domingo, 31 de agosto de 2025

A teologia do domínio e as guerras culturais na política brasileira

Helcimara Telles
Socialismo y Democracia

A Teologia do Domínio impulsiona no Brasil uma ofensiva político-religiosa: ocupar instituições, impor a moral bíblica e travar “guerras culturais” contra os direitos LGBTQIA+, o aborto e a educação com enfoque de gênero. Com Bolsonaro e figuras como Nikolas Ferreira, o pentecostalismo conservador ganha poder, tensiona o Poder Judiciário e corrói a laicidade e a democracia.

A corrente dominionista propõe a construção de nações cristãs através da ocupação de instituições-chave da sociedade, como forma de se preparar para a “segunda vinda” de Jesus. Sustentada pela crença de que o mundo está envolvido em uma luta espiritual do “bem” contra o “mal”, mobiliza igrejas e líderes religiosos para atuar no campo político-institucional com o objetivo de expandir suas agendas morais e impor seus valores religiosos à sociedade.

A Teologia do Domínio está relacionada a um conceito de família, que representa o pilar da sociedade, um espaço onde os valores religiosos são transmitidos de geração em geração, baseado na união entre homem e mulher (Gênesis 2:24), com o propósito do amor, da procriação e da educação dos filhos (Efésios 6:4). Nessa teologia, a moral é um sistema imutável, revelado por Deus e transmitido por líderes religiosos. Esse sistema serve, além disso, como mecanismo de controle social sobre a sexualidade, o corpo e as estruturas familiares. O dominionismo se configura como uma forma de ativismo político-religioso que busca “reconquistar” a sociedade para Deus através da ocupação estratégica das instituições.

Os dominionistas acreditam que os cristãos têm o dever de dominar as sete esferas da sociedade (família, educação, mídia, política, economia, artes e religião) para estabelecer o Reino de Deus na Terra. A visão dominionista é pós-milenista: acredita-se que, antes da “segunda vinda” de Cristo, os cristãos devem restaurar a moralidade bíblica e instituir uma ordem social baseada nos valores do Evangelho. Isso justifica o compromisso político dos pentecostais, que se apresentam como soldados espirituais na luta contra o “mal”, representado por ideias como feminismo, direitos LGBTQIA+, comunismo e secularismo. A política se torna um campo de batalha espiritual, no qual o objetivo não é negociar, mas derrotar o inimigo.

Essa configuração religiosa se consolidou no Brasil com a eleição do presidente Bolsonaro em 2018, apoiado por denominações pentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Assembleia de Deus. Seu governo incorporou líderes religiosos a ministérios estratégicos, promoveu uma aliança entre o cristianismo conservador e o projeto político autoritário. O fenômeno, entendido como “Cristofascismo”, estabelece um tipo de fundamentalismo que instrumentaliza a fé para legitimar o autoritarismo, a hierarquia e a intolerância.

O dominionismo usa a política para moldar a opinião pública e captar o apoio dos eleitores, promovendo uma legislação que reflita seus valores e concepções morais. Um dos protagonistas dessas batalhas culturais é o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), o mais votado em 2022. Alinhado com o dominionismo, é autor do livro O cristão e a política: descubra como vencer a guerra cultural (2023), no qual convoca os cristãos a lutar contra o comunismo, o feminismo, a “ideologia de gênero” e os direitos LGBTQIA+.

A linguagem agressiva e carismática desse líder radical o torna uma figura central na atuação político-religiosa. A ascensão do deputado representa a consolidação de uma nova geração de políticos evangélicos, midiáticos, combativos e ideologicamente alinhados com a extrema direita. Seu discurso reforça a polarização temática e contribui ao avanço de uma agenda autoritária que coloca em risco os pilares do Estado democrático de direito.

Sobre o tema das uniões entre pessoas do mesmo sexo, a pesquisa mostra que, embora o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha reconhecido esse direito em 2011, parlamentares conservadores buscaram reverter essa conquista com projetos como o PL 5167/09, que visa proibir o reconhecimento legal. Outros projetos de lei tentam alterar o Código Civil para restringir a noção de família à união entre um homem e uma mulher biológicos. Em resposta, setores progressistas propuseram iniciativas para consolidar os direitos dos casais LGBTQIA+ na legislação ordinária, mas esses projetos enfrentam forte resistência.

No campo do aborto, a maioria dos projetos de lei analisados visa restringir ainda mais o acesso ao procedimento, mesmo nos casos em que ele já é legalizado. A retórica utilizada baseia-se em princípios religiosos, como a defesa da vida desde a concepção, e no argumento de que o aborto é uma forma de assassinato sancionada pelo Estado. Por outro lado, os movimentos feministas e as organizações de direitos humanos defendem a descriminalização como uma questão de saúde pública, equidade e autonomia das mulheres.

A educação é outro campo de intensa disputa. O projeto “Escola sem Partido”, defendido por parlamentares dominionistas, busca eliminar das salas de aula os debates sobre gênero, sexualidade e direitos humanos. A escola é apresentada como um espaço de “doutrinação ideológica”, que precisaria ser resgatado para “proteger a infância” e os “valores familiares”. O projeto pretende, na prática, restringir a liberdade de ensino e impor uma visão religiosa conservadora no currículo escolar.

A extrema direita no Brasil defende valores como a família nuclear tradicional, segundo os preceitos bíblicos e a moral religiosa, e rejeita ideias como igualdade de gênero, diversidade e inclusão social. Os grupos pentecostais são afiliados a essa ideologia, com uma visão de um Estado limitado que seria guiado por Deus e acima da lei. Os pentecostais, que se traduziram politicamente em uma aliança com a extrema direita, servem como um dos pilares de apoio para essas batalhas culturais no Brasil. As igrejas, especialmente as associações evangélicas neopentecostais, garantiram aos políticos uma ampla base de apoio social. E a expansão do ativismo religioso evangélico pentecostal é evidente nas propostas legislativas apresentadas entre 2018 e 2024.

Essas agendas incluíam a criminalização da educação e dos direitos reprodutivos, entre outros, todos percebidos como violações dos direitos humanos. Os líderes religiosos alinhados com a Teologia da Prosperidade e a Teologia do Dominionismo também ganharam protagonismo e projeção na mídia, usurpando a agenda moral e vigilante para despertar o engajamento, a monetização e a adesão religiosa nas redes sociais. O Poder Judiciário brasileiro tornou-se um importante contrapeso para controlar os avanços conservadores, mas é alvo de críticas e ameaças da extrema direita, que busca reduzir seus poderes e influenciar a opinião pública contra ele.

Por fim, acredita-se que a moralização da política baseada em valores religiosos excludentes coloca em risco o pluralismo e a laicidade do Estado. A Teologia do Domínio, ao transformar disputas políticas legítimas em batalhas espirituais entre o bem e o mal, elimina o espaço para o diálogo, a negociação e o reconhecimento da diversidade. O avanço desse modelo é uma ameaça à democracia, especialmente porque instrumentaliza a fé para legitimar a exclusão de minorias e a criminalização de direitos fundamentais.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

La CIA entrenó a los torturadores de Batista en Cuba

Ramona Wadi
Jacobin América Latina

El Buró para la Represión de las Actividades Comunistas de Fulgencio Batista tenía un sangriento historial de torturas y asesinatos políticos antes de la revolución de 1959. Archivos desclasificados muestran el rol clave de la CIA en su accionar represivo.

Hace setenta años, el 4 de mayo de 1955, la CIA ayudó al dictador cubano Fulgencio Batista a establecer el Buró para la Represión de las Actividades Comunistas (BRAC). La decisión se produjo dos años después de que Fidel Castro lanzara el asalto al Cuartel Moncada en un intento por derrocar el régimen de Batista y un año antes de que Castro y sus aliados regresaran a Cuba del exilio para iniciar una campaña de guerrilla.

Batista había tomado el poder en marzo de 1952 tras un golpe de Estado que derrocó al presidente Carlos Prío. El apoyo estadounidense a la dictadura de Batista fue el último episodio de una larga historia de injerencia en los asuntos cubanos, que se remonta a finales del siglo XIX. Agentes del BRAC dedicaron casi cuatro años a torturar y asesinar brutalmente a los opositores de Batista antes de que la revolución de 1959 pusiera fin a sus actividades.

Técnicos de la tortura

Un documento desclasificado de la CIA de la década de 1950 situó la formación del BRAC en el contexto de una represión más amplia de la actividad política comunista bajo Batista:

Las medidas gubernamentales que restringen la actividad comunista incluyen la supresión de publicaciones comunistas, la ruptura de relaciones diplomáticas con la Unión Soviética, la ilegalización del Partido Socialista Popular (PSP) (comunista), la legislación contra los comunistas en el servicio público y el control de los viajes y las comunicaciones internacionales comunistas.

El documento señaló las dificultades que estas medidas habían planteado al movimiento comunista cubano, pero advirtió que Batista no había sido capaz de asestar un golpe fatal:

Sin embargo, el Partido se mantiene muy bien organizado, aunque se ve obligado a operar como una organización semiencubierta. Las alianzas con grupos políticos no comunistas y la infiltración en grupos sociales son objetivos principales del Partido Comunista. Si bien los comunistas han perdido gran parte de su antigua fuerza, han conservado cierta influencia en los sindicatos azucareros, tabacaleros y marítimos, en la educación, las organizaciones juveniles y de mujeres, y en el ámbito del entretenimiento, especialmente en la radio y la radiodifusión.

La historia de la intervención estadounidense en los servicios de seguridad cubanos precedió por muchos años a la formación del BRAC. En 1942, durante su primer mandato como presidente cubano, Batista estableció el Servicio de Investigación de Actividades Enemigas (SIAE). El SIAE operaba bajo el mando del capitán Mariano Faget Díaz, quien se había formado en Estados Unidos. Los oficiales del SIAE, incluido el propio Faget, recibieron entrenamiento de los servicios de inteligencia estadounidenses en contraespionaje.

Tras el fin de la Segunda Guerra Mundial, la atención se desplazó de las potencias del Eje a la Unión Soviética y al movimiento comunista internacional. Faget se convirtió en director del BRAC cuando se fundó en 1955. Un revolucionario cubano, Carlos Franqui, lo describió como un «técnico de la tortura» capaz de infligir «golpes continuos en la cabeza, sin dejar marcas, pero produciendo un dolor y una tensión tremendos». En julio de 1955, el director de la CIA, Allen Dulles, escribió a Batista aprobando la decisión del dictador de permitir a la CIA entrenar a los agentes del BRAC:

La creación por parte del gobierno cubano del Buró para la Represión de las Actividades Comunistas constituye un gran avance en la causa de la libertad. Me honra que su gobierno haya aceptado que esta Agencia colabore en la capacitación de algunos de los oficiales de esta importante organización.

Dulles continuó sugiriendo que el general Martín Díaz Tamayo del BRAC debería viajar a Washington para discutir «algunas de las técnicas utilizadas [por la CIA] para combatir las actividades del comunismo internacional».

«Demasiado entusiasta»

Desde el golpe de Estado de Batista en 1952, los militares ya habían estado arrojando cadáveres acribillados a balazos en las calles de La Habana. El BRAC institucionalizó la violencia represiva, trabajando en estrecha colaboración con el Servicio de Inteligencia Militar (SIM). Los oficiales del SIM se encargaron de vigilar a personas con simpatías o afiliaciones comunistas conocidas. Informantes se infiltraron en sindicatos y otros movimientos para intentar frenar la oposición al régimen de Batista.

