sábado, 25 de julho de 2026

O tarifaço e a hora do Brasil

José Luís Fiori
Outras Palavras

Soberania não é algo estático nem definitivo. Defendê-la passa por enfrentar ingerências externas – e também o atraso de setores da elite brasileira. Afinal, Trump não oferece projeto e ainda a penaliza com sanções. Estão abertas oportunidades do país construir seus próprios rumos.

A opinião do presidente Donald Trump não deve ter tido grande influência na vitória dos candidatos de extrema-direita nas recentes eleições presidenciais sul- americanas. Esta é uma ideia que pode afagar o ego do presidente americano e assustar setores da esquerda mais ressabiada, mas, no mundo real, Trump é hoje uma figura cada vez mais impopular no mundo todo, e também na América do Sul.

Não quer dizer que algumas grandes big techs e grupos financeiros de extrema-direita não tenham intervindo nessas eleições, mas isto não chega a ser uma grande novidade. Durante a Guerra Fria, os EUA promoveram 72 intervenções diretas e mudanças de regime em todo o mundo, e só na América Latina, participaram de 18 golpes de Estado entre 1952 e 1973.

O que é realmente novo é o governo americano apoiando abertamente candidatos de direita ou extrema-direita, sem propor ou oferecer nenhum tipo de projeto, estratégia ou utopia de desenvolvimento nacional no caso de vitória de seus candidatos. Ao longo da Guerra Fria, os EUA encomendaram às FFAA sul-americanas o “combate aos comunistas”, mas ao mesmo tempo propuseram aos governos locais, pelo menos até a década de 70, um grande projeto ou “utopia desenvolvimentista”.

E depois dos anos 80 e 90, os EUA propuseram e defenderam a “utopia da globalização” e das “reformas neoliberais” em troca do apoio à sua “guerra imperial contra o terrorismo. Mas agora, nesta terceira década do século XXI, o único projeto proposto pela Administração Trump aos seus seguidores é o da “caça aos narcotraficantes” e aos “imigrantes ilegais” e, sempre que possível, seu confinamento em campos de concentração, ao estilo do presidente Nayib Bukele, de El Salvador.

Como consequência quase direta dessa falta de projeto, logo depois da vitória, muitos desses novos governos vêm enfrentando situações de ruptura e “convulsão social”, com queda rapidíssima de popularidade, uma vez que só propõem repressão e desmontagem de seus próprios Estados, sem contar com nenhum tipo de ajuda dos EUA que não seja policial ou militar, com exceção da Argentina, que foi salva da falência pela intervenção financeira direta dos EUA.

Pelo contrário, quase todos esses novos vassalos norte-americanos foram penalizados com a imposição das tarifas de Donald Trump, que reduziram seu acesso aos mercados norte-americanos. E mesmo no caso da catástrofe venezuelana recente, os EUA não forneceram nenhuma ajuda excepcional, nem mesmo se dispuseram a suspender ou aliviar suas sanções que paralisam a capacidade de ação do governo venezuelano.

Além disso, apesar de sua suposta unidade ideológica, esses novos governos de direita e extrema-direita carecem de qualquer tipo de unidade ou objetivo estratégico comum. E o mais provável, na próxima década, é que sigam na condição de pequenos Estados com economias “primário-exportadoras” isoladas e irrelevantes do ponto de vista geoeconômico — e mais ainda, do ponto de vista das grandes questões da geopolítica mundial.

O Brasil é uma grande exceção nesse quadro declinante do continente sul-americano. É o quinto maior país do mundo, e sua economia inclui-se entre as 10 maiores do sistema capitalista. No início do século passado, era um país agrário, com um Estado fraco e fragmentado, e com um poder econômico e militar muito inferior ao da Argentina. Hoje, na terceira década do século XXI, o Brasil possui um produto que representa cerca de 50% do PIB total do continente sul-americano, é o país mais industrializado da América do Sul, e o principal player internacional do continente sul-americano.

Além disso, é o país do continente com maior potencial de crescimento, se tomarmos em conta seu território, população, capacidade de produção agrícola e dotação de recursos energéticos, de minerais estratégicos e de “terras raras” (com a segunda maior reserva do mundo). Dispõe de uma matriz energética limpa e de uma gigantesca reserva hídrica que o candidata a uma posição de destaque na chamada “quarta revolução industrial”, comandada pelos avanços no campo da robótica e da inteligência artificial.

No campo das relações internacionais, o Brasil mudou de rumo várias vezes nas últimas décadas. Mas com relação aos EUA, suas elites conservadoras e liberais, civis e militares têm mantido um apoio majoritário à Doutrina Monroe, desde os tempos de Joaquim Nabuco, um dos patriarcas de sua política externa. Mais recentemente, entretanto, mesmo com algumas interrupções, o governo vem construindo uma nova estratégia de inserção internacional do Brasil, lutando por aumentar seus graus de autonomia em um mundo cada vez mais “multipolar”, sem aceitar qualquer tipo de alinhamento automático com relação às Grandes Potências que dominam o sistema internacional. Foi com esta perspectiva que o Brasil se associou à China, Índia, Rússia e África do Sul, para constituir o grupo do BRICS, o bloco internacional que mais cresceu nos últimos anos, tornando-se hoje num dos maiores obstáculos ao mandonismo do governo de Donald Trump.

Esta estratégia atual do Estado brasileiro não se enquadra no “terceiro-mundismo” do século XX, nem parece ser a de um candidato apenas à liderança da “periferia mundial”, ou mesmo do chamado Sul Global. Suas posições e pronunciamentos têm apontado na direção de um universalismo cosmopolita e igualitário, e de um multilateralismo que respeita as diferenças civilizatórias e assimetrias de poder no sistema interestatal. O Brasil tem se movido entre as nações do Norte e do Sul, do Leste e do Oeste, sem fazer distinções ideológicas ou discriminar países em função de seus regimes políticos, ou pertencimentos culturais e religiosos. Além disso, o Brasil tem se oposto radicalmente a todas as tentativas de bipolarização do sistema mundial, com base em qualquer tipo de posicionamento ou estratégia das atuais Grandes Potências.

Em uma perspectiva histórica e comparativa de mais longo prazo, pode-se antecipar que, para seguir por esse caminho, o Brasil necessitará de enorme persistência e continuidade, e de uma estreita coordenação entre suas políticas externa e de defesa, e sua política econômica interna. Difícil também será o Brasil descobrir um novo caminho de afirmação de sua liderança e poder internacional, dentro e fora da América do Sul, que não utilize a mesma arrogância e violência que europeus e norte-americanos empregaram para conquistar, submeter e “civilizar” suas colônias e protetorados.

Por tudo e com tudo, não há dúvida de que a grande batalha geopolítica sul-americana será travada no Brasil neste segundo semestre de 2026. Nesse embate, o Brasil precisa ter claro que é próprio dos impérios desrespeitar sistematicamente as fronteiras dos Estados nacionais, e que países que têm projetos autônomos lutam permanentemente por suas soberanias.

Soberania não é algo estático nem definitivo, é uma condição que se conquista exercendo-a e defendendo-a continuamente, sem jamais considerá-la assegurada, nem mesmo pelo Direito Internacional ou pelas instituições multilaterais que vêm sendo sistematicamente atacadas e desrespeitadas. O Brasil vem enfrentando uma disputa em defesa de sua soberania, contra um poder assimétrico e imperial, e contra setores de sua própria elite civil e militar, que é “binária” e subserviente por sua própria natureza, incapaz de entender a complexidade do mundo contemporâneo.

Trata-se de uma conjuntura extremamente complexa e desafiadora, mas é também a hora em que o Brasil poderá abandonar sua longa dependência externa, assumindo seu próprio comando, dentro do sistema mundial e frente à história da humanidade.

terça-feira, 21 de julho de 2026

La furia de la naturaleza frente a la ignorancia y la arrogancia

Adolfo Estrella
El Desconcierto

La naturaleza está asediada y pocos son los que la defienden con convicción, rotundidad y vehemencia. Por eso ella, sola, resiste y se rebela con furia.

