terça-feira, 12 de maio de 2026

Lula, Maquiavel e a eleição

Luiz Filgueiras
Outras Palavras

Mudou a Fortuna, mas a Virtù que acompanhava o presidente dissipou-se. Desatento ao novo cenário, ele insiste em negociar com o Centrão, despreza a mobilização social e abre espaço para a ultradireita. Como salvá-lo, a cinco meses da eleição?

Maquiavel: fortuna e virtude

Nicolau Maquiavel, pensador considerado por muitos como o fundador da Ciência Política, pouco lido hoje, é desde sempre identificado e criticado, de forma equivocada, por supostamente advogar práticas e métodos imorais, desonestos, fraudulentos e violentos – enfim, “maquiavélicos” – em especial expressos no seu livro mais famoso: O Príncipe (escrito em 1513 e com primeira edição em 1532). Na origem dessa (in)compreensão, e de sua difusão, está a Igreja de Roma, que Maquiavel, em seu tempo, identificava como o principal inimigo da unificação da Itália – objetivo maior de seu pensamento e sua ação política.

Com ele, a política ganhou autonomia frente a outras áreas do conhecimento: economia, moral, ética, direito etc. Nessa perspectiva, passou-se a reconhecer que essa área do pensamento e da ação humana tem uma dinâmica própria, que não está subordinada à moral privada e à ética cristã – como os seus antecessores e contemporâneos compreendiam. A política é pensada e praticada a partir da ótica da “razão de Estado”, na qual a guerra não é o seu oposto, mas sim um dos seus possíveis desdobramentos.

Desse modo, a diferença fundamental entre ele e os seus antecessores é que estes trataram e discutiram a política “como ela deveria ser”, enquanto Maquiavel observou, tratou e discutiu a política “como ela é de fato”. Apoiou-se em seus estudos dos filósofos e historiadores da Antiguidade Clássica e, principalmente, tendo por referência a sua experiência de 14 anos como funcionário-Chanceler da Cidade-Estado de Florença.

No seu pequeno livro, Maquiavel, preocupado em evidenciar a “verdade efetiva das coisas”, desnuda para o povo o caráter e a natureza da política e dos governantes, cujo objetivo fundamental é chegar ao poder e mantê-lo. Em particular, aponta os métodos utilizados pelos “Príncipes” que foram bem-sucedidos em suas ações e o comportamento daqueles que fracassaram em atingir os seus objetivos.

Para o fim deste artigo, o que nos interessa de seu pensamento é o que consideramos o seu núcleo central, qual seja: os conceitos de “fortuna” e “virtù”, elaborados por ele, para refletir, respectivamente, sobre as mutáveis circunstâncias (condições) objetivas do ambiente político (distintas conjunturas) e, de outro, sobre a vontade e ação política dos Príncipes (os sujeitos políticos) em cada conjuntura. Para ele a relação fortuna-virtù é decisiva para entender porque alguns vencem e outros fracassam. A ideia é a seguinte:

A fortuna se refere às circunstâncias fundamentalmente imprevisíveis e incontroláveis (externas), com as quais os sujeitos políticos se defrontam em sua ação política, que colocam situações e problemas novos que devem ser enfrentados – cujas soluções estão limitadas por essas mesmas circunstâncias. Mas isso não se confunde com destino, fatalismo inexorável, poder cego e incontrolável; a ação dos sujeitos pode enfrentar a fortuna, influenciá-la e parcialmente direcioná-la. Para isso, estes devem adaptar os seus comportamentos e as suas ações a ela – o que remete ao significado e à importância do conceito de virtù.

A virtù para Maquiavel, diferentemente da concepção de seus contemporâneos, não se identifica com as conhecidas virtudes cristãs, que caracterizam um “homem bom” e estão associadas à salvação da alma. O homem de ação, ele mesmo imerso nos acontecimentos, tem capacidade, determinação, energia e engenhosidade, capacidade de adaptar o seu comportamento e as suas ações às circunstâncias, às necessidades das diversas conjunturas, de acordo com os distintos problemas colocados objetivamente. Assim, o sujeito político deve interferir sobre a fortuna, mas ser guiado pela necessidade política (pragmatismo), e ter a capacidade, caso necessário, de “mudar a sua natureza”, adaptando-a aos tempos. Todas as suas ações políticas devem estar coerentes com esse princípio geral, independentemente de estarem ou não compatíveis com as virtudes cristãs – sob a pena de ser derrotado, inexoravelmente, pela fortuna.

Em suma, a fortuna é algo externo ao sujeito político, está fora de seu controle, não está subordinada a sua vontade e nem pode ser prevista quando vai mudar (a incerteza é própria da política); portanto, o Príncipe virtuoso é aquele que consegue entender as circunstâncias de cada momento, e suas mutações, adaptando a sua vontade e a suas ações a elas, de forma a tirar o máximo proveito da nova situação, procurando direcioná-la a seu favor. E, mais especialmente, a virtude maior do sujeito político é ter a capacidade de se adaptar ativamente à fortuna mesmo que isso signifique contrariar a sua própria natureza.

Lula: fortuna e virtù

Como é do conhecimento de quase todos, os governos Lula, em particular o seu segundo governo, obteve um enorme sucesso, mesmo sem modificar/alterar as características essenciais do Padrão de Desenvolvimento Capitalista Liberal-Periférico – constituído no Brasil desde o início dos anos 1990. Ao fim e ao cabo, os seus resultados econômicosociais o diferenciaram fortemente dos governos de FHC.

Intelectuais e políticos da direita neoliberal explicam esse sucesso como uma questão de “sorte”; o Lula foi um sortudo: além de, supostamente, ter se beneficiado da “casa arrumada” por FHC em razão das reformas neoliberais implementadas por este, teve a sorte grande da China ter ingressado na OMC e alterar completamente os mercados de commodities ofertadas pelos países da periferia do capitalismo. Essa teria sido a razão fundamental do sucesso de Lula, que deixou o governo com 80% de aprovação.

No âmbito da esquerda, para a sua parte majoritária, a causa fundamental teria sido a superação do “Modelo Neoliberal” e a adoção do “Modelo Neodesenvolvimentista”; este último resgatando as políticas econômicas do antigo desenvolvimentismo, mas agora com distribuição de renda, decorrente das políticas sociais adotadas.

Observando o fenômeno do ponto de vista do pensamento de Maquiavel, não resta dúvida que, desde o início dos anos 2000 – portanto, antes mesmo do início do primeiro governo Lula – as circunstâncias internacionais se alteraram, com o crescimento mundial passando a ser “puxado” pelo par China-EUA, com forte impacto sobre as contas externas (balança comercial e de transações correntes) dos países periféricos. Assim, a nova fortuna permitiu a esses países a redução de suas respectivas vulnerabilidades externas conjunturais, ao melhorar os seus balanços de pagamentos.

Diante desse quadro, o governo Lula soube ler e entender a fortuna que estava se constituindo, tendo tido a virtude de flexibilizar a política macroeconômica (metas de inflação, superávit fiscal primário e câmbio flutuante) herdada de FHC – que havia sido mantida rígida durante a primeira metade do primeiro governo, inclusive levando o país em 2003 a uma recessão. Como hoje, essa política, conhecida como o “tripé macroeconômico”, dificultava os gastos do governo (investimento e programas sociais) e mantinha taxas de juros elevadíssimas, com consequências decisivas sobre o baixo crescimento econômico e o elevado desemprego.

