sexta-feira, 3 de julho de 2026

A "panteonização" de Marc Bloch

Fábio Fonseca de Castro
A Terra é Redonda

Sua reflexão histórica jamais foi construída na tranquilidade das bibliotecas; ela foi atravessada pela experiência concreta das crises políticas e das guerras

Qual o lugar dos intelectuais em tempos de regressão democrática? A “panteonização” do historiador, soldado e resistente Marc Bloch, dia 23 de junho último, conduz, naturalmente, a essa pergunta. E, a ela, outra pergunta se segue: O que a “panteonização” de Marc Bloch, especificamente, ensina – ou sugere?

Partamos do conceito de “panteonização”. Essa palavra, que faz parte do quotidiano da vida francesa, não é um conceito corrente no Brasil. Trata-se, empiricamente, de ter os despojos mortuários trasladados para a Igreja de Sainte-Généviève, centro de Paris, conhecida como Panthéon – do grego pan theoin, templo de todos os deuses, lugar onde se sepultam os grandes nomes de uma pátria. Os franceses levam, para lá, sempre com grande pompa, os restos mortais – ou os cenotáfios – dos grandes nomes da sua história. Voltaire, Jean- Jacques Rousseau, Victor Hugo, Marie Curie, Denis Diderot e tantos outros, estão lá. É uma grande dignidade ser recebido no Panthéon.

No dia 23 de junho de 2026, a França conduziu Marc Bloch ao Panthéon. O gesto ocorreu oitenta e dois anos depois de sua prisão pela Gestapo e de seu fuzilamento, em Lyon, 18 de junho de 1944, ao lado de outros resistentes franceses. A cerimônia, acompanhada pela entrada simbólica de sua esposa, Simonne Vidal, militante como ele e sua companheira de vida e de pesquisa científica, foi apresentada como uma homenagem republicana a um dos maiores historiadores do século XX.

Mas seria um equívoco entendê-la apenas como uma reparação histórica. O Panthéon, de fato, nunca acolhe apenas os mortos. Ele organiza uma memória pública. Cada nova incorporação redefine aquilo que a República pretende afirmar sobre si mesma e sobre o seu tempo. Mais do que celebrar indivíduos, o monumento constrói uma narrativa sobre os valores que a França – ou uma certa França – considera dignos de permanência. Por isso, toda “panthéonisation” é também um gesto político.

A escolha de Marc Bloch talvez seja uma das mais eloquentes das últimas décadas. Em um contexto marcado pelo crescimento da extrema direita, pela confusão propositada entre sionismo e antissemitismo, pela circulação industrial da desinformação e pela crise das instituições democráticas, a República francesa decidiu elevar, justamente, um historiador judeu, resistente ao nazismo, fundador da historiografia contemporânea e defensor intransigente da verdade histórica.

Um republicano antes de ser historiador

Marc Bloch nasceu em 1886, em uma família judaica alsaciana profundamente identificada com os valores da República. A decisão de seus familiares de permanecer franceses após a anexação da Alsácia pelo Império Alemão, em 1871, não representava apenas uma escolha nacional. Tratava-se de uma adesão a um projeto político fundado na cidadania republicana, na laicidade e na universalidade dos direitos.

Seu pai, Gustave Bloch, era um historiador reconhecido, pesquisador da antiguidade. O ambiente familiar foi marcado pelo culto ao conhecimento, pela confiança na escola pública e pelo compromisso com a República, valores reforçados pela experiência do Caso Dreyfus, que revelou como o antissemitismo podia corroer as instituições democráticas.

Essa formação ajuda a compreender um aspecto fundamental de sua trajetória. Antes mesmo de se tornar um grande historiador, Marc Bloch já compreendia que conhecimento e responsabilidade pública não podiam ser separados.

A formação do historiador

Sua passagem pela École Normale Supérieure, assim como os seus estudos em Berlim e Leipzig, colocaram-no em contato com o que havia de mais sofisticado na historiografia europeia. Da tradição alemã, absorveu o rigor documental; da tradição francesa, herdou a preocupação com a síntese histórica. Mas Marc Bloch faria algo que poucos conseguiram: ultrapassaria ambas.