La naturaleza está iracunda. Tras siglos de daño acumulado que han modificado con profundidad y dramatismo sus flujos y ciclos, en Chile y en todo el planeta Tierra, la naturaleza se rebela. Sus metabolismos energéticos llevan tiempo alterados por la acción humana. La naturaleza está siendo asediada y responde con rabia frente a los ataques.

Lo que se ha alterado son los equilibrios de sus ecosistemas, hasta el punto de que las posibilidades de volver a muchos de sus estados metabólicos anteriores son nulas. El daño está hecho y, en muchas de las dimensiones de la vida sobre el planeta, ya no hay marcha atrás. Al caos climático se añaden el agotamiento energético, la contaminación generalizada y la pérdida de biodiversidad. Todo esto está estudiado, modelizado y publicado. «El que tenga ojos para ver, que vea; y el que tenga oídos para escuchar, que oiga».

Mientras una parte importante de la geografía chilena se ahoga con lluvias torrenciales, en Europa la población resiste como puede temperaturas inéditas y mortales. Desde hace años se repite lo mismo: los indicadores de temperatura de los océanos, de pluviosidad, de sequías, de huracanes y de muchos otros fenómenos alcanzan valores «nunca vistos». Los umbrales se ven sobrepasados continuamente y las anomalías del clima se han vuelto «normales».

En Chile, esta reciente avalancha de agua se fue creando a miles de kilómetros de distancia, viajó por los mares australes y chocó con la cordillera de los Andes. Y el agua bajó por los cauces por los que siempre ha bajado y allí se encontró con tierras resecas, no absorbentes, y con la mezcla fatal de especulación inmobiliaria y políticas de planificación y adaptación insuficientes. Y, por supuesto, también se encontró con viejas y nuevas pobrezas vergonzantes de un país profundamente clasista y desigual, que, sin embargo, ha elegido como gobernantes a los peores.

Con furia responden los ecosistemas a las agresiones antrópicas, es decir, a las causadas por la acción humana mediada por un sistema de producción y consumo depredador. Esto no es parte de ningún «ciclo natural», como quieren hacernos creer los negacionistas de todo pelaje. La evidencia científica muestra, sin ambigüedad, la profundidad de los daños y a sus responsables.

Curiosamente, los mismos que niegan el caos climático son los que aceptan con toda naturalidad y confianza las previsiones del tiempo para verificar las condiciones de su viaje a la playa el fin de semana. Pero sucede que los modelos de previsión del tiempo (a plazo corto) y del clima (a plazo largo) tienen el mismo sustento estadístico y probabilístico. Es la misma ciencia, la misma técnica y el mismo cálculo.

La naturaleza es un complejo mecanismo de acciones y retroacciones: los eventos producen efectos y estos vuelven sobre sus causas. No hay linealidad en las dinámicas naturales. Y hay umbrales que ya se han cruzado sin vuelta atrás. Por ello, las acciones de adaptación son más relevantes que las de mitigación en un país como Chile, cuya contribución neta al efecto invernadero es mínima.

La agresión a la naturaleza promovida por la voracidad expansionista del capital tiene en Chile, en la figura de Vicente Pérez Rosales, su epítome, quien fue nombrado «agente de colonización» en 1850. Para recibir en el sur a colonos alemanes, transformó extensos y húmedos bosques de la zona en tierras de labranza. En sus memorias relata cómo, en determinada época, alrededor del lago Llanquihue el sol estuvo «empañado» durante tres meses como efecto de los fuegos que había ordenado iniciar, quemando «las selvas que ocupaban gran parte del Valle Central al sudeste de Osorno».

La ceguera frente a la naturaleza alcanza, con los actuales gobernantes, niveles que hacen probablemente sonrojar a cualquier niño que haya recibido unas pocas clases de ecología básica. Decir que el agua de los ríos «se pierde en el mar» o que los proyectos extractivos y la especulación inmobiliaria son más importantes que las «arañitas» o los humedales es una muestra vergonzosa, entre muchas otras, de la mezcla perversa de ignorancia y arrogancia a la que nos tienen acostumbrados los dueños del país.

Pero esto es la caricatura de lo que sucede prácticamente en toda la clase política, incluso con las llamadas izquierdas y centroizquierdas, que no han salido nunca del modelo productivista-extractivista ni de la defensa irreflexiva del políticamente correcto «desarrollo sostenible». La naturaleza está asediada y pocos son los que la defienden con convicción, rotundidad y vehemencia. Por eso ella, sola, resiste y se rebela con furia.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Triunfo electoral de Lula se sigue consolidando

Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

Las encuestas de opinión electoral de los últimos meses están confirmando el triunfo de Lula tanto en la primera como en la segunda vuelta. Por ejemplo, en el estudio del mes de julio realizado por la agencia Quaest, se refleja que la distancia entre Lula y Flávio Bolsonaro viene aumentando gradualmente en las sucesivas mediciones. Si en mayo ambos candidatos estaban técnicamente empatados -con 42 y 41% respectivamente-, en esta reciente encuesta Lula da Silva abre una ventaja de 8 puntos sobre su adversario, con un 45% de apoyo para el actual mandatario y un 37% para el primogénito de ex presidente Jair Bolsonaro.

Según diversos analistas, la tendencia es que esta preferencia del electorado brasileño se siga robusteciendo, sobre todo después de la conducta errática que demuestra Flávio Bolsonaro con relación a temas relevantes para los ciudadanos de este país. En su reciente viaje a Washington, el candidato de la extrema derecha tuvo una participación lamentable frente al Escritorio de la Representación Comercial de Estados Unidos (USTR), exponiendo en un breve discurso que no sería conveniente que el gobierno de Donald Trump aplique sus alzas tarifarias al Brasil antes de las elecciones, pues ello acabaría beneficiando la candidatura del actual presidente Lula da Silva.

El absurdo de este discurso, es que la mayoría de los electores saben que fue el propio Flávio y su hermano Eduardo Bolsonaro, quienes sugirieron la aplicación de mayores tarifas al gobierno de Lula como una manera de presionar al Poder Judicial para que dejara sin efecto la condenación contra su padre, Jair Bolsonaro. Usando los datos de algunas empresas de estudios de opinión, Flávio señala que Lula estaría ampliando su ventaja cada vez más sobre él, en función de la aplicación de las nuevas tarifas anunciadas por la administración norteamericana.

Entonces, el senador sugiere que el gobierno Trump sería el principal culpable de su declinio sistemático en las preferencias de los electores brasileños en los meses recientes. Y ahora desea aparecer como el mentor de una solución al problema tarifario que el mismo ha creado, junto con su hermano y un grupo de lobistas brasileños radicados en Estados Unidos. En síntesis, el argumento del hijo mayor de Bolsonaro no es que el aumento de las tarifas sea negativo porque compromete la economía y el intercambio comercial de Brasil, sino que es nefasto porque está ayudando a que Lula se reelija para un cuarto mandato.

Además, en su discurso de Washington, Bolsonaro le achaca al gobierno brasileño todos los males y desafectos creados entre ambos países, como parte de un proyecto para desprestigiar a las instituciones de Estados Unidos. Entre las iniciativas “agresivas” de Brasil, estaría la defensa del etanol o las disputas creadas en torno a la existencia del sistema de pagos alternativo (Pix), elaborado por técnicos del Banco Central hace años atrás. También entran en estas desavenencias la regulación de las big techs, las que, en rigor, han sido aplicadas fundamentalmente por la Justicia brasileña y no por la actual gestión del presidente Lula. La impostura sobre estas cuestiones por parte de un oportunista Flavio Bolsonaro es tan fragrante, que una mayoría significativa de los ciudadanos ven en estas acusaciones un simple “volador de luces” que busca camuflar los casos de corrupción que involucran al clan Bolsonaro con las estafas del Banco Master y las estrechas relaciones entre Flavio con su dueño, el empresario Daniel Vorcaro, actualmente en un presidio Federal (Flavio Bolsonaro, el desplome de un corrupto).

