segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Uma história da Europa


Eric Hobsbawm
Folha

É absurda a presunção de unidade quando se fala em Europa, porque é precisamente a divisão que caracteriza a história do continente. Mesmo para os europeus que levam hoje uma vida realmente transnacional, a identificação primeira ainda é nacional.

Como o Deus da Bíblia no momento da criação, o cartógrafo é obrigado a dar nomes àquilo que descreve; conseqüentemente, a toponímia, construção humana, é carregada de motivações humanas. Por que classificar como "continente" o conjunto de penínsulas, montanhas e planícies situadas na extremidade ocidental do grande continente euro-asiático? No século 18, um historiador e geógrafo russo, V.N. Tatichtchev, traçou a linha divisória entre Europa e Ásia que todos nós conhecemos: dos Urais ao mar Cáspio e ao Cáucaso. Para banir o estereótipo de uma Rússia "asiática" -logo, atrasada- era preciso destacar seu pertencimento à Europa.

Os continentes são tanto -ou mais?- construções históricas quanto entidades geográficas. A Europa cartográfica é uma construção moderna. Foi apenas no século 17 que ela saiu do limbo. A idéia atual de uma União Européia (UE) é ainda mais jovem, e os projetos práticos para sua unificação só nasceram no século 20, filhos das guerras mundiais. Países antes hostis se uniram para formar uma zona de paz, avalista dos interesses comuns.

Trata-se de uma Europa historicamente jovem. A Europa ideológica, porém, é bem mais antiga. É a Europa, terra da civilização, versus a não-Europa dos bárbaros. A Europa como metáfora de exclusão existe desde Heródoto. Sempre existiu. É uma região de dimensões variáveis, definida pela fronteira (étnica, social, cultural e geográfica) com as regiões do "Outro", freqüentemente situadas na "Ásia", às vezes "África".A etiqueta "Ásia" como sinônimo de um "outro" que reúne a ameaça e a inferioridade foi colada nas costas da Rússia desde sempre. Da política aos mitos é apenas um passo. O mito europeu por excelência é o da identidade primordial. O que temos em comum é essencial; o que nos diferencia é secundário ou insignificante. Ocorre que a presunção de unidade, em se tratando da Europa, é ainda mais absurda pelo fato de que é precisamente a divisão que caracteriza sua história. Uma história da Europa é impensável antes do fim do Império Romano Ocidental e mesmo antes da ruptura permanente entre as duas margens do Mediterrâneo, que se seguiu à conquista muçulmana do norte da África.

Os gregos da Antigüidade se situavam numa civilização tricontinental, que engloba o Oriente Médio, o Egito e um setor modesto da Europa mediterrânea oriental. Nos séculos 4º e 3º a.C., a iniciativa militar e política passou às margens do setor europeu desse espaço. Alexandre, o Grande, criou um império efêmero que se estendia do Egito ao Afeganistão. A República romana construiu um império mais durável entre a Síria e o estreito de Gibraltar.

O Império Romano nunca conseguiu estabelecer-se solidamente além do Reno e do Danúbio. Roma foi um império pan-mediterrâneo, mais que europeu, e o que conta para o destino da Europa não é o império que triunfa, mas o império que desaparece. A história da Europa pós-romana é a história de um continente fragmentado, presa constante de invasores. Hunos, abares, magiares, tártaros, mongóis e pequenas tribos turcas chegam do leste, os vikings, do norte, os conquistadores muçulmanos, do sul. Essa época só termina em 1683, quando os turcos são derrotados às portas de Viena. Afirmou-se que a Europa descobriu sua identidade ao longo dessa luta milenar. É um anacronismo. Nenhuma resistência coletiva ou coordenada, mesmo em nome do cristianismo, cimentou o continente e a unidade cristã desaparecidos no meio da época das invasões. Desde então, houve uma Europa católica e outra ortodoxa. Entre a queda de Bizâncio em 1453 e o cerco de Viena de 1683, os últimos conquistadores vindos do Oriente, os turcos otomanos, ocupam todo o sudeste europeu. Mas outra parte da Europa já iniciou uma época de conquistadores.

Eles descobrem não apenas as Américas, mas a Europa, pois é em contraposição aos povos indígenas do Novo Mundo que espanhóis, portugueses, ingleses, holandeses, franceses e italianos, que se precipitam sobre as Américas, vão reconhecer seu caráter europeu. Eles têm a pele branca, impossível de confundir com a dos "índios". Nasce uma diferenciação racial que, nos séculos 19 e 20, se converterá na certeza de que os brancos detêm o monopólio da civilização. Mesmo assim, a palavra "Europa" ainda não faz parte do discurso político -para isso é preciso esperar o século 17.

O nome remete ao jogo militar e político dominado pela França, o Reino Unido, o império dos Habsburgos e a Rússia, a que vem se juntar mais tarde uma quinta "grande potência", a Prússia -transformada em Alemanha unida. Mas foram também as transformações da paisagem política que, no século 17, tornaram possível o nascimento dessa Europa consciente dela mesma. A Paz de Westfália, que pôs fim à Guerra dos 30 Anos, trouxe duas inovações políticas. Daquele momento em diante, não houve mais Estados territoriais que não fossem soberanos, e esses Estados passaram a não reconhecer nenhuma obrigação superior a seus interesses, definidos segundo os critérios da "razão de Estado" -uma racionalidade política e laica. É o universo político que habitamos hoje.

Duas outras europas se afirmam. A primeira é a da república das letras que toma corpo a partir do século 17. Para os que compõem essa república -ou seja, as algumas centenas ou, no século 18, alguns milhares de pessoas que se comunicam em latim, depois em francês, a Europa existe. Quanto à última Europa, trata-se da comunidade cosmopolita dotada dos valores universais da cultura do século 18, que se amplia após a Revolução Francesa. No decorrer do século 19, a Europa se torna viveiro de um conjunto de instituições educativas e culturais e de todas as ideologias do mundo contemporâneo. Esse sobrevôo da história da identidade européia nos permite identificar o anacronismo cometido quando se procura um conjunto coerente de supostos "valores europeus". É ilegítimo supor que os "valores" nos quais se inspiram hoje a democracia liberal e a União Européia tenham sido uma corrente subjacente à história de nosso continente. Os valores que fundaram os Estados modernos antes da era das revoluções foram os das monarquias absolutas e mono-ideológicas. Os valores que dominaram a história da Europa no século 20 -nacionalismos, fascismos, marxismos-leninismos- são de origem tão puramente européia quanto o liberalismo e o "laissez-faire".

Inversamente, outras civilizações praticaram certos valores ditos "europeus" antes da Europa: o império chinês e o império otomano praticaram a tolerância religiosa -para a sorte dos judeus expulsos pela Espanha. Foi apenas no final do século 20 que as instituições e os valores em questão se difundiram por toda a Europa, pelo menos teoricamente. Os "valores europeus" são uma palavra de ordem da segunda metade do século 20. De 1492 a 1914, a Europa esteve no coração da história do mundo. Primeiro por sua conquista do Hemisfério Ocidental do globo e, de maneira mais ampla, a partir de 1750, por sua superioridade militar, marítima, econômica e tecnológica. O "momento" europeu da história mundial se encerra com a Segunda Guerra, embora ainda nos beneficiemos do rico legado econômico e, em menor medida, intelectual e cultural dessa supremacia perdida.

A hegemonia dessa região levanta problemas que continuam a dividir os historiadores. Lembremos apenas que, depois da queda de Roma, a Europa não conheceu nenhum outro quadro de autoridade comum nem qualquer outro centro de gravidade permanente.

Mas essa heterogeneidade do continente oculta uma divisão de funções entre dois centros dinâmicos sucessivos e suas periferias. O primeiro foi o Mediterrâneo ocidental, lugar de contato com as civilizações do Oriente Médio e distante, lugar da civilização urbana e da sobrevivência do legado romano.Mas, entre 1000 e 1300, uma zona cada vez mais orientada ao Atlântico foi tomando a dianteira como eixo central da evolução urbana, comercial e cultural do continente. O grande desenvolvimento da Europa teria sido difícil sem a contribuição das "periferias" exportadoras de matérias-primas. O desnível entre essas zonas, cujas estruturas sociais divergem em razão da divisão de trabalho e de suas experiências históricas, foi profundo. Ainda temos consciência da linha de fratura que existe, embora tenha diminuído, entre as duas europas, como entre Itália do norte e Itália do sul ou entre Catalunha e Castela. No século 19, uma elite restrita conseguiu superar essas divisões, enquanto a massa dos europeus continuava a viver no universo oral dos dialetos locais.

O progresso das línguas do Estado perpetuou essa pluralidade agrária, que perdurou com a chegada dos Estados nacionais: a partir daí, o cidadão se identifica com uma "pátria" contra outras. A Europa das nações tornou-se o continente das guerras. E, se a Europa, hoje, não saiu totalmente dessa configuração, esses anos que se passaram não deixaram de ser uma época de convergências impressionantes, com a harmonização institucional e jurídica ou a redução das desigualdades internacionais -econômicas e sociais-, graças aos notáveis "saltos à frente" dados por países como Espanha, Irlanda ou Finlândia. As revoluções em transportes e comunicações facilitaram a homogeneização cultural, que avança com a explosão da educação secundária e da universitária e com a difusão, especialmente entre os jovens, de um modo de vida e de consumo de origem transatlântica.

No mundo da cultura, entre as classes instruídas e abastadas, é a herança européia que se globalizou. Desde o desaparecimento dos regimes autoritários e o fim dos regimes comunistas, as divisões político-ideológicas da Europa desapareceram, embora as sobrevivências da Guerra Fria ainda lancem abismos entre a Rússia e seus vizinhos. Mas um paradoxo se faz notar: apesar desse processo de homogeneização, os europeus não se identificam com seu continente. Mesmo para aqueles que levam uma vida realmente transnacional, a identificação primeira ainda é nacional. A Europa está mais presente na vida prática dos europeus que em sua vida afetiva. Apesar de tudo, porém, ela conseguiu encontrar um lugar permanente no mundo, como coletividade -permanente, mas incompleta, enquanto a Rússia não encontrar seu lugar em seu seio.

El paciente americano

Elmar Altvater
Sin permiso

Geopolítica y crisis financiera. Los EEUU están demasiado endeudados para salvar los mercados por sí solos. Las pérdidas serán globalizadas.

