quarta-feira, 4 de novembro de 2026

EUA: o notável triunfo da esquerda democrata

Melanie Mason
Outras Palavras

Nas eleições que arrasaram Trump há outro fenômeno político. Candidatos de grupos socialistas quebram preconceitos e avançam com pautas de justiça social e combate à desigualdade. Cai o discurso de medo da ala corporativa do partido

Integrantes de todas as matizes ideológicas do Partido Democrata conquistaram vitórias expressivas em todas as partes dos Estados Unidos na terça-feira. Mas os progressistas reivindicam algo mais com suas vitórias: o reconhecimento.

Com plataformas assumidamente ligadas a um populismo de esquerda, como o Medicare [seguro de Saúde, hoje óferecido apenas aos maiores de 65 anos] para Todos e a taxação dos ricos, candidatos como Abdul El-Sayed em Michigan, Troy Jackson no Maine e Randy Villegas no Vale Central da Califórnia, romperam com as estratégias tradicionais do partido para vencer em distritos disputados entre os dois partidos. Em alguns casos, derrubaram republicanos com mandatos consolidados, que haviam resistido a investidas anteriores dos democratas.

Agora, enquanto esperam por uma primárias presidenciais que testará a direção do Partido Democrata para o pós-Trump, os progressistas sustentam que suas vitórias nestas eleições de meio de mandato estão redefinindo a esquerda, transformando-a de guerreiros culturais em guerreiros do povo.

“Quando as pessoas pensam em hiperprogressistas, imaginam gente de Nova York com cabelo azul, piercings no nariz e dois mestrados”, disse Chuck Rocha. Estrategista democrata e ex-membro da equipe de Bernie Sanders, que trabalhou em 25 campanhas para a Câmara dos Representantes neste ciclo eleitoral. “Muitos desses movimentos dentro do Partido Democrata surgem em São Francisco, Nova York ou Chicago. Mas todas as cadeiras do Congresso conquistadas hoje à noite — especialmente entre os latinos — foram ganhas nos subúrbios e no interior do país.”

A esquerda também estava em ascensão nos territórios urbanos, principalmente na corrida para a prefeitura de Los Angeles, onde Nithya Raman, membro dos Socialistas Democráticos da América (DSA), parece prestes a vencer a prefeita Karen Bass, que, embora profundamente impopular, contava com o apoio da cúpula do Partido Democrata da Califórnia. O bom desempenho de Raman na noite da eleição consolidou a ascensão improvável do DSA ao centro de poder dentro do Partido Democrata, já que podem estar próximos a governar as duas maiores cidades do país.

“O Partido Democrata na Califórnia, e especialmente em Los Angeles, permaneceu completamente adormecido”, disse Rick Cole, codiretor da equipe de transição de Raman. “As ruas estão esburacadas. As calçadas precisam de reparos. Os aluguéis estão absurdamente caros, e os jovens se sentem totalmente marginalizados por uma estrutura democrata fechada. Eles [os voluntários pró Raman] bateram de porta em porta e se manifestaram nas redes sociais. Isso representa um levante contra o status quo.”

Em âmbito nacional, os progressistas exibiram resultados de terça-feira como um golpe na ideia de que certos candidatos da esquerda eram simplesmente inelegíveis em estados decisivos. Um grupo de candidatos democratas progressistas ao Senado ficou apenas alguns pontos atrás dos candidatos a governador mais centristas e que buscam consenso dentro do partido. Essa diferença ainda pode reforçar o argumento dos moderados, de que seus candidatos são os que têm melhor desempenho eleitoral. Mas, ao contrário do que diziam os moderados, os candidatos progressistas não perderam cadeiras importantes — e saíram com muitos motivos para comemorar.

Os democratas tradicionais minimizaram as implicações da eleição para a ala esquerda do partido, argumentando que a poderosa onda democrata que varria o país não era exclusiva dos progressistas. “Nossas vitórias esta noite são tão expressivas que nenhuma ala ou setor do partido conseguirá ditar as regras”, disse o ex-governador da Virgínia, Terry McAuliffe.

Antonio Villaraigosa, ex-prefeito de Los Angeles e aliado próximo de Bass, afirmou: “Bons candidatos asseguram uma vantagem. E acho que tínhamos candidatos melhores — alguns progressistas, alguns moderados — do que o outro lado.” Ele acrescentou: “E, mais importante ainda, as pessoas estão cansadas de Donald Trump.”

Outros democratas, mesmo enquanto comemoravam o sucesso dos progressistas, mostravam-se mais cautelosos em relação à esquerda recém-fortalecida. “Os democratas esperam que a DSA tenha um certo nível de maturidade em relação à forma como constrói uma coalizão na Câmara, à medida que elege seus membros em diferentes partes do país, porque precisamos manter a pressão sobre os republicanos”, disse Michael Trujillo, estrategista democrata de Los Angeles. “O inimigo não é o seu colega de bancada.”

Os apelos à cordialidade contrastavam com as comemorações da noite eleitoral de alguns dos progressistas vitoriosos, que enquadraram suas vitórias não apenas como um golpe para Trump e os republicanos, mas também para a liderança de seu próprio partido.


“Disseram-nos que o establishment era forte demais. Que Washington iria ditar quem ganharia e quem perderia. Que Washington e seus interesses especiais não nos queriam. Disseram-nos que, quando os votos fossem contados em 4 de agosto [data das eleições primárias democratas] e novamente em 3 de novembro, o partido teria desperdiçado tempo, dinheiro e energia”, disse o senador eleito pelo estado de Michigan, Abdul El-Sayed, em um discurso de vitória desafiador em Detroit. “E agora? É 3 de novembro e os votos foram contados. E o que mostramos a eles? Que um movimento do povo, pelo povo e para o povo acabará vencendo.”

Michigan foi talvez o palco mais acirrado da guerra entre as facções do Partido Democrata. Os progressistas viam o estado decisivo como a maior prova, neste ciclo eleitoral, de que poderiam vencer em um território disputado. Argumentavam que a mensagem econômica populista de El-Sayed e políticas como o Medicare para Todos haviam capturado a atenção dos eleitores — e acusaram a ala tradicional do partido de sabotar a campanha do progressista.

O líder do partido no Senado, Chuck Schumer, apoiou firmemente a deputada moderada Haley Stevens, nas acirradas primárias democratas. Além disso, a dois dias da eleição, a própria Stevens voltou-se contra seu partido e passou a apoiar o ex-deputado republicano Mike Rogers. A deputada Ayanna Pressley (democrata de Massachusetts) criticou abertamente o Comitê de Campanha Senatorial Democrata por não fazer um “investimento equitativo” em El-Sayed e outros candidatos da ala esquerda.