Misoginia bolsonarista compromete campaña de Flávio

La apuesta del bolsonarismo por captar la adhesión de gran parte del mundo evangélico se asentaba en el presupuesto básico de que los llamados “creyentes” se inclinan preferencialmente por candidatos conservadores y escasamente votan por representantes de la izquierda. Lo cierto es que dicha apuesta simple y directa le ha dado frutos electorales, hasta ahora, a los grupos de extrema derecha que dicen enarbolar las banderas de defensa de los valores basados en la triada Dios, Patria y Familia.

Sin embargo, las disputas al interior del bolsonarismo, entre la ex primera dama, Michelle, y el hijo primogénito del patriarca de la familia Bolsonaro, han venido mermando sostenidamente el apoyo del candidato Flávio. Las declaraciones misóginas del senador y algunos de sus asesores provocaron la ruptura dentro del clan, y la propia Michelle Bolsonaro ha acusado recientemente al hijo mayor del ex capitán de despreciarla públicamente, no tomar en cuenta sus opiniones y boicotear sus políticas de alianzas en los diversos reductos electorales existentes a lo largo del país.

Las afirmaciones de un importante asesor de Flavio Bolsonaro que reside en Estados Unidos, Paulo Figueiredo –nieto del último dictador militar Joao Batista Figueiredo- puso más leña en esta embestida misógina de la extrema derecha. Según él, las mujeres no saben votar o votan muy mal, especialmente las solteras que no están bajo el alero y la influencia de los maridos que orientarían oportunamente a las mujeres casadas para votar mejor. Estas ideas se inspiran en viejas premisas planteadas por un pastor pentecostal norteamericano, Douglas J. Wilson, defensor del denominado “patriarcado bíblico”, quien señalaba que el voto individual debería ser substituido por el voto domiciliar, es decir, el voto debería ser emitido por el conjunto de la familia liderada por el marido o por el "jefe del hogar".

Esta norma que parece anecdótica y extemporánea en nuestra época, es asumida bizarramente por parte de esa derecha retrógrada que desea ver a las mujeres todavía dedicadas exclusivamente a tareas de la casa y la reproducción, ocupando un papel subalterno y decorativo dentro de la familia. El bolsonarismo aspira a que las mujeres sean aquel sustento dócil, recatada y obediente que apoya incondicionalmente a los hombres que toman las decisiones, aunque dichas decisiones sean completamente erradas. Esta teología patriarcal no busca más que mantener el sometimiento de las esposas y garantizar el predominio sin contestación de la dominación masculina. El proyecto es tan atrasado que hasta una fuerte adherente al mundo pentecostal y conservador como Michelle Bolsonaro, encontró que estaba siendo tratada con menosprecio y falta de respeto.


El video que difundió Michelle en las redes sociales cayó como una bomba en el Partido Liberal, al cual pertenece, y fue presionada para renunciar a su cargo de presidenta del PL Mujer. Este puesto le había permitido obtener mayor protagonismo en la política brasileña, poniendo en riesgo los intereses electorales de Flávio en estas elecciones y comprometiendo su liderazgo como el heredero legítimo del espolio electoral de Jair Bolsonaro. Las huestes bolsonaristas que destilan su odio en las redes sociales han llamado a Michelle de “fanática feminista”, cuando ella se ha definido durante toda su trayectoria pública como una mujer conservadora, obediente y sierva de Dios.

Los ataques recibidos por Michelle después de la difusión del video fueron respondidos por una onda de solidaridad por parte del mundo evangélico y del electorado femenino, lo cual debería disminuir aún más el apoyo a Flavio Bolsonaro en estos segmentos de votantes en la próxima contienda. Es decir, la estrategia errática del candidato Flavio y las divisiones internas de su base política, sumada a las diversas cuentas pendientes que posee con la justicia brasileña (rachadinhas, vínculo con milicianos, caso Banco Master), diseña un escenario cuesta arriba para el representante de la derecha en la recta final del pleito electoral.

Sin un programa claro de gobierno, sus participaciones en la esfera pública se han reducido a la defensa de su padre y a presentarse como una víctima de los intereses políticos de una izquierda radical, en una narrativa poco convincente, excepto para el bolsonarismo raíz. Pensando a nivel nacional, muy poco para un aspirante a presidente. Por estos y otros motivos, consideramos que, de no suceder algo extraordinario en los próximos dos meses, la tendencia hacia la reelección del actual presidente Lula se va afianzando cada vez con mayor contundencia.

sábado, 11 de julho de 2026

55 años de la Nacionalización del Cobre


La Nacionalización del Cobre en Chile (Ley N° 17.450) fue aprobada por unanimidad en el Congreso el 11 de julio de 1971. Este proceso histórico impulsado por el presidente Salvador Allende permitió al Estado chileno asumir el dominio absoluto de los principales yacimientos cupríferos, consolidando su soberanía económica.

Friedrich Engels nos mostró cómo hacer historia


Paul Blackledge
Jacobin

Una caricatura retrata a Friedrich Engels como un ultradeterminista que presentó a los seres humanos como marionetas de las fuerzas económicas. En realidad, sus escritos históricos fueron sutiles y sofisticados, y mostraron de qué manera la agencia humana puede cambiar el curso de la historia.

Existe un mito según el cual Friedrich Engels distorsionó la teoría social revolucionaria de Karl Marx hasta convertirla en una forma de determinismo tecnológico políticamente fatalista. Si bien es posible extraer frases fuera de contexto para justificar esta afirmación, la verdad es que Engels era un pensador sumamente sofisticado, con un conocimiento enciclopédico de la historia, que colocó a la agencia humana consciente en el centro de su comprensión del proceso histórico. Si bien entendía que la agencia humana estaba materialmente determinada, su modelo de determinación no era en absoluto mecánico ni reduccionista.

E.P. Thompson tenía, sin lugar a dudas, razón cuando sostuvo que debíamos precavernos de los intentos de convertir a Engels en el «chivo expiatorio» de cualquier defecto «que se elija imputarle al marxismo posterior». Y Perry Anderson, con justicia, torció el bastón hacia el lado contrario frente a los intentos de denigrar el legado de Engels, cuando sugirió que en realidad era un historiador más sólido que Marx: «Los juicios históricos de Engels son casi siempre superiores a los de Marx. Poseía un conocimiento más profundo de la historia europea, y tenía una comprensión más segura de sus estructuras sucesivas y salientes».

El nacimiento del materialismo histórico

En sus propios comentarios, eminentemente sensatos, sobre el método que él y Marx desarrollaron, Engels hizo una observación que se ha vuelto célebre:

Si algunos escritores más jóvenes le atribuyen al aspecto económico más importancia de la que le corresponde, Marx y yo somos en cierta medida responsables de ello. Tuvimos que subrayar este principio rector frente a los adversarios que lo negaban, y no siempre tuvimos el tiempo, el espacio o la oportunidad de hacerles justicia a los demás factores que interactuaban entre sí. Pero la cuestión era distinta cuando se trataba de retratar una sección de la historia, es decir, de aplicar la teoría en la práctica, y ahí no era admisible ningún error.

Para Engels, «el factor determinante en la historia es, en última instancia, la producción y reproducción de la vida real». Sin embargo, insistía, «si alguien distorsiona esto declarando que el momento económico es el único factor determinante, convierte esa proposición en una jerga abstracta, ridícula y carente de sentido».

Lamentablemente, a lo largo del último siglo y más ha existido toda una industria artesanal empeñada en distorsionar las proposiciones de Marx y Engels hasta convertirlas en piezas de jerga abstractas, ridículas y carentes de sentido. Esto es particularmente cierto en lo que respecta a los escritos de Engels. La calumnia que se le ha arrojado encima puede estar relacionada con el hecho de que no solo acuñó el término «materialismo histórico», sino que también, podría decirse, inventó su práctica a través de su autoría de la primera obra de historia «marxista»: La guerra campesina en Alemania (1850).