Pasaron aquellos bonitos tiempos de mayo de 2003, cuando el presidente de los EEUU, sacando, orgullosamente patriótico, pecho, podía decir: “¡Misión cumplida!” Lo que al final de su mandato muestran las pantallas de televisión es a un Bush desencajado, a un secretario del Tesoro Paulson postrado de hinojos y a un círculo dirigente acéfalo. La misión del imperio americano se ha cumplido en 2008. La cañída tiene muchos nombres: Bush, Guantánamo, Falujhia y Abu Ghraib, Fannie y Freddie, AIG y Lehman Brothers. En una palabra: la crisis del siglo. El complejo de poder de la Casa Blanca, de la industria petrolera texana y de Wall Street se desmorona. El mundo cambia. Se redescubre el poder geopolítico.

El entorno neoconservador de Bush siempre ha despreciado a las personas reflexivas, entregado como estaba a la acción sin escrúpulos. Convencidos de que los errores se corrigen luego, dejando que otros paguen sus gravosas consecuencias, ahora se ven forzados a descubrir cuál era (y es) la base de poder de la hegemonía estadounidense en el mundo: no sólo la máquina militar, indiscutiblemente superior: “¡es la economía, estúpido!”.

Hay que estar en condiciones de servirse del poder militar. Bush no lo está; deja en Irak una tragedia humana y un desastre político, como en Afganistán. En Guantánamo han bajado a la tumba el cadáver del estado de derecho y el derecho internacional público. Azerbaiyán ya ha sacado conclusiones de la incapacidad del poder hegemónico de los EEUU para proteger a socios menores voluntarios como Georgia y empieza a calentar las gélidas relaciones con Rusia. El “antinorteamericanismo” prospera por doquier: el mundo siente una profunda repulsión por las políticas de fuerza del zaguanete de Bush, una repulsión compartida por muchos ciudadanos estadounidenses.

Pero lo decisivo es que los neocons han conseguido hundir a la economía en la peor crisis financiera de los últimos 100 años, en una zona abisal que no deja de ensancharse y de abismarse. Al comienzo, daban la impresión de poseer un arma mágica contra las tendencias al estancamiento del “capital monopolista” (por decirlo con el título del libro clásico e influyente de Paul Baran y Paul Sweezy publicado en los años sesenta). Se avilantaron a desregular drásticamente los mercados financieros, a fin de elevar astronómicamente las rentas privadas. Empezó en los 70, cuando se procedió a dejar flotantes los cursos cambiarios de divisas, lo que permitió la especulación con las fluctuaciones. Los cursos ya no se fijaban políticamente por los bancos centrales, por los gobiernos o por el FMI, sino que se dejaron a los “mercados”. Es decir: a los bancos privados, a los fondos de inversiones, a las aseguradoras y a las divisiones monetarias de las grandes corporaciones transnacionales.

La era neoliberal fue triunfalmente inaugurada por Margaret Thatcher con el big bang de la liberalización de los mercados financieros. De entonces en más, también la fijación de los intereses y de los réditos quedó al albur de activos financieros en manos de corporaciones empresariales privadas. Los gobiernos y los bancos centrales perdieron la “soberanía de los tipos de interés“, tan importante para una política económica independiente y orientada al pleno empleo.

No es una mengua psíquica

En el marco de unos mercados financieros más y más globalizados, los bancos y los fondos de inversiones entraron en una competencia sin tregua para atraer depósitos o para mantenerse en el negocio. Así, dispararon sin escrúpulos los rendimientos obtenibles con activos financieros, incomparablemente mayores que los beneficios reales. Eso es lo que exigía la concurrencia. La ahora tan lamentada codicia sin límite de los altos ejecutivos no era una mengua psíquica, sino que tenía causas sistémicas. El capitalismo se transformó en capitalismo “financieramente inducido”. La tasa de beneficios del capital industrial cayó en los pasados años, como lo muestran todos los estudios empíricos, mientras que los réditos financieros eran altos. Quien sacaba un rendimiento inferior al 20% al capital invertido, parecía, hasta el estallido de la presente crisis, un perdedor. Sólo en 2008, según información del Bando Federal Alemán, retrocedieron los réditos del 20,7% (2007) a un modesto 3,3% (primer semestre de 2008).

Los activos financieros son deudas activas (claims) que deben ser satisfechas, y cuanto más elevados los réditos y más voluminosas las deudas activas generadoras de réditos, tanto mayores son los rendimientos del producto social global que van a parar al sector financiero.

En cuyo centro se halla Wall Street, o –como algunos prefieren— “Fraudstreet”, en donde no dejan de desarrollarse nuevas estrategias de activos, ni de descubrir complejos papeles estructurados, ni de fundarse instituciones, hasta ahora desconocidas (como los “vehículos con propósitos específicos”, SPV, por sus siglas en inglés), todo ello a fin de atraer constantemente nuevos clientes a sus hechizos financieros y, con métodos constantemente renovados, derivar hacia el sector financiero los réditos más altos posibles. ¿Desde dónde? Desde la economía real. Pero los excedentes de ésta –se puede observar en las tasas de crecimientos reales— no eran suficientes para aquellos elevados réditos, esto es, para la satisfacción de la “codicia”.

Pues con las inversiones financiadas por el sector bancario no se crean valores nuevos (como en el capitalismo de la máquina de coser de la abuela), sino que, con ayuda de los productos financieros estructurados, se derivan hacia el sector financiero valores ya producidos. Así ocurrió ya en la era preindustrial y colonial, según supo mostrar agudamente Rosa Luxemburgo: “Acumulación por desposesión”.

Llegados, empero, a un punto, la substancia no basta para satisfacer las exigencias cada vez mayores que gravitan sobre los mercados financieros. Lo cierto es que se buscan continuamente nuevos yacimientos y campos de activos financieros y que se los “perfora” con instrumentos de continuo renovados, por ejemplo los CDS (credit default swaps o contratos de protección en derivados financieros). El mercado de los cuales es tan grande como el producto social global, unos 62 billones de dólares.

Más allá de la ley y el orden

Nadie acepta gustoso y de grado las desvalorizaciones, tanto más cuanto que no se trata de cacahuetes. De modo que inversores y los gobernantes neoconservadores se sirven ahora del poder estatal para socializar las pérdidas. Hasta los más empedernidos y fundamentalistas adoradores del mercado descubren ahora en su corazoncito, ¡ay!, un rescoldo de socialismo.

Huelga decir que nadie sabe exactamente el volumen de las depreciaciones por venir. Lo único seguro es que la clientela privada de los propietarios de fortunas crematísticas será “rescatada” del barrizal por los gobiernos de Washington, Londres o Berlín…, a costa de quienes no disponen de patrimonio financiero.

La crisis de la New Economy hace ocho años se superó con depreciaciones de varios billones de dólares; el crash actual no costará menos, sino, si acaso, harto más. Por lo pronto, el Estado norteamericano está hoy muchísimo más endeudado que hace ocho años, y cada paquete de ayuda de centenares de miles de millones de dólares significa más endeudamiento. Es verdad que las obligaciones de los EEUU, medidas con los criterios europeos de Maastricht, son todavía pequeñas, pero eso podría cambiar rápidamente. Y entonces los EEUU estarán posiblemente tan paralizados por yugo de la deuda como lo estuvo el Japón a comienzos de los 90, cuando el Estado tuvo que rescatar al sistema bancario japonés.

En segundo lugar, muchos países de todo el mundo están enganchados a la rueda de la crisis y sufren sus consecuencias. Los EEUU, tras décadas de idolatría del mercado, han redescubierto el poder político y se aprestan ahora a regular políticamente el “libre juego de las fuerzas del mercado”. Con los costes de la desvalorización del capital tiene que cargar el contribuyente norteamericano, pero no menos el resto del mundo. Eso ha sacado de quicio incluso al ministro alemán de finanzas, Steinbrück, como si con el gravoso resanamiento de la banca alemana se las diera de populista. Hasta se ha permitido decir que la teoría marxiana de las crisis no es totalmente falsa.

El secretario del Tesoro Paulson quería al comienzo emplear 700 mil millones de dólares sin control parlamentario y sin necesidad de rendir cuentas, bajo los solos auspicios de la “lógica del dinero” y del poder. La crisis tenía que ser resuelta haciendo que los costes del paquete de rescate se cargaran en la cuenta del contribuyente, sin que ni él ni sus representantes pudieran decir esta boca es mía. Un resanamiento bancario más allá de la ley y el orden, una suerte de Guantánamo financiero. Pero el Congreso frenó al ex-ejecutivo de Goldman Sachs, alabado por Bush como su “general financiero”. Los congresistas temían la ira de sus electores. Quieren preservar hasta donde sea posible el dinero del contribuyente; cuatro semanas antes de las elecciones presidenciales, resulta comprensible. ¿Quién varga entonces con las pérdidas de la bonanza especulativa? No pueden sino externalizarse, es decir, transferirse al extranjero, en la medida en que el dólar vaya depreciándose. Es de suponer que eso es precisamente lo que sucederá. Pero no antes de las elecciones del 4 de noviembre –una devaluación no es buena cosa—, sino en el tiempo muerto de la transición hasta la toma de posesión del nuevo presidente en enero de 2009. La política, en la era de la crisis financiera, es geopolítica.

Una devaluación del dólar depreciaría las considerables reservas de dólares atesoradas en Asia, en Europa y en el Oriente Medio, en Rusia y en América Latina. Por consiguiente, los gobiernos en posesión de fuertes reservas de dólares se verían impulsados a cambiar y pretenderían trasvasar a valores reales sus depósitos en dólares amenazados de depreciación. Eso es lo que hasta ahora han prohibido los EEUU. Ni pudo China adquirir la petrolera Unlocal, ni pudo hacerse la Autoridad Portuaria de Dubai con los puertos de Nueva York y de Miami. Es muy posible que esa legislación restrictiva para los extranjeros no pueda seguir manteniéndose. China, comprensiblemente, hará todo lo posible por asegurar el valor de sus enormes reservas en dólares, rayanas en 1,8 billones.

¿Qué viene después de esta crisis devastadora?

En substancia, una crisis grave es un mecanismo de desvalorización gigantesca de capital. Por así decirlo, un enorme potlatch como el que practicaban de vez en cuando los indios del Pacífico canadiense celebrando la destrucción de riquezas. Con esa ceremonia, lo que pretendían era que nadie llegara a ser lo bastante rico como para escindir la comunidad con sus riqueza privada. Tras el potlatch, la vida seguía su curso. Pero la crisis financiera no es una acción social consciente; es una “tempestad en el mercado mundial” (Marx), y como tal, se abate sobre Wallstreet y sus callejuelas aledañas en todo el mundo.

