judiciais nos EUA. Em 14 de julho de 2026, o juiz federal James Boasberg, do Distrito de Columbia, suspendeu a aplicação da política contra pesquisadores de desinformação e moderação de conteúdo, no caso Coalition for Independent Technology Research, por entender que ela provavelmente viola a Primeira Emenda ao discriminar um ponto de vista específico.

4. Seção 301: atingir o ambiente econômico brasileiro

Essa é uma ferramenta particularmente poderosa porque Trump já percorreu todas as etapas relevantes contra o Brasil. A USTR afirmou expressamente que tribunais brasileiros emitiram ordens dirigidas a empresas americanas de redes sociais e tratou isso como questão que restringe o comércio americano. Em julho de 2026, veio a ação concreta: tarifa adicional de 25% sobre boa parte das importações brasileiras.

Isso permite algo politicamente interessante: retaliação econômica ao Brasil justificada como defesa de empresas americanas, sem precisar sancionar diretamente um jornal. A mensagem implícita: “as políticas brasileiras contra empresas e cidadãos americanos têm custos comerciais.” O alvo jurídico é o Estado brasileiro; a pressão política alcança o STF, o Congresso, o governo, as plataformas e, indiretamente, o ecossistema de mídia.

5. Contratos e compras do governo americano

Amazon/AWS, Microsoft, Google, Oracle, IBM, empresas de telecomunicações e financeiras têm relações contratuais e regulatórias gigantescas com Washington. Um governo dispõe de grande capacidade de produzir incentivos reputacionais e regulatórios. Não significa que possa dizer legalmente “retire a publicidade da Folha” — mas uma empresa que depende de bilhões de dólares em contratos federais tem fortes razões para acompanhar de perto as prioridades políticas da administração.

A investigação jornalística interessante, portanto, não seria procurar uma ordem escrita de Trump. Seria medir mudanças coordenadas no comportamento publicitário das subsidiárias brasileiras de empresas americanas depois de pronunciamentos, sanções ou orientações vindas de Washington.

6. Plataformas americanas: um ponto de estrangulamento maior que a publicidade

Aqui talvez esteja a vulnerabilidade mais importante. Um grupo de mídia brasileiro depende de empresas americanas para busca e distribuição (Google, YouTube, AdSense), redes sociais (Meta/Facebook/Instagram), aplicativos (Apple/Google), nuvem (Amazon/Microsoft/Google) e pagamentos de assinatura (Visa/Mastercard e processadoras). A publicidade é apenas uma camada. Uma combinação de restrições comerciais, financeiras e tecnológicas poderia afetar simultaneamente distribuição, monetização, pagamentos, hospedagem e acesso ao público.

É por isso que a política americana de “defesa das plataformas” merece ser analisada não só como questão diplomática, mas como uma nova modalidade de extraterritorialidade tecnológica - o mesmo tipo de mecanismo já usado, por exemplo, contra bancos europeus em sanções ao Irã.

7. Pressão informal sobre anunciantes

Esta seria a modalidade mais difícil de documentar, e talvez a mais eficiente. Não é necessária uma determinação presidencial. Uma reunião entre o Departamento de Estado e executivos; uma audiência parlamentar; uma carta de congressistas; uma declaração pública de Rubio; uma investigação da USTR; ou simplesmente a pergunta de um funcionário americano - “sua companhia está financiando organizações envolvidas na censura de cidadãos americanos?” - pode bastar para que departamentos jurídicos recomendem suspender publicidade. Não seria uma sanção formal. Seria compliance induzido pelo Estado.

Uma escalada poderia funcionar assim: Departamento de Estado classifica determinada atuação brasileira como ataque à liberdade de expressão americana → Tesouro/OFAC + USTR + política de vistos elevam o risco jurídico para empresas americanas → matrizes acionam compliance → Google, Meta, bancos, anunciantes e provedores tecnológicos reavaliam relações → o veículo brasileiro perde publicidade, serviços financeiros ou infraestrutura.