Producido sobre el trasfondo de las revoluciones derrotadas de 1848, este estudio estaba destinado tanto a aportar evidencia de una auténtica tradición revolucionaria alemana como a contrarrestar las tendencias moralistas y voluntaristas presentes entre los fragmentos de la izquierda revolucionaria derrotada. Mientras que el padre de la historia positivista moderna, Leopold von Ranke, hizo la afirmación superficial y mística de que el levantamiento campesino de 1525 había surgido como una «convulsión de la naturaleza», Engels trató a todos los personajes principales como agentes racionales, cuyo comportamiento podía comprenderse mejor mediante un análisis en profundidad de sus contradictorios intereses materiales, enraizados en las relaciones sociales contemporáneas.

Su intención era captar la esencia social subyacente del movimiento revolucionario por debajo de su apariencia superficial de mera explosión de misticismo religioso. Estructura y agencia no son, según este modelo, opuestos: de hecho, son mutuamente constitutivas. Su afirmación de que las revoluciones tienen causas profundas no es una alternativa a explorar el papel de la agencia dentro de ellas, sino más bien el prerrequisito necesario para semejante indagación.

Crítico militar

El poder de este enfoque para el estudio de la historia resulta evidente en sus escritos militares. Como observó Walter Gallie, Engels se consagró como «probablemente el crítico militar más perspicaz del siglo XIX». Comentando un ensayo de Engels sobre este tema, «Ejército» (1857), Marx escribió que había quedado «anonadado», no solamente «por el mero volumen de la obra», sino también por su calidad: la consideraba una pieza de trabajo que «demuestra lo acertado de nuestros puntos de vista en cuanto a la conexión entre las fuerzas productivas y las relaciones sociales».

Más allá de cualquier otra cosa que pueda decirse de «Ejército», no se trata de una pieza de materialismo mecánico o de determinismo tecnológico. En realidad, es un estudio magistral de la historia militar occidental desde la Antigüedad hasta la época inmediatamente posterior a Napoleón. A lo largo del ensayo, si bien Engels enmarcó su relato en relación con su contexto social, su atención a la organización, el liderazgo, la moral y la cultura iluminó la naturaleza no reduccionista de su materialismo.

Al trazar los enfrentamientos entre griegos y persas, sostuvo que la organización, el entrenamiento y el liderazgo de los griegos hicieron que las «muchedumbres torpes y desordenadas» de sus adversarios fueran «absolutamente incapaces de ofrecer nada más que una resistencia pasiva frente a la falange incipiente de Esparta y Atenas». En relación con los conflictos entre los propios griegos, explicó de manera similar la dominación de Esparta en la guerra terrestre como resultado de su organización interna.

Sin embargo, también señaló que el sistema social griego pudo sostener el servicio militar de los hombres libres porque estaba basado en la esclavitud. En Atenas, la preparación militar tomaba la forma de dos años de servicio a los dieciocho años de edad, tras lo cual el hombre libre mantenía una posición en las reservas hasta los sesenta años.

Si este sistema producía muy buenos soldados, los cuarenta años de servicio militar de los hombres de Esparta, entre los veinte y los sesenta años, aseguraban que sus hoplitas estuvieran incluso mejor entrenados. Dado que el movimiento unificado que exigía la falange solo podía dominarse mediante largos años de práctica colectiva, «mientras la falange decidía la batalla, el espartano, a la larga, llevaba la ventaja».

Un arte práctico

El matiz característico que Engels agregó a este argumento, «a la larga», junto con su atención al momento organizativo del análisis, señala el hecho de que su materialismo no era en absoluto mecánico. Tómese, por ejemplo, sus comentarios sobre la manera revolucionaria en que Epaminondas condujo a los tebanos a la victoria sobre Esparta en 371 a. C. En una innovación táctica de profundo mérito, Epaminondas decidió no enfrentar a los espartanos en una línea tradicional, sino formar un orden oblicuo cuyo punto más fuerte era una columna profunda que avanzaba contra el ala más fuerte de sus adversarios espartanos.

Esta formación novedosa quebró la línea espartana en su punto más fuerte, tras lo cual Epaminondas flanqueó a un enemigo que se había vuelto incapaz de recrear su orden táctico. Engels reconoció que el genio de Epaminondas residía en su capacidad para reconocer el poder organizativo del enemigo y cambiar sus tácticas para socavar ese poder. A partir de ese momento, como escribió en otro lugar, el liderazgo militar se convirtió en un arte «que hay que aprender teórica y prácticamente».

Si bien los macedonios perfeccionaron esta revolución táctica, la fuerza de su forma militar siguió dependiendo de un intenso programa de entrenamiento que solo era posible porque la esclavitud había liberado a su infantería de la necesidad del trabajo manual. No obstante, por mucho que se entrenaran los hoplitas, su poder no excedía al del propio sistema de la falange.

Según resultó, la característica misma que le daba a la falange su poder demostró ser la causa de su caída. Mientras que la eficacia de la falange dependía del movimiento coherente de una masa de hombres, el hecho de estar en masa significaba que la falange era relativamente inflexible.

En terreno accidentado en particular, el orden de la falange podía verse comprometido al encontrarse con un enemigo. Esto resultó ser el caso de los romanos, que fueron capaces de sacar provecho de esta falla mediante el despliegue de infantería pesada en una formación más flexible.

De la Antigüedad al feudalismo

Los romanos pudieron derrotar a los griegos gracias a sus innovaciones organizativas. Sin embargo, a medida que el Imperio Romano se expandía y se estabilizaba, el ejército tendía a perder su carácter romano. Las exigencias militares implicaron que, en lugar de esclavizar a los bárbaros derrotados para reproducir las relaciones de producción existentes, Roma reclutara en masa a esos viejos adversarios para su ejército.

Para Engels, este proceso desembocó en la gradual desromanización del ejército y en la eventual caída del imperio. Fue cuando «cesó toda distinción de equipamiento y armamento entre romanos y bárbaros» que las tribus germánicas, «física y moralmente superiores, marcharon sobre los cuerpos de las legiones no romanizadas».

La corporalidad y la moral, que habían quedado en un segundo plano mientras la organización y la táctica ocupaban el primer plano, se volvieron entonces más importantes a medida que las diferencias organizativas tendían a desaparecer. Estos cambios organizativos reflejaban la decadencia del modo de producción esclavista.

A medida que Roma se fragmentaba en el nuevo modo de producción feudal, la caballería resurgió como el factor decisivo en la guerra. Si bien los caballeros feudales que surgieron de este proceso podían vencer con facilidad a los campesinos locales sin entrenamiento, los conflictos con las fuerzas árabes durante las Cruzadas y con los mongoles en Europa oriental mostraron que estas tropas montadas no eran rivales para «los activos jinetes ligeros de Oriente».

Pese a esta debilidad, las derrotas a manos de estos jinetes ligeros no llevaron al colapso del antiguo orden. Esta transformación tuvo que esperar hasta que la emergencia de un capitalismo embrionario dentro del modo de producción feudal comenzara a crear las condiciones a través de las cuales el sistema militar feudal terminaría por desmoronarse.

Engels sostuvo que el ascenso de las ciudades y de los Estados centralizados, junto con la introducción de la pólvora proveniente de Oriente, sustentó una lenta revolución en la organización y la táctica militares. El papel de la infantería volvió a expandirse a medida que las limitaciones de la caballería se hacían cada vez más evidentes. Este proceso vio a los mosquetes convertirse en armas de guerra cada vez más poderosas a medida que los cambios tecnológicos aumentaban la velocidad de recarga.

Guerra revolucionaria

Estas innovaciones tecnológicas le dieron forma a los cambios en la táctica militar, ya que el aumento de la velocidad de recarga permitió líneas de infantería más largas y menos profundas, con una mayor cadencia de fuego. Los beneficios evidentes de esta nueva táctica crearon, sin embargo, dificultades inéditas, ya que las incómodas líneas de soldados requerían un entrenamiento incesante —recordado hoy a través de los ya obsoletos desfiles que forman parte de las paradas de dictadores y reyes—, mientras que las largas líneas delgadas presentaban puntos débiles en sus flancos.

No obstante, las fortalezas del nuevo sistema culminaron inicialmente en los abrumadores éxitos de Federico el Grande contra los austríacos. El propio Federico fue el primero en admitir que había aplicado a las condiciones modernas las lecciones aprendidas de Epaminondas y de su orden oblicuo de ataque.