Posteriormente contudo, a partir da segunda metade do primeiro governo, ao diminuir o superávit fiscal primário e reduzir a taxa de juros (o mesmo Regime de Política Macroeconômico, mas flexibilizado), em associação com a política de reajuste real do salário-mínimo (acima da inflação) e seus impactos nos benefícios da Previdência Social, juntamente com outras políticas sociais (Bolsa-Família), o resultado foi mais crescimento econômico, redução do desemprego e uma pequena melhora na distribuição de renda (no âmbito dos rendimentos do trabalho). Adicionalmente, a utilização dos bancos públicos e da Petrobrás também foi decisiva para alavancar a economia, que teve como símbolo maior a política “dos campeões nacionais” implementada pelo BNDES.

 Em suma, sem confrontar as reformas neoliberais e o capital financeiro, mas sabendo ler as novas circunstâncias internacionais, o governo Lula flexibilizou o Regime de Política Macroeconômica – que permitiu um desempenho econômico-social muito melhor do que aquele do período dos dois governos FHC. E para isso, Lula não precisou ir de encontro a sua própria natureza conciliadora; as novas circunstâncias (crescimento econômico) possibilitaram-lhe administrar os interesses opostos (capital x trabalho) e deslocar o conflito político para a oposição ricos x pobres.


A natureza conciliadora de Lula e o seu terceiro governo

A natureza conciliadora de Lula, sempre disposto a negociar com todos, é amplamente conhecida pelos que acompanham sua trajetória desde a sua época de dirigente sindical. Como dirigente político a sua tendência à conciliação, particularmente a partir dos anos 1990, se aprofundou – apenas mudando o escopo de negociação, que se ampliou e se tornou mais complexa.

Acontece que a crise geral do capitalismo de 2007/2008, prolongada com a crise do euro em 2010, trouxe uma nova fortuna, novas circunstâncias econômicas e políticas que afetaram as relações internacionais e todos os países do mundo. No Brasil, o impulso econômico propiciado pelas importações chinesas reduziu-se a partir do governo Dilma e o crescimento econômico desacelerou. A tentativa desse governo de se contrapor a essa desaceleração, através de isenções fiscais para o capital, não funcionou. Os capitalistas não investiram os recursos obtidos, mas aplicaram no mercado financeiro com a compra de títulos do governo. E o pior, a redução das receitas públicas, decorrente da política de isenção, criou um problema fiscal, expresso em déficits primários.

Na sequência, o segundo governo Dilma, logo no seu início, implementou um “ajuste fiscal”, a austeridade preconizada e proposta pela direita neoliberal; o resultado todos conhecem: uma enorme recessão, que foi fundamental para a desestabilização do governo e a construção do golpe de Estado de 2016 – com o impedimento da Presidente. Para piorar, assistiu-se, a partir da crise mundial, à ascensão da extrema direita neofascista, expressa no Brasil pelo bolsonarismo, que começou a vir à tona em meio às manifestações de 2013 e da campanha do impeachment em 2015-16, consolidando-se definitivamente com o governo Temer e, a seguir, com a eleição em 2018 de Jair Bolsonaro.

O desastroso governo Bolsonaro, em todas as áreas (economia, educação, saúde, meio ambiente, relações internacionais etc.), abriu as portas para o terceiro mandato de Lula, mas em uma conjuntura completamente distinta da existente durante os seus dois governos anteriores. Nas novas circunstâncias, as forças políticas adversárias ampliaram-se: à direita neoliberal tradicional, cada vez mais caudatária da extrema direita neofascista em todo o mundo, veio juntar-se o bolsonarismo que, apesar de derrotado (por um fio) na eleição para presidente, elegeu uma grande bancada de deputados e senadores. Adicionalmente, o empoderamento do Parlamento desde o governo Temer, com a aprovação do caráter obrigatório para as emendas parlamentares (secretas ou não), enfraqueceu o Poder Executivo na sua relação com o Poder Legislativo. O chamado “Presidencialismo de Coalizão” sofreu um forte abalo, com a perda de poder de negociação do Presidente da República.

Nesse cenário adverso, Lula vem tocando o seu terceiro governo do mesmo modo como fez em seus dois governos anteriores: desconsiderando a necessidade de mobilização popular e com ampla negociação encapsulada no Parlamento, sancionando uma correlação de forças desfavorável. No entanto, em momentos pontuais apostou na mobilização popular e obteve, exemplarmente, a aprovação da isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais, barrou a anistia para Bolsonaro e os golpistas e enfrentou vitoriosamente, de forma soberana, a taxação de Trump contra as exportações brasileiras.

A conciliação com a austeridade expressou-se no Novo Arcabouço Fiscal, substituto do famigerado Teto de Gastos do governo Temer, e na política monetária (juros estratosféricos) do Banco Central – que deram continuação ao Tripé Macroeconômico, agora de forma rígida. Como consequência, os programas e políticas dos governos anteriores de Lula foram reativados, após os ataques de Temer e Bolsonaro, mas de forma mais tímida e precária. Além disso, a desestruturação da cadeia produtiva do petróleo, em particular o fatiamento da Petrobrás promovida pelos governos de Temer e Bolsonaro, retirou do governo um importante instrumento de política econômica.

Apesar disso tudo, a taxa média de crescimento da economia brasileira no atual governo ainda vai se situar em torno de 2,7% e a taxa de desocupação é a menor da série histórica, não podendo deixar de se observar, contudo, que os empregos gerados são de baixíssima qualidade. De qualquer sorte, nas novas circunstâncias, o melhor desempenho da economia, expresso nos diversos indicadores econômicos, não tem se refletido em uma melhor avaliação do governo e de Lula. Apostar que o crescimento, por si só, associado a políticas sociais inclusivas, é suficiente para “ganhar politicamente” a maioria da população não tem se mostrado efetivo. Isso já havia sido constatado quando eclodiram as manifestações de junho de 2013, mas parece que não foi registrado.

Nesse novo contexto, o “Centrão”, a direita neoliberal e o neofascismo passaram durante todo o período emparedando e “disciplinando” o terceiro governo Lula que, após os momentos de mobilização acima citados, continuou com sua “tática negociadora restrita ao Parlamento”. Agora, recentemente, a vitória da “pequena política” mais uma vez se impôs: o amplo leque oposicionista derrotou o governo em duas pautas importantes, reprovando a sua indicação para ministro do STF e derrubando os vetos de Lula na proposta de dosimetria (redução das penas para Bolsonaro e os demais golpistas) que havia sido aprovada pelo Parlamento.

Estamos em um momento decisivo (há apenas cinco meses para a eleição) e não há o menor sinal de se retomar a mobilização popular. Parece que, diferentemente dos seus governos anteriores, Lula não conseguiu ler as novas circunstâncias com que se deparou em seu terceiro governo, isto é, não conseguiu se adaptar à mudança da fortuna, que exigiria ir de encontro a sua própria natureza conciliadora. No passado, a conciliação pôde funcionar, propiciando ganhos econômico-sociais conjunturais para a classe trabalhadora. Em um momento de crescimento econômico e inexistência ainda do movimento neofascista, Lula conseguiu arbitrar o conflito capital-trabalho. Hoje, contudo, a fortuna é outra: exigiria, desde o início do terceiro governo, forte mobilização popular como base para qualquer negociação, dentro e fora do Parlamento.

Mas essa “mudança de chave” não ocorreu, apesar dos dois discursos proferidos por Lula (nos EUA em setembro de 2025 e, mais recentemente, na Espanha) nos quais reconhece e faz a crítica da esquerda por ter abandonado a organização e mobilização popular. O retardatário apoio (mas sem mobilização) do governo Lula, do PT e dos sindicatos em geral, mas particularmente da CUT, ao fim da escala de trabalho 6x1 é exemplar da incapacidade de entender as novas circunstâncias.