¿Qué viene después de esta crisis devastadora? Al aguacero de la new economy en 2000 siguió el boom inmobiliario con las hipotecas subprime y los productos financieros aventureros, lo que posibilitó unos cuantos años de imponentes negocios que han durado hasta ahora, hasta la crisis financiera más grave de los últimos 100 años. Capital disponible, de todos modos, sigue habiéndolo, a pesar de la crisis. Se halla al acecho de aquellas inversiones que, hoy y en lo venidero, podrían reportar réditos. ¿Cuáles podrían ser?

Las materias primas, señaladamente petróleo y gas, así como agrocombustibles procedentes de biomasa, son la primera opción. Sus precios deberían subir, porque escasean y la demanda es alta. Los certificados de emisión para dióxido de carbono, conformes al protocolo de Kyoto, prometen buenos réditos. O los bienes públicos privatizados, como los ferrocarriles o los complejos militar-industrial y espacial. Desde hace mucho los inversores tienen esto en el punto de mira. No hay crisis que dure eternamente. Lo único que ha quedado atrás, y por mucho tiempo, es la época de los réditos de ensueño superiores al 20%.

Costo de la crisis


domingo, 5 de outubro de 2008

Benjamin Moignard: "O fosso entre a escola pública e a escola privada é um desafio para a democracia brasileira"


Sociólogo elogia proteção oferecida pela escola pública no Brasil, mas diz que falta de conteúdos prejudica a democracia. A entrevista é de Leneide Duarte-Plon para a Folha.

Mesmo que exista uma violência muito grande no meio em que a escola pública brasileira está inserida, a violência da instituição propriamente não é relevante. No Brasil a escola pública aparece como espaço de proteção contra a violência externa. "Por outro lado, ela não permite aos alunos mais em dificuldade -e por isso digo que a escola brasileira é também um fator de construção da delinqüência- depositar grandes esperanças na escola." A citação é do sociólogo francês Benjamin Moignard, em entrevista exclusiva dada em Paris à Folha para falar de seu livro "L'École et la Rue - Fabriques de Délinquance" (A Escola e a Rua - Fábricas de Delinqüência, ed. PUF, 232 págs., 26, R$ 62). Ganhador do Prêmio Le Monde de pesquisa universitária, o livro faz parte de uma coleção dirigida pelo sociólogo e filósofo Edgar Morin. Nele, Moignard estuda as relações de duas escolas, uma francesa e uma carioca, com a sociedade em geral e com as comunidades nas quais estão inseridas.

O sociólogo tomou como exemplos uma escola de uma "banlieue" (bairro pobre da periferia) de Paris e outra situada numa grande favela carioca, na qual se reconhece imediatamente a Rocinha. Os nomes dos personagens, das escolas e dos lugares foram mudados. "Nas pesquisas quantitativas, a França aparece, em nível europeu, como o último país na questão da violência na escola, isto é, onde há mais casos de tensão e violência", diz Moignard, que tinha apenas 27 anos quando viveu no Rio.

Na França, os jovens se sentem excluídos da sociedade e são vistos como estrangeiros. No Brasil, têm a percepção de si mesmos como pessoas pobres. "Na França, a escola é exterior ao bairro pobre. No Brasil tem-se uma escola do bairro, na França tem-se uma escola no bairro, o que faz toda a diferença. E acho que isso é uma das explicações, mas não a única, que diferencia a violência na escola na França e no Brasil.

Pesquisador do Observatório Internacional e Europeu de Violência Escolar e professor na Universidade de Bordeaux 2, Moignard concluiu, baseado em sua pesquisa, que a violência nas escolas francesas é bem maior do que nas brasileiras. Para ele, mesmo se na França a escola se posiciona como um meio de integração e de emancipação muito forte, o que é verdadeiro de maneira geral, ela participa da construção das desigualdades sociais ao não garantir a ascensão social de alguns grupos. "Esses alunos sabem que não basta estudar para ascender socialmente.Isso é um sentimento partilhado por alunos tanto brasileiros quanto franceses."

FOLHA: O sr. diz em seu livro que o clima de violência é bem menor nas escolas brasileiras que nas francesas. Por quê?

BENJAMIN MOIGNARD:
Posso apenas levantar hipóteses. Há níveis de violência diferentes na escola francesa e na brasileira, sobretudo no clima e na relação entre os professores e os alunos. Nos dois países existe uma relação muito diferente com a escola, seja da parte dos alunos, seja da parte dos professores. Na França, tem-se uma concepção republicana da escola, que rompe totalmente com o meio que a cerca. E a escola francesa tem exigências de aprendizado que são muito grandes.

FOLHA: Mesmo nos bairros pobres de periferia?

MOIGNARD:
Pode haver certa adaptação, mas o básico permanece, ao contrário do Brasil, onde a prioridade não é tanto ensinar, mas educar. A prioridade no Brasil é dada à escolarização dos alunos, principalmente na favela e nas escolas públicas situadas nesses bairros pobres. O discurso dos professores é: "O importante não é o que os alunos aprendam em termos de saber acadêmico, mas que venham à escola e sejam escolarizados e protegidos do meio". A escola brasileira faz parte da comunidade na qual está inserida.

FOLHA: A escola é vista de forma positiva mesmo quando situada numa favela onde existem traficantes?

MOIGNARD:
Sim, mesmo se há tráfico, para as pessoas da comunidade e para os alunos a escola faz parte da comunidade.

FOLHA: Há muita violência nas escolas da periferia de Paris?

MOIGNARD:
Em nível internacional, a França está muito mal colocada nesse quesito. Há mais violência na escola na França que no Brasil.

FOLHA: A violência na escola existe ou não no Brasil?

MOIGNARD:
Ela é relativa quando comparada com a violência do meio que a cerca, mas, por outro lado, não permite aos alunos depositar grandes esperanças na escola. É por isso que digo que a escola brasileira é também um fator de construção da delinqüência. Os alunos que acompanhei e que trabalhavam para o tráfico diziam claramente: "De qualquer forma, mesmo com boas notas na escola, não terei um bom salário no futuro nem um bom emprego. Por isso, é melhor viver pouco, mas intensamente, indo à escola porque para meus pais é importante".

FOLHA: Consideram que não podem esperar ascensão social por meio da escola?

MOIGNARD:
Exatamente. A escola não é vista como fator de ascensão social. E vejo nisso um desafio à democracia muito forte. Mesmo se pode educar, a escola pública deve poder dar um saber acadêmico que esteja à altura da ambição brasileira. No Brasil a desigualdade de acesso à universidade entre os alunos da escola pública e da privada é enorme. Os alunos sabem que, sendo escolarizados na rede pública, têm poucas chances de acesso às universidades públicas para alcançar posições sociais melhores. Na França, o que ocorre é a construção escolar da delinqüência, ligada a um modo de controle do que chamo "núcleos duros delinqüentes". Esse controle acaba por construir esses núcleos duros, alimentando a estruturação de quadrilhas de adolescentes, condutas anti-escolares etc. No Brasil [esse controle] é mais insidioso: a escola protege do ambiente externo, consegue não ser violenta, com algumas exceções, mas acho que ela favorece a delinqüência, pois os alunos entram para o tráfico dizendo que "a escola não dá alternativa melhor".

FOLHA: O que o sr. quer dizer com: "A escola participa da construção das situações sociais que ela teme"?

MOIGNARD:
Isso é de certa forma uma provocação, pois a escola não é o único elemento. Mesmo participando da construção da delinqüência, ela não o faz de maneira deliberada. No caso francês, a escola tenta limitar a ação de alguns alunos mais difíceis em turmas especiais, promovendo uma segregação interna. Ela os coloca juntos para preservar os outros alunos, menos difíceis, que vêm de meios sociais mais favorecidos. Para tentar manter a mistura de classes sociais no estabelecimento, os professores concentram os alunos mais difíceis. Em nenhum momento os diretores pensam que, fazendo isso, estão ajudando a construir as gangues juvenis.

FOLHA: O sr. pode explicar a lógica repressiva da escola francesa e como ela participa na formação das gangues?

MOIGNARD:
A lógica repressiva existe porque os alunos vêm de um meio visto como um perigo permanente, e a escola pensa que é preciso se proteger. Para isso, a idéia de tolerância zero é muito difundida. Não se pode deixar passar nada, para que não transborde. A sanção só faz sentido se for compreendida, mas, quando os alunos ficam retidos todo dia depois da aula, essa punição perde o efeito. Os alunos vivem isso como uma opressão da escola e da sociedade. Chega-se, então, a um nível de desconfiança recíproca. A concepção republicana francesa faz com que a escola seja cortada de seu ambiente. Essa postura de ruptura alimenta as condutas anti-escolares, que alimentam, por sua vez, os processos delinqüentes que fazem que a escola se torne uma fábrica de delinqüência.

FOLHA: E quanto ao Brasil?

MOIGNARD:
No Brasil, o processo é mais insidioso. A escola fabrica delinqüência mais sutilmente. Quando eu trabalhava para o Observatório Europeu da Violência na Escola, concluímos: "A escola brasileira encontrou a solução para lutar contra a violência na escola". Tínhamos um paradoxo: um meio extremamente violento e uma escola extremamente preservada. Na favela que estudei, temos exatamente isso.Mas, mesmo se a escola preserva da violência, não é um meio de preservar de maneira mais ampla. E certo número de alunos escolhem deliberadamente entrar para o tráfico. Evidentemente há outros elementos, uma forte pressão do ambiente, sem a qual os alunos não cairiam no tráfico. Mas, como a escola não aparece como alternativa, ela favorece a construção das práticas delinqüentes.

FOLHA: O sr. compara a favela e a "banlieue" de Paris a guetos. Que características aproximam esses lugares da noção de gueto?

MOIGNARD:
Utilizei o termo no sentido em que são bairros que agrupam populações fortemente marginalizadas ou em situação de exclusão em relação ao resto da sociedade. Na França, nos bairros populares, há uma forte concentração de populações cada vez mais segregadas. Não são guetos étnicos, como nos EUA, onde há bairros de negros, de latinos, mas bairros nos quais há uma concentração muito grande de populações em dificuldade e onde há cada vez menos a intervenção do Estado.Na França, freqüentemente, o único representante do Estado nesses bairros é a escola. Isso explica na França uma espécie de etnização das relações, com um choque entre professores e alunos, que não vêm dos mesmos meios sociais nem dos mesmos ambientes.