Mientras que los éxitos de Federico dependían de una soldadesca bien adiestrada, apenas unos años después de su muerte la Revolución Francesa tuvo que defenderse con un ejército ciudadano relativamente sin entrenamiento, reclutado a través de las levées en masse. Este nuevo ejército ciudadano, forjado a través de la conciencia nacional, aprendió de los éxitos de las igualmente inexpertas tropas norteamericanas contra los británicos de una década antes.

Engels señaló que, al igual que los norteamericanos, las tropas francesas recién reclutadas estaban ideológicamente comprometidas con su causa pero tenían poco tiempo para dominar las complejidades del adiestramiento. En consecuencia, se inclinaron hacia las tácticas de escaramuza contra el enemigo. Por desgracia para los franceses, estos no contaban ni con los bosques vírgenes de Estados Unidos en los que podrían desvanecerse ante el enemigo, ni con su espacio interminable para la retirada. Como resultado, el ejército ciudadano francés, relativamente sin entrenamiento, necesitaba algo más que esta táctica para poder aprovechar sus nuevas armas.

Lo encontraron en la columna cerrada. Combinadas con los tiradores de escaramuza, las columnas cerradas se enfrentaban eficazmente al enemigo en línea extendida, con tropas que actuaban con flexibilidad según el contexto geográfico. Buscaban protección en el terreno accidentado y en las aldeas, y sobrevivían viviendo de la tierra.

Engels señaló dos avances tecnológicos que facilitaron esta flexibilidad. Primero, los franceses introdujeron en 1777 la culata de fusil inclinada, que permitió a sus tiradores de infantería (tirailleur) apuntarle mejor al enemigo. Segundo, aprovecharon «la cureña más liviana pero aún sólida construida a mediados del siglo XVIII», que hizo posible «la mayor movilidad exigida más tarde a la artillería».

El ascenso del fusil

Los puntos referidos a la escaramuza y a vivir de la tierra revisten una importancia cardinal para nuestra historia. En cuanto a la escaramuza, en su ensayo «Infantería» (1859), Engels sostuvo que esta práctica había sido una parte normal de la guerra desde la Antigüedad hasta la Edad Media, e incluso hasta el siglo XVII. Luego desapareció, para reaparecer recién en la Guerra de Independencia estadounidense:

Mientras que a los soldados de los ejércitos europeos, mantenidos unidos por la coacción y el trato severo, no se les podía confiar el combate en orden extendido, en Estados Unidos tuvieron que vérselas con una población que, sin entrenamiento en el adiestramiento regular de los soldados de línea, eran buenos tiradores y estaban bien familiarizados con el fusil. La naturaleza del terreno los favorecía; en lugar de intentar maniobras para las que en un principio eran incapaces, cayeron inconscientemente en la escaramuza. Así, el enfrentamiento de Lexington y Concord marca una época en la historia de la infantería.

Estos cambios tácticos sustentaron una demanda de revolución en la tecnología militar. En su «Historia del rifle» (1861), Engels señaló que el fusil era un producto de la tecnología alemana del siglo XV que apenas había visto mejoras en su construcción antes del siglo XIX.

Hasta ese momento, los fusiles eran más precisos que los mosquetes de ánima lisa hasta una distancia máxima de alrededor de 350 a 450 metros, pero también eran más complejos de fabricar y considerablemente más lentos de recargar. En consecuencia, los mosquetes de ánima lisa constituían el grueso de las armas de fuego de la infantería y la caballería. Y aunque los ejércitos europeos siguieron usando fusiles, su despliegue fue muy limitado y en gran medida irrelevante para el desenlace de las batallas.

Sin embargo, las cosas cambiaron con el resurgimiento de la escaramuza en las guerras revolucionarias estadounidense y francesa. En lugar de ejércitos que se enfrentaban predominantemente en líneas, «de ahí en adelante se introdujo el orden extendido en cada enfrentamiento; la combinación de tiradores de escaramuza con líneas o columnas se convirtió en la característica esencial del combate moderno».

Como señala Engels, el grueso de las municiones se gastaba durante las escaramuzas, dirigido contra blancos que «rara vez eran más grandes que el frente de una compañía; en la mayoría de los casos, debían disparar contra hombres solos, bien ocultos por objetos de cobertura. Y sin embargo, el efecto de su fuego es de suma importancia». Mientras que los viejos mosquetes eran prácticamente inútiles en esta nueva forma de guerra, los fusiles existentes resultaban casi igual de inadecuados, porque eran demasiado lentos de recargar y, como consecuencia de la dificultad asociada a forzar las balas por cañones más largos, demasiado cortos para ser usados con bayoneta.

Estas deficiencias hacían que los soldados armados con fusiles fueran vulnerables al ataque, ya sea de infantería con bayonetas o de caballería. En estas circunstancias, escribió Engels, «el problema se presentó de inmediato: inventar un arma que combinara el alcance y la precisión del fusil con la rapidez y la facilidad de carga y con la longitud de cañón del mosquete de ánima lisa». Un arma semejante tendría que ser «apta para ser puesta en manos de todo soldado de infantería».

La marcha con el estómago lleno

La demanda de fusiles rayados generada por esta revolución en el arte de la guerra sustentó la transformación revolucionaria del fusil a lo largo del siglo XIX. Engels puso patas para arriba al determinismo tecnológico:

Con la propia introducción de la escaramuza en la táctica moderna, surgió la demanda de un arma de guerra así perfeccionada. En el siglo XIX, cada vez que surge una demanda de algo, y esa demanda está justificada por las circunstancias del caso, es seguro que será satisfecha.

El resto del ensayo es un relato sofisticado del desarrollo acumulativo del fusil después de 1828. En «La táctica de infantería y sus fundamentos materiales, 1700-1870» (1877), describió cómo el uso generalizado de los fusiles de retrocarga en la guerra franco-prusiana llevó a que las columnas fueran reemplazadas por cadenas compactas de tiradores de escaramuza, porque las primeras se habían convertido en un blanco demasiado fácil para las nuevas armas.

En cuanto a la cuestión de vivir de la tierra, Engels vinculó este punto con el de la innovación tecnológica a través del concepto de la productividad del trabajo. Si Federico abrió la puerta a una revolución en el arte de la guerra, fue Napoleón quien profundizó masivamente esta revolución en materia de movilidad, al dividir a la Grande Armée en corps d’armée que podían actuar como fuerzas militares relativamente autosuficientes.

Cada corps d’armée era lo suficientemente grande y complejo como para llevar el combate al enemigo, a la vez que lo bastante pequeño como para sostenerse a sí mismo viviendo de la tierra, de un modo que reducía sus líneas de suministro y aumentaba su velocidad. Napoleón, célebremente, combinó velocidad con masa manteniendo a cada corps d’armée a solo un día de marcha de distancia entre sí. Podían engañar a sus enemigos respecto de su objetivo previsto, a la vez que conservaban la capacidad de unirse cuando fuera necesario para enfrentar al enemigo: «Marchar divididos, combatir unidos», como escribió en una frase que recordaría Vladimir Lenin en sus argumentos a favor de la táctica del frente único.

Según Engels, el sistema militar de Napoleón estaba supeditado al desarrollo previo de las fuerzas productivas. Pese a la controversia que rodea este aspecto de la teoría marxista, en este caso al menos parece tratarse de puro sentido común. Si los franceses eran «casi invencibles» pero aun así en ocasiones vulnerables, incluso en su apogeo, esto no se debía simplemente a las vicisitudes de los líderes locales. También se debía a que su estilo de guerra móvil dependía de la capacidad de los soldados para vivir de la tierra.

Como señaló Engels en «Condiciones y perspectivas de una guerra de la Santa Alianza contra Francia en 1852» (1851), los aumentos previos y de largo plazo en la productividad del trabajo agrícola fueron el prerrequisito para el éxito de este enfoque, lo que lo hacía «imposible durante un período prolongado en un país pobre, semibárbaro y escasamente poblado». Por eso los ejércitos franceses «perecieron lentamente en España, y rápidamente en Rusia».