O detalhe fundamental é que os últimos três passos podem acontecer sem nenhuma ordem pública do governo americano. É aí que a hipótese de “empresas transformadas em agentes do Estado” se torna jornalisticamente mais interessante: não por comando direto, mas pelo uso da dependência regulatória e econômica para produzir comportamento privado alinhado à política externa.

Há um precedente contemporâneo relevante dentro dos próprios Estados Unidos: organizações de mídia americanas vêm denunciando e litigando contra pressões regulatórias e judiciais da administração Trump — o próprio Financial Times registrou a reação crescente de grupos de mídia a esse tipo de pressão.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Flávio Bolsonaro de sunga branca

Paulo Ghiraldelli
A Terra é Redonda

O marketing grotesco expõe o que o antipetismo encobre: o anseio por um mundo sem horizontes igualitários, em que a subalternidade do outro é a condição silenciosa para a própria autoestima

Flávio Bolsonaro colocou a mídia em choque ao apresentar seu marketing feito por meio de Inteligência Artificial. A figura que aparece nesse seu marketing mostra o rosto de Flávio em um corpo “sarado”, sem camisa e de sunga branca. A figura aparece com a faixa presidencial no peito e, para completar a bizarrice, bebe um “energético”.

Os petistas trataram de ridicularizar a propaganda, como se isso fosse possível. Não se ridiculariza o que já de partida capricha em ser ridículo. A imprensa, mesmo a mais condescendente com a direita, não aprovou. Vários jornalistas de canais disseram que foi um tiro no pé. Comentaram que havia sido uma afronta ao próprio eleitor bolsonarista.

Afronta? Bem, eu até concordo. Mas não foi um tiro no pé. Jair Bolsonaro usou da ideia de que era “autêntico” para se legitimar. Essa campanha teve êxito. Flávio Bolsonaro revela essa “autenticidade” também. A vida que ele propõe para si mesmo e seus amigos é a da figura que mostrou. Alguém da praia, um estilo playboy que vai da academia de ginástica para o carro de luxo, e que precisa sempre estar com o “energético” a tira colo, para uma eventual balada em casa noturna.

O típico eleitor bolsonarista não rejeita essa figura. Alguns a invejam, outros criaram os filhos para serem o garoto da sunga branca. Há os que não criaram os filhos assim, mas se tivessem dinheiro certamente o fariam. Há muita gente com essa mentalidade entre os bolsonaristas.

Mas isso é o que deseja metade dos eleitores brasileiros? Não! Mas uma boa parte do eleitorado bolsonarista, concorda com esse ideal de vida. O resto, os que não concordam, votarão em Flávio Bolsonaro assim mesmo. Flávio sabe que pode contar com o volume do antipetismo. Afinal, o antipetismo tem a idade do PT.

Aliás, sem o antipetismo, Flávio Bolsonaro não estaria pontuando tanto nas pesquisas. Ele é apenas isso: o candidato da desesperança. Também seu pai foi assim: os seus eleitores diziam não acreditar que o Brasil melhoraria com Jair Bolsonaro na presidência. Ele foi nitidamente o pregador do “realismo”. E essa doutrina é a da resignação.

Em termos sócio-econômicos, o antipetismo está no âmbito de grupos bem conhecidos: o pequeno comerciante, o pequeno e médio proprietário de terras, uma boa parcela dos profissionais liberais, enfim, trata-se do que em geral, pelo jargão, chamamos de “classe média”. Gente que possui um ódio danado do socialismo (que eles chamam de comunismo).

O sonho desse pessoal é poder ter uma vida que preserve hierarquias sócio-econômicas. Eles falam em liberdade. Mas o que desejam mesmo é que qualquer sinal de equalização social não vingue. Para essa gente a vida boa só será boa se sempre existirem pobres e ricos, de modo que sempre se possa sonhar em ser rico não para viver bem, mas para poder ter em quem mandar, os pobres. Um mundo sem hierarquias que extinga o mandonismo é insuportável para essas pessoas, mesmo no caso de muitas delas que, enfim, estão aquém de serem de “classe média”.

Uma sociedade como a nossa, que em termos históricos ainda está próxima dos últimos dias da escravidão, e que importou colonos para servirem como os escravos serviram, tem um profundo apreço pelo regime de servidão. São pessoas que imaginam a vida boa como aquela vida em que é possível ter alguém para mandar. Sem o sonho de humilhar o outro, essas pessoas não conseguem viver um dia sequer.