Los detenidos fueron interrogados en tres etapas, comenzando con persuasión, antes de pasar a la tortura psicológica y luego física. El agente de la CIA Lyman Kirkpatrick informó eufemísticamente que «BRAC podría ser demasiado entusiasta en algunos de sus interrogatorios». Kirkpatrick recordó un caso en el que un médico fotografió las heridas de tortura que los agentes de BRAC infligieron a una maestra tras ser detenida bajo sospecha de conspirar contra Batista. Según Kirkpatrick, al principio se mostró escéptico antes de ver la prueba fotográfica:

Las horribles heridas en el cuerpo de la mujer eran convincentes, como lo eran los informes de caso tras caso de hijos de prominentes familias cubanas que se habían unido a la organización de estudiantes o al Movimiento 26 de Julio y habían sido arrestados y asesinados. Sin embargo, la única preocupación expresada por Washington fue que las macabras tácticas de Batista acabarían fortaleciendo el apoyo al Movimiento 26 de Julio de Castro.

La revista cubana Bohemia daba seguimiento a las actividades del BRAC. Solo después del triunfo revolucionario se pudo conocer el alcance de la represión bajo la dictadura de Batista. En enero y febrero de 1959, Bohemia publicó tres números que detallaban la tortura de opositores por parte de las fuerzas de Batista. Las revistas también incluyeron una cronología de la tortura y el asesinato desde el inicio de la dictadura de Batista en 1952 hasta 1958.

Los agentes de Batista arrojaron los cuerpos de las víctimas en las colinas de Pinar del Río, en fosas comunes o en sitios abandonados. Según el director de la morgue de La Habana, más de setecientos cuerpos fueron llevados a la morgue entre 1952 y 1958 con evidencia de haber sido severamente torturados antes de ser asesinados.

Un ejemplo de la represión batistiana fue el asesinato de veintitrés revolucionarios en la provincia de Oriente entre el 23 y el 26 de diciembre de 1956. Las víctimas fueron torturadas, asesinadas y arrojadas a diversos lugares públicos con el fin de sembrar el terror. Posteriormente, miembros del movimiento revolucionario capturaron y ejecutaron al coronel Fermín Cowley Gallegos, quien había dado la orden de la masacre.

El 19 de febrero de 1959, una orden de Camilo Cienfuegos disolvió el BRAC y las demás instituciones represivas de la dictadura de Batista. Un funcionario del BRAC entrenado en Estados Unidos, José Castaño Quevedo, fue ejecutado después de la revolución, aunque el jefe de la CIA envió al periodista Andrew St. George a interceder ante el Che Guevara por la vida de Castaño. Mientras tanto, varios agentes del BRAC ya habían huido del país. Algunos de los que lograron escapar de Cuba encontraron su nuevo hogar en la CIA.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Jeremy Corbyn desafia o sistema outra vez

Marcus Barnett
Tribune

Expulso dos Trabalhistas britânicos por defender posições pós-capitalistas, deputado lidera formação de novo partido – que já reúne 650 mil apoiadores. Ideia central: é hora de recolocar em movimento os que se desiludiram com a política

Nas últimas semanas, um anúncio inesperado feito pela ex-deputada inglesa Zarah Sultana, sobre um novo partido à esquerda dos Trabalhistas (Labour) foi recebido com euforia por milhões de pessoas em toda a Grã-Bretanha, ansiosas por apoiar uma força política que se oponha ao apoio do primeiro ministro Keir Starmer ao genocídio em Gaza e à “austeridade” fiscal.

No momento em que este texto é escrito, mais de 650 mil pessoas já se inscreveram manifestando interesse de se tornarem membros do partido. E, apesar da atitude tipicamente pouco perspicaz da mídia, o anúncio também suscitou discussões entre uma esquerda britânica dolorosamente consciente de sua ausência no debate político “mainstream” desde 2022.

Na semana passada, o editor-associado da Tribune, Marcus Barnett, reuniu-se com o ex-líder do Labour, Jeremy Corbyn, uma figura-chave no desenvolvimento do novo partido, para discutir algumas das diversas posturas que começam a ser delineadas. Abordaram desde a necessidade de tomar a iniciativa do Reform [partido de ultradireita, em ascensão] em relação ao desencanto com a política até questões sobre quão ampla pode ser uma ‘tenda ampla’, a organização comunitária, a relação com os Verdes e se é possível evitar os erros do passado, quando se trata de desafiar, a partir da esquerda, o Partido Trabalhista.

O lançamento de um potencial novo partido de esquerda fez com que milhares de pessoas reacendessem suas esperanças de tornar seu país e seu mundo um lugar melhor. O que as inscrições revelam sobre a escala do desencanto político?

650 mil pessoas não se inscrevem num novo projeto sem motivo. Elas decidem-se a fazê-lo porque já chega. Já chega de serem empobrecidas, enquanto os ricos ficam mais ricos. Já chega de contas de água mais altas, em troca de tubulações estouradas e esgoto nos mares. Já chega de fazerem exigências básicas – como garantir que as pessoas com deficiência tenham apoio suficiente para viver com dignidade – e serem ignoradas. Já chega de serem excluídas das decisões que afetam as suas vidas diárias.

Veja os problemas que a sociedade enfrenta hoje: os bancos de comida gratuita (“food banks”) são um elemento destacado na vida de milhares de pessoas. Inquilinos de apartamentos privados gastam no aluguel bem mais da metade do seu salário líquido. Pessoas de todas as idades vivem em estresse permanente. Quando um governo assume o cargo prometendo que as coisas vão mudar, e depois nada muda, algo tem de ocorrer. Essa energia está reprimida há algum tempo, pois nenhum destes problemas é novo. Sucessivos governos recusaram-se a fazer qualquer coisa sobre eles. Isso terá uma consequência. Eles vão colher o que semearam.

Anunciar o website do partido foi como assistir a uma barragem a romper. Pessoas que não enxergavam uma alternativa real encontraram, de repente, algo de que participar. Encontraram uma razão para ter esperança. Estabelecemos uma visão política bastante sucinta, baseada em princípios fundamentais de igualdade e paz. Incluímos a propriedade pública, impostos sobre a riqueza, investimento em habitação social e apoio à Palestina. Não foi necessário traçar uma visão mais detalhada, não só porque isso será decidido pelos membros [do novo partido], mas porque as pessoas puderam ver o tipo de posição que defendíamos. Este caminho – o da distribuição da riqueza e do poder — lhes foi negado por muito tempo.

Vocês já tem uma noção sobre o tipo de pessoas que se têm inscrito?

Como seria de esperar, tivemos um grande número de inscrições em grandes cidades como Londres, Liverpool, Manchester e Newcastle. No entanto, o que me surpreendeu foi a forma geralmente capilarizada e equilibrada do apoio, por todas as regiões e nações. Ele é mais forte em Londres, no Noroeste e em Yorkshire e Humber, mas também se espalha por todo o lado – até mesmo até nas Ilhas Hébridas Exteriores.

Isto é prova de que os problemas que enfrentamos são fundamentais e afetam pessoas em todo o país: pobreza, depressão salarial, estresse, serviços públicos em decadência, crescente isolamento social. A maior parte das pessoas que se aproximam de mim dizendo que se inscreveram estavam claramente à espera de uma nova iniciativa política há algum tempo.

Elas mostram-se entusiasmadas, quase inquietas. Mas, acima de tudo, soam esperançosas. Também fui abordado por pessoas que nunca estiveram realmente envolvidas na política antes. Foi uma reação semelhante à que vivi durante a nossa campanha eleitoral do ano passado. Estamos construindo um novo tipo de partido político, que vai proporcionar espaço a pessoas a quem nosso sistema bipartidário obsoleto negou voz.

De fato, há muita gente inquieta. Desde que vocẽ foi suspenso do Labour, os apelos para uma nova formação política liderada por si e pelos seus princípios têm sido altos. O anúncio parece ser o fim de um processo muito longo que começou com os ataques da direita do Labour contra você há quase meia década. Como se chegou a tudo isto?

Muitos bons companheiros aproximaram-se de mim ao longo dos anos, sugerindo que é necessária uma nova voz política no Reino Unido. Depois de ter sido suspenso como membro do grupo parlamentar do Labour, permaneci como membro do partido e deputado não vinculado ao governo, com o apoio de muitos companheiros locais, que queriam afirmar os seus direitos democráticos como membros do Partido Trabalhista. Keir Starmer, o líder do partido, finalmente proibiu-me de me candidatar por ele, o que foi um ataque deplorável à democracia local; a minha opinião era que o povo deveria decidir. Foi por isso que me candidatei como independente.

Acho que vencer uma eleição como independente, antes de lançar um partido, vai se provar historicamente significativo. Senti que ganhar no distrito eleitoral de Islington North era importante, não apenas para a nossa comunidade, mas para pessoas além dela. Criar um novo partido antecipadamente, com pouca antecedência, provavelmente me obrigaria a viajar por todo o país, o que teria um custo significativo para nossa campanha local.

Foi durante a campanha eleitoral que se tornou mais óbvio o porquê de, num futuro próximo, estabelecer uma nova voz. Fiquei surpreso com o número de pessoas que nunca tinha conhecido antes, de todo o país, muitas das quais não haviam se envolvido na política, e que de repente queriam fazer parte da nossa campanha. Isso, para mim, foi indicativo do nível de apoio existente para uma alternativa política real.

Desde a eleição, os apelos por um novo partido político tornaram-se mais altos e generalizados. Tive muitos diálogos, com muitas pessoas, e ficou vez mais claro por que ele não é apenas possível, mas fundamentalmente necessário.

Sejamos claros: o Labour falhou total e completamente em sinalizar a mudança que prometeu – seja a sua recusa em abolir o limite de benefícios sociais para dois filhos, a extinção de benefícios por deficiência, a traição ao movimento Waspi [sigla em inglês de Mulheres contra a Desigualdade nas Aposentadorias], os cortes no apoio ao combustível para o aquecimento inverno, ou a sua atroz cumplicidade no massacre de palestinos.

E agora mesmo, enfrentamos uma situação em que o Labour está pavimentando uma avenida para um governo do Reform. Estamos num momento crítico da política britânica – e é por isso que decidimos lançar um novo partido. Se queremos viver numa sociedade de igualdade, inclusão e paz, e não de desigualdade, divisão e guerra, então precisamos de defender uma alternativa.

Houve uma decisão consciente de construir uma estrutura totalmente nova. Qual é o raciocínio por trás disto? Tem a ver com problemas que você previu num partido hierárquico? Eles são baseados nas suas próprias experiências no Labour, ou mesmo em liderá-lo?

Ao longo dos últimos 40 anos no parlamento, testemunhei em pessoa as razões pelas quais o nosso sistema político está falido. Uma dessas razões é a forma como os nossos partidos políticos são estruturados. Eles são hierárquicos, centralizados e burocráticos. Quando eu era líder do Partido Trabalhista, enfrentei uma oposição enorme ao apoio às Unidades de Organização Comunitária (COUs), cuja premissa básica era permitir que as comunidades locais se organizassem por si mesmas, já que elas conhecem os problemas que enfrentam.

Isso gera confiança, e o partido fica enraizado nessas comunidades, o que leva a um sucesso eleitoral muito maior. Em 2019, a nossa votação foi maior nos distritos onde existiam COUs. Se não fosse a obstrução burocrática que atrasou a sua introdução, poderiam ter tido um impacto muito maior.

No Partido Trabalhista de hoje, os deputados parecem ter medo das pessoas que devem representar. E quando os partidos se centralizam demais, produzem más políticas e decisões como a privatização de serviços públicos, como invadir o Iraque, como a austeridade.

Por isso é que tentámos fazer algo diferente. A política deve ser sobre empoderamento – e é disso que eu quero que este partido trate. Um partido que seja aberto, inclusivo, de base e democrático. Muitos na nossa mídia tiveram dificuldade para entender a ideia de deixar pessoas comuns moldarem o futuro do novo partido. Para as 650 mil pessoas que se inscreveram, não foi tão difícil de entender.

