terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Quanta desigualdade a democracia suporta?

Sonia Fleury
Outras Palavras

Às vésperas de um ano de disputas intensas, uma das líderes da Reforma Sanitária provoca: num tempo de neofascismo e medo do outro, esquerda não pode ser morna.

Virar o jogo exige garantir vida digna às maiorias – e nova política econômica. Em tempos de ofensiva da extrema-direita, que atinge fortemente os sistemas de saúde, como pôr na ordem do dia uma agenda de transformação social baseada no aprofundamento da democracia e na recuperação do papel do Cuidado? A retomada de uma forte luta ideológica e a formulação de novas formas de exercício da política fazem parte do caminho – mas têm como pré-condição uma mudança de rota na política econômica e de alianças do campo democrático. Foi o que ponderou Sonia Fleury, cientista política e pesquisadora da Fiocruz, no debate A democracia em transe: debatendo as crises dos regimes democráticos no Ocidente.

Falar das ameaças à democracia nos remete, inexoravelmente, a tratar das ameaças à saúde. Desde o início da Reforma Sanitária, postulamos essa relação fundamental, que nos distingue muito de outros processos de criação ou reforma de sistemas de saúde. Essa vinculação entre democracia e saúde é uma marca constitutiva e fundamental da Reforma Sanitária Brasileira: quando a democracia está sob ameaça, o sistema de saúde está sob ameaça e as políticas de proteção social também. Portanto, a nossa luta é sempre muito mais que uma luta setorial – ela é uma luta global pelo sistema democrático e pelos direitos sociais e humanos.

No entanto, a questão do desmonte da proteção social não está dissociada das atuais formas de reprodução do capital, em que o predomínio do capital financeiro sobre todas as outras formas de capital implica nas grandes transformações que vivemos nas últimas décadas. Essas transformações têm ocorrido especialmente desde a última crise econômica internacional, incluindo a resposta a ela, que foi de desregulação dos mercados. Tudo isso involucrado sob a hegemonia da ideologia neoliberal que privilegia o mercado e tenta reduzir a participação do Estado na economia através da diminuição de gastos, como se a crise tivesse se originado como decorrência da presença do Estado, da proteção social e do investimento público – e não da própria dinâmica do mercado. Esse processo levou a um aumento exponencial das desigualdades no mundo, uma concentração plutocrática da renda.

A desregulação ainda tem implicações sobre a crise climática, na medida em que a acumulação capitalista enfraquece enormemente as capacidades de regulação de Estado. Isso também reorganizou o tecido produtivo, levando à reprimarização das economias menos desenvolvidas, fragilizando-as e aumentando sua dependência em relação a produtos com maior valor agregado que incorporam novas tecnologias. Tais transformações têm afetado profundamente o mundo do trabalho, tanto com a flexibilização das proteções trabalhistas quanto com a produção de milhões de trabalhadores que se situam nas novas formas de informalidade ou se convertem em população de rua. Ao mesmo tempo em que aumenta o número de trilionários no mundo, aumenta a população de trabalhadores descartáveis.

Paralelamente, nas últimas décadas, houve a emergência do enorme poder das Big Techs, cujo poder se materializa na foto da posse de Trump com a presença de todos os CEOs dessas grandes empresas, mostrando que já não há mais separação entre tais corporações e o poder político. Trata-se de um retrato do capitalismo desregulamentado, com a associação simbiótica entre o grande poder das Big Techs e um poder político de que se pretende imperial. É isso que estamos tendo que enfrentar – e vamos enfrentar em 2026.

Todas essas mudanças tiveram enormes impactos geopolíticos, que desafiam as capacidades dos estados nacionais – hoje, bastante diminuídas – e o modelo de governança de Bretton Woods. Todas as instituições criadas como forma de governança global estão em crise, inclusive a Organização Mundial da Saúde – algo que nos afeta em particular. Além disso, o crescimento da presença da Inteligência Artificial e dos algoritmos, que têm impacto no cotidiano de cada um de nós, tem levado a novas formas de sociabilidade e comportamento político, que também nos afetam profundamente.

Diante desse quadro, há uma nova situação geopolítica em que os Estados Unidos se apresentam como a expressão decadente do capitalismo e da hegemonia do seu poder político em declínio. Sua reação a este quadro é um governo que se pretende imperial, com o objetivo de tentar resgatar seu poder frente ao crescimento da importância do papel da China no mundo. Isso nos coloca em uma situação de instabilidade global, com guerras e enfrentamentos constantes.

Diante disso, a que conclusão chegamos? Que há uma instabilidade que nos afeta profundamente, levando a um grande conjunto de inseguranças. As pessoas se sentem inseguras diante desse novo mundo. Antes, havia um certo ordenamento, em que as pessoas pensavam que haveria progresso: a vida do seu filho seria melhor que a sua, você teria aposentadoria depois de trabalhar tantos anos, existia a sociabilidade de família e vizinhos. Tudo isso está sendo desorganizado profundamente, afetando não só a geopolítica, mas o cotidiano da vida. Há uma grande perda de esperança de mudança social, que afeta particularmente os jovens. Desigualdades, inseguranças, falta de perspectiva no futuro e emergências climáticas determinam a deterioração das condições de vida, em especial da população mais pobre, e limitam as possibilidades de cuidado e dos sistemas de saúde.

A política do medo e do ressentimento

Algumas décadas atrás, um famoso estudo do cientista político Norbert Lechner mostrou que as pessoas não estavam felizes no Chile, o único lugar da América Latina em que estava havendo algum desenvolvimento econômico na época. Havia um forte mal-estar societário. Ele chama atenção para algo muito importante em nosso atual momento: o papel do medo, diante da insegurança. Lechner avalia que há três tipos de medo que estavam afetando profundamente aquela sociedade – e que, de lá para cá, só cresceram.

O primeiro é o medo do outro. O outro passa a ser um risco, alguém que pode nos afetar negativamente. Numa situação cotidiana, isso leva as pessoas a terem medo dos desconhecidos.

O segundo é o medo da exclusão econômica e social. As pessoas têm inseguranças se elas vão conseguir manter essa posição na vida e continuar melhorando.

E o terceiro é o medo da falta de sentido, de uma vida sobre a qual não se tem controle. Isso afeta emocionalmente, sociologicamente e politicamente as pessoas. Vemos hoje um grande aumento do número de suicídios entre crianças e jovens, algo muito ligado a essa falta de perspectiva e sentido, com o fato de não saber para onde a vida está se direcionando.

Esses medos, como diz Lechner, são muito facilmente capturados para se tornarem ressentimento. Contra migrantes, favelados, mulheres, negros, homossexuais – aquele que é o outro, que pode ser o bode expiatório da culpa de seus problemas.

A situação de insegurança e medo levou a uma corrosão dos laços sociais e do funcionamento das instituições democráticas. Mesmo em lugares que possuíam níveis democráticos mais assegurados e institucionalizados, estamos assistindo a processos de autocratização e desdemocratização.

O relatório anual do Instituto Varieties of Democracy mostra que uma parcela crescente da população mundial está vivendo sob regimes autocráticos. Já em outros países, registram-se retrocessos nas conquistas democráticas, voltando para os níveis de trinta anos atrás. Isso se conecta ao ressentimento, à sensação de frustração, à ideia de que os governos são todos corruptos. Parte do caldo de cultura que favorece o surgimento e a ascensão dos populistas autoritários é essa descrença nas políticas públicas e a insatisfação com a classe política.

No caso do Brasil, surgem aqueles que viveram a vida inteira na política tradicional mas se colocam como antissistema, canalizando o ressentimento. O sistema político é o que não presta, a política não vale a pena, esse é o mote reproduzido pelas lideranças populistas autoritárias. Apoiam-se, em nosso país, em militares saudosistas da ditadura e em uma rede de lideranças religiosas conservadoras, para implantar políticas que favorecem setores do agronegócio e do capital financeiro.

Capitalismo desregulado e desigualdade: antônimos da democracia

A partir desse quadro, faço duas perguntas.

Quanta desigualdade pode suportar uma democracia? Creio que chegamos a um ponto em que, para seguir aprofundando as desigualdades, surge a necessidade do autoritarismo e do populismo.

Quanta desregulação do processo de acumulação e distribuição das riquezas o capitalismo ainda pode sustentar? Estamos em uma fase em que o capitalismo está claramente em crise, mas ainda parece ter conseguido uma sobrevida. No entanto, vemos a destruição da natureza por uma acumulação capitalista desregulada como ameaça à própria vida.

O sociólogo e economista alemão Wolfgang Streeck aponta que a situação em que vivemos está intimamente ligada a um movimento do capital financeiro em que os Estados passaram a ser os maiores devedores. Na fase de convivência entre capitalismo e democracia, os Estados eram arrecadadores e podiam desenvolver políticas redistributivas que caracterizaram os Estados do Bem-Estar Social. Hoje, anualmente, o Brasil paga R$1 trilhão de juros da dívida. É dinheiro que não vai para a Saúde, para a Educação, nada disso: o superávit primário precisa ser feito para pagar esse trilhão anual. Opõem-se, assim, os interesses do que Streeck chama de “povo do Estado”, os cidadãos com direitos civis e voto, e do “povo de Mercado”, os credores e investidores internacionais.

Governos progressistas se sentem tolhidos a cumprir os ditames da ordem financeira global, produzindo crescentes superávits esterilizados no pagamento de juros da dívida. Frustram seus eleitores, com medidas de ajuste fiscal que comprometem e invalidam suas promessas de campanha de melhoria da vida dos cidadãos.

Ao vencer as eleições, os líderes populistas autoritários começam a minar instituições e desfigurar a democracia constitucional, buscando a unanimidade de um “povo único” ou “povo verdadeiro” – usando a questão religiosa para tentar alcançar a sociedade sem mediações políticas.

Esse é um movimento internacional, que estamos vendo em vários países ocidentais, calcado em liberalismo econômico, forte guerra cultural e negacionismo. O combate à ciência é um aspecto central, já que ela parte do questionamento, algo impensável para um governo autoritário, cuja aderência ao líder deve ser baseada na fé.


