Giorgio Agamben
Outras Palavras
Em nota, o filósofo aponta: o Estado que se declara o mais poderoso do mundo é dirigido há anos por homens tecnicamente dementes. Talvez por compaixão, não toca ao Ocidente assistir a seu declínio em consciência e responsabilidade – mas em delírio e loucura.
Vale a pena refletir sobre um fato tão inacreditável que tentamos a todo custo apagá-lo: que o Estado que se autoproclama o mais poderoso do mundo é governado, há anos, por homens que são tecnicamente dementes. Não se trata de dar uma forma extrema a um julgamento político: que Donald Trump — assim como Joe Biden antes dele, por certo — deva ser considerado demente no sentido patológico do termo é uma evidência agora compartilhada por muitos psiquiatras. Qualquer pessoa que observe sua maneira de falar não pode deixar de concordar.
O que nos interessa aqui não é, evidentemente, o caso clínico de indivíduos chamados Trump e Biden. Mas a pergunta que não podemos deixar de fazer é: qual o significado histórico de um país como os Estados Unidos — que, de certa forma, lidera todo o Ocidente — ser governado por uma pessoa com problemas mentais? Que declínio espiritual e moral radical, mesmo antes de sua natureza política, poderia ter levado a um resultado tão extremo?
Que o destino do Ocidente estivesse selado pelo niilismo era algo que Friedrich Nietzsche já havia diagnosticado há mais de um século, juntamente com a morte de Deus. Mas que o niilismo assumiria a forma de demência não era algo inevitável. Talvez seja, de certa forma, por compaixão e piedade que o Deus que deseja destruir o Ocidente o conduza a seu fim não com consciência e responsabilidade, mas com delírio e loucura.

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