Ao lado de Lucien Febvre, fundou em 1929 a revista Annales d’histoire économique et sociale. Mais do que uma revista, tratava-se da formulação de um novo programa científico. Até então, a história privilegiava governos, batalhas, tratados diplomáticos e biografias de “grandes homens”. Marc Bloch deslocou radicalmente o olhar das ciências da história. A verdadeira matéria da história passou a ser a vida social: as formas de trabalho, as crenças, os imaginários, os costumes, as técnicas, as paisagens, as temporalidades e as maneiras pelas quais diferentes sociedades constroem seus mundos. Não era apenas uma ampliação temática. Era uma redefinição epistemológica.

A pergunta deixava de ser “o que aconteceu?” para tornar-se “como vivem os homens no tempo em que tal coisa aconteceu?”. Essa mudança modificou profundamente não apenas a história, mas todo o campo das ciências humanas. A antropologia histórica, a história das mentalidades, a micro-história, a história cultural, a história ambiental e, em grande medida, a própria renovação da sociologia histórica encontram em Bloch um de seus principais pontos de partida.

Existe uma característica frequentemente esquecida de Marc Bloch: ele foi também um homem de guerra. Combateu na Primeira Guerra Mundial durante quatro anos. Alistou-se voluntariamente aos 28 anos, sem ter sido convocado, terminando o conflito como capitão, condecorado diversas vezes por bravura.

Mais impressionante ainda foi sua decisão de voltar ao exército em 1939. Aos cinquenta e três anos, já reconhecido internacionalmente como historiador, pai de seis filhos e sofrendo de problemas graves de saúde, insistiu em ser novamente mobilizado.

Essa experiência alteraria profundamente sua compreensão da história. Longe de produzir uma história distante dos acontecimentos, Marc Bloch sabia que compreender o passado exigia também experimentar a intensidade do presente. Sua reflexão histórica jamais foi construída na tranquilidade das bibliotecas; ela foi atravessada pela experiência concreta das crises políticas e das guerras.

O resistente

A derrota francesa de 1940 produziu um de seus livros mais extraordinários: A estranha derrota. Escrito poucos meses depois da capitulação, o livro não procura culpados individuais. Marc Bloch faz aquilo que sempre ensinou a fazer: procura compreender as estruturas profundas que produziram o desastre.

A derrota militar aparece como consequência de uma derrota intelectual. As elites francesas haviam perdido a capacidade de compreender o mundo em transformação. Permaneceram presas às categorias da guerra anterior, incapazes de imaginar o novo. Essa análise continua surpreendentemente atual. As sociedades raramente sucumbem apenas porque seus adversários são fortes. Frequentemente fracassam porque suas próprias elites deixam de compreender o presente.

Pouco depois, Marc Bloch ingressaria na Resistência. Não houve ruptura entre o historiador e o resistente. O combate político foi consequência direta de sua concepção de verdade. Para alguém que definia o historiador como aquele que busca compreender os homens em sua complexidade, o nazismo representava precisamente a negação radical dessa humanidade plural. Por isso resistir era também continuar exercendo seu ofício.


A atualidade de Marc Bloch

Tudo isto colocado, retornamos às duas questões com as quais abrimos este artigo: qual o lugar dos intelectuais em tempos de regressão democrática? E o que a “panteonização” de Marc Bloch, especificamente, ensina ou sugere?

Talvez o aspecto mais impressionante da entrada de Marc Bloch no Panthéon seja sua atualidade. Vivemos novamente um tempo em que nacionalismos reaparecem como projetos políticos; em que a mentira organizada se converte em instrumento cotidiano de mobilização; em que a produção científica é frequentemente tratada como suspeita; em que intelectuais voltam a ser acusados de representar inimigos internos; em que a história é constantemente manipulada para fabricar identidades homogêneas e justificar exclusões.

Não por acaso, cresce também o revisionismo histórico, acompanhado de formas renovadas de racismo. Nesse cenário, a panteonização de Marc Bloch adquire enorme densidade simbólica. Sua vida demonstra que a defesa da verdade não é uma atividade neutra. Seu trabalho mostra que compreender exige complexificar, comparar, relativizar e rejeitar explicações simplificadoras.

Sua morte lembra que existem momentos em que a própria possibilidade do conhecimento depende da coragem de defendê-lo. Penso que isso responde, a um só tempo, às duas questões: o lugar dos intelectuais em tempos de regressão democrática é, não apenas, um lugar de “posicionamento”, mas um lugar de militância e de resistência – ou melhor, um lugar de contundência.