O caso brasileiro

O que vemos ocorrendo hoje nos Estados Unidos, também foi possível ver no Brasil: negacionismo, crença no “mito”, retórica em torno de conceitos como liberdade e pátria e, principalmente, desmonte das políticas públicas.

No livro Cidadania em Perigo: Desmonte das Políticas Sociais e Desdemocratização no Brasil, estudamos como o governo Bolsonaro, juntando pandemia e pandemônio, desmontou a proteção social e diversas políticas públicas, como as de trabalho e previdência. Algo importante que o livro identifica é que a estratégia de desmonte foi diferente em cada área – nos três grandes sistemas de proteção social: saúde, assistência social e segurança alimentar e nutricional – se baseou nas fragilidades da institucionalidade brasileira na trajetória de construção do SUS, do SUAS e do SISAN.

É um problema a que precisamos estar atentos: ou superamos essas fragilidades, em relação ao financiamento, institucionalização e capacidades estatais, ou teremos novos riscos. Por exemplo, nos espaços em que a existência dos conselhos de participação social não era fundamentada em lei, eles foram extintos. Não é o caso da Saúde, porque havia uma institucionalização legal do CNS. No entanto, boa parte dos funcionários do Ministério da Saúde hoje não são servidores de carreira. Sem isso, não teria sido possível infiltrar dezenas de militares na pasta, com as consequências que conhecemos.

Nesse aspecto, o caso brasileiro se distingue de outros países, em que o populismo autoritário não contou com um papel tão forte dos militares. Aqui, eles se consideram tutores da Constituição através do artigo 142, que precisará ser alterado em algum momento. Outro aspecto que singulariza o Brasil é o grande papel das igrejas neopentecostais, que difundiram um conservadorismo moral e de costumes que deu base popular para legitimar os políticos populistas autoritários. É importante fazer a crítica desse conservadorismo, mas também é preciso entender o que faz as pessoas buscarem essas igrejas. Além da fé, elas procuram redes de solidariedade e um apoio e acolhimento que as políticas públicas não dão, além de uma relação personalizada de escuta dos problemas de cada uma dessas pessoas, que vivem em situações tão vulneráveis.

Onda Rosa: um balanço crítico

Também é preciso revisitar as limitações do próprio progressismo na América Latina. Nos anos 2000, a Onda Rosa tomou a região, mas o que foi feito? Não se criou um modelo econômico soberano, inclusivo e de reindustrialização. Pelo contrário, com o boom das commodities, houve uma reprimarização da economia: nos tornamos, todos os países da América Latina, exportadores de produtos primários, com baixo valor agregado. Além de essa economia primária não ser capaz de absorver a força de trabalho, os governos progressista não enfrentaram nem as oligarquias nem o capital financeiro, o que impossibilitou medidas de maior ousadia que deslocassem o centro das políticas públicas desde a proteção da propriedade para a proteção da cidadania. Foram incapazes de implantar as reformas estruturais mais importantes e necessárias, como a reforma agrária e a reforma urbana, a proteção ambiental e dos povos originários, reverter a privatização dos serviços nas políticas sociais.

Ao lado de um processo exponencial de acumulação de riqueza do capital financeiro, os governos progressistas na América Latina fizeram transferência de renda, introduziram cotas para acesso aos serviços públicos e diminuíram a extrema pobreza, significativamente. No entanto, isso acabou não sendo uma mudança tão grande. Criaram-se consumidores individualizados, já que não houve um processo de emancipação das pessoas no sentido político, de entender que não adianta só receber um benefício assistencial, mas também é preciso compreender as causas da pobreza e se organizar para construir uma saída coletiva dessa situação.

Agora que não temos mais um governo populista autoritário, temos que ter o compromisso de não voltar atrás. Precisamos avançar e não retornar ao cenário que, com suas limitações, criou as condições para o populismo.

Direita no contrapé

O momento da conjuntura política é de grande movimentação. Desde a manifestação da sociedade organizada contra a PEC da Blindagem, há uma virada política importante. Além disso, o governo Lula ganhou de presente o enfrentamento com o governo Trump, ampliando sua legitimidade popular a partir da bandeira da soberania.

A atuação da Polícia Federal chega no encalço das relações entre o PCC, as fintechs e ameaça parlamentares do Centrão. A direita se debate na tentativa de não perder os votos bolsonaristas mas de também não ser identificada a este movimento, e busca criar uma alternativa eleitoral.

É uma janela de oportunidade muito importante para a esquerda. O Governo acerta ao avançar com a isenção do imposto de renda e a ideia de taxar os superricos, acabar com os privilégios e criar justiça tributária e social.

É hora de dar visibilidade a essas e outras questões, lançando um programa de combate aos privilégios, soberania, justiça tributária, vida além do trabalho, com o fim da escala 6×1, e mobilidade urbana, com a implementação do passe livre. Esse programa é o que temos que trabalhar nas eleições do ano que vem. Enfrentar todos esses temas dependerá do fim do Arcabouço Fiscal e de outros fatores que limitam as capacidades do governo.

Uma agenda para avançar

Qual será o principal desafio que teremos de enfrentar nesse momento? Traduzir essa agenda para o cotidiano das pessoas. Para isso, é preciso chegar no mundo em que elas vivem e sofrem, disputar significados. Primeiro, é preciso travar uma forte luta ideológica e política. Ao se concentrar prioritariamente em erguer instituições democráticas, deixamos de construir um projeto ideológico e político que possa se traduzir em uma luta por significados.

Ao falar de justiça tributária para uma população que é completamente contra pagar impostos, é preciso frisar que ela não vai mais pagar imposto de renda, mas também que ela é muito afetada pelo não pagamento de tributos pelos mais ricos.

Hoje, a direita fala muito em liberdade. O que nós temos a dizer sobre liberdade? Liberdade é a capacidade da pessoa de decidir sobre sua vida ou a capacidade de ser rico e comprar coisas? É preciso disputar isso.

O que é meritocracia? Muitas pessoas que receberam Bolsa Família ou outros programas sociais dizem que sua ascensão na vida se deve apenas ao mérito individual. Sem dúvida, ele é importante, mas as oportunidades que foram dadas precisam ser levadas em conta, ao pensar como essa autonomia que foi conquistada. Em nossa cultura, as pessoas sentem uma forte ligação com a família. O que é a família? São laços afetivos, materiais, de cuidado e proteção uns aos outros. É possível disputar essas concepções.

Como segundo ponto, é preciso mudar o exercício da política. É necessário recuperá-la como um espaço dialógico, em que as pessoas sintam que estão dialogando umas com as outras e também sendo ouvidas pelo Estado. Forjar o espaço para construir uma cultura cívica no país.

Chamo isso de um “Estado pedagógico”, em que cada encontro do cidadão com o Estado deve ser um momento que busca o diálogo para a transformação e a emancipação, não para a subordinação das pessoas por uma burocracia insensível. A humilhação é a grande queixa das pessoas nas interações com agentes públicos. Para mudar isso, é preciso enfrentar temas como combate à corrupção, aumento da transparência na gestão pública e a eliminação da violência estatal a que as pessoas são submetidas.

O Cuidado deve ser a essência da ação por uma vida digna – o eixo das políticas de inclusão, participação e redistribuição. O Cuidado implica em alteridade, é sempre em relação ao outro, aceitando o outro. É o contrário do “medo do outro” de que fala Norbert Leschner, que leva ao desejo de excluir e até matar o outro. O Cuidado é a ética da alteridade, e é preciso entender que ele sempre se dá em um espaço territorial, e portanto é preciso que as políticas sejam territorializadas. Nos territórios é que haverá o diálogo e a intersecção, não a fragmentação das políticas.

É possível transformar a potência do Cuidado que vimos nas favelas e periferias durante a pandemia em uma alavanca de transformação social. O cuidado com as pessoas e com o território deve implicar em políticas de garantia de emprego para promoção da qualidade de vida em favelas e periferias, criando espaços de produção do comum, da solidariedade, dos laços culturais e das oportunidades para os jovens.

Para isso, porém, há três condições. É necessária uma nova política econômica, que não seja o Arcabouço Fiscal. Também é preciso entender que as alianças feitas para eleger Lula não permitiram governar, cumprindo com o programa eleito. Por fim, temos de ter um governo composto por quadros comprometidos com esse projeto de transformação social, e não com as alianças com setores conservadores.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Del sueño americano a la distopía


Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

Reseña del libro de Jamil Chade, Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana, São Paulo, Editora Nós, 2025, 256 págs.

Ha sido lanzado recientemente en Brasil, el libro del periodista Jamil Chade cuyo título podría ser traducido como “Ojalá que seas deportado”, el que reúne un conjunto de 48 crónicas y reportajes escritos durante su estadía en Estados Unidos, en un período que abarca desde el final de la campaña presidencial (17 de octubre de 2024) pasando por los primeros meses de la gestión de Donald Trump y concluyendo con una última crónica (25 de mayo de 2025) redactada días antes del retorno definitivo del escritor y su familia al lugar en el cual reside actualmente (Ginebra, Suiza).

Los textos que componen el libro abordan diversos aspectos de la historia reciente y de la vida cotidiana de los habitantes de ese país, configurando un panorama devastador desde todos los aspectos, evidenciando por la magnitud de la decadencia en que se encuentra desde hace décadas la sociedad estadounidense y que se ha incrementado en este último periodo con el surgimiento del líder extremista republicano y sus adeptos.

La crónica que da nombre al libro relata la experiencia que tuvo su hijo pequeño en una escuela del barrio luego de tener un altercado con una colega de clase. En una situación coloquial de altercado entre niños de diez u once años, la compañera de curso le espetó a su hijo “Ojalá que seas deportado”. Como nos advierte Chade “La novedad ciertamente no es la existencia de una discusión entre niños, sino el surgimiento de una nueva manera de agredir, basada en el odio, que es instrumentalizado por un grupo ultraconservador que llegó al poder. Nadie nace odiando. No brota de forma espontánea de la cabeza de ningún niño la idea de desear que la otra persona sea deportada”.