E aqui chegamos a um ponto crucial: a leitura de Maquiavel, feita por Gramsci, anota que, no quadro do capitalismo e da luta de classes travada entre capital e trabalho, o “Príncipe” não deve ser entendido e reduzido a um indivíduo – por mais virtuoso que este possa ser. Na condição de “Principe”, mais importante que o indivíduo é o partido político da classe trabalhadora, desde que este assuma a direção do processo político, organizando e mobilizando a classe. Na década de 1980, com a criação do PT e sua forma de atuação, parecia que estávamos assistindo à constituição do “Principe Moderno” no Brasil. No entanto, a partir dos anos 1990, com vitória do neoliberalismo, esse projeto descarrilhou – da mesma forma como havia ocorrido com os partidos social-democratas, socialistas e trabalhistas nos países centrais do capitalismo; o processo de “transformismo” abortou a construção do “Príncipe Moderno”. Por isso, a responsabilidade de todo esse processo não é apenas de Lula e de seu governo; ela é também dos partidos de esquerda, sindicatos e centrais sindicais ligados organicamente a Lula e a este governo.

O resultado disso tudo, é que neofascismo e a direita neoliberal, ambos cada vez mais associados, sentiram-se estimulados e empoderados a “emparedar” o governo. A disputa eleitoral será, ou já está sendo, duríssima. As forças políticas neoliberais, em sua quase totalidade, estão com o bolsonarismo. A resposta a isso, só pode ser a imediata mobilização popular em torno dos temas que ainda estão sendo objeto de decisões do Congresso Nacional (em especial o fim da escala 6x1) e da eleição de Lula. Ou vai-se continuar esperando que o “gênio negociador” de Lula encontre a saída das dificuldades? A hora é agora, é a última hora!

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Che Guevara: Os Últimos Companheiros

Farah Nayeri
The New York Times 

Che Guevara é o indiscutível ícone das revoluções do século XX. Com a barba e boina inconfundíveis, se tornou uma marca, estampando camisetas ao redor do mundo até hoje — mesmo tendo morrido em 1967, aos 39 anos, após liderar uma cruzada para fomentar revoluções pela a América Latina. Menos conhecido é o fato de que Guevara foi acompanhado em sua luta continental por cerca de 50 companheiros revolucionários, a maioria dos quais morreu dentro de um ano depois dele.

Agora, o documentário “Che Guevara: Os Últimos Companheiros”, dirigido por Christophe Dimitri Réveille, conta a história dos últimos companheiros de armas de Guevara ainda vivos: três homens que lutaram contra probabilidades incríveis para manter a luta e viveram o suficiente para testemunhar.

O documentário, previsto para estrear no Festival de Cannes, começa com uma cena dramática: pessoas desfilam diante do corpo de Guevara, algumas tirando fotos. É outubro de 1967 e o líder guerrilheiro acaba de ser morto a tiros por tropas em uma escola rural na Bolívia. A poucos metros de distância, seis de seus companheiros de luta se escondem nas árvores enquanto helicópteros de combate sobrevoam o local, à sua procura. Sem saber que o líder acaba de ser executado, eles juram lutar até o último homem.

Apenas três sobrevivem: Pombo (Harry Villegas), o leal tenente de Guevara; Urbano (Leonardo Tamayo Núñez), filho de um camponês que se junta à luta armada aos 15 anos e se torna mensageiro de Guevara (ele é o único ainda vivo hoje); e Benigno (Daniel Alarcón Ramírez), um camponês cuja esposa é assassinada diante de seus olhos e que se torna capitão no exército rebelde de Che.

Esses são os protagonistas do filme. Durante cinco meses extenuantes, eles escapam de mais de 4 mil soldados bolivianos, percorrem 2.400 quilômetros de terreno perigoso e sobrevivem à fome, sede e ferimentos. Sua história é contada por meio de entrevistas filmadas, imagens de locações na Bolívia e — para maior intensidade dramática — segmentos de animação. Em uma entrevista em vídeo recente, Réveille falou sobre seu interesse em Che e seus leais combatentes. A conversa foi conduzida em francês e foi editada e condensada.

Como você descobriu a história desses três homens?

Meu pai me levou em uma viagem a Cuba em 1997, na época em que repatriavam os restos mortais de Che Guevara. Percebi que eu realmente não sabia muito sobre ele e que precisava descobrir mais. Li um livro sobre Che e descobri que havia cubanos que sobreviveram à sua morte. Um deles, Benigno, havia desertado e sido condenado à morte por traição pelo líder cubano Fidel Castro. Ele estava morando na França.

Levei um ano e meio para encontrar Benigno. Quando o conheci, seus editores disseram que eu poderia fazer um documentário sobre ele, desde que terminasse sua biografia primeiro. Pensei comigo mesmo: Este homem está condenado à morte. Vou filmar tudo o que ele disser e mandar traduzir para que fique registrado, caso algo lhe aconteça.

A biografia foi publicada em 2006. Paralelamente, comecei a fazer um documentário sobre ele. Encontrei arquivos e conheci o ator Benicio Del Toro, que estrelava a cinebiografia "Che", de Steven Soderbergh, em 2008. Del Toro me deu a ideia de fazer um documentário sobre todos eles, mas também me disse que era impossível vê-los todos; Soderbergh e sua equipe já haviam tentado.

Pensei: talvez haja algo que possa ser feito. Fiz uma primeira viagem à Bolívia para conhecer pessoas e vasculhar os arquivos. Depois de um tempo, percebi que conseguiria vê-los todos. Foram 20 anos de trabalho árduo.

Por que você inicialmente quis fazer um documentário sobre Benigno?

Achei um personagem interessante. Não era alguém que se juntou à luta armada por razões ideológicas, mas porque viu as forças cubanas matarem sua esposa grávida. Ele perdeu tudo. Mataram até o cachorro dele.

Sempre me interessei por pessoas que vivem nas sombras. O primeiro documentário em que trabalhei foi sobre Jack Waltzer, membro vitalício do Actors Studio em Nova York e um importante preparador de atores, de quem ninguém nunca ouviu falar. Dustin Hoffman, Robert Duvall e Jon Voight estavam no filme porque trabalharam com ele. Che está em todos os livros de história. Eu me concentrei em pessoas que fazem revoluções, mas cujos nomes não aparecem em lugar nenhum.


Por que você se interessa por heróis desconhecidos, por pessoas que poderiam ser descritas como azarões?

Você consegue entender as grandes histórias quando aborda através de pequenas histórias. Além disso — e isso é algo pessoal, mas não me importo de compartilhar — perdi minha mãe aos 17 anos. E naquele dia, decidi que iria aonde quer que antes tivesse medo de ir. Até então, eu era caseiro. Meus pais sempre diziam que era melhor economizar dinheiro agora e viajar depois. Mas a partir daquele dia, viajei muito. Esses sobreviventes deram um significado real à minha vida.

Eu era um garoto que havia mergulhado na anorexia, nas drogas, em tudo isso. E um dia me deparei com essa história. Percebi que existiam homens ainda mais perdidos do que eu, e que decidiram viver suas vidas em busca de um ideal. Percebi que, na vida, existem coisas maiores do que nós, sofrimentos maiores. Se eu tivesse conhecido a história deles antes, isso teria me impedido de ficar à deriva por anos, sem saber o que fazer da minha vida.

Esses homens são heróis para você?

Sim. Eles são heróis porque conquistaram o impossível — mas não por interesse próprio. Não são homens que agem apenas em benefício próprio. Eles querem sair vivos para poderem se rearmar e retomar a luta.

Eles também são muito sensíveis à injustiça.