O dono do posto de gasolina que encontra comigo diz: “não há mão de obra mais, ninguém quer trabalhar, todo mundo quer ficar no sofá ganhando bolsa-família”. Eu não respondo nada. Então ele completa: “esses vagabundos, agora, querem folgar um dia a mais!”. “E o Lula gastando!”. Não respondo mais uma vez. Então ele percebe que está vociferando mágoa pessoal, e se afasta. Continua andando pelo posto, fingindo que está, como os frentistas, também trabalhando! Rosna sozinho, logo irá falar alto novamente, na orelha de outro cliente.

Esse dono do posto, pode apostar, tem uma sunga branca e não vê a hora de poder trair a esposa em uma balada, onde se apresentará com seus amigos. Tudo regado a bom uísque ao lado do “energético”. Seria um bom consumidor de Tadalafila, mas não precisa disso uma vez que possui uma arma no porta-luvas. Isso lhe dá a condição de macho.

Após passar na casa da amante, faz um happy hour que garanta, antes do jantar com a garota, uma meia hora com uma outra mulher, a que seja capaz de penetrá-lo. Que homem vitorioso! Os trabalhadores do posto o detestam e o invejam. Entre cinco deles, ao menos dois odeiam o PT tanto quanto ele.

Quando Lula diz que o que ele quer é “um país de classe média”, esse tipo que caracterizei acima sente um frio na coluna. Ele sabe que isso significa tornar muitos que estão empregados no seu posto, pessoas capazes de adquirir um estranho comportamento: poderão olhar para ele sem sentir diferença, mesmo que continuem ainda mais pobres que ele.

O que ele teme é que com a atenuação da desigualdade, diminua o número de pessoas que abaixa a cabeça para suas ordens. Por sua vez, os dois frentistas que comungam com ele o ódio ao PT temem que o mundo de equalização realmente venha, e que eles, mesmo melhorando de vida, não possam sonhar em mandar em alguém como o patrão manda neles.

Entra aí, também, a ideia de não deixar espaço para a emancipação da mulher. O mais pobre sempre conta com o papel subalterno da mulher. Ao menos alguém nesse mundo pode estar no lugar de me obedecer – eis o que o consola. Não se pode viver sem um pet obediente, pensa esse tipo de pessoa. Algumas mulheres acreditam nisso. Outras acreditam que até os homens que não pensam assim, estão na função castradora. O mandonismo é uma ideologia prática que se dissemina e nubla a realidade até da mulher livre. É uma desgraça.

O milicianismo que a família Bolsonaro tanto gosta, reproduz no âmbito do banditismo de colarinho branco ou do banditismo do favelado a mesma ideia de subalternidade, mas de maneira mais brutal. Nesse caso, as obediências são cobradas a todo momento. A desobediência é a morte.

Não é máfia. Não se trata de cobrar a fidelidade, mas sim a sabujice, a demonstração de medo, a afeição que se pode ter por quem tem dinheiro. Isso que está no coração do bolsonarismo é o germe da deterioração social. Se isso se instala no topo do poder, todas as instituições se corrompem em velocidade inaudita.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Trotsky em Cuba

Samuel Farber 
Jacobin

O revolucionário russo Leon Trotsky foi assassinado por um agente stalinista no dia 20 de agosto de 1940, na cidade de Coyoacán, México. Resgatamos aqui seus últimos anos de vida, narrado pelo escritor cubano Leonardo Padura.

Há algum tempo, o escritor cubano Leonardo Padura explora seu desencanto com algumas das realidades de sua amada cidade por meio de seus romances sobre o detetive Mario Conde. Mas é em seu O Homem que Amava os Cachorros, que suas reflexões sociais e políticas sobre o socialismo e a liberdade – em Cuba e fora dela – alcançam sua maior profundidade.

Padura entrelaça as histórias do revolucionário russo Leon Trotsky e de seu assassino, o comunista catalão Ramón Mercader, que ele traz pelas lentes de um narrador cubano, um jornalista despedido do cargo por motivos políticos e forçado a trabalhar como revisor para um diário veterinário.