Queremos nos reunir, até o fim do ano, numa conferência inaugural para decidir os rumos do nosso partido — mas esta conferência não surgirá do nada. Será o produto de uma série de reuniões deliberativas por todo o país. Mais do que comícios, estas reuniões serão uma oportunidade para comunidades, movimentos sociais e sindicatos se reunirem para discutir as questões-chave que o futuro do nosso partido e do nosso país enfrenta. Tenho a certeza de que estas reuniões gerarão debates acalorados, e isso é bom. É para isso que serve a democracia.

O que poderia significar uma organização democrática neste contexto? Como o partido se relacionaria com movimentos sociais mais amplos, como organizações pelo direito à habitação ou anti-guerra?

Escrevi recentemente num artigo que um dos maiores erros que um partido pode cometer é pensar que deve escolher entre estar no parlamento e outras formas de ação. Precisamos nos organizar em todo o lado: nos territórios, no parlamento, nos locais de trabalho e nas nossas comunidades. Esse é o poder de um partido democrático: capacitar pessoas comuns para moldarem as suas prioridades, não apenas pessoas treinadas para fazer lobby junto dos deputados no parlamento. É assim que articulamos campanhas em toda a sociedade.

Se examinarmos o último ano na política, alguns diriam que ele é definido pelo fracasso do Labour. Eu digo algo ligeiramente diferente. É definido pelo crescimento extraordinário de movimentos: sindicatos, associações de inquilinos, defensores da justiça para deficientes, ativistas anti-racistas, ativistas climáticos e ativistas pela paz. Estes grupos podem algo sozinhos; imagine o que eles poderiam alcançar juntos, se fossem capacitados para tal.

Muitos sindicatos, delegados e altos funcionários sindicais que tradicionalmente estariam ligados fortemente à esquerda do Labour ou mesmo nas alas mais à direita – estão expressando uma curiosidade genuína em relação ao novo projeto.

Falo regularmente com funcionários, líderes e membros de sindicatos. É evidentmente claro que existe um descontentamento generalizado em relação à direção que este governo tomou. Quero ver nosso novo partido a trabalhar com sindicatos e movimentos sociais por todo o país. Estou pessoalmente muito feliz por trabalhar com todos os tipos de sindicatos.

Também quero que o partido apoie trabalhadores que não conseguiram organizar-se, particularmente nas plataformas e na economia gig (de bicos) em geral. No início deste ano, realizámos um Fórum Popular fantástico em Islington North, que se focou na economia gig. Houve um reconhecimento de que melhorias reais surgem quando os trabalhadores agem como um poder coeso.

Também é importante que não vejamos o movimento sindical como separado de outras partes do nosso movimento, como o movimento pela paz. Tive o prazer de conhecer Chris Smalls dos EUA, que organiza os trabalhadores da Amazon. Ele também se juntou recentemente à Frota da Liberdade para Gaza. É a prova de que não precisamos escolher entre fazer campanha pelos trabalhadores e fazer campanha pela Palestina. Temos de fazer ambos!

Numa questão similar, quando se poderia dizer que uma coalizão pode ser demasiado ampla? Quais são as contradições que você vê emergir e como poderiam ser superadas?

Trabalho bem com os meus colegas independentes, principalmente como uma voz unida contra o genocídio em Gaza. Eles ofereceram muita esperança às pessoas que sabem haver no Parlamento deputados que defendem o povo palestino sem se envergonharem. Nem sempre concordamos em tudo, mas somos uma oposição clara numa série de questões: a oposição ao limite de benefícios para dois filhos, cortes no apoio ao combustível para aquecimento de inverno, cortes nos benefícios por deficiência e vendas de armas a Israel.

Acredito no poder da unidade através da democracia. Sim, o novo partido vai gerar desacordos e divisões. Devemos ser abertos e honestos sobre eles e confiar nas instituições democráticas para resolvê-los de forma construtiva e produtiva. Precisamos construir um movimento que reconheça a diversidade de opiniões, mas que defenda os direitos humanos e a dignidade de todos. Devemos estar unidos contra a opressão e o preconceito em todas as suas formas – é o que faremos.

Com base nas lições de tudo, desde o Partido Socialista dos Trabalhadores (Socialist Labour Party, SLP) ao Respect, quais são os seus pensamentos sobre como um partido de esquerda pode sobreviver aos desastres habituais alimentados por cultos de personalidade e guerras sectárias internas?

Quero que este partido seja aberto, inclusivo e de base. A estrutura precisa, de alguma forma, refletir a ampla natureza geográfica do nosso apoio e capacitar as comunidades locais para promoverem mudanças de baixo para cima. O que eu não quero são batalhas intermináveis sobre quem está em que comitê nacional.

A forma de manter um partido unido é atermo-nos às questões e campanhas fundamentais, como a pobreza infantil, os direitos humanos e a paz. Vamos lembrar por que estamos fazendo isso: para transformar a sociedade redistribuindo a riqueza e o poder. Não tem a ver conosco, enquanto ativistas – mas com os milhões de pessoas que merecem uma vida melhor. Com as crianças que vivem na pobreza. Com o povo da Palestina. Tem a ver com eles, não conosco.

Quais são os seus pensamentos sobre uma aliança com os Verdes (Greens)?

O partido que estamos criando será muito forte em questões ambientais, fundamentado na ideia de que a justiça climática é justiça social. Trabalharemos com os Verdes onde pudermos – obviamente em questões ambientais, mas também, espero, em questões de paz e direitos humanos. Estou sempre aberto a trabalhar com indivíduos e grupos afins. A cooperação torna-nos a todos mais fortes.

Conheço muitos membros dos Verdes, trabalho bem com seus deputados parlamento e cooperamos quando podemos. Isso ajudou a construir uma aliança de oposição a várias questões, em especial os cortes nos benefícios por deficiência. Também fiz campanha ao lado do Zack (Zack Polanski, deputado dos Verdes) em muitas questões, aparecendo juntos em muitas plataformas anti-austeridade. Neste momento, a nossa prioridade nesta ação comum deve ser parar o ataque de Angela Rayner às hortas comunitárias.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Se está acabando el tiempo para los golpistas


Fernando de la Cuadra
Socialismo y Democracia

Ya existe fecha para la condenación de los golpistas. El ministro Cristiano Zanin, presidente de la Primera Turma del Supremo Tribunal Federal fijó para el próximo 2 de septiembre el inicio del juicio final de la acción penal en la que a partir de ese día y hasta el 12 del mismo mes, los cinco ministros que integran esa turma del STF deberán pronunciarse sobre la inocencia o culpabilidad del llamado “núcleo crucial” del golpe, que incluye a Jair Bolsonaro y otros siete cómplices procesados por los crímenes de intento de Golpe de Estado, organización criminal armada, abolición violenta del Estado Democrático de Derecho, daño calificado de la infraestructura pública y destrucción del patrimonio nacional.

La etapa final de esta causa comienza con el Procurador General de la República, Paulo Gonet, que sustentará durante una hora los aspectos centrales de la acusación contra los 8 inculpados. Luego los abogados de los reos deberán realizar sus respectivas defensas orales. Después viene la exposición del ministro relator del caso, Alexandre de Moraes, seguido por los otros cuatro ministros de la primera turma. Por lo tanto, la expectativa es que el viernes 12 de septiembre salga el veredicto final, excepto que uno de los ministros solicite un “pedido de vistas”, es decir, un mayor plazo para analizar las acusaciones contra los procesados, lo cual puede retardar la decisión final de los jueces por hasta 90 días.

Sin embargo, aun cuando el veredicto sea condenatorio, los acusados no serán inmediatamente presos pues existe la posibilidad de nuevos recursos por parte de los abogados de defensa y, en este caso, Bolsonaro y sus secuaces tendrán una nueva oportunidad para no ser efectivamente recluidos. En todo caso, la previsión de muchos juristas es que antes de fin de año el “núcleo crucial” de la trama golpista sea encarcelado. Además, la mayoría de ellos no deberán ir a presidios comunes, ya que oficiales militares y delegados de la Policía Federal tienen derecho a un presidio especial, de acuerdo con el Código de Proceso Penal.

Mientras tanto, la familia y seguidores del ex capitán continúan presionando al gobierno de Donald Trump para que aumente las sanciones económicas sobre Brasil, que ya desde el 6 de agosto impone un arancel de 50 por ciento de las exportaciones brasileñas para cerca de 4 mil productos existentes en el comercio bilateral. Trump justificó el “tarifazo” precisamente por las acciones de “persecución política” que estaría imponiendo la justicia, en especial el ministro Alexandre de Moraes, a su aliado y amigo, el ex presidente Bolsonaro. También incluyó como argumento para esta penalización arancelaria, la regulación de las plataformas digitales de las Bigtechs estadounidenses como X, Meta o Google.

Las sanciones también incluyen el bloqueo de la visa de ocho de los once ministros del STF y de dos médicos brasileños que participaron en la implementación del “Programa Más Médicos” durante el gobierno de Dilma Rousseff. Dicho programa contrató a médicos cubanos para atender a la población que reside en los lugares más apartados del país, replicando la exitosa experiencia de los médicos de familia realizada por el país caribeño.

En una escalada de acusaciones y difamaciones sin respaldo, el Departamento de Estado del gobierno Trump acusó a Brasil de violar los Derechos Humanos con casos de asesinatos, torturas, detenciones arbitrarias, censura a la libertad de expresión y de prensa. Este informe no dice nada sobre las violaciones cometidas por el gobierno del dictador Nayib Bukele en El Salvador, que se ha convertido en el carcelero tercerizado de Estados Unidos.

También la campaña de la extrema derecha en las redes sociales y en los recintos de culto pentecostal ha tenido resultados aparentemente desconcertantes desde una lógica simple. Según una encuesta difundida recientemente, un 35 por ciento de los entrevistados le atribuyen a Lula la principal responsabilidad por las sanciones del gobierno Trump, siendo que solo un 22 por ciento le imputa esta culpa a Bolsonaro y su clan. Parece cada vez más claro que el predominio de las fake news que invaden el espacio digital se impone sobre la prensa tradicional desplazando el campo de la racionalidad basado en los hechos hacia realidades inventadas y transformadas en “aquello en que lo que creo es lo real”.

En un libro titulado Sobre la tiranía. Veinte lecciones del siglo XX para el presente, el historiador Timothy Snyder nos advierte sobre los peligros que implica aceptar las falsedades evidentes a partir de la fe. En su ensayo, Snyder expone cómo el uso indebido de las creencias puede llevar a aberraciones enormes, en el sentido de desconocer las evidencias que surgen de la realidad de los hechos. Es decir, cuando el sentimiento de la fe desplaza a aquello que efectivamente sucedió, no queda espacio para las pequeñas verdades que los individuos pueden discernir en su vida cotidiana. Después que la verdad se torna oracular en vez de factual, las evidencias se transforman en irrelevantes.

Quizás la difusión de la etapa final del proceso contra los autores de la trama golpista permita a los brasileños conocer cómo se fraguó el intento por destruir la democracia en este país y los ciudadanos recuperen una perspectiva lúcida y realista sobre los peligros que representan el pensamiento y las acciones de la extrema derecha para el futuro de la nación. Y de esta manera, se pueda concebir un final definitivo para las conspiraciones golpistas.

sábado, 16 de agosto de 2025

Cuando la burguesía tomó partido en contra de la democracia

Alfredo Iglesias Diéguez
Rebelión

Sobre la Primera Guerra Mundial (1914-1918) sabemos lo que las clases dominantes, las mismas que provocaron la guerra, quieren que sepamos. En este sentido, es de común conocimiento que la guerra comenzó a raíz del asesinato del archiduque Francisco Fernando, heredero del trono austrohúngaro, junto con su esposa Sofía en la ciudad de Sarajevo el 28 de junio de 1914 a manos de un eslavo meridional llamado Gavrilo Princip; al menos ese es el casus belli oficial que se usa para explicar la causa de la guerra, ya que tras ese incidente se pusieron en marcha los mecanismos fijados por las diferentes alianzas establecidas a lo largo de la ‘Paz Armada’, esto es, la reafirmación de apoyos entre los países aliados, la movilización de tropas y finalmente, tras la pertinente declaración de guerra, el inicio de la conflagración entre los países contendientes, algo que ocurrió el 4 de agosto de 1914, que paradójicamente no comienza con la invasión de Serbia por el Imperio austro húngaro, sino cuando Alemania invadió la neutral Bélgica.