Mas os parlamentares alinhados com a cúpula do partido insistem que impulsionaram El-Sayed à vitória. Os coordenadores do fundo de arrecadação eleitoral dos democratas (Senate Majority PAC) afirmaram ter investido mais de US$ 65 milhões na campanha e antecipado a veiculação de seus anúncios na televisão, devido à enxurrada de gastos republicanos contra El-Sayed.

A vitória esmagadora dos democratas também levou a algumas disputas inesperadamente acirradas para progressistas, que a cúpula do partido ignorou em grande parte, alimentando ressentimentos na esquerda sobre oportunidades perdidas. “Na disputa por uma cadeira no Senado na Flórida, Angie Nixon [candidata da esquerda do partido] foi deixada sozinha pela direção democrata. É uma grande vergonha. O que mais ela precisava provar? Ela venceu as primárias com folga, contra todas as expectativas”, disse Nina Turner, ex-legisladora estadual de Ohio e progressista muito ativa. “É preciso haver uma reflexão sobre a campanha dela e a de Charles Booker no Kentucky. Se o Comitê Nacional Democrata (DNC) e o Comitê de Campanha Democrata do Senado (DSCC) tivessem investido nessas campanhas como fizeram em outras, esses dois candidatos corajosos poderiam ter vencido.”

A senadora Kirsten Gillibrand, de Nova York, que preside o braço de campanha dos democratas no Senado, disse que o partido “investiu na Flórida”, mas que é “um estado muito grande e caro”. Em seguida, concedeu: Acho que o que ela conquistou, o que arrecadou e como se engajou gerou uma energia enorme na base, é uma prova da força de sua candidatura. A Flórida agora será um estado que observaremos e tentaremos conquistar.”

Na Califórnia, a multidão reunida em uma boate no centro da cidade explodiu em aplausos quando Jorge Contreras, dirigente do Partido das Famílias Trabalhadoras da Califórnia, mostrou os resultados iniciais promissores para os progressistas do estado — Villegas, Angela Gonzales-Torres e Jane Kim. O público também vaiou a menção ao democrata moderado que Villegas derrotou nas primárias.

“O que provamos esta noite é que é possível conduzir esse tipo de campanha sem aceitar dinheiro, sem de corporações, do AIPAC [o principal lobby sionista], mantendo-nos fiéis aos nossos valores. E apesar de tudo isso, vencemos de forma decisiva. Isso envia uma mensagem de que a política pode ser feita de maneira diferente”, disse Villegas ao declarar vitória poucas horas após o fechamento das urnas.

É uma mensagem que os progressistas agora esperam que os candidatos do seu partido em 2028 internalizem. “Para 2028, é a prova de precisamos seguir nossos valores e lançar um candidato que realmente fale a verdade e não seja comprado por chefões corporativos”, disse Contreras.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O microfacismo como pandemia global

Ricardo Lewandowski
Folha de São Paulo

Disseminado, modelo permite que pseudolideranças se apropriem de sentimentos, transformando-os em capital político. Enraizado no âmago mais profundo da psique social, é um flagelo difícil de identificar e combater.

No livro Microfísica do Poder, escrito na década de 1970, Michel Foucault argumenta que o poder não se concentra apenas no Estado ou nas classes dirigentes. Segundo o teórico francês, não é algo que alguém possa deter fisicamente, tratando-se de uma energia difusa, que circula nos distintos grupos sociais, moldando conhecimentos, comportamentos e corpos.

Cuida-se de uma força velada, que não atua apenas repressivamente, pois não se resume a proibir e castigar. Sem que as pessoas percebam, ela produz saberes, dita normas e determina atitudes, seja pela autoridade, persuasão ou força. Opera por meio da disciplina e vigilância em instituições como lares, escolas, igrejas, empresas, quartéis, hospitais, prisões, fábricas, clubes etc., onde são controlados horários de trabalhar, conversar, rezar, descansar, comer, dormir e acordar, estabelecendo, assim, aquilo que é considerado normal ou desviante. Essa ideia tem a ver com a difusão generalizada do fascismo nos tempos atuais, um movimento político surgido na Itália, depois da Primeira Guerra Mundial e que logo se disseminou por todo o planeta.

Corresponde a um projeto de poder, que estimula a submissão e o conformismo por meio da violência real ou simbólica. Caracteriza-se pelo ultranacionalismo, autoritarismo, ódio ao diferente, culto ao líder, assédio aos opositores, desprezo ao pluralismo, cerceamento de direitos e desprezo à democracia.

Nos dias que correm, o fascismo pouco mudou. Atua de modo semelhante, porém mais dissimulado: ataca a legitimidade das eleições, mina a autonomia judicial, cerceia a liberdade de imprensa e desumaniza os grupos minoritários. Especializa-se em fomentar o ódio e a polarização, sobretudo mediante o emprego eficiente das mídias digitais, cujos controladores estão sediados em outros países, fora do controle das autoridades locais.

Os pensadores Gilles Deleuze e Félix Guattari, também franceses, trazem um novo olhar sobre esse movimento, na linha das ideias de Foucault, ao desnudarem o fenômeno do microfascismo. Na obra Mil Platôs, publicada em 1980, ponderam que as sociedades capitalistas contemporâneas operam em dois planos distintos: um denominado molar, correspondendo à macropolítica, rígida e burocrática, representada pelas instituições estatais, e outro chamado molecular, ligado aos medos e afetos que circulam nos distintos grupos sociais.

É justamente nesse nível que prospera o microfascismo, disseminado mundialmente à semelhança de uma pandemia, permitindo que algumas pseudolideranças se apropriem desses sentimentos, transformando-os em capital político.

Deleuze e Guatari, a propósito, formulam uma intrigante indagação: "Somente o microfascismo oferece uma resposta à questão global: por que o desejo deseja sua própria repressão?" Essa questão —de cunho quase psicanalítico— é relevante porque desloca a análise do fascismo para além do plano institucional. Enraizado no âmago mais profundo da psique social, é um flagelo difícil de identificar e combater.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Não verás país nenhum?

Editorial
A Terra é Redonda

Neste 25 de outubro nós vamos decidir nas urnas o país em que viveremos nos próximos anos: um estado democrático ou um estado dominado pelo crime organizado, um estado-miliciano. Diante dessa encruzilhada, ecoa o alerta sombrio da distopia de Ignácio de Loyola Brandão, no livro “Não verás país nenhum”. Tal como na obra, em que a nação é engolida pelo colapso ambiental e pelo autoritarismo, o risco iminente é o de vermos nossa pátria arruinada, saqueada e irreconhecível.