El hilo ininterrumpido

En ese mismo ensayo, Engels sostuvo que las dos características clave del sistema napoleónico —su carácter de masa y su movilidad— eran productos de la emergencia del capitalismo: «La guerra moderna presupone la emancipación de la burguesía y del campesinado; es la expresión militar de esa emancipación». Al especular sobre las posibles consecuencias de una nueva Revolución Francesa, planteó el argumento materialista de que nuevos desarrollos en las fuerzas productivas —específicamente el uso generalizado del telégrafo y la expansión de los ferrocarriles por Europa occidental— estaban volviendo «cada día más imposible» el dominio ruso.

No obstante, Engels seguía subrayando el punto no reduccionista de que cualquier esperanza que se pudiera depositar en una Francia revolucionaria en su lucha contra la Rusia contrarrevolucionaria «presupone que habrá un buen ministro de Guerra». Reiteró su visión sobre la importancia del liderazgo militar al abordar los éxitos de la levée en masse.

Engels sostuvo que los éxitos iniciales de los reclutas bisoños de Francia dependían de la existencia de un núcleo de soldados experimentados en torno al cual se organizaban. Es más, las victorias francesas en las primeras guerras revolucionarias de la década de 1790, en particular sobre los prusianos y los austríacos en Valmy en 1792, fueron consecuencia no tanto de la pericia y el entusiasmo franceses como de la incompetencia alemana.

Todos estos argumentos ponen en evidencia un punto clave: la visión de Engels sobre la centralidad de la agencia humana históricamente constituida en la fabricación de la historia. Como señaló Marx en sus comentarios sobre «Army», Engels no redujo la historia humana a un relato de avance tecnológico, sino que desplegó su comprensión de esos avances como el medio para una comprensión rica de la agencia humana, a través de la cual pudo dar sentido al núcleo racional del voluntarismo evitando al mismo tiempo su superficialidad.

Con palabras que parafrasean la solución formal que da Marx a la relación entre estructura y agencia en El dieciocho brumario de Luis Bonaparte, Engels escribió:

Los hombres hacen su propia historia, sólo que en medios dados que la condicionan, y sobre la base de relaciones reales ya existentes, entre las cuales, las relaciones económicas —por mucho que puedan ser influidas por las políticas e ideológicas— siguen siendo las que deciden en última instancia, constituyendo el hilo rojo que las atraviesa y que es el único que conduce a comprender las cosas.

Los escritos históricos de Engels dan vida a esta relación. Al hacerlo, ofrecen un recurso poderoso para cualquiera que quiera dar sentido a la historia de un modo que escape a las triviales superficialidades de buena parte del trabajo histórico y político contemporáneo.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A gazaficação do Líbano

Ayoub Khan
Jacobina

Do deslocamento em massa ao ataque indiscriminado contra civis, a ofensiva de Israel no sul do Líbano apresenta as mesmas características da destruição de Gaza - e com a mesma cumplicidade internacional.

Desde que Israel retomou seu ataque ao Líbano em 2 de março, mais de 1,2 milhão de pessoas foram deslocadas e mais de 2.500 acabaram mortas. Comunidades inteiras foram expulsas de suas casas. Vilarejos foram arrasados. Famílias ficaram sem nada, sem ter para onde voltar. Ao longo da chamada “linha amarela” -a zona militarizada que corta o sul do Líbano- moradores descrevem-se como abandonados, presos entre bombardeios contínuos e sem qualquer proteção significativa. Enquanto isso, os perpetradores documentam tudo para o mundo ver.

O que estamos testemunhando agora é a “gazificação” do Líbano: destruição em larga escala da infraestrutura civil, deslocamento em massa e operações militares contínuas em áreas povoadas, juntamente com o uso indiscriminado de fósforo branco. As Nações Unidas alertaram que os ataques de Israel no Líbano podem já constituir graves violações do direito internacional humanitário. No entanto, até o momento, não houve nenhum esforço internacional sério para deter essa onda de destruição, assim como não houve nenhuma tentativa coordenada significativa para impedir o genocídio em Gaza. O governo do Reino Unido não fez nada para acabar com o delírio de Israel de que pode agir impunemente.

Este é precisamente o tipo de situação que a Carta da ONU foi concebida para evitar — impondo limites ao uso da força e tornando a proteção da paz e da segurança internacionais uma obrigação fundamental. O direito internacional humanitário existe para garantir que, mesmo em tempos de guerra, haja certos limites que não podem ser ultrapassados. É impossível observar o que está acontecendo no sul do Líbano e concluir que esses princípios estão sendo respeitados.

O Reino Unido é signatário das Convenções de Genebra e está vinculado pelo Artigo 1º Comum, que exige não apenas que os Estados cumpram o direito internacional, mas também que tomem medidas para garantir que outras nações o façam. O direito internacional não se impõe sozinho. Ele depende da disposição dos Estados em defendê-lo quando suas normas estão ameaçadas. No entanto, em vez de tomar medidas significativas, o governo trabalhista se limita a emitir declarações tímidas de “preocupação”, apelos à “moderação” e pedidos de “desescalada”, como se tudo isso fosse uma questão de imagem, e não de direito — ou mesmo de princípios morais básicos.

Uma resposta juridicamente coerente ao ataque de Israel ao Líbano exigiria uma abordagem completamente diferente: a imposição de sanções eficazes; a suspensão das exportações de armas; o apoio a investigações internacionais sobre potenciais crimes de guerra; e a tomada de medidas concretas para garantir um cessar-fogo real, em oposição a um cessar-fogo ilusório que permite aos israelenses continuarem seus bombardeios e o deslocamento em massa de civis. Exigiria também o cumprimento das fronteiras internacionalmente reconhecidas, que as Forças de Defesa de Israel (IDF) transgridem repetidamente.

O Líbano não pode ser tratado como uma crise isolada. Reflete um colapso mais amplo nas estruturas do direito internacional. Os princípios jurídicos são agora invocados retoricamente, mesmo quando os Estados devastam populações civis sem qualquer responsabilização. Se isso continuar, as consequências irão muito além do Líbano, corroendo as proteções legais das quais os civis em todo o mundo dependem em tempos de guerra. O governo do Reino Unido não sofre de falta de conhecimento. Sabe perfeitamente o que está acontecendo. Sua falha reside na falta de coragem política básica.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

A "panteonização" de Marc Bloch

Fábio Fonseca de Castro
A Terra é Redonda

Sua reflexão histórica jamais foi construída na tranquilidade das bibliotecas; ela foi atravessada pela experiência concreta das crises políticas e das guerras

Qual o lugar dos intelectuais em tempos de regressão democrática? A “panteonização” do historiador, soldado e resistente Marc Bloch, dia 23 de junho último, conduz, naturalmente, a essa pergunta. E, a ela, outra pergunta se segue: O que a “panteonização” de Marc Bloch, especificamente, ensina – ou sugere?

Partamos do conceito de “panteonização”. Essa palavra, que faz parte do quotidiano da vida francesa, não é um conceito corrente no Brasil. Trata-se, empiricamente, de ter os despojos mortuários trasladados para a Igreja de Sainte-Généviève, centro de Paris, conhecida como Panthéon – do grego pan theoin, templo de todos os deuses, lugar onde se sepultam os grandes nomes de uma pátria. Os franceses levam, para lá, sempre com grande pompa, os restos mortais – ou os cenotáfios – dos grandes nomes da sua história. Voltaire, Jean- Jacques Rousseau, Victor Hugo, Marie Curie, Denis Diderot e tantos outros, estão lá. É uma grande dignidade ser recebido no Panthéon.

No dia 23 de junho de 2026, a França conduziu Marc Bloch ao Panthéon. O gesto ocorreu oitenta e dois anos depois de sua prisão pela Gestapo e de seu fuzilamento, em Lyon, 18 de junho de 1944, ao lado de outros resistentes franceses. A cerimônia, acompanhada pela entrada simbólica de sua esposa, Simonne Vidal, militante como ele e sua companheira de vida e de pesquisa científica, foi apresentada como uma homenagem republicana a um dos maiores historiadores do século XX.