FOLHA: Como comparar o incomparável: uma favela num país em desenvolvimento numa cidade como o Rio e um bairro pobre da periferia de Paris? Quais são as semelhanças e as diferenças?

MOIGNARD:
Comparei o incomparável também na representação de cada um nos dois países. Na França, pensa-se que uma favela brasileira vive uma violência diária e permanente. Não se imagina que também seja um espaço de vida social com comércio, festas etc. Por outro lado, quando dizia [no Brasil] que eu fazia um trabalho de pesquisa em um bairro pobre francês, as pessoas sorriam, imaginando problemas muito relativos. Essas reações colocam a questão de retrabalhar as representações e estereótipos. O que há em comum é que tanto no Brasil quanto na França essas populações ocupam o mesmo lugar na pirâmide social. A situação de exclusão é parecida, mesmo se a favela é vista no Brasil apenas como um bairro de pobres e eles mesmos se vêem como pobres. Na França, mesmo se a questão da pobreza é levantada, os jovens falam de "bairro de estrangeiros". Nos colégios, as concentrações étnicas são muito fortes. Por causa da exclusão, espera-se muito da escola, tanto na França quanto no Brasil. A escola é vista como a única alternativa possível, mesmo sem muita ilusão.

FOLHA: Com foi seu dia-a-dia em uma favela carioca? Sua vida chegou a ser ameaçada?

MOIGNARD:
Não, nunca fui ameaçado, mas o trabalho na favela foi longo. Fiquei quase dois anos no Rio. Não cheguei à favela do dia para a noite.Primeiramente, fui trabalhar na escola e, como estava próximo de alguns alunos entre os quais havia membros do tráfico, pude me integrar à comunidade.

FOLHA: O sr. foi de certa forma protegido por pessoas que o adotaram como amigo?

MOIGNARD:
Exatamente, nunca fui sozinho à favela, sempre estive acompanhado. Fui lá praticamente todos os dias, durante um ano.

FOLHA: No início ficaram desconfiados?

MOIGNARD:
Um francês já é para eles sinal exterior de riqueza; além do mais pesquisador. Era algo que não era visto de maneira muito positiva.

FOLHA: O sr. diz que, "no Brasil, os excessos dos policiais e dos militares fazem quase sempre mortos e feridos a bala". Na França, os jovens das "banlieues" raramente são mortos em intervenções da polícia. Por que os policiais são odiados tanto na favela quanto na "banlieue"?

MOIGNARD:
Há um comportamento policial e militar muito próximo dos traficantes, inclusive no controle imposto aos habitantes. Nas favelas, os habitantes se protegem da polícia. Fui abordado várias vezes na favela para mostrar documentos, e esses controles são particularmente violentos.

FOLHA: E na França?

MOIGNARD:
Não se deve pôr todos os policiais no mesmo saco, mas, em alguns "quartiers" em que trabalhei, o sentimento antipolícia é alimentado por comportamentos intrusivos fortes, ligados à idéia de que não pode haver territórios onde a República esteja ausente. Há formas de controle de identidade, e os jovens podem ser abordados cinco vezes numa mesma noite. Isso não é uma espécie de reapropriação de territórios para afastar os jovens de seus próprios bairros? Não digo que os jovens devam ser os únicos donos de seus territórios, mas na França e no Brasil a polícia tende a se posicionar de maneira a criar um confronto com os jovens que se organizam em gangues.

FOLHA: Com uma diferença: na França a polícia não mata os jovens das "banlieues".

MOIGNARD:
Na França, existem excessos, atiram com balas de borracha. A Brigada Anticriminalidade que trabalha nas "banlieues" usa cada vez mais "flash-ball" [arma que permite à polícia dominar insurreições sem fazer mortos]. Da mesma forma, a intervenção das forças da CRS [Companhia Republicana de Segurança, unidade de controle de tumultos] nos bairros populares é constante, ficam permanentemente em alguns locais. E, mesmo que a imprensa não fale disso, as insurreições continuam. O confronto entre jovens e policiais aumentou muito nos últimos cinco anos.

FOLHA: Sobre o Brasil o sr. escreve: "Se a escola evita a violência e em certa medida a delinqüência, não somente ela não é um meio de prevenir a violência, mas reforça as desigualdades sociais". Como isso acontece?

MOIGNARD:
Claro que é importante educar e a escola pública brasileira é formidável no trabalho que faz com o meio no qual se insere. Mas, na minha opinião e de outros sociólogos, ela não pode abandonar suas exigências em termos acadêmicos se quiser se tornar um fator de emancipação. Nas pesquisas internacionais sobre aprendizagem, a escola pública brasileira é muito mal posicionada, não corresponde ao nível econômico do país. O fosso entre a escola pública e a escola privada é um desafio para a democracia brasileira. O desafio é este: a escola pública vai poder assumir seu papel emancipador?

FOLHA: Como se manifesta a violência nas escolas francesas?

MOIGNARD:
Essa violência não é apenas feita de tiros e facadas. Manifesta-se também em microviolências, uma acumulação de pequenos fatos repetidos que são vividos pelos professores como violência. Por exemplo, alunos que se empurram nos corredores e chegam a se altercar muitas vezes com violência. Ou então gritos e discussões em sala. Isso pode ser vivido pelos professores como um impedimento para dar prosseguimento à aula.

FOLHA: Como a escola trabalha para dissolver a tensão e resolver o problema?

MOIGNARD:
A dificuldade é que não há uma única maneira de ver a questão. Na França, as escolas das zonas violentas não combatem a questão da violência porque os educadores pensam que ela não é ligada à escola. As pessoas pensam que é culpa do meio, que é violento. Acham que não há nada a fazer. Mas sabemos que há um número de fatores decisivos na construção da violência escolar. Por exemplo, a estabilidade das equipes, que é um fator determinante para lutar contra a violência na escola. Mas sabe-se também que na França a nomeação dos professores é feita de tal forma que, para as zonas mais pobres, são enviados os professores mais jovens, que procuram sair logo que podem das escolas consideradas "difíceis". Logo, estamos dentro de mecanismos que alimentam a construção da violência, com equipes pouco estáveis, atitudes muito repressivas, gestão da ordem escolar vista pelos alunos como uma forma de violência simbólica da parte da instituição e com formas de segregação interna aos estabelecimentos, que fazem com que se concentrem numa mesma sala os alunos com dificuldade.

FOLHA: O sr. acredita que na França os alunos vêem a repressão da violência na escola e como uma continuação da repressão da polícia?

MOIGNARD:
Isso existe porque há fortes expectativas em relação à escola francesa. Os alunos dos bairros pobres têm confiança na escola, e ela tem uma legitimidade social muito forte. Quando descobrem que a escola também se torna um fator de exclusão e de reprodução das dominações, ela se torna vítima de comportamentos antiescolares muito fortes. Porém há estabelecimentos que deveriam, sociologicamente falando, ter problemas de violência e não têm, pois souberam resolver a questão, ao envolver os "quartiers", as associações etc. Isso significa que o meio socioeconômico não explica sozinho a violência na escola.

sábado, 4 de outubro de 2008

Perú a contracorriente: La Biblia neoliberal por los suelos


Javier Diez Canseco
La República

En un mundo que predicaba la sacrosanta y absoluta primacía del mercado y la necesidad de sacar al Estado de toda forma de intervención y control de la economía, los acontecimientos de las últimas semanas equivalen a tirar las Sagradas Escrituras por los suelos. En un violento cambio de rumbo, la prestigiosa "Banca de Inversión" –como Goldman Sachs y Morgan Stanley– ha desaparecido del mapa, convirtiéndose en conglomerados o holdings bancarios, luego de revelarse el carácter irresponsable, especulativo y ruin que tuvieron del manejo de los fondos de millones de esperanzados ahorristas e inversionistas y de Fondos de Pensiones Privadas. Han pasado a manos estatales –¡qué herejía!– el 80% de las dos principales entidades de garantía hipotecaria en EEUU (Fannie Mae y Freddie Mac), así como la más importante empresa de seguros y reaseguros de ese país, AIG (que trabaja con Pacífico Seguros del Perú).

Hoy, el Estado norteamericano –ardiente predicador del libre mercado– es el dueño de estas empresas. Pero, además, Bush ha encargado a su secretario del Tesoro gestionar en el Congreso nada menos que US $700,000 millones de dólares del presupuesto. ¿El objetivo? Comprar los activos de bancos gringos con deuda mala y podrida al valor establecido en sus libros (un valor irreal e inflado), salvarlos así de la quiebra –sin mayores preguntas ni rendición de cuentas (como aquí lo hicieron con el Banco Latino y el Wiese, pero a una escala gigantesca)– pudiendo luego revendérselos al valor de mercado, que es muchísimo menor. Es decir, podría comprarles activos y deudas malas a 100 y luego revendérselas a 10% o a 5% del valor que pagó, con lo cual el Estado norteamericano y los contribuyentes cubren y financian los malos negocios de los más ricos.

Hank Paulson, el secretario del Tesoro, ha sido nada más y nada menos que presidente ejecutivo de Goldman Sachs, el banco de inversión más grande de EEUU, y el que –como lo hacía Dionisio Romero con Fujimori más funcionarios–"prestaba" o introducía en el Estado norteamericano para manejar la economía. Dueño de una fortuna personal de entre US$ 400 y US$ 700 millones, Paulson es uno de los responsables de la crisis que hoy golpea a los EEUU y rebota al mundo entero. En síntesis, tenemos al gato de despensero. Y, claro, no olvidemos que los norteamericanos tienen la maquinita de imprimir dólares, los emiten a su libre albedrío y ya no los respaldan con oro, por lo que el impacto sobre las finanzas mundiales y sobre todos los que tienen sus reservas internacionales en esa moneda es evidente.

De pronto, la tortilla se ha dado vuelta: del neoliberalismo extremo que predica el "Estado mínimo" a la predominancia estatal en el manejo de rubros estratégicos. Todo vale cuando hay que cubrir el manejo irregular, especulativo e insaciable del gran capital que está llevando al mundo a una crisis que no vivía en esa escala desde 1929.