Porque sofreram. Um deles se lembra de ter visto camponeses sendo espancados diante de seus olhos. Outro conta sobre o assassinato de sua esposa. Como perderam tudo, suas vidas perderam o sentido. É por isso que seguem Che.

Che Guevara é o motivo do interesse público pelo seu filme e da seleção feita pelo Festival de Cannes. O que você acha dele?

Há momentos em que o admiro, mas tenho a impressão de que, eventualmente, ele chegou a um ponto sem volta. Os motivos que o levaram a se engajar na luta são legítimos, mas a maneira como ele buscou mudar o mundo pode ser questionada.

Iniciar revoluções é interessante, mas quando elas são vencidas, transformam o mundo. Muitas vezes, aqueles que lideraram a revolução são traídos por ela. Muitos idealistas inevitavelmente se decepcionam, porque se veem do lado dos opressores.

Como você reagiu ao saber que seu filme havia sido selecionado para uma exibição especial em Cannes?

Fiquei feliz e, ao mesmo tempo, só conseguia sentir tristeza, pensando que Benigno jamais veria. Fiquei tão triste que prometi a mim mesmo que visitaria o túmulo dele antes de ir a Cannes — para lhe contar que havia conseguido. Espero que Urbano consiga vê-lo. Ele é o único dos três homens que ainda está vivo.

É curioso que este documentário tenha acabado no Festival de Cannes. Mesmo que tivesse sido rejeitado, eu não teria tido outra escolha senão terminá-lo — porque este filme simplesmente precisava ser feito.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

La patria se defiende

Rosa Miriam Elizalde
La Jornada

El primero de mayo de 2026 quedará como una jornada de enorme densidad política para Cuba. Mientras más de 5 millones de personas se movilizaban en todo el país, con más de 600 mil habaneros concentrados frente a la embajada de Estados Unidos en el malecón, la Casa Blanca respondió con una nueva orden ejecutiva contra la isla. Fue una señal. Cuba llenó las calles para afirmar su voluntad de defenderse; Washington contestó endureciendo el cerco.

La orden ejecutiva firmada por Donald Trump no es simplemente “más bloqueo”. Su gravedad no está sólo en que congela bienes, impide transacciones y amplía castigos. Reside, sobre todo, en que no se dirige únicamente contra estadunidenses que violen las leyes del bloqueo, sino contra “cualquier persona extranjera” que, a juicio del secretario de Estado o del Tesoro, opere en sectores de la economía cubana o preste apoyo material, financiero o tecnológico al gobierno de Cuba. Es decir, convierte a funcionarios estadunidenses en jueces globales con capacidad para castigar a ciudadanos, empresas y bancos de terceros países por relacionarse con la isla.

La discrecionalidad es el corazón del mecanismo. No hace falta una sentencia ni un delito probado ni una violación cometida dentro de Estados Unidos. Basta con que la burocracia de Washington determine que alguien ha tenido relación económica o institucional con Cuba para activar sanciones. Ése es el verdadero salto: el bloqueo deja de ser política bilateral abusiva y se reafirma como pretensión de jurisdicción mundial. Estados Unidos no sólo sanciona: pretende decidir quién puede comerciar, financiar, invertir o cooperar con la nación caribeña.

Por eso la fecha importa. La orden fue emitida el mismo día en que Cuba demostraba músculo político, organización social y capacidad de movilización. El mensaje de la Casa Blanca fue transparente: frente a la calle cubana, más castigo; frente a la soberanía, más presión; frente a la resistencia, más asfixia económica.

Horas después, Trump completó el cuadro con una intervención en Florida en la que afirmó que “tomará el control” de Cuba “casi de inmediato” y que la isla sería su siguiente objetivo después de “terminar” el trabajo en Irán. Añadió que quizá haría detener el portaviones USS Abraham Lincoln a “unas 100 yardas” (91.44 metros) de la costa cubana, hasta que los cubanos dijeran: “muchas gracias, nos rendimos”. La frase no sólo es agresiva: es absurda. Un portaviones de ese tamaño no se coloca a esa distancia de la costa. Sería técnicamente inviable, militarmente irracional y operativamente ridículo.

Pero el problema no es sólo la bravuconería: es la ignorancia con poder. Trump ya había dicho que por Cuba no pasan huracanes, como si desconociera la geografía elemental del Caribe. También afirmó que no le importaba que un buque ruso llevara petróleo a la isla porque “la gente necesita calefacción”, confundiendo la realidad energética cubana con la de países de invierno continental. Ahora imagina un portaviones estacionado a un palmo del malecón. La acumulación de disparates revela que se amenaza alegremente a un país que ni siquiera se conoce.

El primero de mayo mostró dos imágenes opuestas. En La Habana y en toda Cuba, un pueblo movilizado bajo la consigna “La patria se defiende”. En Washington y Florida, un poder que responde con sanciones y fantasías de rendición. Pero cuando se amenaza a una nación que no se conoce, el error no es sólo político, es estratégico.

Cuba es una sociedad organizada, con memoria histórica, con experiencia en resistir bajo duras presiones y con clara disposición a defender su soberanía. Pensar que una aventura bélica sería rápida o indolora es una peligrosa subestimación de la realidad. Lo que Trump imagina como trámite que le reportará el gesto canalla del “muchas gracias, nos rendimos”, en la práctica podría convertirse en conflicto imprevisible, costoso y cualquier otra cosa, menos un “paseo” por el Caribe.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Israel está haciendo desaparecer a la población palestina de todas las maneras posibles

Belén Fernández
Middle East Eye

Los informes sobre niños desaparecidos y cuerpos "evaporados" revelan un patrón cada vez mayor de aniquilación en Gaza, donde familias enteras son asesinadas, se pierden bajo los escombros o quedan reducidas a vestigios biológicos.

El 23 de abril el periódico israelí Haaretz informó de que «decenas de niños desaparecen cada semana» en la Franja de Gaza «en el contexto del caos de la posguerra»; un curioso eufemismo, sin duda, para el genocidio en curso respaldado por EE. UU. en el territorio palestino, que avanza a buen ritmo a pesar del alto el fuego que se implementó ostensiblemente el año pasado.

El artículo comienza con Mohammed Ghaban, de cuatro años, que desapareció a principios de abril en el norte de Gaza: «Estaba jugando con su hermano delante de la tienda de campaña de su familia desplazada. Entró, pidió un abrazo, se puso las sandalias y salió». Y entonces desapareció.

El autor cita una estimación del Centro Palestino para los Desaparecidos y Desaparecidos Forzosamente según la cual 2.900 niños «desaparecieron durante la guerra», y se cree que 2.700 cadáveres quedaron atrapados bajo los escombros, mientras que los 200 restantes simplemente están desaparecidos.

Estas estadísticas concuerdan con el modus operandi del ejército israelí, que, según el recuento oficial de víctimas mortales, ha matado a más de 72.500 palestinos en Gaza desde el inicio del genocidio en 2023, con miles más aún desaparecidos y presuntamente muertos bajo los escombros. La relatora especial de las Naciones Unidas, Francesca Albanese, advirtió ya en septiembre que el verdadero número de víctimas mortales podría rondar ya las 680.000.

Hablando de desapariciones, una investigación de Al Jazeera en árabe reveló en febrero que al menos 2.842 palestinos se habían «evaporado» en la Franja de Gaza desde el inicio de la guerra, un fenómeno que los equipos de defensa civil de Gaza atribuyen al uso por parte de Israel de armas térmicas y termobáricas de fabricación estadounidense, que efectivamente «vaporizan» los cuerpos humanos.