El tema de la persecución en masa de los migrantes irregulares -o incluso con papeles de residencia- y la truculencia de los abordajes que sufren las personas solo por sus características raciales, es una temática que atraviesa la mayor parte de las crónicas redactadas por Jamil Chade en ese periodo. A lo largo de sus viajes por el territorio estadunidense y la frontera mexicana, el escritor desplaza el foco de sus análisis hacia distintos espacios simbólicos y reales: desde Manhattan hasta la frontera con México, en abrigos de deportados, barrios empobrecidos, escuelas de inmigrantes, pueblos abandonados y un sinnúmero de escenarios distópicos que diseñan el paisaje humano y las políticas coercitivas hacia poblaciones vulnerables en un país autoritario.

A través de una prosa periodística cargada de testimonios, datos y vivencias, explora cómo la deshumanización del “otro”, la inmigración, la xenofobia, los recortes de derechos y la polarización política se entrelazan para producir lo que él conceptualiza como la “distopía americana”.

Esta sensación de estar dentro de un país decadente es claramente expuesta en la crónica “Mississipi y sus pantanos”, en la cual describe el panorama desolador de una pequeña ciudad de Arkansas llamada West Helena. En dicha crónica retrata ese lugarejo como salido de una película de terror: “En ambos lados de la calle central, casas destruidas, tiendas cerradas, techos desmoronados y un olor de desamparo. El viento aullaba, casi para susurrarme la noticia de que aquel local estaba abandonado (…) En West Helena, una orgullosa bandera americana flamea de manera triunfal sobre la alcaldía. Pero no esconde el hecho de que la ciudad tiene 35% de su población de ocho mil habitantes viviendo bajo la línea de la pobreza. El PIB per cápita promedio del local es inferior al de Bolivia y apenas un poco superior al de Bangladesh”. Y continua su relato con un análisis comparativo entre los estados más empobrecidos del sur ese país (Alabama, Tennessee, Arkansas, Mississippi y Luisiana) que poseen una renta promedio tres o cuatro veces inferior que los habitantes de la ciudad de Nueva York.

Las referencias que se realizan de esta pequeña ciudad abandonada nos muestran que la degradación de los espacios periféricos funciona también como una frontera interna, un territorio donde el “otro” (inmigrante, vulnerable, marginado) habita o atraviesa. Esto conecta con la frontera en el sentido literal: migrantes que cruzan, o que son expulsados, pero también la frontera simbólica y existencial, entre ciudadanos considerados “legítimos” y aquellos “que no lo son”.


En ese paisaje, la administración Trump no ha hecho más que profundizar las desigualdades entre los estadounidenses, como queda corroborado, por ejemplo, con anuncios realizados por el gobierno de que recortará 850 mil millones de dólares del presupuesto de la nación destinados al sistema público de salud, el Medicaid. En los estados del sur del país, aproximadamente 700 mil personas dependen integralmente de este programa para tener acceso a la salud, incluidas las políticas de asistencia a la natalidad.

Por otra parte, sus narraciones sobre los albergues de deportados en la frontera con México constituyen un nodo crítico en la narración de Chade: son la materialización de la política de expulsión, del “ser considerado prescindible”. Aparecen no solo como espacios de tránsito sino de detención, vulnerabilidad, destierro y desesperación. Los albergues no son simplemente consecuencia de la inmigración, sino parte de una maquinaria que produce la condición de seres humanos residuales, indeseables y descartables.

De esta manera, las crónicas de Jamil Chade nos muestran una cara poco tratada de los Estados Unidos contemporáneos: el miedo, la exclusión, la frontera geográfica y existencial dentro de la sociedad. Es una invitación a pensar que la distopía ya no es solo ficción; que la promesa del sueño americano convive con realidades de exclusión, vulnerabilidad y desamparo. Sus escritos representan una crítica vehemente de los caminos hacia los cuales se dirige una sociedad que se decía democrática y que hoy se percibe como un espacio de autoritarismo y represión a todos quienes no se encuadran con el tipo ideal del hombre blanco supremacista americano.

Si el lector espera una estructura académica tradicional con teoría amplia y sistemática, podría quedarse con ganas, pues el libro privilegia la narrativa, el testimonio y la denuncia, más que el desarrollo teórico extenso. Sin embargo, el apelo del autor es potente e incontestable. El libro contiene una línea de análisis crítico hacia el ascenso de la extrema derecha, la instrumentalización de la inmigración como arma política y el debilitamiento de instituciones democráticas. Es un retrato de una sociedad que bajo el mandato de Trump se ha transformado en la negación del “sueño americano” mostrando la persecución en masa de los migrantes, deshumanización, ciudades abandonadas y poblaciones dejadas a su propia suerte.

En definitiva, los temas centrales abordados en el libro – la deportación de inmigrantes, la exclusión de los pobres, el desmonte de políticas sociales y las prácticas de censura - nos ofrecen una visión articulada de cómo la crisis migratoria y de violación de los derechos humanos en los Estados Unidos implementada durante el gobierno de Donald Trump, no es un fenómeno aislado, sino una faceta de lo que se podría llamar la construcción de la “distopía americana”. Este modelo implica que la exclusión, el miedo y la represión clasista y racista ya no están en los márgenes sino en el centro de la vida cotidiana de un Imperio en decadencia.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Los impases de la derecha y los desafíos del gobierno Lula

Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

Las últimas encuestas que indagan sobre las preferencias de los brasileños para las elecciones de octubre del próximo dan al actual presidente Lula da Silva como seguro ganador en todos los escenarios posibles. Ello se debe en gran parte debido a los logros obtenidos por el gobierno en este periodo, principalmente la reducción del precio de los alimentos y la salida del país del “Mapa del hambre”. También ha sido un triunfo del Ejecutivo la aprobación por unanimidad en la Cámara de Diputados de su propuesta para la exención del impuesto de renta para quienes ganan hasta 5 mil reales mensuales (US$ 930).

Por otra parte, la actual gestión ha conseguido abrir un canal de comunicación con el gobierno de Estados Unidos para reducir el valor de los aranceles aplicados unilateralmente por iniciativa de Trump, buscando presionar a las autoridades y a la Justicia brasileña para que deje sin efecto el juicio que existe todavía contra el ex Presidente Jair Bolsonaro y sus cómplices en la conspiración para ejecutar un Golpe de Estado después de perder las elecciones en octubre de 2022.

La campaña emprendida por Eduardo Bolsonaro para que se apliquen sanciones a Brasil demostró fehacientemente para la mayoría de la población que el proyecto del clan Bolsonaro no es para el país y si para salvar al patriarca de las decisiones de la justicia. Con dicha actuación el hijo menor del ex presidente demostró que el bolsonarismo es fundamentalmente una propuesta que va en contra de los intereses de la Patria y cuya actuación se restringe al ámbito de los intereses familiares. Diferentemente, frente a la percepción de la ciudadanía de que las tarifas impuestas a Brasil representan una flagrante violación de la soberanía e independencia de Brasil, el presidente Lula se ha posicionado como un estadista que vela por los intereses del conjunto de la nación.

En ese contexto, algunos sectores de derecha han tratado de apartarse de esa versión más radical del bolsonarismo, bajando las banderas por una “amnistía amplia, general e irrestricta”, para pasar a asumir la demanda de una reducción de la pena de los condenados por los actos sediciosos que culminaron el 8 de enero de 2023, la llamada dosimetría de las penas.

Lo que se observa en los últimos dos meses es que se ha exacerbado la disputa interna dentro del campo conservador y de extrema derecha por cuál sería el candidato capaz de atraer el voto heredado del ex capitán y quienes podrían ampliar su base de apoyo entre aquellos sectores del electorado que se identifican con posiciones más conservadoras como, por ejemplo, la enorme masa de votantes adscritos a las diversas denominaciones del neo pentecostalismo. En este segmento se destacan los nombres de Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado y Ratinho Junior, actuales gobernadores de Sao Paulo, Minas Gerais, Goiás y Paraná, respectivamente.

A pesar de que en todos los escenarios de una segunda vuelta Lula ganaría de estos candidatos, hasta ahora las mediciones no constatan un triunfo arrollador del actual mandatario en una primera vuelta. En ese escenario incierto, el Centrão se mantiene a la expectativa del devenir de los acontecimientos y se debate en la indecisión de si le conviene apoyar a Lula desde ahora o espera los resultados de futuras mediciones electorales para condicionar el soporte a los candidatos que se presenten con mayores posibilidades de triunfo dentro del campo confuso y brumoso de la derecha. A su vez, una parte del Centrão podrá optar por asumir una posición más ideológica radicalizándose hacia posturas más retrógradas y subscribir incondicionalmente una candidatura decididamente bolsonarista.

El fortalecimiento del candidato Lula da Silva debería provocar una división más precisa entre los grupos fisiológicos de una derecha disimulada y oportunista y los sectores con una identidad más inclinada hacia posiciones de extrema derecha, abonando la actuación de Bolsonaro y sus hijos para boicotear y bloquear cualquier iniciativa del gobierno, especialmente, las propuestas para el financiamiento de las políticas sociales tan sensibles a las administraciones encabezadas por el Partido de los Trabajadores.

De manera que, el diseño ideal para los grupos conservadores radicalizados consiste en el fracaso del ejercicio presupuestario del gobierno, teniendo que aplicar un ajuste fiscal sobre el gasto social, comprometiendo la popularidad del gobierno Lula y quizás permitiendo el surgimiento de un candidato competitivo que lo derrote en la próxima contienda electoral. Considero esta situación improbable, aunque todavía pueden pasar muchas cosas cuando ya estamos a menos de un año de la realización de los próximos comicios (4 de octubre de 2026) que escogerán un nuevo presidente y vicepresidente, además de los gobernadores, un tercio de los senadores y la totalidad de los diputados federales y estaduales.