Compromisso com o nosso futuro

Lula é o único que assumiu compromisso com a manutenção da escala 5×2, aprovada pelo Congresso Nacional, o fim das bets, a instalação da tarifa zero, a justiça tributária, imposto sobre muito ricos e isenção de imposto para os trabalhadores de renda média. Lula é o único candidato que defende os pisos constitucionais da saúde e educação contra o discurso único da mídia corporativa, de ajuste fiscal draconiano às custas dos investimentos no desenvolvimento social.

Lula faz a defesa intransigente da valorização do salário mínimo acima da inflação e da sua vinculação ao BPC, bolsa família, pensões e aposentadorias. Em seu atual governo, o Brasil atingiu o menor índice de desmatamento da história e o seu programa contempla o amparo aos animais e à agricultura familiar e sustentável. Defende as reservas indígenas, os quilombos, apoia a diversidade cultural e artística da população brasileira. Em seu governo, tirou uma vez mais o Brasil do Mapa da Fome e o trabalho infantil voltou a cair.

Ele representa o apoio à ciência e tecnologia, ao SUS e seus programas como o bem-sucedido farmácia popular, à nova indústria Brasil e a empregos de qualidade. Lula quer que o Brasil crie um aplicativo estatal para combater a exploração de entregadores pelas plataformas internacionais, o desarmamento de criminosos e a segurança familiar em todos os aspectos com o protagonismo da mulher. É tudo isso e muito mais que está ameaçado nessa eleição.

O risco Flávio

O primeiro risco do voto em Flávio Bolsonaro é dar a ele a autoridade para alterar o próprio mandato e – como ele tem anunciado – o regime político instituído pela Constituição de 1988. Ele desdenha o Estado Democrático de Direito e tem declarado insistentemente que pretende substitui-lo.

O voto em Bolsonaro significa reinstalar o “gabinete do ódio” no Palácio do Planalto, fulminar direitos, restringir o direito a lutar por direitos, transformar o governo em sala de despachos do capital financeiro, destruir políticas públicas, notadamente as de educação, saúde e previdência e reduzir nossa República à condição de colônia dos Estados Unidos da América.


Pior: Bolsonaro quer fazer tudo isso com o braço armado ilegal das milícias, infiltradas nas instituições do Estado e cujo poder vem atormentando o dia a dia dos brasileiros nos quatro cantos do país. Das áreas de garimpo na Amazônia às favelas das nossas metrópoles, em tudo estão as mãos assassinas das milícias, estrangulando a sociedade, matando e matando e matando. O apoio das big techs à sua candidatura, corrompendo os algoritmos e manipulando a informação é só o início do controle total ao qual se quer submeter nosso povo.

O Brasil não quer esse rumo

‘A Terra é Redonda’ alerta, uma vez mais, que a democracia brasileira está por um fio. Muitas cadeiras no Senado Federal, na Câmara dos Deputados e nas Assembleias Legislativas, foram conquistadas no primeiro turno à custa da compra de votos pelo narcotráfico, cujos mecanismos de dominação política precisam ser denunciados e contidos, pois contaminam a representação parlamentar e minam as instituições da República, incluindo o Judiciário e o Executivo.

Neste segundo turno, está em disputa o cargo de máximo mandatário do Executivo. Apesar da inovação de uma espécie de “centralismo digital”, por analogia ao clássico “centralismo democrático” que marca algumas organizações partidárias, consolidado na reta final por uma presença marcante nas redes sociais, a campanha de Lula vem encontrando dificuldades para inverter as tendências indicadas nas pesquisas de intenção de voto.

Está, portanto, nas mãos, e na consciência dos eleitores, o destino da República. A nós cabe lutar para que a trágica indagação do título deste Editorial, “Não verás país nenhum?”, permaneça apenas como uma advertência, inspirada na ficção de Loyola Brandão, e não se torne a nossa irremediável realidade. Não merecemos, e não queremos, um Estado miliciano. Queremos respeito à cidadania, direitos, democracia. Nesta semana decisiva, centralismo digital nas redes e um só objetivo nas ruas: eleger Lula no próximo domingo. Bolsonaro, não!

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar

Marco Aurélio Nogueira
Ateliê de Humanidades Editorial

Em estilo ágil, Marco Aurélio Nogueira sobrevoa reflexivamente a vida atual. A hipermodernidade, com seu dinamismo frenético e seus excessos, produziu um mal-estar sutil, que se recompõe continuamente. Transformou nossas circunstâncias e o modo como vivemos, nos comportamos e nos relacionamos. Pôs em crise as ideias de futuro, deslocando os equilíbrios, as certezas, nossa capacidade de compreender o conjunto. A política já não engaja como antes e as utopias desapareceram do horizonte. Não sabemos bem o que fazer com a IA. Estamos sobrecarregados de informações, mas os diálogos escasseiam. O cenário internacional desconcerta e assusta, atravessado que está por conflitos militares e pela disputa entre as potências.

Não estamos num beco sem saída. Para avançar, precisamos recuperar a disposição de agir democraticamente, compartilhar conhecimentos, aprender uns com os outros e reconstruir algum sentido para a vida. Ações políticas que não saibam compor, agregar e arar um terreno comum correm o risco de cair no vazio.

O autor se debruça interrogativamente sobre várias dimensões dessa enorme confusão que vivemos. E o faz de modo a levar o leitor a encontrar as perguntas adequadas, não para soluções definitivas, mas para descobrir o método com que podemos, coletivamente, enfrentá-las ao longo do tempo: o diálogo permanente entre todos nós. Assim analisa o desenvolvimento acelerado do aparato técnico-científico – a IA e as redes sociais, por exemplo – que nos abre enormes potencialidades e, simultaneamente, nos divide e nos deixa perplexos sobre o que e como fazer. Com o mesmo propósito, interroga nossas cidades, cada vez mais hostis aos brasileiros comuns, plantando no solo urbano nossas desigualdades. E assim segue o livro, desfiando um rosário de perguntas e questões, num itinerário pedagógico do dialogar, por fora de metafísicas ultrapassadas ou sonhos impossíveis, mas com um objetivo claro: a construção de um bem comum sustentado pelo diálogo permanente entre cidadãos livres das grades e muros que nos separam. Um bem comum que nos devolva a capacidade pragmática de tecer a imaginação de um futuro – e, com isso, reabrir as possibilidades do presente (excerto do prefácio de Rubem Barboza Filho, professor titular da UFJF).

Tenho aqui uma intuição teimosa: Marco Aurélio Nogueira acabou alcançando a sabedoria. Inteligência, erudição e discernimento criterioso ele já traz de algumas décadas. Tradutor e um dos grandes conhecedores da obra de Antonio Gramsci e de Norberto Bobbio, dois pensadores italianos que decifraram o nosso tempo com incrível originalidade e fecunda sistematização, Marco Aurélio se destaca por pensar com serenidade aquilo que, no mundo, se manifesta com alguma rudeza e mesmo com violência. Agora, neste livro, ele mostra que a sua serenidade (a “mitezza” de Bobbio) atingiu um plano alto. Nosso professor pensa com luminosa calma as conturbações tormentosas da realidade que nos traga. Isso, apenas isso, já é uma boa notícia. Boa leitura (Eugênio Bucci, professor titular da ECA-USP).