¿Qué haremos ahora sin los indubitables consejos y seguridades de los banqueros de inversión, sobre lo bien que iba todo? ¿Quiénes suplirán las infaltables entrevistas de estos bien pagados "gurús" en El Comercio (manejado hasta hace poco por el tecnócrata fujimorista Fritz Du Bois) o los jugosos publireportajes de Susanita de la Puente?

García, reciente y fanático converso al neoliberalismo extremo y flamante "autor" del celebre Síndrome del Perro del Hortelano, ha de andar ansioso, en búsqueda de una dosis de "ubicaína" para encontrar una brújula ante el segundo desastre económico que puede dejar como legado al país. Hasta el momento, no recobra sus reflejos e insiste en el asesor de Boloña como ministro de Economía en recortar el gasto fiscal en programas sociales, inversiones regionales y locales, golpeando –como de costumbre– a los más pobres, mientras se niega a tocar el consumo privado con una reforma tributaria que haga pagar más a los que ganan más, sin aplicar el impuesto a las sobreganancias mineras, sin restituir los aranceles que redujo en beneficio de los importadores (no de los consumidores), sin trazar un plan de que dé salida a la crisis defendiendo a los que menos tienen.

Una vez más, con la Biblia por los suelos, parece indispensable reafirmarse en la necesidad de un cambio de rumbo que incluye no solo nuevas políticas sino una nueva Constitución que le dé al Estado las herramientas para defender los intereses de los peruanos y peruanas, y dejar de ser una simple herramienta del capital transnacional y sus intereses. Ante un Estado sin brújula en el actual escenario internacional y frente a la necesidad de contener su impacto sobre la situación de la mayoría de los peruanos, la demanda de revocatoria del mandato presidencial y congresal, y la exigencia de una Constituyente resultan fundamentales para trazarle un rumbo al país. Lástima que sectores importantes de las fuerzas de oposición, comprometidas con el cambio, carezcan de la convicción suficiente para asumir este reto. Es hora de repensar estrategias y abrir nuevos horizontes en esta perspectiva.

Capitalismo vive seu Ensaio sobre a Cegueira


Saul Leblon
Carta Maior

No cinema e no romance não há forças de redenção para a anomia descrita por Saramago. Algo semelhante parece ocorrer nesses dias marcados por um certo conformismo bovino na fila do matadouro. Reside aí, talvez, a verdadeira dimensão sistêmica da crise. Não se trata apenas de um atributo de abrangência econômica, mas sim da virtual incapacidade política de seus protagonistas para acionar uma mudança de rumo.

Numa das cenas do filme “Ensaio sobre a Cegueira”, adaptação de Fernando Meirelles para o romance de Saramago, o personagem pergunta à esposa cuja visão subsiste na solidão de um mundo que perdeu a capacidade de enxergar e se auto-gerir: “Há sinais de governo?” A resposta é dada pelo angustiante passeio da câmera nas ruas de uma metrópole onde nada funciona. O que as lentes mostram são bandos esfarrapados e famintos vagando sem destino. Modalidades previsíveis da barbárie preenchem um hiato em que o Estado desmoronou e os valores da convivência humana se eclipsaram. A auto-regulação dos mercados não funcionou.

Quem assistir ao filme nesses dias de convulsão financeira dificilmente resistirá à analogia. A crise iniciada nos EUA, que aos poucos contamina o resto do planeta, é o Ensaio sobre a Cegueira de quem vive sob a supremacia dos mercados desregulados no alvorecer do século XXI. Da esquerda à direita, dos trabalhadores aos banqueiros, passando por governantes, economistas e líderes políticos quase ninguém consegue enxergar a real extensão de um colapso que se arrasta desde agosto de 2007. Num crescendo ele se derrama de um setor a outro, salta de país a país como uma fatalidade intangível e ingovernável cuja visita cabe apenas aguardar. Mais inquietante, sobretudo, é a invisibilidade de alternativas que possam conduzir a sociedade a uma nova visão da economia e do seu desenvolvimento, escapando à propagação inexorável de solavancos que eclodem em intervalos cada vez menores, com virulência cada vez maior (1987-1988-2001-2003-2007-2008).

No cinema e no romance não há forças de redenção para a anomia descrita por Saramago. Algo semelhante parece ocorrer nesses dias marcados por um certo conformismo bovino na fila do matadouro. Reside aí, talvez, a verdadeira dimensão sistêmica da crise. Não se trata apenas de um atributo de abrangência econômica, mas sim da virtual incapacidade política de seus protagonistas para acionar uma mudança de rumo, comportando-se cada qual como parte indissociável da engrenagem em pane. São tempos trágicos nesse sentido. Como na alegoria do escritor português, o que se “enxerga” por entre um noticiário errático são figuras trôpegas de uma tragédia grega. Cada passo hesitante que os governantes dão para impedir que ela se espalhe e se cumpra é mais um passo que pavimenta o caminho para que ela avance. A cegueira é a jaula ideológica construída ao longo de décadas de recuos e concessões aos mercados e a seus dogmas.

Múltiplos de US$ 100 bilhões de dólares ocupam as manchetes há semanas anunciando a solução definitiva para o impasse. No dia seguinte uma nova quebra sinaliza a dinâmica de um colapso subterrâneo. O que se esfumou foi o indispensável consenso que sustenta a fixação dos valores de troca no coração do sistema. Os mercados financeiros não sabem, ou escondem, quanto valem os ativos podres inscritos em seu metabolismo. A segurança que sustenta e ordena a arquitetura do valor de troca no capitalismo patina perigosamente. Bilhões e trilhões se equivalem e nada detém o esfarelamento em marcha. No filme de Fernando Meirelles um grupo de cegos envereda pelo mesmo labirinto quando assume o poder num campo de concentração. Em princípio mimetizam a ordem anterior exigindo dinheiro em troca da comida escassa. Depois, pragmáticos, adotam o valor de uso: “Enviem as mulheres”.

O que se assiste hoje é um movimento de fuga para a segurança cuja última trincheira, antes de a vida imitar a arte, são os títulos do Tesouro norte-americano. Não importa que os treasures ofereçam rendimento quase negativo nessa hora. O que a riqueza fiduciária mira é um abrigo de poder. Busca-se o derradeiro oásis capaz de legitimar, militarmente se preciso for, a suposta equivalência entre a riqueza fictícia e fatias da riqueza real disponíveis na sociedade – ouro, máquinas, terras, petróleo, alimentos, armas...

A inexistência de forças para impor uma outra regulação empresta coerência à intuição dos detentores da riqueza. Ao contrário da parábola de Saramago, o capitalismo real não se auto-destrói. Assim como não existe auto-regulação não há auto-revolução do capital. Lênin deduziu que política é economia concentrada. Mas se ela não atingir a densidade necessária à esquerda, a resposta virá da direita como de fato ocorre nesse momento. Na crise de 29, quando a Bolsa derreteu e o desemprego atingiu um em cada quatro norte-americanos (em 1933 a taxa de desemprego foi de 24,9%), a relação de forças existente no mundo era bem diferente da atual. Doze anos antes do crak uma revolução operária instalou o primeiro governo comunista da história numa das maiores nações do planeta. A Alemanha drasticamente atingida pela confluência entre a crise internacional e as reparações da Primeira Guerra, também viu eclodir um poderoso movimento socialista que quase tomou o poder no país. Seu fracasso levou à ascensão expansionista do nazismo.

O economista Paul Krugmann lembra ainda que os desempregados e veteranos da Primeira Guerra Mundial ergueram uma favela na principal avenida de Washington durante a crise. Famílias famintas, desempregados rurais e urbanos entraram em conflito com o Exército norte-americano nas ruas de cidades em vários pontos do país. O PIB recuou 27% entre 1929 e 1933. Nove mil bancos quebraram. A taxa de desemprego só retornaria a um dígito com o esforço de mobilização provocado pela Segunda Guerra, em 1941. Foi um tempo de miséria e simultâneo avanço social, com expansão do sindicalismo e das idéias socialistas em todo o mundo. Foi essa relação de forças que impôs à crise de 29 um New Deal feito de uma dura regulação estatal dos mercados financeiros, associada a frentes de trabalho, bônus de alimentos, refinanciamento de moradias e investimento público maciço em infra-estrutura, habitação e agricultura. É a ausência dessa mesma correlação que dá ao atual secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson, a liberdade de um bombeiro vesgo, cuja mangueira só enxerga a cobertura do edifício e ignora as chamas que devoram os andares debaixo.

A história destes dias é a história de uma agonia repetidas vezes anunciadas nos últimos anos. Mas a agonia ainda não é a morte para um neoliberalismo comatoso e cego. Vale relembrar a lição de Gramsci: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não consegue nascer. Nesse interregno uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

¿Es el decrecimiento una utopía realizable?


Francisco Fernández Buey
Kaos en la Red

En los cursos que vengo impartiendo en la universidad sobre controversias ético-políticas en el mundo contemporáneo he tenido la oportunidad de comprobar que los dos temas que más entusiasmo polémico suscitan entre los estudiantes de humanidades y ciencias sociales, en estos últimos años, son el papel de los medios de comunicación en las democracias representativas y la idea de decrecimiento. Si lo primero es fácilmente explicable al tratarse de un tema que está en la calle, el entusiasmo por la controversia acerca del decrecimiento es en cierto modo una sorpresa, ya que el término decrecimiento es relativamente reciente y la literatura existente en nuestro país al respecto es todavía bastante limitada. Pero, por lo que he podido ver y escuchar, la idea de decrecimiento suscita tanta simpatía como escepticismo la posible aplicación práctica de la misma.

La simpatía observada proviene, sin ninguna duda, del aumento de la conciencia medioambiental entre los jóvenes, siempre por comparación con las generaciones inmediatamente anteriores. Y el escepticismo que provoca la puesta en práctica de la idea de decrecimiento viene, en cambio, de la desconfianza, también en aumento, que existe hoy en día respecto de los agentes políticos y sociales que tendrían que materializarla; en muchos casos este escepticismo se expresa a través de una sospecha más profunda, que se suele manifestar de la manera drástica, a saber: que, siendo una buena idea, esta del decrecimiento, choca con lo que algunos llaman naturaleza humana y otros condición humana históricamente configurada por la civilización europea moderna. De ahí brota una afirmación, que he escuchado muchas veces, según la cual el decrecimiento es una utopía en el sentido peyorativo de la palabra, una ilusión irrealizable.