Esta espeluznante cifra quedó rápidamente eclipsada por la desquiciada guerra de Estados Unidos e Israel contra Irán y la catástrofe regional más amplia, que ha acaparado las noticias durante los últimos dos meses. Pero el tema sigue siendo tan siniestro y relevante como siempre.

En unas declaraciones a Al Jazeera en aquel momento, el portavoz de la Defensa Civil, Mahmud Basal, describió el proceso para determinar el número de víctimas «vaporizadas» en las viviendas atacadas por los ataques israelíes: «Si una familia nos dice que había cinco personas dentro y sólo recuperamos tres cadáveres intactos, consideramos que las dos restantes se han «evaporado» únicamente después de que una búsqueda exhaustiva no haya dado más que rastros biológicos: salpicaduras de sangre en las paredes o pequeños fragmentos como trozos de cuero cabelludo».

Cuerpos vaporizados

Tras la publicación de estos macabros hallazgos al ejército israelí le entró un ataque de furia genocida, por lo que emitió un colérico comunicado para, supuestamente, aclarar las cosas. Rechazando la «falsa afirmación de Al Jazeera sobre la evaporación de los cuerpos de Gaza», el ejército insistió en que «solo utiliza municiones legales» y que «ataca objetivos militares de conformidad con el derecho internacional y toma todas las medidas posibles para mitigar el daño a los civiles y a la propiedad civil en la medida de lo posible».

No está claro, por supuesto, por qué un ejército al que se ha acusado de haber matado potencialmente a casi 700.000 personas —y que aniquila familias y barrios enteros sin pestañear— se ofendió tanto por todo el asunto de la «evaporación». Hay que reconocer que hacer desaparecer los cadáveres en el aire es una forma bastante buena de ocultar el verdadero alcance de una matanza masiva. Y aunque la «vaporización» de los cuerpos palestinos quizá no se ajuste a la definición jurídica oficial de desaparición forzada, es, literalmente, exactamente eso.

Según el sitio web de la Oficina del Alto Comisionado de las Naciones Unidas para los Derechos Humanos, «se considera desaparición forzada la detención, el encarcelamiento, el secuestro o cualquier otra forma de privación de libertad por parte de agentes del Estado o de personas o grupos de personas que actúen con la autorización, el apoyo o la aquiescencia del Estado, seguida de la negativa a reconocer dicha privación de libertad o del ocultamiento de la suerte o el paradero de la persona desaparecida, lo que la sitúa fuera de la protección de la ley».

Sin embargo, a la luz de la explícita campaña de desapariciones de Israel en Gaza, parecería necesario ampliar considerablemente esa definición. Pero Israel también es culpable de la variedad tradicional de desaparición forzada. El pasado agosto expertos de la ONU denunciaron, con informes, que civiles palestinos hambrientos —entre ellos un niño— estaban siendo víctimas de desapariciones forzadas en los puntos de distribución de ayuda gestionados por la infame Fundación Humanitaria de Gaza.

Respaldada por Israel y Estados Unidos, la fundación también se especializó en masacrar a personas desesperadas que se habían reunido en busca de alimentos y otros artículos necesarios para la supervivencia. Por otra parte, tanto en Gaza como en Cisjordania, las desapariciones forzadas de personal médico, periodistas y todo tipo de personas a manos de Israel se han multiplicado desde el inicio del genocidio, aunque esto no es nada nuevo.


Patrón global

Por su parte, Estados Unidos ha participado en desapariciones forzadas en un montón de lugares de todo el mundo, entre otras cosas ayudando y encubriendo a sanguinarios regímenes de derechas por toda América Latina durante la Guerra Fría. Decenas de miles de personas desaparecieron en Argentina, Guatemala y otros lugares mientras Estados Unidos y sus aliados se dedicaban noblemente a hacer del hemisferio un lugar seguro para el capitalismo.

En México más de 130.000 personas han desaparecido, la gran mayoría de ellas tras el inicio en 2006 de la «guerra contra las drogas» respaldada por Estados Unidos, que se caracterizaría más acertadamente como una guerra contra los pobres.

Pero desde México hasta Oriente Medio el número de desaparecidos apenas refleja el alcance de la victimización. Las familias de los desaparecidos también son víctimas, condenadas como están a un limbo psicológico indefinido ante la falta de información concreta sobre la suerte de sus seres queridos, sin la cual es imposible iniciar el proceso de duelo u obtener el cierre emocional necesario para seguir adelante con la vida.

En el caso de la «evaporación» de palestinos en Gaza por parte de Israel, es difícil decir si el saber que tu ser querido ha sido vaporizado es lo suficientemente concreto como para permitir un eventual cierre. Al fin y al cabo, no hay nada muy concreto en el hecho de desaparecer por la fuerza sin dejar rastro.

De hecho, Al Jazeera cita al padre palestino Rafiq Badran sobre el tormento psicológico casi inconcebible que acompaña a la siniestra nueva versión de Israel sobre el tema de las desapariciones forzadas: «Cuatro de mis hijos simplemente se han esfumado», dijo Badran, conteniendo las lágrimas. «Los he buscado un millón de veces. No ha quedado ni rastro. ¿Adónde han ido?».

Ahora, con la guerra regional en pleno apogeo mientras la industria armamentística se embolsa grandes sumas de dinero, al público mundial le resulta aún más fácil ignorar la singular situación de la población palestina, lo que significa que el genocidio también está desapareciendo de hecho del foco de atención.

Al final, por supuesto, el objetivo de Israel no es otro que hacer desaparecer por la fuerza la idea misma de un pueblo palestino. Pero, por desgracia para Israel, no va a poder ocultar tan fácilmente un legado empapado de sangre.

domingo, 3 de maio de 2026

Victor Serge, un revolucionario indómito

Ian Birchall
Pluto Press

Víctor Serge vivió una notable secuencia de convulsiones revolucionarias antes de morir en el exilio mexicano a los 56 años. La vida y la obra de Serge, atrapadas entre la esperanza y la desesperación, pueden ayudarnos a comprender el turbulento siglo XX europeo.

Muchos lectores conocerán la obra literaria de Víctor Serge: sus novelas, en particular El caso del camarada Tulayev, y su fascinante autobiografía Memorias de un revolucionario. Toda su obra gira en torno a los grandes acontecimientos históricos de la primera mitad del siglo XX, las esperanzas suscitadas por la Revolución Rusa de 1917 y su posterior desenlace catastrófico.

Ahora Mitchell Abidor ha escrito una biografía de Serge, basada en una investigación exhaustiva y en documentación reunida por el gran estudioso y traductor de Serge, Richard Greeman. Si bien Abidor no cuestiona de manera fundamental el relato que el propio Serge presentó en sus Memorias, añade numerosos detalles fascinantes que sitúan la evolución política de Serge en su contexto.

Anarquismo y bolchevismo

Nacido en Bélgica en el seno de una familia rusa con el nombre de Víctor Lvovich Kibálchich, Serge atravesó un notable proceso de desarrollo intelectual siendo todavía adolescente (nunca fue a la escuela). Se trasladó a París y se incorporó activamente como escritor y editor al ambiente anarquista, terminando en prisión durante cinco años.

Abidor dedica el primer cuarto del libro a la etapa anarquista de Serge. Los revolucionarios no nacen como tales, sino que se hacen a sí mismos, a menudo a través de un camino marcado por dificultades y contradicciones. Aunque Serge conservó siempre cierta simpatía por el anarquismo, Abidor muestra que existían algunos elementos profundamente reaccionarios en el ambiente anarquista parisino.