E a “panteonização” de Marc Bloch nos ensina, ou sugere, especificamente, que é preciso reconhecer a experiência da empatia no fazer da história. Marc Bloch escreveu, em sua inacabada Apologia para a História, que a função do historiador consiste em compreender “os homens no tempo”. Vejam, não sou historiador. Sou um cientista social, formado em perspectiva interdisciplinar, trabalhando com a fenomenologia social. E, bom, também sou leitor, leitor extenso, de Marc Bloch.

A essa segunda questão, eu responderia aproximando Marc Bloch da fenomenologia – considerando que a fenomenologia social transpassa a ideia de sujeito, necessariamente, para a compreensão da intersubjetividade – e diria que Bloch realiza, em história, o projeto fenomenológico de compreender o mundo como uma fusão de horizontes contingentes e contextualizados.

Marc Bloch não foi, apenas, o fundador da “história das mentalidades”. Foi um dos primeiros autores a deslocar a história do estudo dos acontecimentos para o estudo das formas de existência-operação; uma perspectiva fenomenológica por excelência – ainda que ele não tenha reivindicado essa aproximação teórica. Quando Marc Bloch afirma que o objeto da história são “os homens no tempo”, ele está propondo uma ontologia histórica da experiência humana. Isso aproxima sua obra de autores posteriores como Merleau-Ponty, Paul Ricoeur, Michel de Certeau, Carlo Ginzburg, Marshall Sahlins, Tim Ingold, dentre muitos outros.

A panteonização de Marc Bloch não celebra apenas um historiador do século XX, mas um pensador cuja maneira de compreender a experiência humana permanece profundamente contemporânea. Ao conduzir Marc Bloch ao Panthéon, a França não apenas homenageia um grande historiador. Ela também reafirma uma certa ideia da República, fundada na ciência, na escola pública, na cidadania, na resistência ao fascismo e na responsabilidade intelectual.

É significativo que isso ocorra justamente quando forças políticas procuram reabilitar nacionalismos excludentes, relativizar a colaboração francesa com o nazismo e transformar o conhecimento em alvo de suspeita permanente. A entrada de Marc Bloch no Panthéon recorda que compreender o tempo é também assumir responsabilidade diante dele.

Acompanhando o debate ocorrido em França sobre a sua panteonização escutei a posição da sua família. Soube que muitos dos seus descendentes posicionaram-se, inicialmente contra a panteonização: uns por recearem o uso político que poderia ter sido dado por Emmanuel Macron ao fato – em época de populismo simplório; outros, por recearem a sua transformação em “mártir judeu” – em época de sionismo instrumental; outros, por recearem que o papel do historiador fosse apagado pelo papel do patriota – em época de patriotismo ignóbil.

Acompanhei, igualmente, a posição de sua família, de seus descendentes, que, coletivamente, escreveram uma carta, à República (e não ao presidente Emmanuel Macron, o que, em si, já é bastante simbólico) solicitando que as homenagens da “panteonização” não fossem oportunistas, não se prestassem aos interesses do Estado de Israel, condenassem expressamente a extrema direita contemporânea e o nazismo, que reivindicassem a democracia e os princípios republicanos da igualdade e da liberdade dos povos. Fora isso, é preciso dizer que a família de Marc Bloch também solicitou que todas as lideranças da extrema direita fossem desconvidadas de se fazerem presentes no ato.

Penso que todas essas coisas renovam a memória do procedimento de Marc Bloch em relação à história. Em termos epistemológicos, uma história dos problemas, e não apenas dos acontecimentos. Em termos antropológicos, uma antropologia histórica das formas de vida humanas. Em termos metodológicos, uma história comparativa e interdisciplinar das sociedades. Em termos filosóficos, uma fenomenologia histórica da vida social. Aliás, em síntese, em termos fenomenológicos, eu diria que Marc Bloch desloca a história do evento para a experiência.

Memória longa a Marc Bloch. Que seu legado nos ensine que o lugar dos intelectuais, em tempos de regressão democrática, exige coragem. Que sua “panteonização” nos ensine, especificamente, que a história é uma ciência de combate.

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