Creo que el contraste existente entre aquel entusiasmo y este escepticismo merece una reflexión. Aunque la palabra decrecimiento se ha empezado a popularizar hace relativamente poco tiempo, la idea no es del todo nueva. Se la puede considerar como una variante radical de la idea de crecimiento cero o de la propuesta de detención del crecimiento, surgidas ambas al calor de las discusiones sobre la crisis ecológica hace más de treinta años. La idea de frenar o detener lo que se venía llamando crecimiento en las sociedades industriales autodenominadas avanzadas estuvo directamente relacionada con la observación en curso de las nefastas consecuencias que el tipo de crecimiento económico cuantitativo estaba produciendo en el entorno medioambiental. Ya a finales de la década los sesenta algunos ecólogos y científicos sensibles empezaron a divulgar la observación de que las llamadas fuerzas productivas se estaban convirtiendo de hecho en fuerzas destructivas o biocidas, con lo que el modelo de crecimiento imperante en las principales potencias del mundo bipolar de entonces iba a acabar poniendo en peligro la base natural de mantenimiento de la vida misma sobre el planeta Tierra.

A partir de esta observación, y precisamente como forma de hacer frente a la crisis ecológica que se venía venir, brotó en los inicios de la década siguiente la idea de frenar o detener el crecimiento. Es significativo que esa idea pasara ya al título mismo de la versión francesa del primero de los informes al Club de Roma. Se puede expresar así: si hemos de reconocer que hay límites naturales al crecimiento económico que hemos conocido en los últimos siglos, lo razonable, para evitar el riesgo de crisis ecológica, es actuar en consecuencia y frenar, parar o detener ese tipo de crecimiento económico de la misma manera que habría que detener el crecimiento urbanístico desordenado que hace inhabitables nuestras ciudades y contribuye a destruir su medio ambiente natural.

Pero la mayoría de los gobiernos de entonces (y también la mayoría de los medios de comunicación) trataron de quitar hierro al asunto de la crisis ecológica y consideraron "catastrofistas" o "apocalípticas" las, por otra parte, moderadas conclusiones del análisis de los científicos informados y de las primeras organizaciones ecologistas. Gobiernos y medios incluso ironizaron frecuentemente a su costa. Al tratar de las propuestas encaminadas a detener el crecimiento, y no digamos al ocuparse de la noción de crecimiento cero, aquellos gobiernos y los medios de comunicación vinculados a ellos pasaron de la ironía al insulto.

Las hemerotecas de todos los países están plagadas de manifestaciones de dirigentes políticos, parlamentarios y periodistas en este sentido. La consecuencia fue que por entonces apenas se hizo nada para detener el tipo de crecimiento biocida. Y sin embargo, por una de esas paradojas que son habituales en la historia, mientras se estaba ridiculizando a los partidarios de detener aquel tipo de crecimiento desordenado y biocida, los principales indicadores del crecimiento de las economías dominantes en las grandes potencias empezaron a descender, rozando el cero, como consecuencia de la crisis del petróleo. En vez de reflexionar sobre el sentido de la paradoja, los gobiernos desarrollistas y las grandes instituciones internacionales, inspirados en la teoría económica standard y con una orientación predominantemente neo-liberal (aunque no sólo) prefirieron salirse por la tangente. Ya entonces se argumentó en los medios oficiales que la idea de detener el crecimiento era una utopía y se reafirmó con ello la confianza en las mismas tecnologías que estaban en la base del peligro.

Hubo que esperar otra década más para que las instituciones internacionales acabaran reconociendo la gravedad del peligro, aceptaran la crítica a la noción de crecimiento establecida por la teoría económica imperante y empezaran a hablar de desarrollo sostenible. Como se sabe, esta otra idea aparece por primera vez en el documento titulado Nuestro futuro común, que fue elaborado en 1987 por la entonces Primera Ministra de Noruega, Gro Harlem Brundtland. En este documento se definía como sostenible “aquel desarrollo que satisface las necesidades del presente sin comprometer la capacidad de las generaciones futuras para satisfacer sus propias necesidades”. La definición recogía lo que desde algunos años antes se venía diciendo ya en la Comisión Mundial de la ONU sobre el Medio Ambiente y el Desarrollo y con ella se aceptaba, indirectamente al menos, parte de las razones aducidas desde veinte años antes por científicos informados y economistas críticos.

De acuerdo con esta filosofía, la sociedad habría de ser capaz de satisfacer sus necesidades en el presente respetando el entorno natural y sin comprometer la capacidad de las generaciones futuras para satisfacer las suyas. A partir de ahí se fueron asentando los principios básicos de lo que empezó a denominarse desarrollo sostenible, poniendo el acento, al menos en un principio, en la vertiente ambiental del mismo. En líneas generales estos principios básicos, que concretan la ambigüedad de la definición dada en Nuestro futuro común, y en el resumen que hizo en su momento Jorge Riechmann, son: a) consumir recursos no-renovables por debajo de su tasa de substitución; b) consumir recursos renovables por debajo de su tasa de renovación; c) verter residuos siempre en cantidades y composición asimilables por parte de los sistemas naturales; d) mantener la biodiversidad; y e) garantizar la equidad redistributiva de las plusvalías.

Lo que más llama la atención al analizar el proceso histórico que ha conducido desde la crítica al tipo de crecimiento standard al reconocimiento oficial de la idea de desarrollo sostenible es el lapso de tiempo que se ha necesitado, sobre todo si lo comparamos con la brevedad del lapso de tiempo que ha sido necesario para pasar, por ejemplo, de algunos de los descubrimientos básicos en biología molecular a sus aplicaciones tecnológicas. Ya es sintomático que se tardara mucho menos en deshacer lo que se aprobó en la célebre reunión de Asilomar (liquidando una línea de prudente moratoria en el ámbito de la ingeniería genética) que en aceptar oficialmente las consecuencias de la idea de sostenibilidad. Sintomático porque revela el dominio del optimismo tecno-científico frente a los razonables llamamientos a la prudencia y a la aplicación del principio de precaución.

Pero la cosa es aún peor cuando se observa que, de hecho, la idea misma de desarrollo sostenible ni siquiera es respetada, al cabo de los años, por los principales gobiernos, y que el camino hacia la aplicación de los acuerdos de Kyoto ha estado plagado de obstáculos y zancadillas por parte de los mismos gobiernos que decían defender la idea de desarrollo sostenible.

Es en este contexto en el que ha cobrado fuerza la idea de decrecimiento, que, insisto, con esa perspectiva histórica, se puede interpretar como una radicalización de la noción de crecimiento cero, propuesta en su momento para hacer frente a las primeras manifestaciones de la crisis ecológica. Y se comprende que así haya sido porque treinta años después de las primeras denuncias de la crisis ecológica la situación medioambiental del planeta es manifiestamente peor que la que existía cuando de lo que se hablaba era sobre todo de contaminación de la atmósfera, mares, ríos, lagos y ciudades. La sucesión de catástrofes medioambientales que se han producido desde entonces y el análisis de los efectos previsibles del cambio climático y del calentamiento global han llevado a que, hoy en día, algunas personalidades próximas a las instituciones estén proponiendo medidas de contención parecidas a las que proponían hace muchos años los primeros denunciantes de la crisis. Sólo que, mientras tanto, las personas mejor informadas no han dejado de insistir en que el peligro de crisis ecológica global aumentaba por lo que ya no caben parches calientes.

Esto último, o sea, la convicción de que ya no caben parches calientes, es lo que está en el transfondo del paso de la idea de crecimiento cero a la idea de decrecimiento para hacer frente a la crisis medio-ambiental. Para decirlo plásticamente: ya no basta con echar el freno al móvil; hay que poner la marcha atrás para evitar el abismo. Eso es lo que se deduce al menos del desarrollo reciente de la idea de decrecimiento impulsada por autores como Serge Latouche, Vincent Cheynet, François Schneider, Paul Ariés o Mauro Bonaiuti, la mayoría de los cuales suele citar, entre sus fuentes de inspiración, la bioeconomía de Georgescu-Roegen1, quien, entre otras cosas, distinguió hace ya tiempo entre “alta entropía” (o energía no disponible para la humanidad) y “baja entropía” (o energía disponible).

Es cierto que algunos de estos teóricos, como por ejemplo Clémentin y Cheynet, parecen asumir como objetivo del decrecimiento que llaman sostenible una definición de sostenibilidad muy parecida a la que se daba en el Informe Brundtland, de manera que podría pensarse que, al menos en teoría, no hay demasiada diferencia entre las nociones de desarrollo sostenible y decrecimiento. Pero concluir eso sería tergiversar el pensamiento de los autores mencionados, los cuales insisten en que, en la práctica de los gobiernos, las nociones de crecimiento y desarrollo son intercambiables. Para precisar más al respecto estos autores distinguen entre decrecimiento “sostenible” e “insostenible” o caótico. Y aducen que un ejemplo de decrecimiento caótico o insostenible es el que ha tenido lugar en Rusia desde 1990, como consecuencia de la desindustrialización no buscada o deseada. A partir de ese ejemplo, y de su critica, se puede equiparar el decrecimiento “sostenible” a economía sana, entendiendo por tal un tipo de decrecimiento que, en sus palabras, no habría de generar “una crisis social que pusiera en cuestión la democracia y el humanismo". Habrá que volver sobre esto.

Otros teóricos del decrecimiento todavía han matizado más a la hora de distinguir entre “desarrollo sostenible” y “decrecimiento”; y también matizan a la hora de aducir razones a favor de este último. Así, por ejemplo, Serge Latouche, después de llamar la atención acerca de la multiplicidad de acepciones en que ha venido empleándose la expresión “desarrollo sostenible” desde que apareció en el Informe Brundtland, declara a continuación que el desarrollo sostenible es como el infierno, que está empedrado de buenas intenciones. Para Latouche, “desarrollo” se ha convertido “una palabra tóxica” o, como dirían los teóricos de la Escuela de Frankfurt, "deshonrada", porque cuando se engancha el adjetivo sostenible al concepto de desarrollo lo que en realidad se está haciendo es no poner en cuestión el tipo de desarrollo actualmente existente sino simplemente añadir un componente ecológico espureo. Según él, es más que dudoso que eso baste para resolver los problemas a los que hay que hacer frente en la actualidad.