Por su lado, el gobierno continúa con algunas tareas pendientes de sumo relevantes, como conseguir la aprobación de una ley que termine con el indigno régimen laboral de 6X1 (6 días de trabajo por sólo un día de descanso) y de lograr aumentar los impuestos de los billonarios, los bancos y las casas de apuestas (bets). También se puede sumar a este cuadro, las políticas y acciones en defensa del medioambiente que están en peligro ahora que el IBAMA (Instituto Brasileño del Medio Ambiente y de los Recursos Naturales Renovables) le ha otorgado una licencia a Petrobras para que pueda perforar el primer pozo en aguas profundas en la cuenca Foz del rio Amazonas. Dicha licencia podría desatar una escalada de explotaciones en esa parte del territorio, precisamente ahora que Brasil va a ser la próxima sede de la Conferencia de las Partes (COP30) en Belém do Pará. Es imperioso que el gobierno asuma responsablemente estas tareas si desea consolidar el respaldo de los electores que le dieron sustento a un proyecto progresista que hasta ahora ha sido obstruido en función de acuerdos partidarios con fuerzas que promueven los privilegios de una minoría y el retroceso político, social, cultural y ambiental del país.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Gaza: Un horror indescriptible

Branko Marcetic
Jacobin América Latina

Luego del 7 de octubre de 2023, la sociedad israelí entró en una espiral vengativa y genocida, cometiendo una y otra vez algunos de los crímenes más atroces de este siglo. Dos años después, sus líderes no se arrepienten y claman por más sangre.

Hace dos años, Hamás llevó a cabo una serie de atrocidades repugnantes contra civiles, en su mayoría israelíes, que provocaron, con toda razón, la indignación y el rechazo del mundo entero hacia el grupo terrorista y simpatía hacia Israel. De entre las infinitas opciones a su alcance, Israel decidió responder haciendo exactamente lo mismo que Hamás acababa de hacer para ganarse el rechazo del mundo, solo que a una escala mucho mayor y, en muchos casos, cometiendo atrocidades que ni siquiera Hamás había llevado a cabo, como torturar hasta la muerte a médicos, disparar a niños en la cabeza y los testículos y quemar vivos a pacientes de hospitales, por nombrar algunas.

Esta es la espeluznante paradoja de la guerra en Gaza. Los crímenes del 7 de octubre —asesinar a familias y niños, secuestrar, cometer violencia sexual— fueron tan atroces y tan inaceptables que, de alguna manera, justificaron que se repitieran y se infligieran sin cesar a otro grupo de personas inocentes, semana tras semana durante los dos años siguientes.

Dos años después, quienes fueron testigos y documentaron los horrores diarios en Gaza se han quedado sin palabras para describirlos adecuadamente. Quizás lo más fácil sea leer lo que los propios soldados israelíes dicen sobre la guerra que han estado librando durante los últimos veinticuatro meses: «Esto es pura maldad» (18/12/2024). «Me sentí como, como, como un nazi… parecía exactamente como si nosotros fuéramos los nazis y ellos los judíos» (23/12/2024). «Está permitido disparar a todo el mundo, a una niña, a una anciana… todos los hombres de entre dieciséis y cincuenta años son sospechosos de ser terroristas» (8/7/2024). «He dejado de contar los muertos. No tengo ni idea de a cuántos he matado, a muchos. Niños» (16/9/2025). «No solo los estamos matando a ellos, estamos matando a sus esposas, a sus hijos, a sus gatos, a sus perros. Estamos destruyendo sus casas y meando en sus tumbas» (7/4/2025).

«Lo que estamos haciendo en Gaza es una guerra de exterminio: el asesinato indiscriminado, sin restricciones, brutal y criminal de civiles… como resultado de una política dictada por el Gobierno, a sabiendas, de forma intencionada, maliciosa, perversa y promiscua» (22/5/2025). «Las Fuerzas de Defensa de Israel realmente están cumpliendo los deseos del público, que afirma que no hay inocentes en Gaza. Se lo demostraremos. Se incriminó a personas [se las etiquetó como objetivos por parte del ejército] por llevar bolsas en las manos» (7/4/2025).

Esto último no es una exageración. Las encuestas han revelado repetidamente que la gran mayoría de la población israelí cree que no hay inocentes en Gaza. Ese sentimiento no solo se refleja en las encuestas públicas, sino también en el lenguaje desquiciado y abiertamente genocida que emplean personalidades y figuras mediáticas israelíes destacadas desde el inicio de la guerra: «Hitler dijo que no podía vivir si quedaba un solo judío; nosotros no podemos vivir si queda un solo “islamonazi” en Gaza» (Moshe Feiglin, junio de 2024). «Se necesita Lebensraum [espacio vital] para la explosión demográfica de Israel» (Dan Ehrlich, diciembre de 2024). «Estamos llegando. Estamos llegando a Gaza. Estamos llegando al Líbano. Llegaremos a Irán. Llegaremos a todas partes (…) ¿Te imaginas a cuántos vamos a matar, a cuántos de vosotros vamos a masacrar? Verás una cifra que nunca has imaginado que se pudiera alcanzar» (Shay Golden, noviembre de 2023).

«Quiero echarlos, exterminarlos, hasta el último palestino… Les diré lo que imagino: no quedará ni una sola persona, ni un solo árbol, ni una sola casa, y si pudiera, envenenaría a los peces del mar» (Avida Bachar, agosto de 2025). «El Gobierno se apresura a borrar Gaza. Gracias a Dios, estamos borrando este mal y borrando a la población que se crio con Mein Kampf» (Amihai Eliyahu, julio de 2025). «Volveré a Be’eri solo cuando el último palestino [de Gaza] haya sido aniquilado. No me importa si son niños, ancianos, personas con muletas que vinieron a saquear» (Residente de Be’eri, noviembre de 2024).


Por horrible que sea, lamentablemente es algo muy humano. No es raro que una persona afligida que ha visto cómo asesinaban a un ser querido amenace o incluso planee seriamente una venganza violenta y espantosa. El 7 de octubre sumió a toda la sociedad israelí en esa misma espiral de venganza. La diferencia es que, cuando descubrimos que nuestro amigo, nuestro vecino o nuestro familiar está pensando en ese tipo de represalias violentas, no le ponemos un arma en la mano y le animamos a hacerlo.

Esto es, en muchos sentidos, lo que hace que los últimos dos años sean excepcionales. Los propios generales israelíes pensaban que solo se les permitiría arrasar Gaza durante tres meses como máximo, como habían hecho en guerras anteriores. El hecho de que se les haya permitido seguir haciéndolo durante dos años —y no nos equivoquemos: a pesar de un plan de alto el fuego que parece estar a punto de ser aceptado, las fuerzas israelíes han seguido matando a decenas de palestinos en los últimos días— es una acusación contra nuestros propios líderes políticos. Al final, esta miserable guerra puede decir más de nosotros que de Israel.

Los gobiernos occidentales han brindado un apoyo extraordinario e inquebrantable a Israel, incluso cuando este país los ha desobedecido sistemáticamente, ha cometido atrocidades tras atrocidades que han conmocionado al mundo y ha provocado que sus propios electores se vuelvan vehementemente en contra de la guerra y, cada vez más, en contra del propio Israel. Han repetido con total seriedad los argumentos cada vez más trillados del gobierno de Benjamin Netanyahu. Han recurrido a un comportamiento sorprendentemente autoritario para sofocar las críticas a sus acciones, y han contado con el apoyo de unos medios de comunicación que, en ocasiones, han violado descaradamente sus propios estándares profesionales en defensa de la guerra, llegando incluso a entregar a los censores militares israelíes el montaje final de sus reportajes. Han hecho todo lo posible por evitar poner fin a su apoyo militar a la guerra, llegando incluso a dar el paso sin precedentes, pero en última instancia sin sentido, de reconocer la condición de Estado palestino que, en la práctica, estaban dejando que Israel acabara con él.

No han sido solo los gobiernos occidentales. Los Estados árabes que históricamente han sido los defensores de Palestina han servido durante los últimos dos años como cómplices voluntarios de Israel. Mientras el ejército israelí ha exterminado gradualmente a una población árabe, estos Estados no solo no han hecho prácticamente nada al respecto —como sancionar a Israel o incluso expulsar a sus diplomáticos—, sino que lo han recompensado, aumentando su comercio con Israel, profundizando sus lazos militares y económicos, defendiéndolo de las consecuencias de su creciente agresión y sirviendo como nodos logísticos clave para mantener su guerra contra Gaza, incluso para el traslado de armas occidentales. Al igual que sus homólogos occidentales, han mantenido a raya a sus poblaciones, cada vez más indignadas, mediante una represión severa.

Los libros de historia del mañana emitirán veredictos condenatorios sobre esta generación de líderes políticos, cuyos ciudadanos los han visto encubrir y justificar un genocidio de niños con la misma certeza y seriedad con la que minimizan el déficit presupuestario. No sería de extrañar que la indecorosa imagen de la élite política mundial dejando pasar el tiempo ante el crimen más atroz empuje aún más hacia el abismo la confianza de la población en las instituciones políticas, y no sería en absoluto sorprendente que, dentro de unos años, los mismos medios de comunicación que convencieron a los telespectadores de edad avanzada de que las protestas contra la guerra lideradas por judíos eran manifestaciones neonazis traten como un misterio el motivo de ello.

La otra cara de la moneda es la sorprendente movilización no violenta de ciudadanos comunes que ha surgido y se ha expandido por todo el mundo en contra de la guerra, llevando a las calles a un número de personas que en ocasiones ha sido histórico. Esa movilización no solo se ha mantenido y ha crecido, sino que ha empleado una notable variedad de tácticas para forzar la mano de los líderes, desde el movimiento «Uncommitted», centrado en las elecciones, y la desobediencia civil tradicional, como las ocupaciones de campus universitarios, hasta la ruptura no violenta del bloqueo israelí por parte de la Flotilla Global Sumud y una huelga general liderada por los sindicatos en Italia, con una rebelión de los trabajadores portuarios en toda Europa gestándose al mismo tiempo.