A política para além do âmbito institucional entrelaçada com uma sociologia que ilumina padrões instituídos por dinâmicas culturais conflitivas e imbricadas. É o que encontramos neste livro inspirador, que recupera a tradição ensaísta do pensamento social brasileiro e a narrativa autoral do pensamento europeu clássico, com foco numa conhecida determinação do autor: compreender a vida atual e um lugar chamado Brasil. Um país que parece pedir desesperadamente para ser entendido e resgatado por meio da reflexão e do diálogo democrático (Ana Cristina Braga Martes, socióloga e escritora).

Há muitos anos, conheço Marco Aurélio Nogueira como professor, orientador e amigo. E talvez por isso seja impossível separar, ao ler este livro, o intelectual da pessoa. Sua aposta no diálogo, na mediação e na construção de pontes, não é apenas uma escolha teórica: é uma forma de viver. Marco sempre foi de uma gentileza rara, acessível, disponível, atento ao outro e profundamente democrático, inclusive quando a divergência se impõe. Essa mesma disposição atravessa estas páginas. Diante de um tempo acelerado, fragmentado e ruidoso, ele não oferece receitas nem certezas reconfortantes. Oferece algo mais valioso: perguntas, reflexão, capacidade de mediação e um convite para que voltemos a pensar juntos. Sem arrogância e sem desalento, Marco nos lembra que compreender o mundo ainda é uma tarefa coletiva e que nenhuma transformação duradoura prescinde da conversa, da escuta e da disposição de construir algum terreno comum. Talvez haja nisso até algo do corintiano que ele é: a consciência de que viver também exige resistência, esperança e alguma fé no próximo lance. Este é um livro para quem ainda acredita que pensar, agir e dialogar podem, de fato, melhorar a vida que vivemos. E, justamente por isso, merece ser lido (Lucas Amaral Leite, Professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado, SP).

Para visualizá-lo, veja aqui: https://bit.ly/47fFDad

terça-feira, 13 de outubro de 2026

As eleições e o futuro como desafio

Marco Aurélio Nogueira
Revista Será?

Entre decepções, surpresas e lamentações, as urnas do primeiro turno impactaram a vida política brasileira. Como interpretá-las?

Os resultados trouxeram perigos e alertas para os atores da política democrática brasileira. Nas eleições legislativas, a maioria formada pelo PL (Bolsonaro) na Câmara e no Senado foi um dado chamativo. Os demais partidos oscilaram. A maioria saiu-se mal, com a exceção do PSOL, que teve bom desempenho e elegeu uma bancada competitiva na Câmara. Já nas eleições para a Presidência, o campo democrático – representado por Lula, pelo PT, pelo PSDB, Rede e Cidadania, além de pedaços do chamado “Centrão” e dos liberais que prezam a democracia — sofreu uma inesperada derrota.

Não houve um único culpado pelos resultados do primeiro turno. Foram tantos os fatos que incidiram sobre a eleitorado (os escândalos, as denúncias, a crise moral do STF, as declarações precipitadas, o desarranjo social crescente, os apelos à religião e à religiosidade), que não faz sentido explicar a situação por causalidades simples. Mas os atores principais, por sua própria relevância política, estão forçados a avaliar onde foi que erraram. O PT e Lula não foram os únicos responsáveis pelo esmaecimento do arco de forças democráticas formado após o fim da ditadura. Não ajudaram, porém, a alimentá-lo. Por estarem a governar desde 2002, com um breve intervalo entre 2016 e 2022, os petistas deixaram de lado a blindagem política da democracia. O PT se entregou a Lula como “grande timoneiro”, líder único e insubstituível, cercando-o de dirigentes com reduzida capacidade estratégica e de formulação. Insistiu em se apresentar como a “única verdadeira democracia” e desprezar alianças com os democratas não petistas, a não ser que esses aceitassem ser cooptados. Não soube se renovar e se pluralizar como ator político.

As direitas, extremas à frente, mostraram uma força que não se previa e não se imaginava existir. Varreram o país, deixando Lula praticamente ilhado no Nordeste. Lá, ele respirou e acumulou votos. Em termos políticos, porém, os centros mais pujantes e eleitoralmente mais importantes (o Sudeste e o Sul) ficaram ao lado de Bolsonaro. Somados aos cerca de 20 milhões de abstenções, garantiram a ele a vantagem de 2 milhões de votos no primeiro turno, mostrando a ampla capilaridade da extrema direita.

A força da extrema direita não caiu do céu. Frutificou no correr de um processo, apoiado numa espécie de “conservadorismo” entranhado no modo de ser do brasileiro. Ganhou impulso a partir do governo Dilma e das grandes manifestações de 2013. Sua base operacional combinou doses cavalares de antipolítica, uso maciço e competente das redes sociais, incorporação política da religiosidade e apoios da internacional direitista que hoje circula pelo mundo.

Seu crescimento coincidiu com uma mudança no padrão da socialidade. Combinou-se com a conversão do país em uma sociedade hipermoderna: mais fragmentada, com novas formas de trabalho, novos comportamentos e aspirações, dúvidas existenciais no terreno moral, guerras culturais incessantes, alterações profundas nas visões de mundo e no modo como se encara a política. Os brasileiros passaram a viver em mudança célere e transferiram isso para a política: mudar se tornou um estilo de vida, uma busca constante por novidades e, por extensão, uma forte rejeição daquilo que é visto como “mais do mesmo”.


A revolução digital ajudou a que surgisse um ambiente favorável ao desarranjo social e institucional, como costuma ocorrer nos grandes processos de transição. A rápida disseminação das redes sociais e, agora, das aplicações de IA, alterou o modo como se vive, como se consome, como se trabalha e como se pensa, abrindo espaços generosos para a configuração de um diferente modo de viver a política.

Na sociedade hipermoderna movida por tecnologia intensiva, o eleitor (o cidadão) não compreende que seus problemas não podem ser resolvidos com um estalar de dedos dos governos. O eleitor é impaciente e se move por uma lógica de satisfação imediata, lógica essa irmanada com a lógica do capitalismo atual. Quem governa nesse clima está sempre devendo. O que a revolução desorganiza (ou reorganiza), a extrema direita captura, oferecendo uma visão “antissistema” que atrai a indignação e o desconforto de tantas pessoas. Na Europa, ela trabalha para fornecer proteção aos nacionais contra os imigrantes, para valorizar o “branco” em detrimento dos “não brancos”, para criticar o Estado de Bem-estar e a globalização. No Brasil, a extrema direita brada um “nacionalismo” retórico ao mesmo tempo em que se subordina às orientações de Donald Trump. Oculta essa subordinação falando em “defesa nacional”, “Pátria” e proteção do território.