Asimismo, quienes postulan que las guerras no se deben a una única causa, sino que obedecen a múltiples factores, alegan como causas de la guerra estas otras: la rivalidad económica de las potencias beligerantes, los conflictos coloniales, el creciente nacionalismo de las potencias beligerantes, etc, con lo que dan a entender que la guerra fue la consecuencia inevitable de los acontecimientos que tuvieron lugar después del año 1871, año en que terminó la guerra franco prusiana con una aplastante derrota del II Imperio francés.

No obstante, la mayoría de los textos rehuyen explicar que la Primera Guerra Mundial fue un conflicto largamente preparado (y deseado) por las elites europeas para frenar la democratización de las sociedades como consecuencia del avance del socialismo, del feminismo y de los nacionalismos de las minorías étnicas de los grandes Estados multiétnicos de Europa. La razón es evidente: aunque la burguesía fue originariamente una fuerza moderadamente revolucionaria, a medida que las clases subalternas fueron tomando conciencia de que sus intereses no se correspondían con los de la burguesía y a medida que se consolidaban los diferentes Estados nacionales europeos (Francia, Reino Unido, Alemania…), en los que los intereses económicos de la burguesía dictaban la política económica de los gobiernos, la burguesía se transformó en una fuerza contrarrevolucionaria que encontró en la aristocracia y en el clero unos nuevos aliados de clase y las clases subalternas que luchaban por la democracia se convirtieron en sus enemigas.

En ese sentido, a partir de ese momento -que podemos fijar entre la publicación del Manifiesto comunista (1848), de Marx y Engels, y la Comuna de París (1871)-, la burguesía adoptó un nuevo discurso político cuyos elementos definidores -más allá de un liberalismo reservado para las elites- eran un nacionalismo, un socialdarwinismo, un racismo y un supremacismo nietzschiano profundamente reaccionarios que encontraron en el militarismo aristocrático -ya que la mayoría de los oficiales de los ejércitos europeos pertenecían a la nobleza- y en la doctrina social de las diferentes iglesias (católica, luterana, anglicana y ortodoxa) los complementos indispensables para convertirse en el nuevo discurso ideológico dominante.

Ahora bien, aunque es cierto que a la burguesía conservadora de los años de la ‘Paz Armada’ le aterraba el avance de los movimientos sociales como el socialismo, el feminismo y los nacionalismos periféricos, que parecía que estaban preparando un ‘verano caliente’, que preludiaba un ‘otoño revolucionario’, ¿cómo es posible que el 4 de agosto de 1914 los hombres de las clases populares desfilasen entusiastas hacia la muerte? ¿Acaso esos movimientos sociales, principalmente el socialismo, no eran pacifistas e internacionalistas? ¿Qué es lo que hizo que un incidente en Sarajevo provocase la ‘bancarrota’ de la II Internacional y el abandono del pacifismo asumido como irrenunciable en el Congreso de Basilea de 1912? ¿Qué pasó en esos dos años?

Responder a estas y otras muchas preguntas semejantes, que fluyen una vez que rompemos con el marco establecido por el discurso historiográfico dominante, es la tarea que acomete Jacques R. Pauwels en el libro La gran guerra de clases 1914-1918 (Kinkilimarro Liburuak, 2024).


¿Se estaba preparando un ‘verano caliente’ en 1914 o era una fantasía burguesa alejada de la realidad? Efectivamente en Reino Unido, Francia, Bélgica y Alemania y en menor medida en otros países europeos, el movimiento obrero tenía una fuerza considerable en las calles, tanto por el número de huelgas y conquistas arrancadas a los amos del capital como por la presencia de partidos socialdemócratas en los parlamentos de esos países; no obstante, también es cierto que la socialdemocracia -o al menos sus representantes más destacados, como Bernstein, por citar un único ejemplo-, había dejado de ser una fuerza revolucionaria para convertirse en una fuerza reformista, una deriva que puede explicarse por varias razones, aunque la principal es el hecho de que las conquistas que se estaban materializando en esos años hacían pensar que no era necesario tomar el Estado por asalto y hacer que fuera preferible la evolución que la revolución. En este sentido, la socialdemocracia era un peligro más aparente que real, por lo que el descontento social y las demandas obreras podían resolverse con la tradicional política del palo y la zanahoria.

Otra cuestión. Si bien es cierto que la socialdemocracia había dejado de ser revolucionaria, eso no significa que tuviese que abandonar el internacionalismo; de hecho, Jaurès fue un socialista francés reformista que mantuvo intacta su defensa del pacifismo y el internacionalistmo hasta que murió asesinado por un nacionalista exaltado el 31 de julio de 1914, apenas unos días antes del inicio de la gran guerra. Entonces, ¿qué hizo que la socialdemocracia apostase por el nacionalismo burgués en unos momentos tan decisivos?

De nuevo Pauwels nos ofrece una buena respuesta. En rigor fue el reformismo lo que llevó a la socialdemocracia al nacionalismo y la vía usada fue el estatalismo, ya que la defensa de las reformas conquistadas implicaba la defensa del Estado que las convertía en ley y una vez que se llega a la defensa del Estado-nación se da el paso al nacionalismo.

Ahora bien, el nacionalismo y el estatalismo estaban asociados a una serie de discursos claramente supremacistas que, a pesar de todos los discursos igualitarios de inspiración socialista, acabaron siendo aceptados por algunos dirigentes socialdemócratas. De ese modo, en pocos meses los obreros de los países beligerantes pasaron de entonar la Internacional que les hacía sentir hermanos en la defensa de un mismo proyecto de futuro a encontrarse frente a unos líderes que les convencían de que tenían que acudir a las trincheras para defender a la patria burguesa frente a otros trabajadores como ellos mismos que hasta hacía unos pocos meses los habían considerados como sus hermanos de clase.

Otro interrogante que despeja Pauwels en su libro es cómo fue posible, a pesar de las palabras de los líderes socialistas animándoles a ‘coger el fusil’ -en el mismo sentido en que lo hacían los nacionalistas exaltados, como George Cohan, autor de una famosa canción que animaba a los jóvenes a coger el fusil, sin advertirles de las consecuencias físicas y psicológicas que eso podría implicar-, que miles de hombres, obreros, campesinos, empleados domésticos, etc., trabajadores en general, se convirtiesen en soldados de un ejército dominado por aristócratas que les despreciaban.

La respuesta es sencilla: las elites sociales desplegaron una serie de estrategias que fueron desde el sencillo reclutamiento obligatorio hasta la coacción, por ejemplo de los empleadores que amenazaban a sus empleados con perder su empleo si no se alistaban voluntariamente en el ejército, y la supervivencia, ya que muchos obreros fueron despedidos de sus fábricas y el reclutamiento voluntario les abría las puertas a un pequeño salario de subsistencia. Además, junto a esas estrategias estaban los discursos que idealizaban la guerra, la más viril de todas las actividades, y los mensajes de las Iglesias que hablaban de ‘sagrada cruzada’ o de ‘deseo divino’.

Con todos esos ingredientes la tan deseada guerra comenzó en el momento apropiado: antes las condiciones no estaban aún maduras; más tarde, es posible que el enemigo estuviese más preparado… He ahí la razón por la que un incidente que, en un primer momento ni siquiera evitó que las elites vienesas celebrasen un baile de gala, se transformó en el detonante de una barbarie militar cuyas víctimas fueron muchas más que los más de 10 millones de muertos de la Gran Guerra.

Los primeros días de la guerra satisficieron todas las expectativas de las clases dominantes: el número de huelgas se redujo a cero -ya que fueron prohibidas por ley-, en los parlamentos se eliminó la oposición interna -se llegaron incluso a cerrar sus puertas-, dejaron de convocarse elecciones -debido a que los representantes del pueblo ya no ejercían ninguna función real-, la censura y las restricciones a la libertad de expresión evitaron manifestaciones de oposición a la guerra, el ejército asumió poderes excepcionales -sobre todo durante los largos períodos en los que se declararon estados de sitio-, las condiciones laborales -horarios, salarios etc., pasaron a ser reguladas por decreto y se gestionaban en cada empresa por medio de comités tripartitos -patronal, Estado y trabajadores- en los que el Estado siempre se ponía a favor de los patronos -el negocio es el negocio.

Sin embargo, las clases dominantes no tardaron mucho en comprobar que su estrategia belicista dejaba de dar los frutos deseados. Efectivamente, en el momento en que, a pesar de la censura, los horrores de la guerra empezaron a ser conocidos por todo el mundo: Ypres, Gallipoli, Tanneberg, Lemberg, Somme, Verdún, etc., la paz social que las elites lograron en el verano-otoño de 1914, empezó a resquebrajarse. A lo largo del año 1915 y 1916 las voces del internacionalismo proletario y del pacifismo volvieron a oírse con claridad, ahí están la Conferencia Internacional de Mujeres celebrada en Berna entre los días 26 y 28 de marzo de 1915 bajo los auspicios de Clara Zetkin; la Conferencia Internacional Socialista celebrada en Zimmerwald entre los días 5 y 9 de septiembre de 1915, en cuyo Manifiesto final, escrito por Trostky, se abogaba por el ‘restablecimiento de la paz entre los pueblos’; el texto Socialismo y guerra (septiembre de 1915), en el que Lenin sostiene que ‘quien desee una paz firme y democrática, debe pronunciarse en favor de la guerra civil contra los gobiernos y la burguesía’; o, finalmente, la II Conferencia Internacional Socialista celebrada en Kienthal entre los días 24 de abril y 1 de mayo de 1916 en cuyo manifiesto final, también propuesto por Trostky, se afirma lo siguiente: ‘Si no hemos sabido impedir la guerra, tenemos que hacer todo lo posible para imponerles a los beligerantes nuestra paz’ y termina con un llamamiento a la revolución.

Los horrores de la guerra habían puesto fin a la paz social y el fantasma del comunismo volvía a recorrer Europa. Efectivamente, a lo largo del año 1917 se suceden las huelgas en toda Europa, los motines de soldados, etc., y, más allá de la entrada de EEUU, Brasil o China en la guerra, el hecho que lo va a cambiar todo fue el triunfo de la revolución en octubre de 1917 en la que había sido la Rusia de los zares hasta el triunfo de la revolución de febrero de 1917. En apenas 10 días, como escribió Reed en 1919, los bolcheviques (la facción internacionalista y revolucionaria del partido socialdemócrata ruso), sentaron las bases de un nuevo mundo: decreto sobre la paz, proposición de armisticio y de paz inmediata, decreto sobre la tierra, decreto sobre la transferencia del poder a los soviets, decreto sobre la jornada de trabajo, decreto sobre el control obrero, decreto sobre la prensa, declaración de los derechos de los pueblos de Rusia… Inmediatamente, el ejemplo cundió y las huelgas masivas se sucedieron por toda Europa a lo largo del año 1918 hasta llegar a la revolución alemana de noviembre.

