quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O microfacismo como pandemia global

Ricardo Lewandowski
Folha de São Paulo

Disseminado, modelo permite que pseudolideranças se apropriem de sentimentos, transformando-os em capital político. Enraizado no âmago mais profundo da psique social, é um flagelo difícil de identificar e combater.

No livro Microfísica do Poder, escrito na década de 1970, Michel Foucault argumenta que o poder não se concentra apenas no Estado ou nas classes dirigentes. Segundo o teórico francês, não é algo que alguém possa deter fisicamente, tratando-se de uma energia difusa, que circula nos distintos grupos sociais, moldando conhecimentos, comportamentos e corpos.

Cuida-se de uma força velada, que não atua apenas repressivamente, pois não se resume a proibir e castigar. Sem que as pessoas percebam, ela produz saberes, dita normas e determina atitudes, seja pela autoridade, persuasão ou força. Opera por meio da disciplina e vigilância em instituições como lares, escolas, igrejas, empresas, quartéis, hospitais, prisões, fábricas, clubes etc., onde são controlados horários de trabalhar, conversar, rezar, descansar, comer, dormir e acordar, estabelecendo, assim, aquilo que é considerado normal ou desviante. Essa ideia tem a ver com a difusão generalizada do fascismo nos tempos atuais, um movimento político surgido na Itália, depois da Primeira Guerra Mundial e que logo se disseminou por todo o planeta.

Corresponde a um projeto de poder, que estimula a submissão e o conformismo por meio da violência real ou simbólica. Caracteriza-se pelo ultranacionalismo, autoritarismo, ódio ao diferente, culto ao líder, assédio aos opositores, desprezo ao pluralismo, cerceamento de direitos e desprezo à democracia.

Nos dias que correm, o fascismo pouco mudou. Atua de modo semelhante, porém mais dissimulado: ataca a legitimidade das eleições, mina a autonomia judicial, cerceia a liberdade de imprensa e desumaniza os grupos minoritários. Especializa-se em fomentar o ódio e a polarização, sobretudo mediante o emprego eficiente das mídias digitais, cujos controladores estão sediados em outros países, fora do controle das autoridades locais.

Os pensadores Gilles Deleuze e Félix Guattari, também franceses, trazem um novo olhar sobre esse movimento, na linha das ideias de Foucault, ao desnudarem o fenômeno do microfascismo. Na obra Mil Platôs, publicada em 1980, ponderam que as sociedades capitalistas contemporâneas operam em dois planos distintos: um denominado molar, correspondendo à macropolítica, rígida e burocrática, representada pelas instituições estatais, e outro chamado molecular, ligado aos medos e afetos que circulam nos distintos grupos sociais.

É justamente nesse nível que prospera o microfascismo, disseminado mundialmente à semelhança de uma pandemia, permitindo que algumas pseudolideranças se apropriem desses sentimentos, transformando-os em capital político.

Deleuze e Guatari, a propósito, formulam uma intrigante indagação: "Somente o microfascismo oferece uma resposta à questão global: por que o desejo deseja sua própria repressão?" Essa questão —de cunho quase psicanalítico— é relevante porque desloca a análise do fascismo para além do plano institucional. Enraizado no âmago mais profundo da psique social, é um flagelo difícil de identificar e combater.

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