Cuando haya pasado el tiempo suficiente para que podamos hacer un balance de los últimos dos años, no debemos olvidar que la obstinada crueldad de nuestros supuestos superiores políticos en esta guerra nunca se ha reflejado en la actitud de sus poblaciones, que, en general, se han adelantado en una serie de cuestiones clave, como el apoyo al alto el fuego, la definición de la guerra como genocidio o el embargo de armas a Israel. Hoy en día se nos repite con frecuencia la historia antidemocrática de que el problema son las pasiones desenfrenadas de las masas desinformadas y sin credenciales. En el mundo posterior al 7 de octubre, el verdadero peligro han sido nuestras élites.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

El encuentro. Aricó y Mariátegui en el marxismo latinoamericano


Fernando de la Cuadra
Le Monde diplomatique

La reciente publicación del libro El encuentro: Aricó y Mariátegui en el marxismo latinoamericano, editado por Yuri Gómez, representa un esfuerzo por recuperar el vínculo o, más bien, el rescate que realiza el pensador argentino José “Pancho” Aricó de la obra del Amauta. El libro resalta la vigencia de las ideas de Mariátegui y Aricó, mostrando cómo ambos contribuyeron a repensar el marxismo desde América Latina. Es una obra que combina historia, teoría y política, dirigida a quienes buscan comprender el desarrollo del pensamiento socialista en la región.

Tanto Aricó como Mariátegui intentaron afrontar la realidad de nuestra Latinoamérica con un abordaje que partiera de las particularidades de cada país y de la región en su completitud. Ambos siempre estuvieron interesados en recrear el marxismo a partir de una perspectiva que no fuese “ni calco ni copia” de la producción de sus fundadores y reproducida con mayor o menor ortodoxia por las distintas generaciones de intelectuales suscritos a aquello que se ha dado en llamar la corriente principal del pensamiento marxista.

De la recopilación de ensayos y trabajos presentados en el documento, cabe destacar la inédita entrevista que le hicieron a Aricó en la cual rescata el hecho de que Mariátegui se constituyó en una figura clave del marxismo latinoamericano, especialmente en aquello que dice relación con la visión heterodoxa del intelectual peruano y como este fue capaz de producir una obra original para analizar la realidad de su país, alejándose de los dogmas de la Tercera Internacional.

En su estudio introductorio, el editor Yuri Gómez destaca precisamente la contribución de Aricó al estudio de Mariátegui en la medida que rescata el marxismo como un instrumento en constante movimiento en oposición a la filosofía de la historia y al positivismo adscrito al sistema cerrado del estalinismo de la Komintern. Aricó veía en Mariátegui un ejemplo de cómo el marxismo podía ser utilizado como un método flexible para analizar y transformar la realidad, en un esfuerzo de “creación heroica” que superase las visiones rígidas del determinismo económico y del mecanicismo utilizado por los representantes del materialismo vulgar. Al igual que Gramsci, ambos compartían sus preocupaciones sobre el vínculo existente entre marxismo, nación y cultura y las necesidades de construir un socialismo adaptado a las particularidades histórico estructurales de cada nación.

Leer Mariátegui a partir del “encuentro” y del prisma de Aricó no es un ejercicio académico neutro, pues representa la búsqueda de un pensamiento crítico que quiere huir de los prejuicios y los dogmas disfrazados de oportunismo político. En resumen, estamos frente a un libro que se convierte en una lectura necesaria para todos quienes desean profundizar en las ideas de estos dos pensadores imprescindibles de nuestra América Latina.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

¿Por qué se sigue leyendo a Mariátegui en América Latina?

Fernando de la Cuadra y Gonzalo Rovira
Le Monde diplomatique

A 95 años de su fallecimiento podemos suscribir, sin ambigüedades, que José Carlos Mariátegui (1894-1930) es hoy día uno de los más importantes clásicos de la Justicia Social en América Latina, una figura imprescindible a la hora de pensar los caminos de autodeterminación de los pueblos. Su obra es un referente para interpretar los problemas de la emergencia de los movimientos indígenas, y el anhelo de desarrollo de proyectos nacionales soberanos que contemplen el respeto de la forma de vida de los pueblos originarios. El Amauta nos dejó un legado de ideas originales en su producción teórica, pero también una actitud y conducta comprometida a lo largo de su intensa vida de militante en las luchas sociales de su tiempo. Por cierto, en él nada es blanco y negro y sus reflexiones, en particular las filosóficas, a ratos hoy nos parecen confusas y muy vinculadas a debates de su tiempo, pero hay una general concordancia en que su aporte político y teórico fue substantivo.

Su histórica afirmación, en la editorial del segundo año de la revista Amauta (1928), de que el socialismo en América Latina no debía ser “calco ni copia, sino creación heroica”[3], sigue siendo un lema para quienes buscan levantar nuevos proyectos políticos, siendo uno de los primeros en rechazar la idea de que el socialismo latinoamericano debía ser una reproducción fiel de los modelos europeos, pues consideraba que los problemas sociales de Perú y de América Latina estaban ligados a la herencia colonial y a la dominación imperialista. Su análisis de la “estructura semifeudal” y del poder de las oligarquías agrarias todavía ilumina debates sobre desigualdad, tierra y soberanía.

Mariátegui consideraba a las comunidades indígenas y campesinas, no como un “rezago” del atraso pre y colonial, sino como base posible para una modernidad diferente y para un socialismo con raíces propias: “En la América Latina, que encierra más de cien millones de habitantes, la mayoría de la población está constituida por indígenas y negros. Esta última circunstancia sería suficiente para poner en plena luz toda la importancia de las razas en la América Latina como factor revolucionario”.[4] En algunos países de la región, el problema de la tenencia de la tierra sigue siendo una cuestión política relevante, pues involucra a comunidades indígenas, y aún debe ser resuelta por los Estados. En efecto, en sus artículos Mariátegui sustentaba que no era necesario retrotraerse a la época de las comunidades andinas para recuperar aspectos de su ethos y de su cosmovisión. En sus escritos se vislumbra un juicio que intenta contrarrestar el pensamiento occidental y el capitalismo como la única vía posible de pensar el desarrollo y la existencia en comunidad: “las comunidades indígenas reúnen la mayor cantidad posible de actitudes morales y materiales para transformarse en cooperativas de producción y consumo. En ellas reside indudablemente, contra el interesado escepticismo de algunos, un elemento activo y vital de realizaciones socialistas”.[5] Para él, no se trata del retorno a un pasado incaico, sino que de recuperar la referencia histórica de las formas de vida de estas poblaciones, capaces de concebir en sus propias tradiciones colectivistas una poderosa plataforma de Justicia Social. Su mirada del Perú profundo impregna todo su quehacer teórico.

Años después, otros autores, como el sociólogo peruano Aníbal Quijano, han sugerido que se podría interpretar esta mirada del indigenismo de Mariátegui como la búsqueda de una racionalidad alternativa. Sin embargo, el propio Quijano reconoce los límites de su interpretación condensada en el concepto de racionalidad alternativa: Tienen razón quienes señalan “que en Mariátegui no se encuentran esos términos, ni señales formales de que hubiera propuesto encontrar o producir ninguna racionalidad alternativa”.[6] No parece tan claro un objetivo teórico, como el aludido, de estas afirmaciones del Amauta, pero en el siglo transcurrido desde la publicación de sus artículos y observaciones de la realidad peruana ha ayudado en forma significativa a la reflexión de estos temas en toda América Latina.

En sus escritos, también dio cuenta con lucidez de la impronta eurocéntrica de nuestra cultura, aunque reconocía que en Europa realizó su mejor y mayor aprendizaje. La aseveración anterior no le impide construir una opinión crítica con respecto a la hegemonía ejercida por el pensamiento de matriz europea. En ese mismo sentido, Mariátegui fue uno de los primeros marxistas en ver que el colonialismo no era solo cosa del pasado, sino una estructura viva de dominación que organizaba la economía, la cultura y la subjetividad. Sin embargo, como señalará en un artículo dedicado a su amigo Waldo Frank: “Como él, yo no me sentí americano, sino en Europa. Por los caminos de Europa encontré el país de América que yo había dejado. Y en el que había vivido casi extraño y ausente (…) Sabía que Europa me había restituido, cuando parecía haberme conquistado enteramente, al Perú y a América”.[7]

Sus ideas sobre la existencia de vínculos de superioridad/subordinación en la conformación de la nacionalidad peruana, contribuyeron para aquello que vendría posteriormente a ser teorizado como la perspectiva de-colonial y las Teorías de la Dependencia. Mucho antes de la publicación de perspectivas críticas del marxismo con sesgo occidental[8] ya había percibido el carácter diferenciado y novedoso de los procesos de construcción del socialismo experimentado por los países ajenos a la esfera del mundo europeo. La idea de fundar un socialismo indoamericano implicaba pensar el país y la región a partir de sus bases particulares, de una identidad diferenciada, de problemáticas históricas específicas, pero también, de una determinada condición de subordinación en el orden mundial.

En el primer cuarto del siglo veinte, Perú era un país con escaso desarrollo industrial y una clase obrera en estado embrionario. Consciente de que existían vastos territorios habitados por comunidades campesinas indígenas que reconducían los problemas políticos del país hacia el ámbito agrario con una muy desigual tenencia de la tierra, derivada del proceso de Conquista y el ulterior despojo que habían sufrido los habitantes autóctonos de ese territorio, Mariátegui consideraba necesaria una lectura propia de los clásicos marxistas. En Perú no era posible adherir a las tesis deterministas que contemplaban el paso inevitable desde una situación de nación pre-capitalista hacia una condición de país capitalista, en que el desarrollo de las fuerzas productivas permitiera la emergencia de una clase destinada a conducir la transformación del país hacia el socialismo. Perú no reunía las condiciones para desarrollar un tipo de expansión capitalista que permitiera sustentar la tesis de la inevitabilidad del Progreso, tan necesaria al marxismo de la II Internacional. En contraste, el Amauta busca en la realidad indígena y campesina, las claves explicativas que le permitan elaborar una interpretación propia, que modifique o adapte dicha versión marxista, para transformar la realidad social peruana.