Llegados a ese extremo, las clases dominantes prefirieron poner fin a la guerra y entregar el poder a un socialdemócrata como Erfurt -que evidentemente ya no suponía ningún peligro para la burguesía-, antes de que triunfase una revolución como la que lideraron Rosa Luxemburg y los espartaquistas en enero de 1919 o los comunistas bávaros entre el 6 de abril y el 7 de mayo de 1919. Además, los viejos enemigos se aliaron en su apoyo a los ‘blancos’ rusos frente a los rojos que habían conquistado el poder en octubre de 1917.

No obstante, pese al fin de la guerra, los plebeyos continuaron las movilizaciones por toda Europa: revolución húngara, bienio rosso italiano, ‘trienio bolchevique’ en España, etc., y, en ese claroscuro en el que el viejo mundo aún no ha muerto y el nuevo mundo aun no ha llegado a nacer, surgió el monstruo que usaron las elites para frenar el avance de la democratización de las sociedades: el fascismo. En este sentido, el libro de Pauwels nos muestra de qué modo la burguesía va a intentar con el fascismo, cuyos elementos principales -intervencionismo en la economía en beneficio exclusivo del capital, disciplinamiento autoritario de las clases trabajadoras, limitación de los derechos políticos y sociales de las clases trabajadoras y de las mujeres…-, ya habían sido ensayados durante la guerra, aquello que no había logrado con la guerra: frenar definitivamente el avance de la democratización de la sociedad, un proceso que ponía en peligro sus privilegios. A la burguesía la democracia de los señores le bastaba.

En definitiva, la tesis que Pauwels defiende en este gran libro se puede resumir de la siguiente forma: la primera opción de las clases dominantes para mantener sus privilegios fue disciplinar a la clase trabajadora mediante una guerra, pero como en el contexto de la guerra surgieron experiencias como la Revolución rusa y la alemana, y en la inmediata posguerra la húngara y movilizaciones obreras por toda Europa, la segunda opción de la burguesía -que nunca había apostado por la completa democratización de las sociedades-, cuando no fue capaz de controlar el movimiento obrero y feminista dentro de los márgenes de la democracia liberal, fue el fascismo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Bolivia de regreso a su pasado

Pablo Stefanoni
Nueva Sociedad

Bolivia votará el 17 de agosto, en una elección en la que la izquierda quedaría fuera del balotaje. Con el MAS en estado de descomposición, las encuestas anticipan un enfrentamiento entre la derecha moderada y la derecha radical, casi sin renovación de los rostros de la política y con la sensación de estar en una elección de hace más de dos décadas.

Bolivia votará en las elecciones del 17 de agosto en una coyuntura política inédita en los últimos 20 años: el otrora poderoso Movimiento al Socialismo (MAS) enfrenta el proceso electoral dividido en tres facciones y corre el riesgo de quedar en tercer o cuarto lugar. Por primera vez desde fines de la década de 1990, la izquierda no estaría en el balotaje que, se según las encuestas, enfrentará a dos candidatos ubicados a la derecha (más moderada y más radical): el político y empresario liberal-desarrollista Samuel Doria Medina y el ex-presidente Jorge «Tuto» Quiroga, vinculado a las redes radicales de Miami.

Las luchas intestinas que se iniciaron apenas el MAS regresó al gobierno en 2020, tras su derrocamiento un año antes, constituyeron un verdadero proceso de autodestrucción. El MAS está hoy dividido entre arcistas –seguidores del presidente Luis Arce Catacora–, que se quedó con la sigla del MAS mediante la manipulación de la justicia; evistas –adherentes a Evo Morales, inhabilitado electoralmente y recluido en la zona cocalera del Chapare para no ser detenido–; y androniquistas –quienes apoyan la candidatura del presidente del Senado, Andrónico Rodríguez–.

Eduardo del Castillo, candidato «oficial» del MAS, no llega a 2% de las intenciones de voto. Ajeno al mundo campesino que es el «alma» del MAS, Del Castillo era uno de los hombres fuertes del gobierno de Arce, quien finalmente desistió de competir por una reelección imposible en virtud de su escasa capacidad de gestión y una crisis económica que el país no conocía desde los convulsionados primeros años 2000. Como ministro de Gobierno, Del Castillo fue la cara más visible de la persecución política y judicial contra Evo Morales, líder indiscutido del MAS desde su fundación.

El candidato mejor posicionado del espacio del MAS, quien tras su lanzamiento tuvo posibilidades de competir en el balotaje, es Andrónico Rodríguez, ex-delfín de Morales y a quien este eligió como sucesor en el liderazgo de los sindicatos de campesinos cocaleros. Con 36 años, representa a nuevas generaciones de campesinos con estudios universitarios y fluidos vínculos urbano-rurales. Pero la decisión del joven dirigente de postularse a la Presidencia enfureció a Morales, quien llama ahora a anular el voto como un «referéndum» contra el proceso electoral, lo que ha contribuido a que la candidatura de Andrónico se fuera desdibujando.

Luego de meditarlo durante meses –en los que varios presidentes y ex-presidentes como Nicolás Maduro, Raúl Castro y José Luis Rodríguez Zapatero intentaron mediar en la crisis del MAS–, finalmente Andrónico lanzó su candidatura. Antes de hacerlo, se fue alejando de su mentor no participando en los cónclaves evistas y encarnando un discurso autocrítico y renovador, por lo que Morales lo considera hoy un traidor. Pero no logró enraizarse en el movimiento campesino –que es la principal base social del MAS– y algunos de sus primeros apoyos provinieron de figuras cuestionadas y percibidas como oportunistas.

La elección de su candidata a vicepresidenta tampoco lo ayudó. En teoría, la joven ministra Mariana Prado –considerada en su momento parte del ala alvarista (por el ex-vicepresidente Álvaro García Linera)– complementaba al candidato campesino, con su perfil de tecnócrata urbana y «blanca». Pero su postulación se enfrentó a un caso policial que la afectó de manera indirecta pero persistente. Su ex-pareja cometió un femicidio y ella fue acusada, sobre todo por feministas como María Galindo, de haberlo beneficiado en su declaración judicial. «Mira Andrónico de mierda, si te presentas con la Mariana Prado, te voy a hacer la vida a cuadros lunes, martes, miércoles, jueves, de lunes a lunes, porque la Mariana Prado es una desgraciada que ha defendido un feminicida», lanzó Galindo con su habitual estilo virulento y, en efecto, lanzó una campaña impiadosa contra Prado.

Andrónico Rodríguez consiguió una sigla prestada para postularse por fuera del MAS «arcista», con buenos resultados en las encuestas; pero enfrentado al gobierno del MAS y a Evo Morales, la campaña se le hizo cuesta arriba y amenaza con desinflarse. Solo podría salvarlo, hasta cierto punto, que una parte de la gran cantidad de indecisos y de potenciales votantes nulos o en blanco optara finalmente por un voto útil de izquierda para evitar la debacle. Lo que podía ser una candidatura renovadora fue dinamitada sobre todo por Morales, quien amplió la lista de «traidores» hasta García Linera, su acompañante como vicepresidente y «copiloto» durante 14 años.

En medio de una crisis económica marcada por el agotamiento del modelo nacionalista de izquierda del MAS –reducción de la producción de gas, alta inflación, escasez de combustibles y falta de dólares, que dan también un aire noventista a la actual coyuntura–, la política boliviana parece incapaz de renovarse. Doria Medina fue ministro durante el gobierno de Jaime Paz Zamora, entre 1991 y 1993, y candidato a presidente por su partido, Unidad Nacional, en varias ocasiones. Aunque es vicepresidente del Comité de la Internacional Socialista (IS) para América Latina y el Caribe, ello dice más sobre la «elasticidad» ideológica de la IS que sobre el «socialismo» de Doria Medina, uno de los grandes empresarios bolivianos. El economista amasó su fortuna en la industria del cemento y cuenta con grandes propiedades inmobiliarias y hoteles, y una «pata» en la gastronomía: es el propietario de la franquicia de Burger King y Subway en Bolivia. «No soy de la derecha dura. En Bolivia, soy considerado de centro, entonces tengo la capacidad de hablar con todos. Yo soy más pragmático y creo que Bolivia necesita pragmatismo», dijo en una entrevista de 2024.

Para lograr la Presidencia luego de tantos intentos frustrados, marcados por su falta de carisma personal, ha construido una amplia alianza que incluye desde el ex-alcalde de La Paz Juan del Granado (centroizquierda) hasta el hoy preso ex-gobernador de Santa Cruz Luis Fernando Camacho (derecha), pasando por varios parlamentarios del partido del ex-presidente Carlos Mesa (centro). También cuenta con el apoyo del empresario más rico de Bolivia, Marcelo Claure, quien comparte con Elon Musk la voluntad de incidencia política y la fascinación por el trolleo en las redes sociales. Doria Medina se presenta como el economista que puede resolver la aguda crisis económica luego de una década y media de estabilidad y crecimiento en lo que algunos denominaron el «milagro económico» bajo el gobierno del MAS; un «milagro» que hoy pocos consideran como tal.


El político y empresario subrayó, en una entrevista de Infobae, que su plan de gobierno tiene como objetivo estabilizar el país en los primeros 100 días de gestión. Para eso, el foco estará puesto en resolver el déficit fiscal, que atribuye principalmente a tres factores: las subvenciones a los combustibles, el gasto en empresas públicas ineficientes y el derroche en gastos de la política. Su eslogan es «Cien días, carajo». Confía que, en caso de ganar, llegarán inversiones y los bolivianos sacarán sus dólares del «colchón bank».

Dice que no copió a Javier Milei, cuyo lema es «¡Viva la libertad, carajo!». El empresario sufrió un grave accidente aéreo en 2005 y siempre consideró que su supervivencia era una especie de mensaje. La frase que supuestamente pronunció, «¡Carajo, no me puedo morir!», tras ver que aún estaba con vida, marcaría, con ironía o sin ella, su carrera política. También sobrevivió a un cáncer y a un secuestro por parte de del Movimiento Revolucionario Túpac Amaru (MRTA) de Perú: fue liberado después de 45 días, tras el pago de más de un millón de dólares.

Su contrincante más cercano es «Tuto» Quiroga, quien se desempeñó como presidente, por sucesión constitucional, entre 2001 y 2002, tras la muerte en 2002 de Hugo Banzer, el ex-dictador de los años 70 que volvió a la Presidencia por la vía democrática en 1997. En 2005 Quiroga perdió la elección con Evo Morales, quien tras obtener 54% de los votos iniciaba su largo reinado político. Militante de una derecha dura, jugó un papel central en el derrocamiento de Evo en 2019, como uno de los diseñadores de la estrategia que llevó a Jeanine Áñez, hoy presa, al poder.

Ha señalado que, en caso de ganar, romperá lazos con Venezuela, Cuba e Irán («No voy a tener relaciones con las tres tiranías trogloditas totalitarias, no voy a tener relaciones con los tres piratas del Caribe»), pero admitió que analizaría la permanencia de Bolivia en el grupo de los BRICS [Brasil, Rusia, la India, China, Sudáfrica], debido al vínculo comercial con la India y China. Su defensa de la democracia, aclaró, se limita a América Latina. «Azerbaiyán, Qatar y demás… China, Vietnam… respeto sus sistemas, no los comparto. No me gusta el sistema de partido único, pero lo respeto».

En la misma entrevista, cuestionó el Mercado Común del Sur (Mercosur) –«en la parte comercial no me interesa participar porque es entrar en una cárcel comercial»– y anunció que apostaría por un «triángulo sudamericano» para la explotación de litio, junto con Argentina y Chile. Con aires noventistas, dijo que mantendría una «agresiva posición» para buscar tratados de libre comercio con varios países, incluido Estados Unidos. Se diferenció, no obstante, del proteccionismo de Donald Trump. «Los países que suben aranceles no me gustan. Yo voy a reducir aranceles y entiendo perfectamente que mi respuesta habla de un Estados Unidos que ya no está abierto al libre comercio. Y no es problema solo de la actual administración. Por eso, como Chile y Perú, voy a firmar mis propios acuerdos comerciales con Europa, con países de Asia y de la región», respondió a la cadena CNN.