Os resultados do primeiro turno traduziram a grave crise institucional em que se encontra o país. É uma crise que, em parte, está associada às transfigurações provocadas pela revolução digital. Mas que reflete, sobretudo, a “despolitização” socialmente instalada, a fraqueza dos partidos, os atritos improdutivos entre as instituições, que passaram a funcionar de modo mais precário, colidindo umas com as outras. Os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) paralisaram-se uns aos outros, trocando a articulação funcional por disparos desfuncionais.

A crise do STF desnudou o ponto extremo dessa crise, cujo maior efeito foi a perda de credibilidade da Corte. Sua decomposição moral fez o fogo crepitar e produziu ondas crescentes de decepção e insatisfação, convertendo-se em moeda eleitoral. O fato preponderante é que, no correr de alguns meses, os Poderes se converteram em brigadas alinhadas umas contra as outras, com os conflitos sendo exibidos à luz do dia. A governabilidade e a governança ficaram travadas. A desintermediação fragilizou a democracia e a dinâmica política, sempre conflituosa e cada vez mais polarizada, passou a transcorrer à base de atritos ruidosos entre os Poderes, reverberando na opinião pública e na sociedade.


Os brasileiros vocalizaram nas urnas uma expectativa de mudança. Fizeram isso sem clareza sobre o sentido da mudança. Mudar para onde, e de que maneira? Podem ter olhado para trás e se reconfortado com a ideia de que antes “éramos felizes e não sabíamos”, assim como podem ter olhado para a frente e vislumbrado um cenário diferente de tudo o que está aí. Houve mais emoção do que racionalidade. A velocidade das mudanças vindas da revolução digital jogou grande peso, ao incentivar a ideia de que a lentidão das condutas governamentais e políticas colidiria com a rapidez das mudanças socioculturais e existenciais. Uma vida mais “individualizada”, o trabalho em aplicativos de entrega, a propaganda exaustiva e as informações desencontradas fornecidas pelas redes fizeram com que se alargasse a busca por candidatos “novos”, diferentes dos que se conheciam.

As duas campanhas principais foram igualmente medíocres. De um lado, o candidato da direita esbravejou contra tudo e todos, esgrimindo as mais diferentes armas contra um suposto “dragão da maldade” (o sistema) e insuflando o ressentimento popular. De outro, um Lula cansado de guerra, com uma retórica cheia de promessas envelhecidas, agarrado à sua biografia pregressa – heroica, mas de uma época que já passou –, fechado para o novo mundo em gestação. Nenhum deles apresentou propostas concretas ou “sugestões” sobre o futuro, uma ideia de país e de governo. Contaminados pela polarização, limitaram-se a se atacar reciprocamente. É provável que nada tenham falado porque nada tinham para falar. Entregaram-se por isso à pura e simples agitação, que pode tê-los ajudado a levar mais longe suas “mensagens”, mas nada acrescentou à percepção dos brasileiros e à compreensão do mundo em que vivemos.

O cidadão médio brasileiro não votou pela democracia. Talvez por não a entender, talvez por não a valorizar, talvez por ter tido sua memória histórica sequestrada e não se lembrar dos anos duros da ditadura militar. Deixou-se levar pela indignação e não encontrou um rumo claro para se posicionar. Não é razoável, porém, concluir que 56 milhões de eleitores se tornaram, conscientemente, de extrema direita, ou “fascistas”. O que há de bolsonarismo no país cavalgou o cansaço e as decepções da população, sem ter tido condições de organizá-la de forma sustentável.

Ninguém vence uma eleição apertada sem que seu adversário cometa erros importantes. O vencedor do primeiro turno tinha sua cota de malfeitos e relacionamentos suspeitos, mas sua campanha soube blindá-lo. Ele próprio se escondeu, desviando-se da artilharia do lado oposto. Sua campanha soube explorar o maior erro do PT e de Lula: não renovar suas lideranças e seu discurso, confiando excessivamente na lealdade dos brasileiros, sem levar em conta que esses brasileiros se descolaram dos resíduos do século XX e ingressaram no século XXI, na hipermodernidade.

O PT não conseguiu abandonar ou neutralizar sua “superioridade moral”. Como não irão nos apoiar, a nós, lulistas e petistas, depois de tudo o que fizemos por esse país? Não precisamos de outros apoios (de uma “frente democrática”, por exemplo), pois nos bastamos a nós mesmos. Além do mais, nosso adversário é um pangaré, não corre tanto quanto o nosso alazão. Autoestima exageradamente elevada combinada com subestimação do adversário. Receita certa para perder votos.

Os votos direcionados ao filho de Bolsonaro misturaram antilulismo, ingenuidade, conservadorismo, cansaço, desejo de mudança e indignação social. Formou-se um mix de comportamentos e ideias afetivas, passionais e valorativas, com uma pitada de ideologia, que estendeu um tapete vermelho para a extrema direita. A essa altura, não me parece haver grande densidade organizacional e social no bolsonarismo. A impressão é que ele flutua sobre a realidade brasileira, explorando-a com malícia e competência. Adota uma perspectiva hegemônica curiosa, imperfeita, que não dispõe de grandes intelectuais (substituídos por influenciadores e redes) e depende de uma mobilização social inorgânica, que opera mediante soluços e apostas. Seria algo mais próximo de um “populismo de direita”, mas mesmo esse é carente de uma figura carismática explícita e inquestionável.

As redes sociais passaram a ocupar uma posição central na vida atual. Reverberam na política. Têm poder: um poder hostil à política, assentado na estridência, na mentira, na denúncia, na provocação e na crítica retórica. As redes, em boa medida, afastaram de si a política. Fecharam-se para o diálogo democrático. Suas bolhas são autorreferenciadas. Ajudam a desorganizar e a confundir os eleitores. Por outro lado, são bons canais de propaganda, especialmente quando impulsionadas pelo tráfego pago. A extrema direita aprendeu a surfar nas redes e nos canais digitais. Tem bons influenciadores, que se aproveitam da falta de consensos entre os democratas e dos desencontros sociais. Explora com eficiência a indignação e a decepção da população, interagindo com o que há de ruídos e cacofonia na vida atual. Hoje, as informações circulam com rapidez e em excesso, as atenções se dispersam e se deslocam rapidamente. Fala-se muito, diverge-se sobre tudo, ataca-se sem dó todos os que pensam diferente. Dialoga-se pouquíssimo. Não há cooperação política. Os partidos evaporaram, não fazem mais contato com os cidadãos. Olham para o poder, a gestão e as eleições, não chegam à população e não se interessam pela educação cívica.