Se ha escrito y se escribe mucho acerca de su vida y su obra. Entre los últimos trabajos acerca del pensamiento de Mariátegui podemos destacar el libro que nos presenta un contrapunto del ideario del Amauta y de José Aricó (1931-1991), uno de sus más importantes biógrafos.[9] En este trabajo debemos destacar una extensa e inédita entrevista a Aricó, en que nos muestra como Mariátegui fue un referente de las batallas políticas y sociales peruanas de su tiempo; participando activamente en la organización de la clase trabajadora del Perú y en el apoyo a los movimientos indígenas. Pero también se destaca su rol en la constitución del Partido Socialista del Perú (1928), encarando y contradiciendo la línea política de la III Internacional, que propiciaba partidos “comunistas”, ratificando así su idea de la autonomía latinoamericana.

Otra preocupación actual han sido sus referencias filosóficas: “El mito mueve al hombre en la historia… El proletariado tiene un mito: la revolución social. Hacia ese mito se mueve con una fe vehemente y activa… La fuerza de los revolucionarios no está en su ciencia, está en su fe, en su pasión, en su voluntad. Es una figura religiosa, mística, espiritual”.[10] “No se vive fecundamente sin una concepción metafísica de la vida…”, “en mi camino he encontrado una fe. He ahí todo. Pero la he encontrado porque mi alma había partido desde muy temprano en busca de Dios”.[11]

Este tipo de afirmaciones son las que intentan explicar Conferencias y Simposios recientes, dando cuenta del contexto intelectual de la época y de la influencia de autores como George Sorel y otros en el líder peruano.[12] Reflexiones y acercamientos teóricos que nos hablan de su falta de prejuicios, a la hora de su búsqueda intelectual de un camino propio para el Socialismo peruano, y que pudiera ser emulado en todo el continente. Por cierto, su amplitud de lecturas y ámbitos teóricos de preocupación es notable, aunque no resulte clara la comprensión en él de conceptos como “metafísica”, la relación de Fe y Mito, u otros de la filosofía o la sociología. Mariátegui hacia política dando cuenta de lo que veía, interpretando lo observado con categorías que eran parte del gran debate ideológico de la Europa que conoció. Su misma “metafísica” del socialismo puede no resultar tan original en la Europa de la época, pero si en relación al sincretismo o mestizaje ideológico de la realidad de los marginados y los pueblos originarios de América expresada en sus escritos.

“Un clásico es un libro que nunca termina de decir lo que tiene que decir”.[13] Parafraseando a Calvino, podemos señalar que Mariátegui es un perfecto clásico, pues encarna a un tipo de pensador que todavía no termina de decir todo aquello que lo motivaba a reflexionar y a escribir. La diversidad de temas que abordó en su breve existencia nos permite ver a un intelectual abierto a una diversidad de cuestiones que van desde la política al psicoanálisis, la economía, la literatura, el cine, el arte y la cultura. En la exposición de ellos no pretendió ser neutro a cuanto observa, su compromiso con los problemas y el quehacer de su época lo perfilan como un pensador que supo integrar su praxis de vida con una confianza irrenunciable en el Socialismo: “Mis juicios se nutren de mis ideales, de mis sentimientos, de mis pasiones”.[14]

En el intelectual peruano vemos la fuerza y la convicción de querer transformar la sociedad en la que le tocó vivir. Creemos que es por esta vitalidad y coherencia que, con todas sus contradicciones y las limitaciones de su tiempo, Mariátegui nos sigue interpelando. Su lectura hoy nos acerca a un pensamiento crítico y emancipador; con raíces firmes en las realidades concretas de las comunidades originarias que habitan nuestro territorio latinoamericano, y con un ideario capaz de dialogar con el marxismo y con todas las corrientes ideológicas de la Izquierda, la democracia y la justicia social. Mariátegui sigue vivo porque es parte incuestionable de la causa de los marginados en el continente americano.

NOTAS
[1] Doctor en Ciencias Sociales. Miembro del Consejo Consultivo de la Cátedra José Carlos Mariátegui.
[2] Profesor de Filosofía.
[3] En rigor la frase completa dice: “No queremos, ciertamente, que el socialismo sea en América calco y copia. Debe ser creación heroica. Tenemos que dar vida con nuestra propia realidad, en nuestro propio lenguaje, al socialismo indo-americano. He aquí una misión digna de una generación nueva”. José Carlos Mariátegui, “Aniversario y Balance”, editorial de Amauta, año II, núm. 17, Lima, septiembre de 1928. Reproducido posteriormente en Ideología y Política, Lima, Empresa Editorial Amauta, 1972, p. 249.
[4] J. C. Mariátegui, “El problema de las razas en la América Latina”, texto presentado y discutido en la Primera Conferencia Comunista latinoamericana realizada en Buenos Aires en junio de 1929. Reproducido posteriormente en Revista Amauta, año IV, núm. 25, julio-agosto de 1929.
[5] J. C. Mariátegui, “El porvenir de las cooperativas”, publicado originalmente en el periódico Mundial, Lima, 16 de marzo de 1928. Reproducido posteriormente en Revista Amauta, año III, núm. 13, marzo de 1928.
[6] Aníbal Quijano, “Prólogo” de Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana, Caracas, Fundación Biblioteca Ayacucho, 2007, p. CXXV. En ese sentido, tal como afirma Deni Alfaro Rubbo, no existe en Mariátegui una propuesta de racionalidad alternativa expuesta con total claridad. Según él, la noción acuñada después por Quijano, se encuentra de manera más bien intuitiva en la obra del Amauta, sin haber sido desarrollada de forma consciente y sistemática. No habría en Mariátegui un sistema filosófico coherente e inmutable o una teoría integral, sino más bien una reflexión en forma de ensayo dentro del ámbito de la producción periodística. Ver Deni Alfaro Rubbo, “Aníbal Quijano e a racionalidade alternativa na América Latina: diálogos com Mariátegui”, en Revista Estudos Avançados, volumen 32, núm. 94, São Paulo, 2018, pp. 391-409.
[7] J. C. Mariátegui, “Itinerario de Waldo Frank”. Publicado originalmente en Variedades, Lima, 04/12/1929. Reproducido posteriormente en El Alma matinal, Lima, Empresa Editorial Amauta, 1970, p. 162.
[8] Domenico Losurdo, El marxismo occidental. Cómo nació, cómo murió y cómo puede resucitar, Madrid, Editorial Trota, 2019.
[9] Yuri Gómez (Editor), El encuentro. Aricó y Mariátegui en el marxismo latinoamericano, LOM Ediciones, 2025.
[10] J. C. Mariátegui, “El hombre y el mito”, aparecido en el periódico Mundial el 16 de enero de 1925. Reproducido posteriormente en El Alma matinal, Lima, Empresa Editorial Amauta, 1970, p. 22.
[11] Ídem, págs. 18-19.
[12] Fernando de la Cuadra, “La problemática concepción religiosa en el pensamiento de Mariátegui”. Ponencia presentada en el Simposio Internacional “El Hombre y el Mito. Dogma y herejía para pensar en Mariátegui”, organizado por la Cátedra José Carlos Mariátegui en conjunto con el Centro de Estudios del Pensamiento Iberoamericano (CEPIB-UV), realizado entre los días 25 y 26 de junio de 2025.
[13] Ítalo Calvino, Por qué leer los clásicos, Barcelona, Editora Tusquets, 1993.
[14] J. C. Mariátegui, Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana, Caracas, Fundación Biblioteca Ayacucho, 2007.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

El impacto de las movilizaciones populares contra la impunidad

Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

La Propuesta de Enmienda Constitucional (PEC) destinada a blindar a los parlamentarios de posibles condenas por diversos tipos de crímenes tuvo un estrepitoso fracaso en el Senado. Ahora, muchos de los diputados –incluidos algunos del PT- que aprobaron el mentado documento la semana pasada, se dicen arrepentidos de haber suscrito el mismo. El proyecto en cuestión era una aberración, ya que entregaba total impunidad al Congreso, pues exigía que la apertura de procesos contra parlamentarios tenía que tener el aval de la respectiva Casa en votación secreta.

El texto aprobado en la Cámara de Diputados era considerado insustentable, pues abría el peligroso precedente de que todos los crímenes cometidos por los parlamentarios -inclusive en el caso de crímenes hediondos- podían ser relegados al olvido, una consecuencia lógica del indudable espíritu corporativo que prima en el Poder Legislativo.

El resultado fue que esta proposición, escabrosa desde sus orígenes, se convirtió en el blanco del descontento de la población que se manifestó de manera inmediata y masivamente durante el fin de semana. El impacto que tuvieron las últimas manifestaciones en las principales capitales y ciudades de Brasil ha sido enorme. Millares de personas se reunieron en plazas y parques para demostrar que las verdaderas disputas por justicia y democracia se producen en las calles, en la solidaridad que surge de la sinergia de los cuerpos y las mentes reunidas en un mismo espacio. Nadie ha quedado impasible ante tamaña demostración de indignación y hartazgo por los desvaríos de una Cámara de Diputados que legisla de espaldas para la población.

De hecho, acusando recibo del malestar popular la propuesta fue rechazada en la Comisión de Constitución y Justicia (CCJ) del Senado, aprobando por unanimidad el parecer elaborado por el relator Alessandro Vieira, quien expone en una de sus partes que la referida PEC “no solo es inconstitucional, sino que sobre todo supone abrir las puertas para la transformación del Legislativo en un abrigo seguro para criminales de todos los tipos. Confío en que el plenario de esta Comisión rechazará esta propuesta inmoral, que es una página triste de nuestro Legislativo y homenajeando la nítida voluntad popular que clama por más Justicia”.

De manera inédita, hasta los senadores de la extrema derecha y de la base bolsonarista votaron por sepultar el cuestionado proyecto que consagraba el crimen y el perdón a priori. Fueron 26 votos por aclamación en contra de la propuesta, que seguidamente fue sepultada por el presidente del Senado, quien sancionó su archivamiento definitivo.