Mas seria um equívoco entendê-la apenas como uma reparação histórica. O Panthéon, de fato, nunca acolhe apenas os mortos. Ele organiza uma memória pública. Cada nova incorporação redefine aquilo que a República pretende afirmar sobre si mesma e sobre o seu tempo. Mais do que celebrar indivíduos, o monumento constrói uma narrativa sobre os valores que a França – ou uma certa França – considera dignos de permanência. Por isso, toda “panthéonisation” é também um gesto político.

A escolha de Marc Bloch talvez seja uma das mais eloquentes das últimas décadas. Em um contexto marcado pelo crescimento da extrema direita, pela confusão propositada entre sionismo e antissemitismo, pela circulação industrial da desinformação e pela crise das instituições democráticas, a República francesa decidiu elevar, justamente, um historiador judeu, resistente ao nazismo, fundador da historiografia contemporânea e defensor intransigente da verdade histórica.

Um republicano antes de ser historiador

Marc Bloch nasceu em 1886, em uma família judaica alsaciana profundamente identificada com os valores da República. A decisão de seus familiares de permanecer franceses após a anexação da Alsácia pelo Império Alemão, em 1871, não representava apenas uma escolha nacional. Tratava-se de uma adesão a um projeto político fundado na cidadania republicana, na laicidade e na universalidade dos direitos.

Seu pai, Gustave Bloch, era um historiador reconhecido, pesquisador da antiguidade. O ambiente familiar foi marcado pelo culto ao conhecimento, pela confiança na escola pública e pelo compromisso com a República, valores reforçados pela experiência do Caso Dreyfus, que revelou como o antissemitismo podia corroer as instituições democráticas.

Essa formação ajuda a compreender um aspecto fundamental de sua trajetória. Antes mesmo de se tornar um grande historiador, Marc Bloch já compreendia que conhecimento e responsabilidade pública não podiam ser separados.

A formação do historiador

Sua passagem pela École Normale Supérieure, assim como os seus estudos em Berlim e Leipzig, colocaram-no em contato com o que havia de mais sofisticado na historiografia europeia. Da tradição alemã, absorveu o rigor documental; da tradição francesa, herdou a preocupação com a síntese histórica. Mas Marc Bloch faria algo que poucos conseguiram: ultrapassaria ambas.

Ao lado de Lucien Febvre, fundou em 1929 a revista Annales d’histoire économique et sociale. Mais do que uma revista, tratava-se da formulação de um novo programa científico. Até então, a história privilegiava governos, batalhas, tratados diplomáticos e biografias de “grandes homens”. Marc Bloch deslocou radicalmente o olhar das ciências da história. A verdadeira matéria da história passou a ser a vida social: as formas de trabalho, as crenças, os imaginários, os costumes, as técnicas, as paisagens, as temporalidades e as maneiras pelas quais diferentes sociedades constroem seus mundos. Não era apenas uma ampliação temática. Era uma redefinição epistemológica.

A pergunta deixava de ser “o que aconteceu?” para tornar-se “como vivem os homens no tempo em que tal coisa aconteceu?”. Essa mudança modificou profundamente não apenas a história, mas todo o campo das ciências humanas. A antropologia histórica, a história das mentalidades, a micro-história, a história cultural, a história ambiental e, em grande medida, a própria renovação da sociologia histórica encontram em Bloch um de seus principais pontos de partida.

Existe uma característica frequentemente esquecida de Marc Bloch: ele foi também um homem de guerra. Combateu na Primeira Guerra Mundial durante quatro anos. Alistou-se voluntariamente aos 28 anos, sem ter sido convocado, terminando o conflito como capitão, condecorado diversas vezes por bravura.

Mais impressionante ainda foi sua decisão de voltar ao exército em 1939. Aos cinquenta e três anos, já reconhecido internacionalmente como historiador, pai de seis filhos e sofrendo de problemas graves de saúde, insistiu em ser novamente mobilizado.

Essa experiência alteraria profundamente sua compreensão da história. Longe de produzir uma história distante dos acontecimentos, Marc Bloch sabia que compreender o passado exigia também experimentar a intensidade do presente. Sua reflexão histórica jamais foi construída na tranquilidade das bibliotecas; ela foi atravessada pela experiência concreta das crises políticas e das guerras.

O resistente

A derrota francesa de 1940 produziu um de seus livros mais extraordinários: A estranha derrota. Escrito poucos meses depois da capitulação, o livro não procura culpados individuais. Marc Bloch faz aquilo que sempre ensinou a fazer: procura compreender as estruturas profundas que produziram o desastre.

A derrota militar aparece como consequência de uma derrota intelectual. As elites francesas haviam perdido a capacidade de compreender o mundo em transformação. Permaneceram presas às categorias da guerra anterior, incapazes de imaginar o novo. Essa análise continua surpreendentemente atual. As sociedades raramente sucumbem apenas porque seus adversários são fortes. Frequentemente fracassam porque suas próprias elites deixam de compreender o presente.

Pouco depois, Marc Bloch ingressaria na Resistência. Não houve ruptura entre o historiador e o resistente. O combate político foi consequência direta de sua concepção de verdade. Para alguém que definia o historiador como aquele que busca compreender os homens em sua complexidade, o nazismo representava precisamente a negação radical dessa humanidade plural. Por isso resistir era também continuar exercendo seu ofício.


A atualidade de Marc Bloch

Tudo isto colocado, retornamos às duas questões com as quais abrimos este artigo: qual o lugar dos intelectuais em tempos de regressão democrática? E o que a “panteonização” de Marc Bloch, especificamente, ensina ou sugere?

Talvez o aspecto mais impressionante da entrada de Marc Bloch no Panthéon seja sua atualidade. Vivemos novamente um tempo em que nacionalismos reaparecem como projetos políticos; em que a mentira organizada se converte em instrumento cotidiano de mobilização; em que a produção científica é frequentemente tratada como suspeita; em que intelectuais voltam a ser acusados de representar inimigos internos; em que a história é constantemente manipulada para fabricar identidades homogêneas e justificar exclusões.

Não por acaso, cresce também o revisionismo histórico, acompanhado de formas renovadas de racismo. Nesse cenário, a panteonização de Marc Bloch adquire enorme densidade simbólica. Sua vida demonstra que a defesa da verdade não é uma atividade neutra. Seu trabalho mostra que compreender exige complexificar, comparar, relativizar e rejeitar explicações simplificadoras.

Sua morte lembra que existem momentos em que a própria possibilidade do conhecimento depende da coragem de defendê-lo. Penso que isso responde, a um só tempo, às duas questões: o lugar dos intelectuais em tempos de regressão democrática é, não apenas, um lugar de “posicionamento”, mas um lugar de militância e de resistência – ou melhor, um lugar de contundência.

E a “panteonização” de Marc Bloch nos ensina, ou sugere, especificamente, que é preciso reconhecer a experiência da empatia no fazer da história. Marc Bloch escreveu, em sua inacabada Apologia para a História, que a função do historiador consiste em compreender “os homens no tempo”. Vejam, não sou historiador. Sou um cientista social, formado em perspectiva interdisciplinar, trabalhando com a fenomenologia social. E, bom, também sou leitor, leitor extenso, de Marc Bloch.

A essa segunda questão, eu responderia aproximando Marc Bloch da fenomenologia – considerando que a fenomenologia social transpassa a ideia de sujeito, necessariamente, para a compreensão da intersubjetividade – e diria que Bloch realiza, em história, o projeto fenomenológico de compreender o mundo como uma fusão de horizontes contingentes e contextualizados.

Marc Bloch não foi, apenas, o fundador da “história das mentalidades”. Foi um dos primeiros autores a deslocar a história do estudo dos acontecimentos para o estudo das formas de existência-operação; uma perspectiva fenomenológica por excelência – ainda que ele não tenha reivindicado essa aproximação teórica. Quando Marc Bloch afirma que o objeto da história são “os homens no tempo”, ele está propondo uma ontologia histórica da experiência humana. Isso aproxima sua obra de autores posteriores como Merleau-Ponty, Paul Ricoeur, Michel de Certeau, Carlo Ginzburg, Marshall Sahlins, Tim Ingold, dentre muitos outros.