Siguiendo la estela de Milei en Argentina, e incluso tratando de superarla retóricamente, dijo que utilizará «motosierra, machete, tijera y todo lo que encuentre» para bajar el gasto público. Doria Medina mide alrededor de 21% en las encuestas y Quiroga se le ha acercado con 20%. Terceros aparecen Rodrigo Paz, hijo del ex-presidente Jaime Paz Zamora, y el alcalde de Cochabamba y ex-candidato presidencial Manfred Reyes Villa. Andrónico Rodríguez aparece cuarto o quinto, con alrededor de 7%. Pero alrededor de 30% declara que votará en blanco, nulo o que aún no decidió el voto, lo que podría alterar los resultados, y hay dudas sobre cómo se votará en el campo.

La cantidad de votos nulos y en blanco marcará también la legitimidad del nuevo gobierno, que se enfrentará a un ajuste en un país marcado por las rebeliones sociales –como lo sabe Quiroga, quien como vicepresidente vivió la Guerra del Agua en Cochabamba en el año 2000–. Morales ha impugnado el proceso electoral y buscará no ser detenido por una acusación de «tráfico de personas agravado», por haber mantenido una relación, según la acusación, con una persona que era menor de edad al momento de iniciar el vínculo. Esa causa, iniciada bajo la presidencia «interina» de Áñez, fue reactivada por el gobierno de Arce para neutralizar a Morales en medio de la guerra interna.

De esta forma, Bolivia se presta a volver a un escenario similar al de los años 90, en el que las sucesivas crisis económicas se combinaban con un sistema político fragmentado que requería de constantes acuerdos parlamentarios y que fue desprestigiándose al transformarse en un mercado de intercambio de cargos. El propio triunfo de Morales en 2005 se presentó como el fin de la denominada «democracia pactada». Ahora, con un Parlamento que se presume será dominado por la derecha, posiblemente esa democracia fragmentada se reedite. Pero el mundo ya no está en los 90, y Bolivia tampoco. Cuando lo entrevisté en 2005, Doria Medina me dijo que «no es cuestión de poner [en la Presidencia] a una persona de poncho o pollera, la solución es llevar adelante cambios en la economía». Podría repetir lo mismo hoy, 20 años después. Pero esos sectores indígenas y populares tienen hoy una relación diferente con el poder, aunque el discurso sobre la regeneración nacional a partir de los pueblos originarios se haya desgastado.

Se abre un signo de interrogación sobre la estabilidad política del futuro gobierno. Y sobre el futuro del MAS: ¿podrá este espacio de base campesina-popular, que en estos años fue políticamente hegemónico, superar su estado de descomposición, desánimo y desconcierto, o se volverá también al escenario de los 90, cuando diversas facciones campesinas y de izquierda gastaban gran parte de sus energías compitiendo entre sí? Hoy, en una Bolivia que celebró un deslucido Bicentenario, los candidatos que hasta ayer eran «el pasado» dicen que, si ganan el 17 de agosto, quien será «el pasado» será el MAS, y que su crisis es «terminal». Que será el fin de un largo ciclo político.

domingo, 10 de agosto de 2025

Cómo ocultar un genocidio


Alberto Toscano
Communis

Entender la violencia en Gaza como un caso de genocidio nos permite vincular el sufrimiento masivo de la población civil con la intención expresa de Israel, su política de Estado, sus relaciones económicas y su estrategia militar.

En la última semana, mientras múltiples organismos internacionales, organizaciones de derechos humanos y trabajadores sanitarios advertían de que la crisis alimentaria en Gaza había alcanzado un punto de inflexión y los palestinos de Gaza hacían frente a la «posibilidad de una hambruna extrema», políticos y expertos de todo el espectro político se han visto embargados por un nuevo sentimiento de urgencia.

El 24 de julio, la senadora Amy Klobuchar (demócrata por Minnesota), en una intervención ante el Senado, condenó la hambruna masiva y suplicó a Israel que cambiara de rumbo. ​​Dos días después, el senador Cory Booker (demócrata por Nueva Jersey) publicó en X un mensaje sobre la «crisis humanitaria» en Gaza y la necesidad de «inundar la zona» con suministros de ayuda, en el que señalaba que «​la estrategia de la Fundación Humanitaria de Gaza» había fracasado. Al día siguiente, el expresidente Barack Obama denunció «​el escarnio que significa la muerte de personas inocentes por causa de una hambruna evitable».

No fueron, sin embargo, demócratas centristas los únicos en dar la alarma. Durante ese mismo lapso se han producido bruscos giros en no pocos sectores de la derecha. En The New York Times, el columnista conservador Ross Douthat declaró que la guerra de Israel se había convertido, de repente, ​en una guerra «injusta». ​​ The Free Press, ferviente partidaria de Israel, luego de que en mayo publicara un artículo en el que desestimaba el «mito de la hambruna en Gaza», ha terminado por caer en cuenta de la realidad de la «crisis alimentaria».

​​El pasado martes, el Presidente Donald Trump rechazó la afirmación del Primer Ministro israelí, Benjamin Netanyahu, de que hablar de hambruna en Gaza era una «mentira descarada», y dijo: «Es real el hambre. Es algo que puedo ver y que no se puede fingir.»

Ese mismo día, la congresista radical de MAGA Marjorie Taylor Greene (republicana por Georgia), quien en noviembre de 2023 había pedido que se censurara a la representante palestino-estadounidense Rashida Tlaib (demócrata por Michigan) por haber acusado a Israel de genocidio, se convirtió en la primera republicana en el Congreso en utilizar ella misma el término.

A medida que nos acercamos al segundo aniversario de la guerra de Israel contra Gaza, ¿se estará confirmando a toda velocidad la amarga predicción del escritor Omar El Akkad de que​ «algún día, todo el mundo habrá estado siempre en contra de esto»? Depende de lo que «esto» signifique.

Si bien cualquier gesto por el que se reconozca la gravedad y el empeoramiento del sufrimiento palestino podría parecer una victoria, es un error ver en todas esas declaraciones prueba alguna de que los círculos políticos y mediáticos dominantes se hayan por fin inclinado a encarar la guerra de Israel contra el pueblo palestino y, mucho menos, a adoptar medidas al respecto. Presentar la política israelí de hambruna en Gaza únicamente como una «crisis humanitaria»​ es una forma de desviar la atención de las consecuencias morales, políticas, jurídicas y económicas del reconocimiento de la intención genocida de Israel.

El argumento implícito en ese presunto giro es que sólo recientemente se ha transpuesto algún tipo de umbral: una guerra justa se ha convertido en injusta, han muerto demasiadas personas, la estrategia ya no está dando resultado, etc. Todo lo cual se hace eco del «revisionismo» denunciado por el jurista palestino Nimer Sultany, cuando reprocha a académicos y comentaristas que se hayan preocupado tardíamente​ «por no haber tenido el valor de reconocer el genocidio y denunciarlo antes» y que ahora sostienen de forma poco convincente que sólo en fecha reciente se satisficieron los criterios de esa designación.

Las recientes declaraciones sobre la hambruna en Gaza también apuntan a la presunta posibilidad de que Israel corrija su rumbo y aborde esa crisis humanitaria, al tiempo que ocultan cómo los pronunciamientos oficiales de Israel y sus acciones militares dejan al descubierto que el sojuzgamiento, el desplazamiento y la destrucción del pueblo palestino siguen siendo su principal misión.

Ese giro en el discurso de los aliados de Israel está teniendo lugar al mismo tiempo que las políticas continuadas y nuevas de Israel demuestran que la crisis de hambruna en Gaza no es accidental, sino parte de un plan de expulsión y reasentamiento. Ministros del gabinete israelí y parlamentarios de la coalición están exigiendo al Ministerio de Defensa que permita al movimiento de colonos de extrema derecha Nachala buscar lugares para nuevas construcciones en la devastada franja norte de Gaza. ​​En el sur de Gaza, el objetivo —anunciado en julio por el Ministro de Defensa israelí, Israel Katz— es convertir los escombros de Rafah en un campo de concentración y poner en práctica lo que Netanyahu denominara el «plan de migración voluntaria» de Trump (a lo que el propio Trump se refiere descarnadamente como la «limpieza» de Gaza).

​También es considerable el grado de apoyo de la sociedad israelí a las medidas más extremas. A finales de mayo, una encuesta de Penn State reveló que el 47 % de los judíos israelíes habían respondido afirmativamente a la siguiente pregunta: «¿Apoya el reclamo de que [el ejército israelí], al conquistar una ciudad enemiga, actúe de manera similar a como lo hicieron los israelitas cuando conquistaron Jericó bajo el liderazgo de Josué, es decir, matar a todos sus habitantes?»

Hasta cuando reconocen la responsabilidad que tiene Israel de mitigar la letalidad de su propia guerra de asedio, políticos y expertos estadounidenses lo hacen para negar que la muerte y el sufrimiento sean objetivos estratégicos, que en última instancia la hambruna sea el objetivo de política que se quiera lograr y que lo haya sido desde el principio. En la orden emitida el 9 de octubre de 2023 para que se procediera al «​asedio total» de Gaza, el entonces Ministro de Defensa, Yoav Gallant, declaró explícitamente: «​[N]o habrá electricidad, ni comida, ni combustible.» En agosto de 2024, el Ministro de Finanzas de extrema derecha Bezalel Smotrich señaló​ «que podría ser justo y moral» que Israel​ «matara de hambre y de sed a dos millones de ciudadanos» en Gaza, al tiempo que se lamentaba de que​ «nadie en el mundo nos dejaría hacerlo».

​Calificar de crisis humanitaria la hambruna significa negarse a reconocerla como parte de la política genocida de Israel, separando así a los bombardeados de los hambrientos. Significa ignorar que la Fundación Humanitaria de Gaza no ha establecido un sistema ineficaz de distribución de alimentos, sino deliberadas «trampas mortales», y que todo ese dispositivo forma parte de un designio declarado para llevar a cabo una depuración étnica y reocupar la Franja de Gaza.

El enfoque humanitario de la cuestión también cumple una función esencial de relaciones públicas que la derecha gusta de llamar «alardeo moral»; es decir, un gesto que reconoce los horribles efectos de la guerra de Israel —objeto de una repulsa generalizada y cada vez mayor en todo el mundo—, al tiempo que sigue ocultando las razones subyacentes de su brutalidad.

Los subterfugios detrás de esos tardíos reconocimientos de las insoportables condiciones imperantes hoy en Gaza no sólo se erigen en una acusación contra el cinismo y la mala fe de nuestra clase política y mediática, sino que además prejuzgan toda futura respuesta política a la catástrofe en sí.

Una «crisis humanitaria» no pareciera exigir más que una mejor distribución de los alimentos; hacer frente, en cambio, a una política de genocidio requeriría, como mínimo, el tipo de acción concertada recientemente propuesta por el Grupo de La Haya: embargos bilaterales de armas, sanciones económicas, ruptura de relaciones diplomáticas, aplicación de medidas para hacer que se cumplan las resoluciones judiciales internacionales adoptadas contra Israel y sus dirigentes políticos.

Como han demostrado múltiples informes presentados por Francesca Albanese, Relatora Especial de las Naciones Unidas, entender la violencia en Gaza como un caso de genocidio nos permite vincular el sufrimiento masivo de la población civil con la intención expresa de Israel, su política de Estado, sus relaciones económicas y su estrategia militar. Por el contrario, el enfoque humanitario —al menos tal como lo utilizan los políticos y expertos de la corriente dominante— es una herramienta para pasar por alto todo lo anterior.