Desde este punto de vista, la reivindicación de la bioeconomía de Georgescu-Roegen vendría a oponerse, precisamente por el carácter radical de la misma, al ecologismo meramente reformista que sigue defendiendo el concepto de “desarrollo”. Se sugiere así que en el mundo actual hay ya ecologismos de distintos tipos y que el decrecimiento es necesario para un ecologismo consecuente, pues no podemos seguir produciendo refrigeradores, coches o aviones a reacción mejores y más grandes sin producir al mismo tiempo también residuos "mejores" y más grandes. Lo que significa, como afirmaba Georgescu-Roegen, que el proceso económico es de naturaleza entrópica.

Y siendo eso así, ¿qué tipo de economía oponer a las economías aún dominantes? Lo que los teóricos del decrecimiento llaman economía sana o decrecimiento sostenible se basaría en el uso de energías renovables (solar, eólica y, en menor grado, biomasa o vegetal e hidráulica) y en una reducción drástica del actual consumo energético, de manera que la energía fósil que actualmente se utiliza quedaría reducida a usos de supervivencia o a usos médicos. Esto implicaría, entre otras cosas, la práctica desaparición del transporte aéreo y de los vehículos con motor de explosión, que serían sustituidos por la marina a vela, la bicicleta, el tren y la tracción animal; el fin de las grandes superficies comerciales, que serían sustituidas por comercios de proximidad y por los mercados; el fin de los productos manufacturados baratos de importación, que serían sustituidos por objetos producidos localmente; el fin de los embalajes actuales, sustituidos por contenedores reutilizables; el fin de la agricultura intensiva, sustituida por la agricultura tradicional de los campesinos; y el paso a una alimentación mayormente vegetariana, que sustituiría a la alimentación cárnica.

En términos generales todo esto representaría, en suma, un cambio radical de modelo económico, o sea, el paso a una economía que, en palabras de los teóricos del decrecimiento, seguiría siendo de mercado, pero controlada tanto por la política como por el consumidor. La economía de mercado controlada o regulada tendría que evitar todo fenómeno de concentración, lo que, a su vez, supondría el fin del sistema de franquicias; potenciaría el fomento de un tipo de artesano y de comerciante que es propietario de su propio instrumento de trabajo y que decide sobre su propia actividad. Se trataría, pues, de una economía de pequeñas entidades y dimensiones, que, además -- y esto es otro punto fuerte de la actual teoría del decrecimiento-- no tendría que generar publicidad. Esto pasa por ser una conditio sine qua non para el descrecimiento sostenible. La producción de equipos que necesita de inversión sería financiada por capitales mixtos, privados y públicos, también controlados desde el ámbito político. Y el modelo alternativo introduciría, además, la prohibición de privatizar los servicios públicos esenciales (acceso al agua, a la energía disponible, a la educación, a la cultura, a los transportes públicos, a la salud y a la seguridad de las personas).

La economía del decrecimiento estaría orientada hacia un comercio justo real para evitar así la servidumbre, las nuevas formas de esclavitud que se dan en el mundo actual y el neocolonialismo. En la mayoría de las aproximaciones recientes a la idea de decrecimiento se postula que éste tendría que organizarse no sólo para preservar el medio ambiente sino también para restaurar aquel mínimo de justicia social sin el cual el planeta está condenado a la explosión, porque supervivencia social y supervivencia biológica están siempre interrelacionadas.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Carlos Taibo: "Estados Unidos tiene un cáncer de difícil tratamiento y la metástasis se extiende"


Carlos Taibo presenta hoy 150 preguntas sobre el nuevo desorden, la versión ampliada y actualizada del libro aparecido en 2002, que disecciona el fenómeno de la globalización capitalista, al tiempo que explica las claves fundamentales de la política internacional contemporánea. Al respecto se estudian la pervivencia de la relación Norte-Sur, la crisis de los Estados de bienestar, las agresiones medioambientales en curso, los problemas de la ONU, el papel hegemónico de Estados Unidos, la nueva OTAN, el intervencionismo humanitario, lo que ha dado en llamarse terrorismo internacional o la naturaleza de los nuevos conflictos. El libro, escrito con clara vocación pedagógica, es un útil texto de consulta para los movimientos de resistencia frente a la globalización de cuño neoliberal. La entrevista es de Oscar Abou-Kassem para Público.

- ¿Qué le parece el plan de rescate económico de Bush?

- Carlos Taibo: Este procedimiento de privatización de los beneficios y socialización de las perdidas no es nuevo en EEUU. Es lo mismo que sucede en Irak. La invasión es un fiasco militar para Washington pero las empresas estadounidenses logran pingües beneficios allí. ¿Quién paga la osadía bélica de Bush? El contribuyente americano a través de sus impuestos. El esquema que se presenta es de Bush con su dinero rescatando a las empresas cuando es el contribuyente el que paga.

- En el libro habla de una globalización a la carta por parte de EEUU ¿En qué consiste la globalización?

- Carlos Taibo: EEUU posee una maquinaria militar poderosa a su servicio. Se trata de imponer reglas del juego que benefician a las multinacionales estadounidenses. De ahí parte el designio de cortocircuitar el acceso de otros a las materias primas, como el petróleo en Oriente Próximo o las políticas proteccionistas en relación con el acero o la agricultura estadounidense.

- ¿Están en declive como potencia hegemónica?

- Carlos Taibo: Tienen un cáncer de difícil tratamiento y la metástasis se extiende. Siguen siendo la potencia hegemónica política, militar y tecnológica. Ya no creo que lo sea en lo económico ni en lo cultural. Habría que preguntarse ¿qué tipo de proyecto ideológico defiende en lo económico Bush? Los neoliberales radicales dicen que Bush ha fracasado por no ser lo suficientemente neoliberal.

- ¿El fracaso del plan de Bush puede dar más oportunidades de mercado a China?

- Carlos Taibo: Se acortaría la hegemonía como potencia hegemónica en la mayoría de los terrenos.

- ¿Se siente Rusia traicionada por EEUU tras la caída del muro?

- Carlos Taibo: Las políticas de las potencias occidentales desde 1991 se han encaminado a evitar que Rusia renazca como potencia. El escudo antimisiles, la nueva ampliación de la OTAN, el apoyo a las revoluciones de colores, las bases en el Cáucaso reflejan una posición de creciente agresividad hacia Rusia que hacía impensable que Moscú no reaccionase de una forma u otra. Desde la prensa occidental se suele decir que Rusia desafía a Occidente y rara vez al contrario.

- ¿Se puede repetir un esquema de dos bloques enfrentados?

- Carlos Taibo: Ni Rusia por si sola ni China por sí sola no pueden contra Estados Unidos. Rusia podría enfrentarse contra la Unión Europea.

- ¿Qué aliados presenta Rusia?

- Carlos Taibo: Su esquema de aliados es más débil que el de antaño. Bielorrusia, de forma cautelosa, algunas repúblicas del Asia Central, Armenia y Serbia. Es un bloque muy débil comparado con el bloque de la Unión Soviética. Esto es uno de los problemas al identificar el enemigo por parte de Occidente.

- ¿Qué le parece el doble rasero que ha empleado Occidente para Kosovo y Osetia del Sur y el olvido del caso checheno?

- Carlos Taibo: Hay un elemento común a todos estos casos. Hay un problema nacional. La mayoría de los analistas conciben esto como un tablero estratégico donde están las grandes potencias y nada más. Sólo les interesa Rusia, Estados Unidos, el petróleo y los oleoductos, pero en medio hay países con poblaciones que se sienten incómodos dentro de los estados en los que viven. Aquí hay sólo dos maneras claras de razonar. La primera es la de quien aplica el derecho internacional a rajatabla y rechaza drásticamente cualquier horizonte de autodeterminación y secesión. Y la segunda es la de quienes vemos que esta fórmula es delicada en sí misma, es simplemente aplicarle a todos el mismo rasero y decir ustedes no tienen más remedio que aceptar el orden establecido. El problema es cuando se apoyan algunas causas cuando interesan y esto también lo hace Rusia, apoyando la independencia de Osetia del Sur pero descartando la de Chechenia. Es una radical primacía de los intereses sobre los principios.

- ¿Por qué tanta insistencia por parte de EEUU en la necesidad de instalar el escudo antimisiles?

- Carlos Taibo: La primera razón es los intereses de la industria militar que precisa de ese escudo como estimulo tecnológico. El segundo motivo es la intención de reducir a largo plazo la capacidad disuasoria de los arsenales ruso y chino. Los rusos ofrecieron una instalación conjunta para el aprovechar su radar en Azerbaiyán y EEUU lo rechazó. Ubicarlo en Polonia y República Checa es como si Rusia instala un radar en Cuba y un centro de aviso temprano en Venezuela para protegerse de la amenaza de Corea del Norte. Recientemente se apunta a un intento de EEUU por repetir la estrategia de Reagan de forzar una inversión armamentística rusa para frenar su crecimiento económico.

- ¿Cuál es la dependencia de la Unión Europea del gas ruso?

- Carlos Taibo: Es una dependencia mutua. La Unión Europea compra el 85% del gas que Rusia exporta. Moscú no puede prescindir de ese mercado. Rusia tiene un problema grave. El crecimiento ha incrementado la demanda interna de materias primas y esto reduce la capacidad de exportación. Rusia puede estar aniquilando la gallina de los huevos de oro.

- ¿Cuál es el legado de Putin?

- Carlos Taibo: Con el paso del tiempo veremos que es más delicado de lo que parece. Aquí se le ha criticado por autoritario. Creo que no ha conseguido enderezar un estado maltrecho y ha terminado plegándose a los intereses de los oligarcas. Hay muchos problemas sociales. Chechenia sigue siendo un agujero negro en donde no sabemos lo que sucede. A largo plazo la juzgaremos de manera más severa.

José Carlos Mariátegui: tão longe, tão perto


Luiz Bernardo Pericás
Gramsci e o Brasil

José Carlos Mariátegui, considerado o “pai” do marxismo latino-americano, ainda é, em grande medida, um desconhecido em nosso país. Restrita, quando muito, ao meio acadêmico, sua obra ainda não conseguiu penetrar de forma mais incisiva no mercado editorial brasileiro, ainda que alguns de seus escritos tenham sido lançados em anos recentes. Seu livro, os Sete ensaios de interpretação da realidade peruana, publicado há exatamente oitenta anos, é apontado como o mais influente, original e inovador estudo do processo histórico de uma nação realizado por um intelectual na América do Sul.