La influencia del individualismo radical y un marcado pesimismo sobre la posibilidad del cambio social hicieron que Serge fuera muy escéptico respecto a la viabilidad de la acción colectiva. Fueron sus experiencias posteriores de acción de masas, primero en España y luego en Rusia, las que lo llevarían a una reorientación fundamental de su actividad política.

La Revolución Rusa de 1917 fue el punto de inflexión decisivo en el desarrollo de Serge. Para Serge, como para toda una generación devastada por la espantosa matanza masiva de la Primera Guerra Mundial, la llegada al poder del Partido Bolchevique fue un momento de esperanza, esperanza de que fuera posible construir un orden social completamente diferente.

El joven Serge se había entregado a especulaciones sobre la posibilidad de la revolución. Ahora una revolución real había ocurrido y, aunque divergía de sus ideas anteriores, estaba decidido a desempeñar su papel en ella. Con grandes dificultades, se abrió camino a través de Europa y se puso al servicio de los bolcheviques.

La Rusia posrevolucionaria no era un paraíso. La razón principal —y una que Abidor podría haber subrayado más— fueron los esfuerzos realizados por las grandes potencias de Occidente (Gran Bretaña, Francia, Estados Unidos, etc.) para subvertir y derrocar al nuevo régimen e impedir que la esperanza que encarnaba contagiara a los trabajadores de otras partes del mundo. Ejércitos extranjeros invadieron Rusia para unirse a los contrarrevolucionarios locales; la llamada guerra civil fue una guerra de defensa nacional. Serge, que participó en la defensa armada de Petrogrado y escribió una poderosa historia al respecto, El año uno de la Revolución Rusa, lo comprendía bien.

Ciertamente Serge tenía, como muestra Abidor, críticas y reservas sobre los primeros años de la revolución. Pero no hay duda de que su principal motivación en esos años era el compromiso de defender y propagar la revolución. Incluso apoyó la supresión de la revuelta de Kronstadt contra los bolcheviques en 1921 (aunque más tarde cambió de opinión al respecto). Serge desarrolló el concepto de «doble deber»: la necesidad de enfrentar a los enemigos externos de la revolución pero también, y al mismo tiempo, los factores negativos dentro de la revolución.

Al igual que Vladimir Lenin y León Trotsky, Serge estaba convencido de que la revolución solo podía sobrevivir y desarrollarse si se extendía hacia el oeste. A mediados de la década de 1920, se trasladó a Europa central con el propósito de desempeñar su papel en la esperada revolución alemana que habría transformado el equilibrio de fuerzas en toda Europa. Por más ilusorias que las esperanzas de una revolución alemana puedan parecer en retrospectiva, la Alemania de 1923, descrita por Serge en una serie de crónicas periodísticas, estaba al borde del colapso social y económico y realmente parecía una sociedad al filo de la revolución.

Medianoche en el siglo

Los diez años de compromiso revolucionario fueron, en cierto sentido, los más importantes en la vida de Serge. Le dieron un ideal y una visión de esperanza frente a la cual podían medirse las deformaciones y traiciones posteriores de la revolución. A finales de la década de 1920, las cosas habían cambiado de manera catastrófica. Lenin había muerto, Trotsky había sido enviado al exilio y Iósif Stalin controlaba cada vez más la URSS.

Las simpatías de Serge estaban con Trotsky, una figura a quien, pese a las diferencias entre ellos, siempre admiró. Pero el régimen no podía tolerar el apoyo de Serge a la Oposición de Izquierda, a pesar de —en realidad, precisamente por— su historial como defensor de la revolución. Fue arrestado, interrogado brutalmente y enviado al exilio a más de mil cuatrocientos kilómetros de Moscú.

En cierto sentido, Serge tuvo suerte: fue exiliado, pero no enviado a un campo de concentración. La mayoría de sus contemporáneos con simpatías opositoras terminaron muertos. Una de las principales razones por las que Serge evitó ese destino fue que un grupo significativo de amigos y camaradas en Francia llevó a cabo una vigorosa campaña por su liberación. Stalin, que necesitaba aliados en la izquierda francesa, decidió exiliarlo en lugar de someterlo a juicio.

Como le sucedió a mucha gente, con frecuencia me han pedido que exprese apoyo a personas encarceladas en países extranjeros, y me he preguntado si eso tiene algún sentido. La liberación de Serge demuestra que esas campañas pueden funcionar, al menos a veces.

Serge regresó a Bélgica, luego a Francia. Continuó escribiendo copiosamente, tanto periodismo como novelas. Aunque había escapado del estalinismo, otras amenazas persistían. En toda Europa occidental, el fascismo estaba en ascenso.

Tras la marcha triunfal de Francisco Franco sobre Madrid y Barcelona en 1939, Francia quedó rodeada por tres lados por regímenes fascistas (en Alemania, Italia y España). Era, en una frase que Serge acuñó como título de una de sus novelas, la «medianoche en el siglo». Cuando Francia fue ocupada por las tropas alemanas al año siguiente y se estableció un régimen ferozmente derechista y antisemita, Serge se propuso salir de Europa y escapar hacia América del Norte.

Esta fue la etapa de Serge como solicitante de asilo. Quizás pocos solicitantes de asilo tienen un pasado político como el de Serge, ni un talento literario como el suyo. Pero en sus esfuerzos por encontrar un lugar en un barco con destino al otro lado del Atlántico, Serge nos recuerda los problemas y tormentos que enfrentan todos los refugiados, desde su época hasta la nuestra.

Serge encontró refugio en México, que acogió a numerosos exiliados europeos. León Trotsky había sido exiliado (y asesinado por un agente estalinista) allí. Serge pasó sus últimos años rodeado de exiliados europeos, con diversas esperanzas y aspiraciones para el mundo de posguerra. Continuó escribiendo, tanto para publicar como en sus cuadernos. Murió en 1947, a los cincuenta y seis años, en una pobreza extrema (tenía agujeros en los zapatos), agotado por una vida de lucha y persecución.


Preguntas sin respuesta

Para quienes, como yo, hemos admirado a Serge durante mucho tiempo, la sección final del libro de Abidor es quizás la más triste. Abidor ha examinado cuidadosamente los escritos publicados e inéditos de Serge de sus últimos años, y concluye de manera convincente que en ese período Serge veía al comunismo como el «enemigo principal».

En cierto sentido, esto apenas sorprende. La violencia estalinista no se limitaba a la URSS: los comunistas estalinistas de México habían atacado físicamente a Serge e incluso pudieron haber intentado matarlo. No era de extrañar que llegara a verlos como su enemigo principal. De hecho, es difícil saber cómo habría evolucionado Serge de haber vivido más tiempo. Murió en el otoño de 1947; la Guerra Fría había comenzado apenas ese mismo año, con la proclamación de la Doctrina Truman, cuando el presidente de Estados Unidos prometió apoyo material a las naciones que resistieran al comunismo, y con el giro hacia huelgas combativas por parte de los Partidos Comunistas de Europa occidental. Durante los cuarenta años siguientes, la política mundial estaría dominada por la confrontación entre los bloques estadounidense y soviético.

Algunos ex comunistas, como Arthur Koestler, se convirtieron en defensores leales y entusiastas del campo occidental. Pero existía también una corriente mucho más pequeña, representada por figuras como C. L. R. James, Hal Draper, Cornelius Castoriadis y Tony Cliff, que adoptó una perspectiva diferente. Al tiempo que argumentaban que el estalinismo no tenía nada en común con el socialismo, buscaban un camino político independiente tanto de Washington como de Moscú. ¿Habría apoyado Serge a los estadounidenses en Corea y Vietnam, o se habría mantenido fiel al espíritu de independencia revolucionaria que había caracterizado su vida hasta entonces? Solo podemos especular.