O fato histórico de que Mercader viveu em Cuba por cerca de quatro anos no final dos anos setenta, trabalhando como assessor do repressivo Ministério do Interior (e que sua mãe Caridad trabalhou durante sete anos como funcionária encarregada de relações públicas na embaixada cubana em Paris nos anos 60), dá a Padura os meios para conectar o assassino com o jornalista. Eles se encontram um dia quando Mercader, acompanhado por um guarda-costas, está passeando com seus amados cachorros na praia de Santa María del Mar onde o jornalista tinha ido ver o pôr do sol.

Sem expor sua identidade, Mercader revela muito de sua vida ao jornalista cubano, fingindo que está falando de uma terceira pessoa e não de si mesmo. E é por meio dessa convenção artística que Padura articula suas idéias sobre o stalinismo, sua psicologia e seus horrores, tanto na esfera da alta política quanto no plano individual. Ao contrário do estereótipo de comunistas semelhantes a robôs, Padura apresenta uma visão diferenciada de uma série de personalidades comunistas. Apesar do peso esmagador da ortodoxia ideológica e do terror, a individualidade de Mercader permanece.

Mercader é inicialmente um comprometido revolucionário lutando do lado republicano na Guerra Civil Espanhola, uma pessoa pensante com uma mente independente. Essa independência começa a ruir sob a pressão de seus camaradas comunistas, que continuamente o lembram de que “o partido está sempre certo e se você não entende, não importa: você tem que obedecer”.

Isso é minado ainda mais quando, depois de ter sido recrutado por oficiais da inteligência soviética, seu superior o informa no meio da Guerra Civil que o próprio Stalin ordenou o expurgo do comando republicano leal ao presidente socialista Largo Caballero. Com isso, Padura também desafia um dos muitos mitos sobre o papel do Partido Comunista e da URSS como salvadores da República Espanhola que ainda prevalecem em grande parte da esquerda internacional.

O golpe final na capacidade já decadente de Mercader de raciocinar de forma independente ocorre quando, em uma das cenas mais assustadoras do livro, o ativista comunista é transformado, em um campo de treinamento na URSS, no soldado anônimo número treze e é compelido a matar um homem desamparado e esfarrapado por ser um “cachorro trotskista, inimigo do povo”.

Ooutro comunista no romance de Padura é Trotsky, um homem que também amava cães. Com profundo conhecimento e compreensão da obra do líder bolchevique, o escritor cubano o descreve com genuína simpatia: perdido no exílio, privado da cidadania soviética e incapaz de encontrar asilo em qualquer país até que o presidente mexicano Lázaro Cárdenas lhe dá abrigo no México.

O Trotsky de Padura é um homem perseguido – muitos de seus parentes e seguidores foram assassinados por ordem de Stalin. Mas existem diferentes tipos de pessoas perseguidas. Existem aqueles como Nelson Mandela que, durante suas décadas sombrias na prisão, foi apoiado por um grande movimento social e político. E há quem, como Trotsky, perceba, como Padura o fez dizer: “Estou cada vez mais só, sem amigos, sem camaradas, sem família… Stalin levou todos eles. ”

Compreender essa solidão permite a Padura descrever um Trotsky que não se surpreende com as confissões absurdas extraídas das vítimas dos grandes expurgos dos anos 30 na URSS, mas que se entristece muito com a confissão auto-incriminatória de Christian Rakovsky, seu antigo camarada na luta contra Stalin, no terceiro julgamento de Moscou em 1938.

Instigado pela simpatia ao líder russo, Padura mostra Trotsky censurando-se internamente por não ter reconhecido os excessos que ele mesmo cometeu ao tentar defender a sobrevivência da revolução, “embora nunca o admitisse publicamente”, afirma o autor. O Trotsky imaginado por Padura lamenta as ações que tomou para militarizar os sindicatos ferroviários e as políticas coercitivas aplicadas durante a reconstrução pós-Guerra Civil, a substituição de dirigentes sindicais e até mesmo seu papel no esmagamento sangrento da revolta de Kronstadt.