Os eleitores hipermodernos não seguem qualquer tipo de ordem unida democrática. No Brasil, são pouco afetados pelas linguagens governamentais, cuja dissonância os afasta. A antipolítica prolonga o estrago, facilitando o surgimento de condutas hostis a partidos e políticos. Visto em seu conjunto, o eleitorado parece se ressentir da falta daquele arco de forças políticas direcionadas para defender a Constituição de 1988 e governar o país democraticamente. Esse arco foi se desfazendo com o passar do tempo, consumindo-se de polarização em polarização, sem que surgisse um ator com disposição e tirocínio para mantê-lo vivo. Ah, poderão dizer, Lula reavivou a frente democrática para vencer as eleições de 2022. Fez isso, é verdade, mas ao tomar posse se esqueceu dela. A iniciativa lhe serviu somente como recurso eleitoral.

A partir de agora, será preciso aprofundar a reflexão. Atualizar o discurso. Parar de ver conspirações e golpes em todo canto. O eleitor de Flávio (56 milhões!) não é um bolsonarista. É somente um cara insatisfeito com o que vê e com o que não recebe dos políticos. Alguém cansado e decepcionado com governos, políticos e juízes, que quer uma mudança que o inclua, nem que seja em termos simbólicos. Flávio Bolsonaro provavelmente não contará com o consentimento de seus eleitores se fizer um governo de “vingança” e compadrio, sem qualidade técnica para entregar políticas de inclusão, de segurança, educacionais, ambientais, sem capacidade de interpretar o mundo que está aí, fora de nossas janelas. Isso quer dizer que o jogo está aberto.

Para a democracia brasileira, a eventual vitória de Flávio Bolsonaro em 25 de outubro será um complicado teste. Se ela já está fragilizada, tenderá a ficar ainda mais exposta. Mas devemos pagar para ver o que ele fará. É provável que seja um governante fraco, sem muitas ideias e com um saco de maldades pronto para ser aberto. Poderá travar alguns programas, ameaçar a educação, deixar de financiar a cultura.de inclusão. Poderá não ser responsável com as contas públicas. Terá dificuldades com o Congresso Nacional (o Legislativo), mesmo que conte com maioria em ambas as Casas. Afinal, o Legislativo de hoje seguirá sendo o Legislativo de amanhã: um poder interessado em aprisionar e condicionar o Executivo, roubar-lhe recursos mediante emendas suspeitas.

Seja quem vencer o segundo turno, terá pela frente muitos desafios. Como administrará os gastos obrigatórios e a dívida pública? Poderá contar com o STF? Como posicionará o Brasil no contexto internacional e na “guerra” entre as grandes potências? Seguirá impulsionando as políticas compensatórias? Adotará com firmeza uma política de segurança que proteja de fato a população e combata o crime organizado? E quanto aos recursos estratégicos, aos minerais críticos e à proteção ambiental? Conseguirá obter consensos para atuar com firmeza nesses diferentes e explosivos terrenos?

Um cenário desse tipo, com tantos desafios e tanta confusão institucional, sugere uma governança mergulhada em crise sucessivas, em impasses procedimentais, pressionada pela indignação social e pela resistência patrimonialista e social, que poderá ser exacerbada pela ausência de propostas ou por uma atuação governamental destrambelhada.

O futuro próximo pode ser pensado como uma oportunidade. Poderá ajudar a que os democratas – liberais, socialistas, comunistas, libertários – reaprendam a dialogar, a agir de forma articulada e com um causa comum como guia. Não dá mais para tudo ser resolvido a partir de um confronto eterno entre lulismo e bolsonarismo, que foi, a rigor, um dos fatores causadores da devastação de 4 de outubro. Insistir nele, a partir de agora, será fazer o jogo dos antidemocratas.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Esperanzar, un verbo para aquellos que luchan

Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

En su libro Pedagogía de la esperanza. Un reencuentro con la pedagogía del oprimido, Paulo Freire nos brinda con la génesis de su concepción sobre lo que vendría a llamar esperanzar. En sus páginas, el pensador pernambucano sostiene que el concepto de esperanzar implica mucho más que la simple esperanza pasiva, de esperar pacientemente que la realidad se comporte de una manera consonante con nuestras aspiraciones. Por lo mismo, dicha espera se puede transformar inevitablemente en desesperanza. Y esta desesperanza nos inmoviliza y nos hace sucumbir al fatalismo en que no es posible reunir las fuerzas indispensables para el embate recreador del mundo.

Ello quiere decir que, aun siendo fundamental y necesaria, la esperanza no es suficiente para alterar el orden de las cosas. Lo que Freire nos apunta es que, en cuanto necesidad ontológica, la esperanza necesita anclarse en la práctica para volverse historia concreta. Por eso no hay esperanza en la pura espera, ni tampoco se alcanza lo que se espera en la espera pura, que así se vuelve espera vana.

Por el contrario, para Freire esperanzar es un verbo activo, transformador y profundamente político. Consiste en mantener permanentemente una actitud que nos impulsa a la acción, a la transformación del mundo. En ese sentido, la esperanza no es un optimismo ingenuo ni un capricho, ella representa una necesidad vital para ser y reinventar la realidad. Esperanzar es levantarse, esperanzar es ir atrás, esperanzar es construir, esperanzar es no desistir, esperanzar es llevar adelante. Esperanzar no solo significa avanzar. Supone, sobre todo, avanzar con los otros, juntarse con los otros para hacer las cosas de una manera diferente.

Esperanzar es una resistencia frente a la resignación o el fatalismo, es un acto de voluntad, de lucha por el cambio social. Esperanzar es en definitiva esperar, pero luchando. La esperanza se relaciona dialécticamente con la lucha, que es aquello que nos va a permitir sintetizar o catalizar en la conjugación de esperanzar.

En términos de contexto electoral, en la primera encuesta Datafolha después de la última jornada, Bolsonaro aparece para la segunda vuelta con el 52 por ciento de los votos válidos y el presidente Lula con el 48 por ciento. En otra encuesta de la empresa AtlasIntel/Bloomberg el senador también figura al frente del presidente Lula con un registro de 52.8 por ciento de las preferencias de los votos válidos, mientras que el jefe del ejecutivo suma 47.2 por ciento, una diferencia de 5.6 puntos porcentuales. ¿Es posible cambiar este escenario? Si claro. Y pensamos que ello es posible por varios motivos.