El abanico de opciones que enfrentaba Serge puede ilustrarse observando a algunos de los compañeros que compartieron su exilio en México. Marceau Pivert había sido el líder de la facción de extrema izquierda del Partido Socialista francés durante la década de 1930, antes de separarse para formar un grupo propio. En 1945 regresó a Francia y se reintegró al Partido Socialista.

Aunque se opuso a toda cooperación con el Partido Comunista francés, Pivert se mostró cada vez más insatisfecho con el giro a la derecha del Partido Socialista. En particular, mantuvo su compromiso con la causa de la liberación colonial y se opuso firmemente a la represión del movimiento por la independencia de Argelia; esto lo llevó a una ruptura definitiva con la dirección del Partido Socialista poco antes de su muerte, en 1958.

Otro de los estrechos colaboradores de Serge, Julián Gorkin, siguió un camino diferente. Durante la Guerra Civil española, había sido dirigente del Partido Obrero de Unificación Marxista (POUM), que confrontó al Partido Comunista de España desde la izquierda. Exiliado en México, ayudó a Serge a obtener una visa mexicana y, junto a él, continuó enfrentado la violencia de los estalinistas mexicanos.

Sin embargo, para cuando se instaló en París en 1948, Gorkin ya se había alineado firmemente como anticomunista en el contexto de la Guerra Fría. Se convirtió en editor de una revista en lengua española, Cuadernos, en nombre del Congreso por la Libertad de la Cultura, que (como se hizo ampliamente conocido) era financiado y controlado por la Agencia Central de Inteligencia (CIA) de Estados Unidos.

Esperanza y traición

Una cosa es clara: la perspectiva de Serge es ante todo europea. Aunque escribiío un artículo muy perspicaz sobre el levantamiento chino de 1927, por lo demás mostró escaso interés por África y Asia. Sin embargo, el colapso de los viejos imperios coloniales fue uno de los desarrollos más importantes después de 1945. Gran Bretaña fue expulsada de India, mientras que Francia libró dos guerras sangrientas y desastrosas en Indochina y Argelia. No podemos saber cómo habría respondido Serge.

Si la muerte de Serge dejó una cantidad de preguntas sin respuesta, su vida fue una contribución notable a la política de la izquierda socialista. El relato de Abidor es una historia fascinante y bien documentada; merece ser leído y, con suerte, alentará a más personas a leer los propios escritos de Serge.

Toda la vida y la obra de Serge estuvo dominada por una contradicción: la manera en que la esperanza genuinamente real inspirada por 1917 cedió ante la traición del estalinismo. Como lo resumió el propio Serge: «De una magnífica victoria obrera hemos visto surgir, sobre la base de la propiedad socialista de los medios de producción, un régimen inhumano, profundamente antisocialista en el modo en que trata a los seres humanos».

Fue esta contradicción la que configuró el mundo del siglo XX. La herencia sigue con nosotros, mientras enfrentamos la medianoche de nuestro propio siglo. En ese contexto, quienes se rebelan contra el sistema son etiquetados de «marxistas», con frecuencia por personas que saben poco o nada de lo que es el marxismo. El recuerdo de la Guerra Fría y el anticomunismo macartista permanece entre nosotros. Aún hay mucho que aprender de la vida y la obra de Victor Serge.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

La sonrisa maligna de un colono judío pone al descubierto la monstruosidad del "Gran Israel"

Michael Leonardi
Voces del Mundo

El 10 de abril de 2026, el semanario italiano L’Espresso salió a la venta con una portada que ha provocado una debacle total en el aparato sionista. Bajo el título «L’Abuso», la imagen muestra a un colono israelí armado —vestido con uniforme militar, con kipá en la cabeza y rizos de peot colgando— sonriendo con sádico deleite mientras graba con su teléfono a una mujer palestina visiblemente angustiada. Ella se encuentra entre olivos en lo que queda de su tierra ancestral, con el rostro convertido en una máscara de dolor y agotamiento durante la cosecha anual de aceitunas.

La fotografía, tomada por el fotoperiodista italiano Pietro Masturzo cerca de la aldea de Idhna, al oeste de Hebrón, en octubre de 2025, no está montada, ni manipulada, y desde luego no ha sido generada por IA. Cuando las cuentas proisraelíes inundaron las redes sociales afirmando que era falsa, Masturzo y L’Espresso publicaron el vídeo completo.

Muestra exactamente lo que capta la imagen fija: un grupo de colonos armados, algunos con uniformes del ejército, abalanzándose sobre familias palestinas que intentaban recolectar sus aceitunas. El colono de la foto se burla de la mujer imitando el sonido que hace un pastor para arrear a los animales, tratando a los palestinos como ganado en una tierra que la ideología sionista reclama como divinamente destinada sólo a los judíos.

El embajador de Israel en Italia, Jonathan Peled, denunció inmediatamente la portada como «manipuladora» y distorsionadora de la realidad. Las redes sionistas en las redes sociales lanzaron una campaña coordinada de acoso, negación y difamación. Sin embargo, cuanto más se enfurecían, más se difundía la imagen, porque hace lo que a veces hacen las imágenes impactantes: traspasa la propaganda y muestra el rostro crudo y cotidiano de la violencia colonialista.

Esta única fotografía se ha convertido en un símbolo del proyecto sionista del Gran Israel en su forma más cruda. No es una aberración. Es la lógica de la expansión hecha visible: civiles armados, respaldados por el Estado y su ejército, aterrorizando sistemáticamente a los palestinos indígenas para robarles sus tierras, destruir sus medios de vida y expulsarlos.

Los olivos —antiguos símbolos del arraigo y la resiliencia palestinos— son arrancados, quemados o bloqueados habitualmente por los colonos. La cosecha, que antes era un momento de comunidad y sustento, se ha convertido en una temporada de miedo, confrontación y limpieza étnica a cámara lenta, especialmente en zonas como Masafer Yata y las colinas del sur de Hebrón.

El frenesí que provocó la portada revela algo más profundo que el mero control de daños en materia de relaciones públicas. Pone al descubierto la fragilidad del discurso sionista. Cuando se enfrenta a la cruda realidad —la sonrisa burlona del ocupante, el sufrimiento silencioso de los ocupados—, la respuesta por defecto es la negación, la evasión y los gritos de «antisemitismo».

El embajador y sus aliados preferirían que los italianos y el mundo nunca vieran esta cara de la ocupación. Quieren imágenes edulcoradas de «autodefensa» y «seguridad», no la humillación y el despojo cotidianos que sustentan el sueño de un Gran Israel que se extienda desde el río hasta el mar, desprovisto de sus habitantes palestinos.

El reportaje de L’Espresso que acompaña a la portada va más allá, documentando cómo los elementos más extremistas de la derecha sionista están configurando activamente la política israelí: ampliando los asentamientos ilegales, acelerando la rapiña de tierras en Cisjordania y normalizando lo que equivale a una operación de limpieza étnica a cámara lenta.

El colono de la foto no es un fanático solitario. Es el soldado raso de un proyecto respaldado por el Estado que goza de total impunidad: protegido por la ley israelí, financiado por los contribuyentes estadounidenses y amparado diplomáticamente por gobiernos de Europa y Estados Unidos, incluida la propia administración Meloni de Italia.

Sin embargo, incluso en la Italia de Meloni, la marea está empezando a cambiar. Esta semana, bajo la creciente presión de las calles y de la denominada «Generación Gaza» —los jóvenes italianos radicalizados por los horrores retransmitidos en directo desde Gaza y el creciente movimiento de base que exige el fin de la complicidad—, el Gobierno de Meloni anunció la suspensión de su memorando de cooperación militar con Israel.