Lo que los acérrimos defensores de Israel, ahora preocupados por la hambruna, están tratando de evitar es precisamente que se adopten medidas para ponerle freno a Israel —en lugar de sólo reprenderlo— por su violencia sistemática contra los palestinos. Apenas dos semanas antes de sus recientes declaraciones sobre la crisis alimentaria, Booker y Klobuchar formaban parte del grupo bipartidista de senadores que apareció junto a Netanyahu en una foto de grupo a mediados de julio. Booker, además, había posado con Gallant en una foto tomada el pasado mes de diciembre, apenas semanas después de que la Corte Penal Internacional dictara órdenes de detención contra Gallant y Netanyahu, tras haberlos acusado a ambos de «responsabilidad penal» por «​el crimen de guerra de utilizar el hambre como método de guerra; y los crímenes de lesa humanidad de asesinato, persecución y otros actos inhumanos». El 30 de julio, Booker había votado en contra de la resolución presentada en el Senado por Bernie Sanders para que se bloqueara la venta de armas a Israel. (Klobuchar fue una de los 24 senadores demócratas o independientes que votaron a favor).

No deja de ser revelador que el artículo de opinión de Douthat en The New York Times empiece por declarar que​ «la guerra de Israel en Gaza no es un genocidio», además de reiterar las denuncias obligatorias de la​ «potencialmente genocida» Hamás, antes de reconocer que la fallida estrategia de Israel está conduciendo a un​ «injusto despilfarro de vidas». ​Del mismo modo, el reciente y renuente reconocimiento por parte de Free Press de las condiciones de hambruna en Gaza se ve empañado por su odiosa acusación de que informes anteriores sobre la hambruna no habían sido otra cosa que «gritos de que viene el lobo».

Es fácil entender por qué tantos se apresuran a distanciarse de los horrores que Israel está perpetrando en Gaza. Cuando comienza la hambruna, el número de muertos aumenta vertiginosamente y sigue haciéndolo incluso después de que se comienza a prestar ayuda. Lo cual también apunta a que el número de muertos registrado por el Ministerio de Salud de Gaza —que ampliamente se reconoce como muy inferior a la cifra real— probablemente aumente en las semanas y los meses venideros.

Con todo, calificar la cada vez más acuciante hambruna en Gaza de crisis humanitaria y no de lo que realmente es —una faceta más del genocidio— sirve a un propósito mucho más profundo: permitir que las potencias occidentales mantengan su inquebrantable alianza con Israel y rechacen todo esfuerzo serio para hacer que este rinda cuentas. Rehusarse a admitir que Israel ha utilizado sistemáticamente el hambre como método de guerra significa que no habrá consecuencias esta vez por la comisión de un flagrante crimen de guerra. Y hasta permite a los aliados occidentales de Israel encomiar a este último por desbloquear la ayuda, como ha hecho esta semana el Ministro de Relaciones Exteriores de Canadá.

Como observó la periodista Nesrine Malik, todo esto forma parte de un juego en el que los aliados de Israel​ « mantienen, sin que importen las violaciones que se cometan, la viabilidad de Israel como actor investido de autoridad moral, mientras fingen reprenderlo cada vez que incurra en alguna transgresión para que vuelva a cumplir con sus obligaciones».

Son prueba de ello esfuerzos de mala fe como los realizados por el líder de la minoría demócrata en la Cámara de Representantes, Hakeem Jeffries, por relanzar una zombi «solución de dos Estados», mientras prosiguen desenfrenadamente las masacres y el Knesset israelí anuncia nuevas anexiones de territorio palestino. Lo mismo ocurre con el ofrecimiento del Presidente francés Emmanuel Macron de reconocer la condición de Estado de Palestina —a condición de que esta se desmilitarice por completo— y la insípida amenaza lanzada por el Primer Ministro británico Keir Starmer de que hará lo mismo a menos que Israel declare un alto el fuego. Del mismo modo, el Primer Ministro canadiense Mark Carney declaró esta semana que en septiembre Canadá reconocerá la condición de Estado de Palestina, mientras armas canadienses siguen llegando a Israel.

Todos esos esfuerzos pasan por alto el carácter sistemático de la destrucción de Gaza y la depuración étnica de la Ribera Occidental por parte de Israel, al tiempo que subordinan la libre determinación de los palestinos a un principio de seguridad absoluta para Israel que es indistinguible de la dominación total y la impunidad sin fin.

La urgencia de la situación es tan extrema que sólo cabe esperar que esos interesados cambios de postura se traduzcan en algún tipo de alivio de la crisis más inmediata. Pero a menos que el hambre en Gaza se entienda como una consecuencia necesaria de las políticas de Israel —es decir, como un instrumento, no como un accidente—, toda medida en contra se convertirá en una forma cruel de mitigación. Entregar raciones de subsistencia a un pueblo asediado que sigue siendo masacrado impunemente, cuya sociedad es destruida de forma deliberada y sistemática, no es hacer justicia. No se trata de una catástrofe humanitaria a la que se pueda responder con soluciones humanitarias. Se trata de un genocidio colonial que podrá detenerse sólo mediante una acción internacional concertada.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Brasil en el abismo: prisión de Bolsonaro, intervención de Trump y la amenaza global del neofascismo


Paul Walder
El Clarín de Chile

En conversación con El Clarín, el académico chileno radicado en Brasil, Fernando de la Cuadra, analiza el terremoto político generado por la prisión domiciliaria de Jair Bolsonaro, el rol del Supremo Tribunal Federal, la estrategia internacional de la ultraderecha, y los riesgos de desestabilización que cruzan fronteras. “Estamos ante una ofensiva neofascista coordinada, y Brasil es su epicentro”, advierte.

La prisión del expresidente Jair Bolsonaro ha abierto un nuevo capítulo en la convulsionada historia reciente de Brasil. Para algunos, se trata del triunfo de la justicia sobre la impunidad; para otros, de una peligrosa excusa para victimizar al líder de la ultraderecha e incendiar aún más la política brasileña. Pero los efectos no se detienen en Brasil: las conexiones con Donald Trump, las presiones económicas y los vínculos con líderes extremistas en Europa y América Latina configuran un escenario internacional alarmante.

En esta entrevista, el sociólogo, doctor en Ciencias Sociales y analista político Fernando de la Cuadra desmenuza los efectos políticos e institucionales de este momento crítico: el riesgo de rearticulación del bolsonarismo, las fracturas internas de la derecha, la proyección geopolítica del autoritarismo digital y las posibilidades reales —aunque frágiles— de construir un nuevo pacto democrático que saque a Brasil de su espiral destructiva.

En tu último artículo señalas que la prisión efectiva de Bolsonaro podría marcar un punto de inflexión en la relación entre justicia e institucionalidad en Brasil. ¿Crees que el Supremo Tribunal Federal está realmente consolidando una nueva legitimidad frente a la ciudadanía, o todavía enfrenta desconfianza y tensiones con sectores amplios?

Ciertamente, hay que reconocer que una parte de la ciudadanía cuestiona las decisiones del Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente el papel desempeñado por el Ministro Alexandre de Moraes que lleva el proceso por el intento de Golpe de Estado en que fueron declarados reos Jair Bolsonaro y otros 33 cómplices. Se espera que la sentencia final sea anunciada en septiembre. Mientras tanto, la prisión domiciliar impuesta a Bolsonaro es una medida cautelar prevista en la ley, pues según el parecer del Ministro de Moraes el ex presidente estaba dificultando el buen trámite del proceso judicial con la difusión de noticias falsas en los medios y su participación –vía internet- en las últimas manifestaciones en su apoyo en las cuales se manifestaba contra las decisiones del STF.

Las encuestas han demostrado que la mayoría de los brasileños aprueban la actuación de la Suprema Corte y la prisión de Bolsonaro, aunque claro, siempre va a existir una parte de la población que dará su apoyo incondicional al excapitán, entre ellos, la llamada familia militar, policiales, productores rurales, empresas extractivistas, gremios del transporte, sectores del mundo pentecostal y militantes de la extrema derecha. En un país de tamaño continental, de enorme diversidad y con casi 215 millones de habitantes, siempre va a existir una parte de la población que puede hacer mucho ruido por las decisiones de la Justicia en el proceso contra los golpistas, aunque en términos de porcentaje difícilmente ese número va a pasar del treinta por ciento.

Dices que la prisión de Bolsonaro puede significar el “triunfo de la democracia”. ¿No existe el riesgo, sin embargo, de que esta victoria judicial alimente una narrativa de victimización que reactive con más fuerza al bolsonarismo más radical?

Si, en eso tienes toda la razón. De hecho, ya se puede apreciar como la narrativa de la victimización y la persecución judicial por motivos políticos ha sido el discurso mayoritario de los apoyadores de Bolsonaro. En el día de ayer –de inauguración del segundo semestre de sesiones del Legislativo- las dos Cámaras del Congreso Nacional quedaron paralizadas debido a la ocupación que realizaron los senadores y diputados bolsonaristas, obstaculizando los trabajos e impidiendo que se pudieran votar materias muy importantes en este momento, como por ejemplo, la exención del impuesto de renta a las familias de ingresos más bajos o la aprobación de un paquete de medidas que vayan en ayuda de los sectores orientados a la exportación que van a ser directa o indirectamente afectados por el “tarifazo” impuesto por el gobierno de Donald Trump.

Es decir, un sector de la base más radical del bolsonarismo desea paralizar el país y están avisando que la situación de caos que pretenden imponer al país en caso de que Bolsonaro sea efectivamente preso va a ser mucho peor. Esta es solo una advertencia, una especie de “marcha blanca” o piloto de lo sería su actuación en este futuro escenario, por lo demás bastante previsible. Ellos quieren explotar políticamente la idea de que Bolsonaro se ha transformado en un preso político, cuando para la mayoría del país es evidente que Bolsonaro y sus secuaces incurrieron en delitos contemplados en la Constitución de la República.

Puede ser que a corto plazo – o sea, en los días venideros-, la prisión domiciliar y la inminencia de una condena de los conspiradores va a provocar muchas tensiones internas y probablemente tomas y bloqueos de carreteras, protestas en las calles, plazas, parques y espacios públicos. También pueden producirse actos de violencia similares a los producidos el 8 de enero de 2023 o incluso peores, como la instalación de artefactos explosivos en edificios públicos, aeropuertos, puentes, etcétera, como de hecho ya lo han intentado hacer en algunos eventos trágicos (autobomba) o en atentados frustrados conocidos por todos.

Un punto central que puede significar la neutralización de una reacción extremista de derecha es el papel que pueden desempeñar las Fuerzas Armadas y las Policías en la contención de las actividades del ala más extremista del bolsonarismo. Y también va a ser relevante el papel apaciguador que deberá tener el gobierno Lula, para garantizar la aplicación de la ley y la estabilidad institucional del país, junto con negociar con los sectores más moderados de la derecha un acuerdo en pro del entendimiento pluralista y democrático que aísle definitivamente a los grupos más radicales y militarizados de la base bolsonarista.

Planteas que la derecha brasileña está hoy dividida entre figuras que podrían radicalizar su discurso y otras que buscarían una vía moderada. ¿Ves posibilidades reales de que emerja un nuevo liderazgo conservador no bolsonarista con peso nacional en las presidenciales de 2026?