Primero, porque es completamente factible revertir estas previsiones, considerando que en la primera vuelta más de 33 millones de potenciales votantes no comparecieron a las urnas. Los mismos representan el 21 por ciento del total de electores inscritos. Si a lo anterior se suman los votos en blanco (1.84%) y los votos nulos (2.93), son otros 6 millones de sufragios en disputa. Obviamente, no es una tarea fácil transformar ese enorme caudal de votos en apoyo automático al actual presidente, pero precisamente la noción de Esperanzar nos permite mantener viva la convicción de que existen millones de brasileños que se movilizarán en las calles, parques, plazas y ferias para cambiar el actual cuadro electoral.

Efectivamente, ya se encuentran movilizados cientos de miles de ciudadanos que han decidido hacer campaña movidos por la aspiración de la urgencia y la creencia en la factibilidad de revertir el resultado de las urnas originado en la primera vuelta: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Recife, Salvador, Fortaleza, Manaos, han sido palco de multitudinarias manifestaciones a favor de la candidatura de Lula y en defensa de la democracia y la justicia social. Son miles los militantes que forman la fuerza activa de los partidos de izquierda y centro izquierda que forman la base electoral de apoyo a la reelección de Lula. Si los partidos de la alianza pueden garantizar la movilización en las calles, por otra parte, también en las redes sociales el trabajo se ha intensificado, especialmente entre la generación más joven. Existe hoy día una generación de jóvenes diputados y diputadas recién electos que mantienen un diálogo activo con sus seguidores, de su mismo o de diversos otros segmentos etarios. Entre ellos destaca la diputada electa por Minas Gerais, Ana Elisa, quien solamente cuenta con 21 años y sorprende por su madurez política y su reconocida capacidad para encantar a sus interlocutores.

Un segundo elemento que debe ser considerado para el balotaje, es que Flavio Bolsonaro carga con la herencia funesta del gobierno de su padre Jair, responsable por un número significativo de muertes durante la pandemia del Covid19, por su desastrosa gestión económica, por el cierre de muchos servicios y políticas sociales en beneficio de los sectores más pobres, por el estímulo a la devastación de los ecosistemas del país, por el aumento del uso de armas de fuego, por el feminicidio y la violencia criminal, y por un largo etcétera. En esa medida, es posible que muchos de los electores que son de derecha, pero que no son bolsonaristas, se enfrenten al dilema de elegir entre el presidente Lula, que les va a proporcionar estabilidad y cumplimiento de las reglas del juego democrático y una ultraderecha radical que puede fácilmente patear el tablero, violar la Constitución, desconocer la soberanía popular e instalarse en el poder por el tiempo que estimen conveniente, 20 o más años, según ellos mismos vienen amenazando. En ese caso, la propia derecha tradicional no tendrá condiciones de participar en un próximo litigio electoral, ya que el designio autoritario que pretende imponerse va a eliminar la consagrada alternancia en el poder que rige en las sociedades democráticas. Es, por lo tanto, fundamental explicar a este elector de derecha las consecuencias de aquello que puede llegar a ser una dinastía de la extrema derecha, liderada por el Clan Bolsonaro.

Además, este neofascismo que encarna el primogénito y heredero político del ex capitán, es -excepto su anticomunismo visceral- completamente diferente del nazismo alemán y del fascismo italiano, pues como ya comentamos en una columna anterior (Las bases históricas del bolsonarismo), la actual ultraderecha es esencialmente entreguista y subordinada a los intereses de la camarilla Trump, la doctrina Donroe y la agenda MAGA, con su esperpéntico Escudo de las Américas. Su plan tampoco posee los valores patrioteros de Plinio Salgado y sus militantes Integralistas ni el componente nacionalista de los militares golpistas de 1964.

Entusiasmado con el triunfo en primera vuelta, el senador Bolsonaro ya ha advertido que espera cambiar la Constitución de 1988 y entregar los recursos minerales, acuíferos y forestales del país a los Estados Unidos. La abdicación de la soberanía nacional también puede un factor que genere un rechazo entre los electores, durante la hora crítica de definir el futuro del país.

Un tercer factor a ser considerado es que hasta ahora el presidente Lula y Flávio Bolsonaro no se han enfrentado en ningún debate cara a cara, lo cual puede inclinar la balanza hacia el presidente, pues su desempeño deberá ser mejor que el del candidato de la extrema derecha, un sujeto sin mayor preparación y que no posee ideas claras sobre lo que vendrá a ser su gestión de gobierno. Sus ideas se restringen a mentiras sobre el control de la violencia criminal, el combate a la corrupción y la implementación de cambios que hasta ahora no ha explicado en qué consisten. Su consigna sobre el cambio es solo eso, un eslogan completamente vacío de contenido. De esta manera, Lula tendrá la oportunidad de desenmascarar la ausencia de un proyecto en la ultraderecha bolsonarista, excepto su anhelo de implementar un Estado autoritario militarizado con el apoyo de las Fuerzas Armadas y policiales, de grupos paramilitares y de aquellas huestes sediciosas que participaron moral y/o presencialmente en la tentativa de golpe del 8 de enero de 2023.

Como el presidente Lula lo ha señalado en diversas declaraciones, lo que se encuentra en disputa en esta elección no es solamente la soberanía de Brasil sobre sus recursos naturales y sobre su territorio. Es también una encrucijada sobre el futuro democrático del país y las libertades fundamentales que han sido adquiridas con tanto esfuerzo desde el fin de la dictadura civil-militar. Ante este panorama nebuloso, la idea de esperanzar les permitirá a los ciudadanos que luchan por un mejor porvenir, tener la fuerza necesaria para enfrentar y resistir las amenazas neofascistas que acechan las conquistas políticas y sociales del pueblo brasileño en el presente vértice histórico.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

El octubre chileno de Donald Trump

Ariel Dorfman
Página 12

Un presidente maligno y monomaníaco, insondablemente impopular, afronta comicios que podrían restringir su poder y dominio futuro del país. Cuenta, es cierto, con muchos recursos: una Corte Suprema sumisa y una avalancha de noticias falsas acusando a sus oponentes de ser comunistas antipatriotas, así como el mando absoluto de las Fuerzas Armadas y un colosal apoyo financiero de una oligarquía que ha prosperado gracias a sus políticas neoliberales. Nada de esto, ni siquiera el intento de intimidar a los votantes, parece suficiente para disuadir a un electorado harto de su autocracia. Pese a que las encuestas indican una derrota venidera, este déspota delirante, enceguecido por cortesanos aduladores, no cree posible que el inminente referéndum vaya en contra de su voluntad divinamente inspirada.

¿Donald Trump en 2026?