Estas são especulações plausíveis, embora excessivas, de Padura à luz das revisões que Trotsky fez durante os anos 30 sobre muitas das idéias políticas que ele havia adotado particularmente durante a Guerra Civil de 1918-20 – revisões que o fizeram rejeitar, por exemplo, o princípio do partido único como pedra angular do socialismo no poder. Ao mesmo tempo, essas podem muito bem ser as projeções de Padura refletindo retrospectivamente sobre como um sistema semelhante foi implantado em seu próprio país.

Padura, vivendo sob uma espécie de comunismo em Cuba, também destaca Trotsky como um crítico literário que afirma, sem hesitar, que “tudo é permitido na arte”. Não por acaso, o escritor cubano destaca a ocasião em que André Breton, em sua visita ao México, diz a Trotsky que tudo é permitido na arte exceto ataques à revolução proletária. Trotsky responde que na arte nenhuma restrição pode ser permitida – que não há nada que uma ditadura deva impor ao criador sob a desculpa de necessidade histórica e política, e que a arte deve obedecer apenas às suas próprias exigências.

Com tanta simpatia e respeito pela verdade histórica como pela forma que trata Trotsky, seria um grande erro ver Padura como simpatizante do trotskismo. Sem diminuir a notável realização de Padura em retratar não apenas Trotsky, o homem, mas também Trotsky, o pensador político, ele falha em compreender, talvez por causa de sua própria formação política, certos conceitos estratégicos do pensamento trotskysta.

Padura apresenta com precisão a dura crítica de Trotsky ao comunismo alemão e sua política suicida em relação ao nazismo que tratava a social-democracia (“social fascismo”, de acordo com a linguagem dos stalinistas) como equivalente ao nazismo. Mas ele erroneamente deixa implícito que Trotsky defendeu uma espécie de Frente Popular de todas as forças de “centro e esquerda” para combater o nazismo e o fascismo. Em vez disso, ecoando o Comintern do início dos anos 20, Trotsky propôs uma política da Frente Unida que reuniria todas as forças da classe trabalhadora, que incluía a social-democracia, mas excluía os partidos burgueses, independentemente de quão liberais e democráticos eles fossem.

Em outras palavras, Trotsky apoiava uma política de classe, não uma política “popular”. Ele supôs, como no caso da Espanha, que a oposição ao fascismo só poderia ter sucesso se fosse baseada na mobilização dos interesses de classe, o que acabaria por levar à revolução socialista – a única alternativa real ao fascismo para Trotsky, dada a decadência da sociedade capitalista, mesmo em suas versões democráticas.

Qualquer dúvida que possa ter permanecido sobre as possíveis inclinações trotskistas de Padura foi removida por sua recente entrevista ao Espacio Laical, a publicação liberal católica cubana, onde ele disse que Trotsky tinha sido tão “fanático” quanto Mercader – uma declaração que parece completamente em desacordo com o espírito e a letra de O Homem que Amava os Cachorros.


Ainda assim, o personagem principal de O Homem que Amava os Cachorros não é Leon Trotsky nem Ramón Mercader. É a única figura da trama totalmente fictícia, a única das três que é cubana: o próprio narrador. Iván é um jovem jornalista que já foi punido duas vezes pelo sistema por ser muito independente na época que conhece Mercader.

Pouco depois de se formar na universidade, as autoridades o enviaram para a longínqua cidade de Baracoa para trabalhar como chefe da estação de rádio local – uma ação destinada a servir como um “corretivo” do governo cubano para “me derrubar e me impor este mundo”. Na segunda vez, ele foi enviado para trabalhar para uma revista veterinária como revisor. Então, para aumentar seus infortúnios profissionais, seu irmão é excluído da universidade por ser gay e desaparece ao tentar fugir para os EUA.

A história pessoal de Iván começa a se desenrolar na década de setenta, período que marca os quatro anos em que Mercader residiu em Cuba como assessor do Ministério do Interior e também o ponto alto da repressão política e cultural do stalinismo na ilha.