A panteonização de Marc Bloch não celebra apenas um historiador do século XX, mas um pensador cuja maneira de compreender a experiência humana permanece profundamente contemporânea. Ao conduzir Marc Bloch ao Panthéon, a França não apenas homenageia um grande historiador. Ela também reafirma uma certa ideia da República, fundada na ciência, na escola pública, na cidadania, na resistência ao fascismo e na responsabilidade intelectual.

É significativo que isso ocorra justamente quando forças políticas procuram reabilitar nacionalismos excludentes, relativizar a colaboração francesa com o nazismo e transformar o conhecimento em alvo de suspeita permanente. A entrada de Marc Bloch no Panthéon recorda que compreender o tempo é também assumir responsabilidade diante dele.

Acompanhando o debate ocorrido em França sobre a sua panteonização escutei a posição da sua família. Soube que muitos dos seus descendentes posicionaram-se, inicialmente contra a panteonização: uns por recearem o uso político que poderia ter sido dado por Emmanuel Macron ao fato – em época de populismo simplório; outros, por recearem a sua transformação em “mártir judeu” – em época de sionismo instrumental; outros, por recearem que o papel do historiador fosse apagado pelo papel do patriota – em época de patriotismo ignóbil.

Acompanhei, igualmente, a posição de sua família, de seus descendentes, que, coletivamente, escreveram uma carta, à República (e não ao presidente Emmanuel Macron, o que, em si, já é bastante simbólico) solicitando que as homenagens da “panteonização” não fossem oportunistas, não se prestassem aos interesses do Estado de Israel, condenassem expressamente a extrema direita contemporânea e o nazismo, que reivindicassem a democracia e os princípios republicanos da igualdade e da liberdade dos povos. Fora isso, é preciso dizer que a família de Marc Bloch também solicitou que todas as lideranças da extrema direita fossem desconvidadas de se fazerem presentes no ato.

Penso que todas essas coisas renovam a memória do procedimento de Marc Bloch em relação à história. Em termos epistemológicos, uma história dos problemas, e não apenas dos acontecimentos. Em termos antropológicos, uma antropologia histórica das formas de vida humanas. Em termos metodológicos, uma história comparativa e interdisciplinar das sociedades. Em termos filosóficos, uma fenomenologia histórica da vida social. Aliás, em síntese, em termos fenomenológicos, eu diria que Marc Bloch desloca a história do evento para a experiência.

Memória longa a Marc Bloch. Que seu legado nos ensine que o lugar dos intelectuais, em tempos de regressão democrática, exige coragem. Que sua “panteonização” nos ensine, especificamente, que a história é uma ciência de combate.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Patrice Lumumba y la batalla inconclusa por la descolonización

Jeremías Pérez Rabasa
Página 12

El 2 de julio de 1925 nacía Patrice Lumumba, el dirigente que convirtió la independencia del Congo en un proyecto de soberanía real. Su asesinato marcó los límites que el colonialismo estaba dispuesto a imponer a los procesos de emancipación africanos.

Patrice Émery Lumumba nació el 2 de julio de 1925 en el entonces Congo Belga, una de las colonias más violentas que produjo el imperialismo europeo. Bajo la dominación belga, millones de congoleños fueron sometidos a un régimen de trabajo forzado, despojo territorial, segregación y terror cuya historia todavía permanece relativamente ausente de los relatos occidentales. Fue en ese contexto donde comenzó a formarse un dirigente que entendió que la independencia no era el reemplazo de una bandera por otra.

Autodidacta, lector voraz y extraordinario orador, Lumumba emergió durante la década de 1950 como una de las principales figuras del nacionalismo congoleño. En 1958 fundó el Movimiento Nacional Congoleño, una organización que rechazaba las divisiones étnicas promovidas por el colonialismo y proponía la construcción de un Estado verdaderamente soberano. Su apuesta era profundamente panafricanista, Lumumba creía que la emancipación del Congo sólo tendría sentido como parte de la liberación del continente africano.

Cuando el Congo obtuvo su independencia el 30 de junio de 1960, Lumumba se convirtió en el Primer Ministro del nuevo Estado, y asumió la presidencia Joseph Kasa-Vubu. Aunque el sistema distribuía las funciones entre ambas autoridades, fue Lumumba quien encarnó el proyecto de una soberanía plena sobre el país y sus recursos naturales. El mismo día de la asunción del cargo, Lumumba protagonizó uno de los discursos más importantes del siglo XX. Mientras el rey Balduino de Bélgica celebraba la supuesta “obra civilizadora” del colonialismo, él tomó la palabra para recordar los trabajos forzados, las humillaciones cotidianas, la violencia sistemática, la explotación de las riquezas naturales y el racismo que había estructurado la dominación colonial.

Ese discurso alteró mucho más que el protocolo de una ceremonia oficial. Desafió la narrativa con la que las antiguas metrópolis buscaban administrar el proceso de descolonización. El problema no era únicamente que el Congo se independizara, el problema era que un dirigente africano reclamara ejercer plenamente la soberanía sobre uno de los territorios más ricos del planeta, dueño de inmensos recursos minerales estratégicos para la economía mundial.

La respuesta fue inmediata. Tras una profunda crisis institucional, el presidente Kasa-Vubu anunció su destitución, decisión que Lumumba desconoció por considerarla inconstitucional. Pocos días después, el coronel Joseph-Désiré Mobutu tomó el poder mediante un golpe de Estado. Lumumba fue puesto bajo arresto, intentó reorganizar la resistencia desde el este del país, pero fue capturado por las tropas golpistas.

El 17 de enero de 1961 fue trasladado a Katanga junto con Maurice Mpolo,Ministro de Juventud y Deportes, y Joseph Okito, Vicepresidente del Senado. Allí los tres fueron torturados y ejecutados esa misma noche por un pelotón de fusilamiento con participación decisiva de autoridades belgas y del régimen secesionista katangués. Sus cuerpos fueron luego destruidos para borrar las huellas del crimen. Lumumba tenía apenas 35 años. En 2022 Bélgica restituyó a su familia el único resto conservado de su cuerpo, un diente que había sido retirado por un policía belga tras el intento de hacer desaparecer completamente sus restos.

Décadas de investigaciones demostraron la responsabilidad de autoridades belgas en la operación y revelaron también el papel desempeñado por la CIA durante el proceso que condujo a su eliminación. La muerte de Lumumba fue una advertencia dirigida al conjunto del Sur Global. La independencia política tenía límites cuando amenazaba la arquitectura internacional heredada del colonialismo. Su eliminación abrió el camino para décadas de inestabilidad, autoritarismo y saqueo de los recursos congoleños, cuyas consecuencias siguen marcando la historia de la actual República Democrática del Congo.

Con el paso del tiempo, Lumumba dejó de pertenecer exclusivamente a la historia congoleña. Su figura pasó a integrar el gran repertorio político del panafricanismo junto a Kwame Nkrumah, Thomas Sankara, o Amílcar Cabral, entre otros. No porque todos compartieran las mismas estrategias, sino porque entendieron que el colonialismo no terminaba con la independencia formal. Persistía bajo nuevas formas de dependencia económica, subordinación política y jerarquización racial.

Hoy, cuando el extractivismo continúa definiendo el destino de buena parte del continente africano y las disputas por minerales críticos vuelven a colocar al Congo en el centro de la competencia global, la trayectoria de Lumumba recupera una actualidad incómoda. Sus palabras siguen interpelando un sistema internacional donde las asimetrías entre Norte y Sur permanecen vigentes bajo otros lenguajes y otros mecanismos.

Recordar su natalicio no significa convertirlo en una figura intocable, significa reconocer que buena parte de las discusiones contemporáneas sobre soberanía, justicia racial, dignidad, reparación histórica y autodeterminación de los pueblos ya estaban presentes en su pensamiento hace más de seis décadas. Por eso Patrice Lumumba continúa siendo una de las voces imprescindibles para comprender la historia africana y, al mismo tiempo, para leer críticamente el presente. Su vida recuerda que la descolonización nunca fue un acontecimiento cerrado. Es un proceso todavía inconcluso.