Y también el general Augusto Pinochet que, en octubre de 1988, insistía en que ganaría un plebiscito que iba a decidir si permanecería como jefe de Estado otros ocho años (y probablemente muchos más) o si Chile debía comenzar una transición hacia la democracia. El 5 de octubre de ese año, el dictador que había mal gobernado Chile desde que derrocó al presidente democráticamente electo Salvador Allende en un golpe de Estado en 1973, perdió rotundamente, con el 55,9 % de sus compatriotas diciéndole que dejara el poder. No fue fácil convencerlo de que se fuera.

Estuve presente esa noche, cuando el gobierno suspendió el escrutinio y estableció un bloqueo informativo a las 10 de la noche, y presente asimismo cuando, alrededor de la una de la madrugada del 6 de octubre, el general de la Fuerza Aérea Fernando Matthei, miembro de la Junta, reconoció públicamente que el voto “No” había ganado claramente, frustrando un autogolpe que el general Pinochet contemplaba en ese mismo momento.

Estos acontecimientos remotos resuenan significativamente en Estados Unidos ahora que se acercan las elecciones de mitad de mandato del 3 de noviembre donde se sabrá si la mayoría de los estadounidenses puede entregar a los Demócratas el control del Senado y la Cámara de Representantes, un paso fundamental para coartar los arrebatos y la corrupción de un aspirante a monarca que hoy es tan desquiciado y tan despreciativo con la ley como lo fue Pinochet.

Ese octubre chileno debería servir, en esta coyuntura existencial del país del norte, para animar a los votantes. No importa cuánta supremacía, cuántos arbitrios y tácticas despliegue un líder trastornado, no importa el miedo, los caudales y las mentiras a su disposición, éste puede ser derrotado. Basta valentía, inteligencia y resolución. Chile, en efecto, llevó a cabo posteriormente una transición a la democracia, eligiendo a un presidente de centroizquierda en 1990 y, desde entonces, una serie ininterrumpida de mandatarios de diferentes corrientes ideológicas y políticas.

Pero ese hito de octubre de 1988 también implica advertencias para quienes desean circunscribir las tendencias autoritarias de Donald Trump. Así como Pinochet pretendió negar los sufragios que lo recusaban, el actual ocupante de la Casa Blanca podría intentar hacer algo similar. Solo un incremento de la vigilancia civil e institucional, solo la epopeya cotidiana de la gente común y corriente—y Fuerzas Armadas patrióticas— pueden garantizar, como en Chile, que tal posible ataque a la democracia fracase.

Pero hay más. Librar a Chile de su hombre fuerte no deshizo el enorme daño que ocasionó. Siguió mutilándolo gravemente durante el año y medio que le quedaba y durante ocho años adicionales como comandante en jefe del Ejército. Pero su legado más insidioso fue cómo cambió permanentemente la sociedad chilena. No únicamente el desmantelamiento del estado del bienestar creado por décadas de combate pacífico, reemplazado por un capitalismo salvaje que no se preocupaba del dolor que infligía. Peor fue la expansión del miedo y de la desconfianza que afectó la psique del país, enfermando su alma.

De hecho, a pesar de los grandes avances en revertir el pérfido legado de Pinochet, su sombra sigue oscureciendo la luz de Chile. Sin que importara el lamentable prontuario de desapariciones, torturas, exilio y persecuciones del dictador, José Antonio Kast, un admirador de Pinochet, listo a indultar a los agentes del régimen encarcelados por graves violaciones de derechos humanos, es ahora presidente. Su victoria en diciembre de 2025 puede explicarse en parte por una población económicamente angustiada que se dejó deslumbrar por su plataforma ferozmente antiinmigrante y su promesa de acabar con una oleada de violencia criminal.

Preocupa, de todas maneras, que 56 % de los votantes estuviera dispuesto a tolerar que los gobierne un ultraderechista negacionista. Sintomatiza la erosión, quizá el funeral, del sueño de lo que alguna vez fue Chile, una tierra de solidaridad y sed de justicia y dignidad que me fascinó cuando llegué allí a los doce años en 1954. Tan fuerte fue ese encantamiento que nunca dudé, durante la eterna noche de la dictadura, que ese país magnifico resurgiría y, cabalmente, el 5 de octubre de 1988, gracias a la lucha y sufrimiento de tantos compatriotas, pude comprobar que esa patria valiente y esperanzada seguía viva. En ese momento luminoso no me cabía duda de que el futuro sería diametralmente diferente, que la dictadura llegaría a ser, en la medida de que pasaran los años, un mal recuerdo. Fui ingenuo.

Y esa inconsciencia pretérita me obliga a preguntarme, en este octubre prometedor y ominoso del 2026, si los ciudadanos de este otro país, Estados Unidos, que ahora, gracias al exilio, también es mío, se dan verdaderamente cuenta de cuantos quebrantos y menoscabos y pérdidas han engendrado el calendario interminable de Trump.

Pregunto esto porque en octubre de 1988, los militantes democráticos de Chile, llevados por la ilusión de que el amanecer de una nueva era estaba a la vuelta, no abordaron entonces del todo la difícil cuestión de cómo pudo surgir tal monstruo entre nosotros. Dado el triunfal regreso ahora de un fanático de Pinochet para liderar su país, me parece claro que aquella fue una tarea pública y privada, tanto intelectual como emocional, que los chilenos, como un colectivo, no emprendieron suficientemente: ¿Qué errores cometimos originalmente para facilitar la existencia de un régimen tan despreciable y duradero? Y, más crucial, ¿Qué errores no debemos repetir en los años que vienen?

Aunque el electorado estadounidense en este momento está sensatamente centrado en lograr una victoria, tal urgencia no debería posponer la necesidad de un ajuste de cuentas, eternamente postergado, sobre las oscuras imperfecciones de la historia y del carácter nacional de la patria de Lincoln que generaron las condiciones para que la república se hallara en tan grave trance. Son condiciones que anteceden a Trump y a quienes facilitaron su reinado cruel y mendaz, los peores rasgos del pasado de los Estados Unidos que él exaltó y exacerbó: la arrogancia imperial, el nativismo y la misoginia, la degradación ecológica, el ataque a los derechos de las minorías y de los trabajadores, el mito del excepcionalismo. Y que probablemente van a persistir mucho más allá del día (si llega) en que Trump abandone la Casa Blanca.

Esa es la sombría lección que Chile susurra ayer y hoy desde lejos. Solo un profundo y doloroso autoexamen de la fracturada identidad de los hombres y mujeres de los Estados Unidos, algo que exigen los espléndidos guardianes de este experimento que comenzó hace 250 años, puede ayudar a impedir la ominosa posibilidad de que en un porvenir próximo el país donde ahora vivo enfrente una repetición de esta aterradora crisis que pone en peligro el mundo entero. Para entonces, puede que ya sea demasiado tarde.