Por otra parte, las pautas que le interesan a vastos sectores de la población han sido postergadas injustificadamente por la Cámara. Entre ellas destaca la aprobación de la exención tributaria para aquellas familias que ganan hasta 5 mil reales (US$ 930) o el aumento de impuesto para los Bancos, Billonarios y empresas de apuestas. Ahora, los partidos del Centrão quieren acelerar la aprobación de una Ley de Amnistía para todos los condenados por la tentativa de Golpe de Estado, incluido el ex presidente Bolsonaro. Como ahora el eslogan de una “amnistía amplia, general e irrestricta” tiene fuerte oposición de la mayoría de los congresistas, algunos sectores de derecha plantean una salida más factible por medio de la dosificación de las penas aplicadas a los reos.

En los actos del último domingo, enormes banderas brasileñas fueron abiertas entre la multitud, demostrando el verdadero sentido de defensa de la soberanía nacional, diferente al entreguismo descarado de los seguidores del ex capitán que el día 7 de septiembre –de la Independencia- plegaron banderas estadounidenses en una demostración inequívoca de la sumisión y permanente postura abyecta que tienen frente a los intereses de Estados Unidos, personificados actualmente en el gobierno de Donald Trump y los empresarios de las Corporaciones financieras, empresas petroleras y Big Techs que le dan sustento.

Sin embargo, otros sectores de la derecha tradicional brasileña consideran absurdo apoyar las sanciones comerciales impuestas por el gobierno Trump, pues al final dichas medidas vienen generando desempleo entre los habitantes del país y, consecuentemente, aumentando el malestar contra la familia Bolsonaro que sigue en campaña para que la administración norteamericana aumente las presiones sobre toda la nación, aunque particularmente ellas sean más intensas sobre el Poder Judicial y algunos ministros del Supremo Tribunal Federal.

También quedó claro que el repudio a los ataques al Estado Democrático de Derecho no es una pauta exclusiva del gobierno y los partidos de la coalición, dado que la defensa de las instituciones democráticas se transformó en una demanda fundamental para la ciudadanía que se rebeló con vehemencia ante un proyecto fraudulento y antipopular, que no resuelve las necesidades de las personas, sino que, por el contrario, entrega más poder e impunidad a quienes dicen ser fieles representantes del pueblo.

En ese sentido, las demostraciones masivas de malestar no se deben confundir con una deslegitimación de la política y si más bien con una valorización de la política con mayúscula, la cual ha sido ultrajada por un Congreso corrupto, irresponsable y autocentrado. Desgraciadamente, algunos parlamentarios insisten en resucitar la propuesta que los protege bajo un nuevo ropaje más digerible. Es de esperar que estas movilizaciones sean el anuncio de un nuevo ciclo en que los ciudadanos se mantengan unidos y vigilantes para descartar de plano cualquier arremetida que ponga en peligro la democracia y la soberanía del país.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Karl Marx ansiava pela revolta contra os impérios europeus

Kieran Durkin
Jacobin Brasil

Alguns críticos acusaram Karl Marx de forçar a história mundial a uma estrutura estreita que apresentava o capitalismo europeu como um modelo universal de desenvolvimento. Um olhar mais atento aos escritos tardios de Marx mostra quão distante da verdade está esse esteriótipo.

Você pode pensar que não há mais nada de novo a ser descoberto na obra de Karl Marx. Mas os estudos marxianos estão apenas começando a revelar as reflexões extraordinárias de seu estudo das sociedades não europeias e a nova perspectiva histórica que ele desenvolveu como resultado.

Resenha do livro The Late Marx’s Revolutionary Roads: Colonialism, Gender, and Indigenous Communism [Os Caminhos Revolucionários do Marx Tardio: Colonialismo, Gênero e Comunismo Indígena], de Kevin Anderson (Verso Books, 2025).

Em seu novo livro, Karl Marx in America, Andrew Hartman sugere que estamos vivendo o “quarto boom” do marxismo no mundo anglófono. Embora tal ideia possa parecer fantasiosa em termos de movimentos sociais e políticos, se a interpretarmos como uma referência ao engajamento intelectual com o pensamento e os escritos de Karl Marx, ela captura uma verdade inegável.

No ano passado, a Princeton University Press publicou a primeira nova tradução para o inglês de O Capital: Volume I em décadas, enquanto Slow Down: The Degrowth Manifesto [Desacelerar: O Manifesto do Decrescimento], de Kohei Saito, foi publicado com grande alarde. Em 2025, o livro de Hartman está causando impacto, e The Late Marx’s Revolutionary Roads, de Kevin Anderson, parece agora demonstrar a relevância e o apelo contínuos de Marx e do marxismo.

Um Marx multilinear

Revolutionary Roads retoma o ponto em que o livro anterior de Anderson, Marx nas Margens, parou quinze anos atrás. A publicação de Marx nas Margens constituiu um marco nos estudos sobre Marx. Baseando-se nos extensos escritos jornalísticos, cartas e cadernos de notas tardios sobre sociedades não europeias e pré-capitalistas, o livro desafiou a visão generalizada de Marx como um pensador determinista com um modelo unilinear de história que exemplificava, nas palavras de Edward Said, uma “visão homogeneizadora do Terceiro Mundo”.

Anderson demonstrou que os escritos de Marx, quando considerados em conjunto, não evidenciam uma compreensão unilinear e determinista da história e da cultura humanas. Na verdade, é possível encontrar uma abordagem muito mais aberta e multilinear, com uma profunda apreciação da diversidade humana. Revolutionary Roads expande e aprimora esse panorama.

O livro baseia-se no acesso a documentos anteriormente indisponíveis, obtidos por meio da colaboração de Anderson com o projeto Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA). Eles incluem notas escritas nos últimos anos da vida de Marx sobre as obras antropológicas de Lewis Henry Morgan, Maksim Kovalevsky e outros.

O tema da multilinearidade é central em Revolutionary Roads. Em particular, Anderson questiona a noção de “épochen progressista” — a ideia de estágios sucessivos da sociedade humana, com base no que Marx viria a descrever como “modos de produção” distintos. Marx e Friedrich Engels articularam esse esquema pela primeira vez em A Ideologia Alemã (uma obra composta em 1845-1846 que permaneceu inédita durante suas vidas).

Ela propõe uma série de estágios de desenvolvimento histórico marcados por movimentos de um modo de produção dominante para o seguinte, com o modo de produção tribal ou comunismo primitivo dando lugar ao antigo modo de produção escravista da Grécia e de Roma, para ser suplantado, por sua vez, pelo modo de produção feudal, pelo modo de produção burguês e, finalmente, pelo modo de produção comunista ou socialista. A questão do feudalismo — em particular, se podemos descrever, de modo geral, as sociedades de classes pré-capitalistas em todo o mundo como “feudais” — é central para o argumento de Anderson.

Compreendendo o feudalismo

A própria ideia de tal esquema tem sido motivo de discórdia nos estudos marxistas e além, dada sua aparente afinidade com as formas iluministas de “teoria dos estágios”. Como Anderson aponta, no entanto, toda a noção de modos de produção como epochen progressivo é subdeterminada em Marx: ou podemos falar deles como sendo progressistas em um sentido tecnológico, representando uma sequência de desenvolvimentos tecnológicos ou sociais uns sobre os outros, ou como progressivos no sentido de seguir um após o outro em uma escala temporal.

Há problemas com ambas as interpretações. No que diz respeito à primeira, Anderson observa como a discussão de Marx sobre o feudalismo está repleta de críticas ao progressismo iluminista, o que torna essa leitura implausível. No que diz respeito à segunda, o fato de Marx ter falado de um “modo de produção asiático” que se situava completamente fora do padrão europeu de desenvolvimento desorganiza todo o esquema.

De qualquer forma, na época de O Capital, a linguagem da época progressista desaparece completamente. De fato, quando consideramos todos os escritos, cartas, notas de pesquisa e assim por diante de Marx, nos quais a discussão sobre o feudalismo ocupa, na verdade, um espaço bastante restrito, seria, como observa Anderson, “duplamente equivocado considerar os modos de produção comunal primitivo, o antigo greco-romano e o asiático como de alguma forma periféricos à obra de Marx, ao mesmo tempo em que torna o feudalismo central para ela”.

Nos cadernos etnológicos de Marx, e em alguns de seus escritos posteriores, incluindo a edição francesa de O Capital, vemos que ele se esforça para criticar a universalização do feudalismo europeu para abranger a história das sociedades não europeias. Anderson demonstra a própria trajetória de estudo de Marx, que indica que ele estava nas fases iniciais de um engajamento significativo com as estruturas e o escopo das sociedades não europeias, engajamento que poderia ter se tornado mais central para os volumes subsequentes incompletos de O Capital, particularmente o volume onde discutiu o mercado mundial.

Em sua resposta de 1877 a um artigo em um jornal russo que comentava criticamente o esboço histórico da “chamada acumulação primitiva” oferecido em O Capital: Volume I , Marx discorda diretamente do autor, um Sr. Zhukovsky, que ele reclama que “se sente obrigado a metamorfosear meu esboço histórico da gênese do capitalismo na Europa Ocidental em uma teoria histórico-filosófica do caminho geral fatalmente imposto a todos os povos, quaisquer que sejam as circunstâncias históricas em que se encontrem”.

Também podemos encontrar evidências da rejeição de Marx a essa leitura unilinear em uma passagem que Anderson cita da edição francesa posterior de O Capital:

Mas a base de todo esse desenvolvimento é a expropriação dos cultivadores. Até agora, isso foi realizado de forma radical apenas na Inglaterra: portanto, este país necessariamente desempenhará o papel principal em nosso esboço. Mas todos os países da Europa Ocidental estão passando pelo mesmo desenvolvimento, embora, de acordo com o ambiente específico, ele mude sua matiz local, ou se limite a uma esfera mais restrita, ou apresente um caráter menos pronunciado, ou siga uma ordem de sucessão diferente.