Buena y difícil pregunta. En el actual escenario es complejo prever la emergencia de un líder de derecha conservador no bolsonarista que se proyecte para las elecciones del próximo año. Ello se debe precisamente a que el ambiente político se encuentra muy contaminado por la futura prisión del ex presidente y el grupo que participó en la trama golpista. Lamentablemente la derecha tradicional, liberal y democrática fue cooptada por una versión anticomunista que se nutrió de la crisis sistémica del país: Corrupción, violencia, desempleo, inflación, carestía de la vida, malos servicios, crisis moral y un largo etcétera atribuidos a los gobiernos del Partido de las Trabajadores (PT), crearon las bases para el surgimiento de una figura antes inexpresiva en la política, que en función de la crisis y el antipetismo, fue capaz de aglutinar en su entorno a los sectores descontentos y radicalizados de derecha que arrastraron a una derecha más moderada hacia posiciones extremas y, consecuentemente, la terminaron por destruir.

Líderes de centro derecha como Tancredo Neves, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Ulisses Guimarães o Mario Covas ya no existen. Algunos especialistas plantean que parece que la única alternativa del tiempo presente es entre Bolsonarismo versus Lulismo, con todos los desdoblamientos del caso. Pienso que el problema es más profundo. El bolsonarismo solo representa a una facción de la derecha extrema que pulverizó las posibilidades de una derecha civilizada de presentar un proyecto viable para Brasil. Por otra parte, el actual gobierno es mucho más que los partidarios de Lula, pues representa un frente amplio que lucha contra las embestidas contra la democracia provocadas por partidarios de prácticas neofascistas que desean imponen una nueva dictadura en el país. Frente a ese dilema, hasta el momento no se observan liderazgos que puedan cambiar el actual panorama sombrío que permita concebir un giro de esta derecha odiosa y fanática.

Sin embargo, puede ocurrir un milagro. Si admitimos que quienes controlan el Congreso hace mucho tiempo son los partidos del Centrão, un conglomerado extenso de agrupaciones de Centro derecha, no es del todo ilusorio pensar que a mediano plazo pueda surgir un liderazgo dentro de ese grupo de partidos y en ese contexto consigan construir una alternativa factible con un líder que surja desde sus filas. El problema es que la experiencia histórica ha demostrado que los liderazgos no surgen de un día para otro, ellos son construidos a lo largo de los años en sociedades que poseen amplios y variados canales de participación, debate permanente de propuestas e ideas, todo lo cual no representa o caracteriza precisamente lo que viene sucediendo en Brasil en este último periodo.

La vida precarizada, el control de los medios y la permanente lucha por la supervivencia –entre otros motivos- ha llevado a la sociedad brasileña a mostrar índices de participación muy bajos, con predominio del uso de las redes sociales que difunden mentiras y noticias falsas por doquier, como ya he expuesto en otras columnas (Genealogía y bases del neofascismo brasileño). Para responder directamente a tu pregunta, en este momento no veo ningún líder apareciendo en el horizonte y soy pesimista al respecto, pero como dije al comienzo milagros pueden ocurrir. Al hablar de milagros estamos en el ámbito de la fe y el análisis frío de la realidad me lleva a inclinarme por la hipótesis más pesimista de que esta derecha extremista continuará dictando el rumbo de ese campo de la política brasileña.

¿Es posible que el encarcelamiento de Bolsonaro, lejos de debilitar al bolsonarismo, provoque una rearticulación más peligrosa de la extrema derecha bajo formas menos evidentes, como candidaturas “independientes” o plataformas digitales más agresivas?

Es probable que ello suceda. De hecho, como ya escribí anteriormente figuras como Pablo Marçal (Pablo Marçal, el convidado de piedra del bolsonarismo) o Nikolas Ferreira pueden transformarse en los grandes líderes de esta extrema derecha y fuertes candidatos para sustituirlo. Ambos surgieron y crecieron a la sombra del bolsonarismo y hoy son considerados díscolos, ya que vienen sumando conflictos en este último periodo con el Clan Bolsonaro, apartándolos del núcleo duro de la familia y de sus asesores más cercanos.

Tanto Marçal como Ferreira son expertos en el uso de redes sociales y poseen miles de seguidores por todo el país, trabajan con equipos de jóvenes que dominan a la perfección el uso de las plataformas virtuales y tienen capacidad de llegada por medio de un discurso más centrado en el emprendedorismo, las capacidades personales y la teología de la prosperidad con un sesgo laico. También son agresivos y polémicos como el ex capitán y se alimentan del descontento y la frustración que invade a millones de electores que viven una realidad precaria y sin perspectiva de futuro. Es un gran desafío para la democracia brasileña desenmascarar a estos encantadores de serpientes y vendedores de sueños falsos que se han ido apoderando de las mentes de una enorme proporción de ciudadanos y electores de este país, inclusive entre aquellos grupos de renta más alta.

En el escenario que describes, ¿qué rol ves jugando al gobierno de Lula? ¿Puede esta coyuntura fortalecer su proyecto y abrir un nuevo ciclo político, o crees que también corre el riesgo de verse arrastrado por la polarización?

Como ya delineé en líneas anteriores, pienso que en el corto plazo el gobierno Lula inevitablemente se verá arrastrado por la polarización que se agudiza en el país, aunque creo que si el gobierno Lula se distancia de las luchas coyunturales y es capaz de colocar y encantar a la mayoría de los brasileños con sus proyectos en beneficio de la población (la exención tributaria de los grupos de menor renta, el aumento del empleo, la estabilidad de la economía, los programas sociales, el paquete de ayuda a la pequeña y mediana empresa, los subsidios a los medianos exportadores que van a sufrir con las tarifas del gobierno Trump, etcétera), es esperable que la mayoría de la población adhiera a un proyecto que evite la confrontación y asegure cierta tranquilidad para llevar la vida adelante y, quizás, como mencionas, abrir un nuevo ciclo político en el país.

El artículo menciona la coordinación entre Bolsonaro, su hijo Eduardo y el entorno de Trump para sancionar a Brasil. ¿Qué lectura haces del impacto geopolítico de esta relación y del posible alineamiento internacional de las ultraderechas como estrategia común?

Las sanciones que comenzó a aplicar el gobierno Trump contra Brasil específicamente, tienen como discurso oficial, por un lado, la defensa de Bolsonaro de los ataques realizados por el Supremo Tribunal Federal y, por otro lado, la protección de las Big Techs y empresas de tarjetas de crédito propiedad de los amigos del mandatario estadounidense. Claramente, Trump y las empresas que lo apoyan desean boicotear y hasta terminar con el papel desempeñado por los BRICS como alternativa económica al “hegemon americano”.

Ello se hace evidente al observar el nivel de tarifas que están siendo aplicadas a los países del bloque: China, India, Brasil y África del Sur. El caso de Rusia es especial por todas las sanciones que viene recibiendo desde el inicio de la guerra con Ucrania. Pero, creo que está claro a esta altura del gobierno Trump, que la pretensión de este sujeto es transformar a Estados Unidos en el guardián o gendarme del mundo e imponer las reglas del juego a su medida, a pesar del comportamiento errático y desquiciado que a veces parece tener.

Con relación al posible alineamiento internacional de las ultraderechas como estrategia común, pienso que efectivamente la Internacional ultraderechista funciona y se articula permanentemente. Eduardo Bolsonaro ha participado en muchos de esos encuentros con el partido Vox de España, Alternative für Deutschland de Alemania, en Argentina con Milei, en encuentros con Kast en Chile, con el grupo de Steve Bannon y otros varios miembros de esa internacional como Viktor Orbán, Marine Le Pen o Giorgia Meloni. Es un grupo consistente, con un discurso coordinado sobre la defensa de la civilización occidental, las ventajas del ultraliberalismo, el apoyo a los banqueros, la legitimidad de la explotación, el combate a los migrantes y a la diversidad sexual. Es un discurso anti civilizatorio que tiene a Donald Trump como su máximo líder y difusor para el resto el mundo. Puede haber diferencias entre ellos, pero a la hora de actuar estas diferencias parecen sutiles y representan efectivamente la gran amenaza que se cierne sobre la humanidad, al igual que hace un siglo atrás lo representaron las posturas nazifascistas que llevaron al mundo a una catástrofe sin precedentes.

Estamos ante el resurgimiento de las fuerzas de extrema derecha y el bolsonarismo se ha encajado muy bien en este nuevo diseño que enfrenta y quiere destruir el frágil orden mundial construido al final de la segunda guerra mundial con instituciones como las Naciones Unidas o los Acuerdos de Bretton Woods, entre los cuales la Organización Mundial del Comercio, que el gobierno de Trump desconoce de manera brutal.

La operación lanzada por Eduardo Bolsonaro desde Estados Unidos ¿puede ser interpretada como un intento de desestabilización institucional? ¿Qué consecuencias puede tener sobre las instituciones brasileñas y sobre la región? ¿Puede ser calificada como una forma de intervencionismo?

Las gestiones realizadas por Eduardo Bolsonaro desde que huyó a Estados Unidos, renunciando a su mandato de diputado federal van a ser encuadradas seguramente por crimen de lesa patria, transgresión de la Constitución y ataque a las instituciones del Estado Democrático de Derecho. Son acciones que atentan directamente contra la soberanía del país y la autonomía de los Poderes del Estado, tratando de interferir desde otra nación en las decisiones del Poder Judicial. El boicot al equipo negociador que viajó a Estados Unidos para que su gobierno reconsiderara y amenizara el tema de las tarifas, las amenazas contra los presidentes del Senado y la Cámara de Diputados transformaron a Eduardo Bolsonaro en un enemigo de Brasil.

Los daños sobre los productores y exportadores son cuantiosos, lo cual podrá tener fuerte impacto sobre el empleo si los negociadores del gobierno brasileño no consiguen revertir las medidas aplicadas por la administración estadounidense. Es una intervención absurda y descarada sobre la nación y percibo que las instituciones brasileñas se mantienen unidas en el rechazo más rotundo ante estas medidas arbitrarias que no tienen futuro, ni siquiera para los consumidores de Estados Unidos que va a tener que pagar precios muchos más altos por el café o la carne.

Por su lado, tanto Brasil como otros países de la región están buscando nuevos mercados o ampliando los ya existentes (como China o Europa) en base a una estrategia de diversificación de las exportaciones. Los países se van a adaptar a las medidas impuestas por el gobierno Trump y deberían simultáneamente aplicar la política de reciprocidad –una regla de oro utilizada en el comercio internacional- aumentando también las tarifas de importación de productos estadounidenses. ¿Es el fin de la era del libre comercio? Pienso que no, que los países y sus economías van a colocar en un corto periodo un freno a esta situación.

Finalmente, propones que esta crisis podría ser una oportunidad para construir un nuevo pacto democrático. ¿Cómo visualizas ese pacto en la práctica? ¿Qué actores podrían liderarlo y qué elementos deberían dejarse atrás para que sea realmente duradero?

Como señalaba anteriormente, creo que están dadas las condiciones para construir un nuevo pacto democrático a partir de esta crisis y que quizás a mediano plazo se puede recuperar una derecha que, aunque conservadora, se aleje de las posiciones más radicales levantadas por el bolsonarismo. A pesar que el tiempo de la política y las transformaciones sociales es más lento que el tiempo de lo que deseamos ver, puede ser que antes del fin de esta década el escenario político brasileño sea más estable y la mentada polarización que afecta al país sea un recuerdo ingrato.

No tengo una bola de cristal que me asegure que el futuro se va a comportar de esa forma, aunque percibo que el clima de odiosidad y confrontación instalado por el bolsonarismo y sus huestes va a terminar. Es solo ver que las manifestaciones de apoyo a Bolsonaro son cada vez menos expresivas. Por último, pienso en el principio de “esperanzar” elaborado por Paulo Freire, es decir, la esperanza requiere acción, no basta esperar que las cosas acontezcan, hay que trabajar para que ellas sucedan. Tenemos que trabajar para que Brasil pueda salir de este impasse. Seguro que no es tarea fácil, pero hay que intentarlo.