Foi durante esses anos “amargos” que Iván foi marginalizado e reprimido pelas autoridades cubanas – justamente quando começava a se revelar como escritor sério. Iván esclarece que a vida de escritores como ele não corria perigo naquela época. Em vez disso, o sistema os transformou em nada. Ou seja, conta Iván, quando soube o que era o medo:

Acho que naqueles anos devemos ter sido os únicos membros de nossa geração em toda a civilização estudantil ocidental que, por exemplo, nunca colocaram um baseado entre os lábios e que, apesar do calor correndo em nossas veias, nos libertaríamos tardiamente do atavismo sexual, liderado pelo maldito tabu da virgindade (não há nada mais próximo da moralidade comunista do que os preceitos católicos); no Caribe espanhol éramos os únicos que vivíamos sem saber que estava nascendo a salsa ou que os Beatles (os Rolling Stones e Mamas and the Papas também) eram os símbolos da rebelião e não da cultura imperialista, como nos diziam muitas vezes; e além disso, éramos, na época, os menos informados sobre a extensão das feridas físicas e filosóficas produzidas em Praga por tanques que funcionavam como mais do que ameaças, sobre o massacre de estudantes em uma praça mexicana chamada Tlatelolco, sobre a devastação histórica e humana desencadeada pela Revolução Cultural do nosso querido camarada Mao, e sobre o nascimento, para as pessoas da nossa idade, de outro tipo de sonho, morto nas ruas de Paris e nos concertos de rock da Califórnia.

Em seguida, situando-se nos anos 90, Iván revisita o nascimento e a morte das esperanças suscitadas pela Perestroika, a descoberta da verdade sobre o ditador romeno Nicolae Ceaucescu, os horrores da Revolução Cultural na China e a decepção por ter descoberto que o grande sonho de emancipação humana e igualdade estava mortalmente doente, e que genocídios como o cometido no Camboja pelo regime do Khmer Vermelho de Pol Pot foram cometidos em seu nome. O que parecia indestrutível havia se rasgado nas costuras.

Leonardo Padura, é um dos principais representantes de um novo ambiente intelectual e cultural da ilha que apoia a liberalização e democratização da sociedade cubana. Mas ele está em uma posição única no sistema cubano: embora tolerado e até festejado, sua obra mais crítica não foi divulgada ao grande público. Ele parece ter alcançado um grau muito maior de independência das autoridades do que outros artistas e intelectuais conhecidos na ilha.

Assim, ele tem apoiado criticamente o programa de reforma do governo, mas tem agido com muito mais independência do regime do que outros artistas e intelectuais cubanos de renome – por exemplo, abstendo-se de endossar muitas das declarações denunciando dissidentes patrocinados pelo aparato cultural do Estado cubano. Como o próprio Padura sugeriu em várias ocasiões, isso foi possível em parte devido à sua independência econômica do governo, que foi conquistada com a publicação de suas obras no exterior.

Nos agradecimentos ao final de O Homem que Amava os Cachorros, Padura escreve que a “semente” do livro começou a germinar em sua mente durante uma visita que fez, pouco tempo antes do colapso do bloco soviético, a casa de Trotsky no bairro de Coyoacán na Cidade do México, um museu que para ele era “um verdadeiro monumento à ansiedade, ao medo e ao triunfo do ódio durante a época em que os Trotsky moravam lá”.

Quinze anos depois, com a URSS morta e enterrada, diz o romancista cubano, ele contou a história do assassinato de Trotsky “para refletir sobre como a grande utopia do século XX foi corrompida”. Vergonhosamente, após ter sido publicado e comentado favoravelmente pela imprensa oficial da ilha, e mesmo tendo recebido o Prêmio Nacional de Literatura em 2012, a tiragem da edição cubana de seu livro foi tão pequena que ficou indisponível logo após sua apresentação pública.

O governo cubano quer matar dois coelhos com uma cajadada só: relaxar alguns controles políticos e ao mesmo tempo impedir a difusão de idéias que podem subverter seu monopólio de poder. Padura não foi censurado ou reprimido pelo governo cubano. Mas, semelhante a seu narrador Iván, ele foi modulado para ter menos importância do que deveria.