Trabalho social

Uma questão relacionada é a importância do estudo de Marx sobre as relações de propriedade comunal — ou, melhor, como Anderson coloca, “relações sociais comunais” ou formas sociais. Essa distinção não é um exercício de minúcia por parte de Anderson. Como ele observa, seria um erro dizer que Marx se concentrou na propriedade comunal per se em seus estudos sobre sociedades não europeias, uma vez que várias dessas sociedades “tinham pouca propriedade de qualquer tipo, exceto pequenas quantidades de propriedade pessoal”.

Mais significativamente, é a forma de trabalho social utilizada para sustentar a sociedade, e não as formas de propriedade em si, a preocupação mais essencial para Marx. As formas de propriedade funcionam mais como características secundárias derivadas dessa forma anterior.

A distinção é útil, principalmente para dissipar o argumento encontrado na obra de Proudhon e outros que retrata a propriedade como uma forma de roubo. Para Marx, a noção de que “propriedade é roubo” repousa sobre uma confusão elementar: não podemos falar de “roubo” em relação a algo que não era propriedade em primeiro lugar. Para que algo seja roubado, ele deve primeiro pertencer a outra pessoa.

Assim, Marx argumenta que as relações de propriedade são o resultado de um processo de transformação das relações sociais mais amplas e do papel do trabalho: em particular, o processo violento de separação dos produtores do acesso direto aos meios de produção e seu enredamento em novas relações sociais (isto é, como trabalhadores escravos ou assalariados). Somente então podemos ter a propriedade privada como uma forma duradoura de relação social.

Marx expõe isso no capítulo final de O Capital: Volume I, “A Teoria Moderna da Colonização”, que aparece na seção dedicada à “chamada acumulação primitiva”. Neste capítulo, Marx conta a triste história do Sr. Peel, um industrial inglês que entendeu mal o desejo humano por trabalho não alienado.

O Sr. Peel transportou os meios de produção e um grupo de potenciais trabalhadores assalariados para Swan River, na Austrália Ocidental, fornecendo tudo o que era necessário para o estabelecimento de uma empresa incipiente. Para o que sem dúvida foi grande horror e indignação do Sr. Peel, os potenciais trabalhadores assalariados o abandonaram prontamente ao chegarem ao seu destino. Eles partiram por conta própria, exercendo o direito elementar à autodeterminação da reprodução diária de suas condições de existência.

Há um longo debate sobre se devemos considerar a “chamada acumulação primitiva” como um processo histórico ou contínuo. Teria ela se restringido ao período em que o capital emergiu, por meio de um estranho processo de alquimia, do não capital — a “pré-história” do capital, como Marx a chama? Ou seria um fenômeno prolongado, exemplificado pelo desenvolvimento contínuo do capital em zonas de não capital, até o presente?

Como demonstra Anderson, as notas de Marx retratam a acumulação avançada e madura de capital funcionando paralelamente, e necessariamente exigindo, a violência estatal aberta para transformar as relações sociais comunitárias. A Índia é um exemplo claro e, em menor grau, a Argélia, mas é notável que Marx também a discuta como um fenômeno histórico iminente no caso da Rússia. Como Marx afirma em sua carta à líder populista russa Vera Zasulich: “o que ameaça a vida da comuna russa não é uma inevitabilidade histórica nem uma teoria; é a opressão e a exploração do Estado por intrusos capitalistas”.

Formas comunitárias

Um dos temas de Revolutionary Roads é a atenção cuidadosa de Marx à resistência ao domínio colonial. De particular importância aqui é o papel das “comunas rurais” — Marx comenta não apenas sobre as comunas rurais da Índia, mas também as da Argélia e das Américas. Seu elogio a essa resistência parece contrastar com comentários anteriores em um artigo de Marx de 1853, que descrevia a comuna rural “primitiva” como “a base sólida do despotismo oriental”, com o colonialismo desempenhando um papel progressivo na sua dissolução.

Anderson discutiu esse ponto anteriormente em Marx nas Margens, onde contextualizou esses comentários e demonstrou a mudança progressiva de Marx em direção a uma posição mais diretamente anticolonialista ao longo dos anos seguintes. Em seu novo livro, ele oferece uma compreensão mais aprofundada de como Marx desenvolveu essa posição anticolonial. Isso é especialmente evidente no fascínio de Marx pela persistência de formas sociais comunais, da Rússia à Irlanda e até mesmo na Alemanha.

Lendo Anderson, temos a sensação palpável de que Marx vê as formas sociais comunais, mesmo onde restam apenas elementos vestigiais, como essenciais para a compreensão da “negação da negação” do capital, sugerindo a forma da futura sociedade comunista. Não é por acaso que o estudo de Marx sobre a comuna tradicional se intensifica nos anos posteriores à Comuna de Paris de 1871.

Seria equivocado ver o interesse de Marx pela comuna antiga como uma identificação romântica com tais formas arcaicas. Anderson mostra Marx submetendo os elementos patriarcais dessas formas, em particular, a uma crítica rigorosa, ao mesmo tempo em que elogia seus elementos mais progressistas. De fato, não são as formas comunais antigas, em suas versões pré-coloniais, a principal preocupação de Marx.

Tomando a Índia como exemplo, Anderson observa que a “conjuntura dialética fundamental” para a teorização de Marx ocorre “após a penetração substancial do colonialismo britânico, após essas formas comunais terem sido rompidas por aspectos das relações sociais capitalistas impostas pelos britânicos”. Marx está preocupado, acredita ele, com a forma como esse processo iniciou “novos tipos de pensamento e organização que podem formar a base de um novo tipo de subjetividade”, que se mostrará perigoso para as forças colonizadoras. Se essa foi de fato a observação de Marx, então ela demonstra uma presciência inegável à luz da história do século XX, com suas inúmeras revoluções anticoloniais.

Caminhos para a revolução

O capítulo final de Anderson é, em muitos aspectos, o foco principal do livro, onde ele aborda a questão da compreensão de Marx sobre a transformação revolucionária e como ela se modificou ao longo do tempo. Pelo menos até meados da década de 1850, é evidente que Marx via nações industrialmente desenvolvidas, como a Grã-Bretanha, como o provável locus da revolução, que então se espalharia para as periferias do capitalismo em países como Irlanda e Polônia.

No final da década de 1860, porém, ele reverteu essa visão, argumentando que seria nos eventos na Irlanda que a revolução seria desencadeada na Grã-Bretanha, de onde se espalharia pelo mundo. Em Revolutionary Roads, Anderson demonstra como a Rússia mais tarde assumiu, para Marx, o lugar da Irlanda e da Polônia como pedra de toque da revolução mundial.

Uma carta ao líder socialista francês Jules Guesde, de 1879, deixa isso claro: “Estou convencido de que a explosão da revolução começará desta vez não no Ocidente, mas no Oriente, na Rússia”. Segundo Marx, a revolução se espalharia primeiro da Rússia para a Alemanha e a Áustria:

É da maior importância que, no momento desta crise geral na Europa, encontremos o proletariado francês já organizado como um partido operário e pronto para desempenhar seu papel. Quanto à Inglaterra, os elementos materiais para sua transformação social são superabundantes, mas falta um espírito impulsionador. Ele não se formará, exceto sob o impacto da explosão de eventos no continente.

Ao mesmo tempo, a antiga comuna torna-se central para o pensamento de Marx sobre a própria revolução. O Marx que Anderson nos apresenta se esforça em seus últimos anos para rejeitar a noção de que os desenvolvimentos na Grã-Bretanha e na Europa Ocidental devem ser replicados em todos os lugares para que a transição para o comunismo seja possível. Ele sugere claramente que um futuro socialista pode emergir das comunas rurais se as influências da invasão capitalista que as afetam puderem ser superadas:

Pode a obshchina russa, uma forma, embora fortemente erodida, da primitiva propriedade comunal da terra, passar diretamente para a forma superior, comunista, de propriedade comunal? Ou deve primeiro passar pelo mesmo processo de dissolução que marca o desenvolvimento histórico do Ocidente? A única resposta possível hoje é: se a Revolução Russa se tornasse o sinal para uma revolução proletária no Ocidente, de modo que ambas se complementassem, então a atual propriedade comunal russa poderia servir como ponto de partida para um desenvolvimento comunista.

Uma contribuição final que o estudo de Anderson oferece é o destaque de temas centrais da Crítica do Programa de Gotha de Marx, uma nova edição da qual Anderson cotraduziu com Karel Ludenhoff em 2023. Esta edição, com uma excelente introdução de Peter Hudis, foca na tradução problemática do termo alemão Staatswesen (“corpo político”), que foi traduzido incorretamente na maioria das traduções em inglês como “Estado”. Como Ludenhoff e Anderson observam, o relato de Marx sobre a futura sociedade comunista se baseia na substituição do Estado pelo controle democrático direto das necessárias “funções estatais [Staatsfunktionen]”.

É por essa razão que Marx falou da comuna em A Guerra Civil na França como “uma revolução contra o Estado” e “a reabsorção do poder estatal pela sociedade como suas próprias forças vivas”. Marx deixa um tanto obscuro o processo preciso pelo qual a comuna russa e o Ocidente industrializado interagiriam para modernizar a forma comunal nesses escritos tardios. No entanto, considerados em conjunto, eles devem nos desmistificar a ideia de que ele via uma forma estatista de socialismo como alternativa ao capitalismo.

O estudo de Anderson revela um Marx marcadamente diferente da figura dogmática que tantos críticos e admiradores retrataram, alguém cuja flexibilidade de pensamento, inspirada pela atenção às práticas em campo, bem como pela imersão em uma ampla gama de leituras acadêmicas, deveria ser levada muito mais a sério. Revolutionary Roads nos convida implicitamente a transpor a prática de Marx para o nosso próprio momento, dando atenção especial às diferentes práticas e possibilidades sociais, buscando não apenas as evidências de regressão tão aparentes ao nosso redor, mas também as muitas formas de resistência a ela.