Se trata de un primer paso limitado pero significativo: una grieta en el muro de alineamiento incondicional que durante mucho tiempo ha definido la política italiana hacia el régimen sionista. Por primera vez en años, los vínculos económicos y militares están siendo cuestionados desde las propias esferas del poder, y no sólo desde las plazas. El «movimiento desde abajo» —con protestas continuadas, bloqueos portuarios, huelgas en fabricantes de armas como Leonardo y una movilización pública incesante— ha obligado incluso a este gobierno de extrema derecha a dar un paso atrás.

Este avance no es un regalo de arriba. Es el resultado directo de la presión organizada y constante de la sociedad civil italiana, en particular de su juventud, que se niega a permitir que su país siga siendo cómplice voluntario del genocidio y el robo de tierras. Aunque la suspensión es parcial y reversible, indica que el monopolio de la influencia sionista en la política italiana ya no es absoluto.

La sonrisa del colono en la portada de L’Espresso se ha convertido en un espejo que ni siquiera Roma puede seguir ignorando por completo. En una época en la que los gobiernos occidentales siguen armando a Israel, vetando los llamamientos al alto el fuego y criminalizando la solidaridad con Palestina, el valor de L’Espresso al publicar esta portada es importante. El verdadero escándalo no es la fotografía. El verdadero escándalo es el proyecto de décadas que ilustra con tanta fuerza: el despojo metódico de todo un pueblo, llevado a cabo con rifles, cámaras y la certeza petulante del colonizador.

La imagen acabará desapareciendo de los titulares, pero los olivos permanecen, testigos obstinados de un crimen que se niega a permanecer oculto. Mientras los palestinos sigan cosechando lo que les pertenece, a pesar de los colonos y los soldados, la verdad seguirá abriéndose paso hasta llegar a la primera plana. Los abusos continúan. Y también debe hacerlo su denuncia.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Acerca de la guerra

Carlos Fazio
La Jornada

Entre las versiones sobre la evolución de la guerra de agresión imperialista de Estados Unidos e Israel contra Irán, la opinión dominante es que sus planificadores esperaban una victoria relámpago, con la caída y capitulación del gobierno iraní y la imposición de un régimen títere y la posterior balcanización de un país de importancia geopolítica rico en hidrocarburos. Pero por el giro que han tomado los acontecimientos, todo indica que los agresores subestimaron el poderío militar y la resistencia del nacionalismo iraní, su solidez organizativa y sus orientaciones estratégicas. Y hoy el balance parece favorecer a Irán, una nación con 3 mil años de historia y unas dinámicas internas que escapan a la comprensión de la mayoría de los occidentales.

De allí que más allá de los plazos, ultimátums y actos de aventurerismo de Donald Trump y el régimen sionista, ha quedado claro que el poder no sólo se mide en una abismal superioridad aérea, el despliegue de portaviones y la destrucción de infraestructura crítica gubernamental, civil y militar, según la doctrina militar de “conmoción y pavor” (shock and awe), dirigida a paralizar la percepción del adversario en el campo de batalla y destruir su voluntad de luchar. Sino que abarca, también, la naturaleza de la guerra asimétrica y sus dimensiones económicas y políticas; un nuevo concepto bélico desarrollado por la parte iraní en la legítima defensa de su soberanía, basado en misiles balísticos de precisión y drones fabricados con recursos propios e ingeniería inversa, como sustitutos de una fuerza aérea convencional, que dotó a Irán de una estructura disuasoria y reconfiguró el equilibrio militar en la zona, vía el ataque y/o destrucción de 13 bases de Estados Unidos en los petroemiratos del golfo Pérsico (incluidos sofisticados radares en Qatar y Bahréin, claves de la infraestructura de guerra electrónica del Pentágono), y en la capacidad de utilizar el territorio como un arma de guerra; en este caso, el estrecho de Ormuz, que hizo que los precios de los hidrocarburos, los fertilizantes y el helio se dispararan, impactando la economía mundial; lo que explica en gran medida el éxito militar de Irán hasta la fecha.

El gobierno y el alto mando militar iraní llevaban 20 años preparándose para una agresión como la del 28 de febrero. Eso es lo que –a pesar del alto costo humano y material infligido inicialmente por el eje estadunidense-israelí– les ha permitido poner en práctica una estrategia de resistencia basada en una guerra prolongada de desgaste y una “defensa en mosaico” descentralizada, principios elaborados por Irán tras los fracasos de Estados Unidos en Irak y Afganistán: los 31 centros de mando (uno por provincia) cuentan con fuerzas armadas y milicias propias, dotadas de capacidad armamentística y autonomía estratégica. En caso de un primer ataque que “decapitara” el mando central (como de hecho ocurrió con el asesinato del líder supremo de Irán, el ayatollah Ali Jamenei y de los principales jefes castrenses), todos los centros de mando pasarían a modo autónomo y seguirían luchando.

Como ha explicado el ex diplomático británico y ex agente del MI6 Alastair Crooke, para resistir la supremacía de Estados Unidos en materia de satélites e inteligencia, otra de las enseñanzas recogida por Irán de las guerras en la región fue ocultar a gran profundidad toda su estructura militar misilística y de drones, para lo cual inicialmente habría recibido ayuda de la República Popular Democrática de Corea. El resultado son las “ciudades de misiles” –como la famosa Fortaleza de Yazd, enterrada en la montaña a 500 metros de profundidad fuera del alcance de las bombas–, que según Crooke (quien ha participado activamente como mediador en Medio Oriente durante muchos años) cuentan con un sistema ferroviario que lleva los misiles hasta la salida de túneles en la superficie, desde donde se lanzan directamente (y no sólo desde lanzadores móviles sobre el terreno) y luego los silos se introducen de nuevo en su lugar.

Sería el caso, también, de la infraestructura militar naval, enterrada a lo largo de toda la costa iraní (incluida la de Ormuz), plagada de cuevas y acantilados repletos de misiles antibuque, y túneles que pasan por debajo del mar y cuentan con drones sumergibles que cuentan con baterías de litio que les da una autonomía de cuatro días. Orientados a la inteligencia artificial, los drones tienen capacidad para merodear y esperar un objetivo, seleccionarlo y atacarlo de forma autónoma. Según Crooke, Irán también dispondría de unos 25 mini submarinos y debido a que el estrecho de Ormuz no es muy profundo, pueden desplazarse sin ser detectados por los satélites y los AWACS (sistema aerotransportado de alerta y control) de Estados Unidos y disparar misiles antibuque mientras están sumergidos.

Asimismo, Irán aprendió que Estados Unidos suele tener capacidad logística sólo para una fuerza de corta duración, y su plan fue llevar al enemigo a una guerra prolongada de desgaste; por eso ha dosificado el uso de misiles. Además, Irán estaría recibiendo vía satélite apoyo en inteligencia de China a través del buque Ocean One, y dispondría de un sistema integrado de campo de batalla y sus objetivos a través de radares, similar a los IRS (estructuras de inteligencia, reconocimiento y vigilancia) que utiliza Ucrania contra Rusia.

Irán ha puesto a prueba la hegemonía del dólar. Si es atacada, responde y al mismo tiempo intensifica la represalia, en una escalada de violencia sin fin que está marcando una tendencia desfavorable a Estados Unidos. Todo indica que el contrataque estratégico iraní no se concibió para conducir a ningún compromiso negociado (saben que Estados Unidos e Israel siempre engañan y traicionan), sino más bien para crear las circunstancias mediante las cuales el país persa pueda escapar de la “jaula” impuesta por Trump y sus aliados, de aislamiento, sanciones, bloqueos y asedio permanentes.