Há quem afirme que a publicação dos Sete ensaios marca, de fato, a data de nascimento do marxismo na região. Afinal, Mariátegui, ao contrário de muitos, não “copia” ou “transfere” mecanicamente sistemas teóricos europeus para sua realidade, mas realiza, na prática, o primeiro esforço bem-sucedido para “nacionalizar” o arcabouço teórico de Marx em nosso continente. Mesmo assim, pouco se sabe de sua vida e de seu pensamento.

As primeiras referências a ele conhecidas por aqui datam de 1928, quando o jornalista e teórico peruano troca correspondência com o intelectual paulista Álvaro Soares Brandão, que tinha interesse em publicar um de seus textos na revista Amauta, editada por ele. Depois disso, o nome de Mariátegui irá aparecer rapidamente em 1946, num artigo de Waldo Frank, traduzido por Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça. Luis Carlos Prestes enviará carta ao Comitê Central do Partido Comunista peruano em 1960, em homenagem a JCM, que será publicada no órgão Unidad, de Lima, enquanto um texto de Astrojildo Pereira, “José Carlos Mariátegui y su obra”, aparecerá na mesma edição.

Nelson Werneck Sodré era admirador dos Sete ensaios (a edição utilizada por ele era a chilena, publicada em 1955) e usou a obra como referência para seu curso no Iseb sobre a formação histórica do Brasil (que começou a ministrar em 1956), curso este que resultaria, mais tarde, em seu livro Formação histórica do Brasil, de 1962. Neste livro, ele citará os Sete ensaios extensamente em notas. Para alguns estudiosos do pensamento de Sodré, seu pioneirismo seria, inclusive, ainda maior, já que ele teria fundamentado suas teses centrais em JCM, teses estas incorporadas mais tarde no trabalho supracitado. Por outro lado, o mais importante historiador brasileiro, Caio Prado Jr., aparentemente não sofreu influência direta do teórico peruano. Uma avaliação empírica mostra que não consta nenhuma ficha bibliográfica, das novecentas preparadas por ele (atualmente guardadas no Instituto de Estudos Brasileiros da USP), que discuta qualquer livro de JCM.

Ainda que Sodré tenha trazido algumas das idéias do teórico peruano para o debate intelectual dentro das esquerdas brasileiras já no final da década da 1950 e início dos anos 1960, o primeiro grande impulsionador da obra mariateguiana no Brasil foi, de facto, o sociólogo Florestan Fernandes, que somente em 1975 consegue editar, pela primeira vez em nosso território, os Sete ensaios, pela editora Alfa Omega. Um atraso de quarenta e sete anos. Mais tarde, ele coordenaria uma coleção de obras compiladas de “cientistas sociais” na qual estaria incluída uma seleção de textos do jornalista e também publicaria, em 1994, o importante artigo “O significado atual de José Carlos Mariátegui”, numa revista acadêmica (Universidade e Sociedade).

Dos anos 1980 para cá foram publicadas no Brasil algumas coletâneas de JCM, entre as quais uma sobre personalidades políticas de sua época (Do sonho às coisas, Boitempo, 2005), uma reunião de textos políticos (Por um socialismo indo-americano, UFRJ, 2005), duas pequenas biografias intelectuais (José Carlos Mariátegui, Brasiliense, 1983, e Mariátegui, vida e obra, Expressão Popular, 2006), um livro sobre temas de educação (Mariátegui sobre educação, Xamã, 2007) e outro sobre os primórdios do fascismo (As origens do fascismo, Alameda, 2008). [Ver também: J. C. Mariátegui e o marxismo na América Latina, Unesp e Cultura Acadêmica, 2002].

Diversas teses acadêmicas sobre JCM têm sido preparadas e defendidas em distintas universidades brasileiras, e o mais importante movimento social do país, o MST, ministra cursos sobre o teórico político peruano. Mas ainda há um longo caminho a ser trilhado para que o pensamento deste autor (comparado em muitos aspectos a Antonio Gramsci) seja mais bem difundido aqui.

A lenta penetração de JCM no Brasil talvez se deva a três motivos principais. Primeiro, o Peru era um país marginal para o Brasil em termos culturais. Os Estados Unidos, a Europa, e até mesmo a Argentina e o México, apesar da distância física, tinham não só maior contato com nosso país, como possuíam uma estrutura editorial e divulgação literária muito mais fortes do que a nação andina, que também apresentava uma conformação étnica e histórica em vários aspectos bastante diferentes da nossa. Além disso, o Partido Comunista do Brasil, vinculado ao Komintern (a organização que teria condições de divulgar a obra de JCM por aqui), também não teria, necessariamente, interesse em propagar as idéias mariateguianas, que, de acordo com vários membros da IC, eram “desvios” ideológicos, populistas e contrários ao que Moscou defendia. Finalmente, o próprio Mariátegui, que costumava escrever sobre os acontecimentos mundiais e fatos relacionados a vários países, praticamente não menciona o Brasil em suas dezenas de artigos. Ele chegou a escrever sobre nações tão distantes como a Inglaterra, a Irlanda, a Turquia, a França, a Índia e a China, mas, mesmo estando supostamente tão próximo do Brasil, nunca elaborou um texto sequer sobre nosso país. Isso quando ocorriam, no cenário brasileiro, eventos importantes, como o movimento modernista, o tenentismo, a Coluna Prestes e o cangaço. O autor de La escena contemporánea irá mencionar o Brasil muito poucas vezes, apenas em pinceladas, para discutir, rapidamente (mas não exclusivamente), a questão dos negros no continente.

Mariátegui nasceu em uma família humilde e nunca chegou a conhecer o pai. Sempre teve saúde frágil e problemas físicos. Quando menino, recebe um forte golpe em uma das pernas, numa brincadeira escolar. Passará por cirurgias que o deixarão manco pelo resto da vida (nos seus últimos anos ele terá uma de suas pernas amputada). Ele se tornará um garoto recluso e amante da leitura. Por causa de todas as complicações de seu estado de saúde e da situação econômica precária de sua mãe, irá abandonar definitivamente, ainda muito cedo, a escola. Não chegou a concluir o curso primário. Quando garoto e adolescente trabalhou como entregador, linotipista e corretor de provas de um jornal limenho, para em seguida ingressar na carreira jornalística.

Este periodista autodidata aos poucos se aproximará do movimento operário, apoiará greves e será visto como uma pedra no sapato do então governo do presidente Augusto Leguía, que o enviará, num exílio dissimulado, para viver por alguns na Europa. A maior parte do tempo ficará na Itália, onde lerá os mais influentes jornais da época, conhecerá personalidades políticas e literárias do Velho Continente, observará em primeira mão o início do fascismo e presenciará a formação do Partido Comunista daquele país. Ao retornar ao Peru já estava “formado” politicamente e era assumidamente marxista. Seu primeiro livro, La escena contemporánea, sairá em 1925, e pouco depois, em 1928, publicará os Sete ensaios de interpretação da realidade peruana.

Em sua obra-prima, seu “clássico”, Mariátegui (fundador e principal dirigente do Partido Socialista e da Central Geral dos Trabalhadores do Peru) conseguirá mostrar com profundidade e maestria o painel geral do desenvolvimento histórico de seu país, desde o período pré-colombiano, passando pela colonização espanhola, até chegar às primeiras décadas do século XX, sendo capaz de articular temas fundamentais, como a evolução econômica peruana, a questão do regionalismo e do centralismo, a literatura, a questão agrária e o problema indígena. Criticado por Haya de La Torre e a Apra (Alianza Popular Revolucionaria Americana) e pelo Komintern, JCM será acusado (dependendo de seus detratores) de “europeizante”, “aprista”, “populista”, “intelectual pequeno-burguês”, “bolchevique d’annunziano” e “leninista”. Afinal de contas, suas idéias heterodoxas eram uma “ameaça” política às outras agrupações que lutavam pela hegemonia do movimento operário no país.

Logo depois do desaparecimento físico de Mariátegui, em 1930, ocorrerá uma tentativa de eliminar os supostos “desvios” mariateguistas de seu partido, que começou, a partir de então, a seguir fielmente as diretrizes de Moscou, não aceitando que se construíssem esquemas teóricos que saíssem das fórmulas propostas pelos dirigentes da Internacional. Por algum tempo, portanto, JCM se tornou um “herege” e seu legado acabou sendo desprezado por muitos “comunistas” ortodoxos.

Ao longo dos anos, contudo, isto iria mudar. A primeira edição dos Sete ensaios , com cinco mil exemplares, vendeu lentamente. A segunda só sairia em 1944, preparada por seu primogênito, Sandro, com uma tiragem maior, dez mil livros. A terceira virá à luz somente oito anos mais tarde.

De lá para cá, já foram editadas mais de 70 edições da obra em todo o mundo (incluindo as peruanas e as estrangeiras). Fato este, é claro, ajudado pela publicação das edições de bolso, vendidas a preços populares em todo o Peru. A primeira destas, lançada em 1956, teve uma tiragem de cinqüenta mil livros. Os Sete ensaios foram publicados (a partir dos anos 1950 em diante) em dezessete países. Com dois milhões de exemplares vendidos, é o livro peruano de não-ficção de maior sucesso da história e com o maior número de edições em todo o mundo.

No Peru, as comemorações dos oitenta anos dos Sete ensaios estão sendo organizadas por um comitê encabeçado pelo filho mais velho de JCM, Sandro Mariátegui, e um conselho consultivo que inclui intelectuais locais e estrangeiros importantes, como Aníbal Quijano, Antonio Melis, Michael Löwy e Héctor Alimonda, entre vários outros. Simpósios e publicações estão na pauta da equipe, assim como novas edições e a criação de uma cátedra com o nome de Mariátegui na Universidade de San Marcos. Só falta agora que o público brasileiro conheça mais profundamente este grande intelectual. Novas publicações por aqui certamente ajudarão a divulgar para nossos leitores sua vida e seu pensamento.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

La crisis financiera en dos tiempos

El Fisgon
La Jornada

Nuevo orden geopolítico mundial: fin del Acto Primero


Immanuel Wallerstein
La Jornada

Sería un error subestimar la importancia del acuerdo que el 9 de septiembre tomaron Nicolas Sarkozy de Francia, en su capacidad de actual presidente de la Unión Europea (UE), y Dimitri Medvedev, presidente de Rusia. Es un acuerdo que marca el fin definitivo del Acto Primero del nuevo orden geopolítico mundial. ¿Qué se decidió?

Los rusos accedieron a retirar todas sus tropas de lo que se conocen como “áreas centrales de Georgia”, o “Georgia, propiamente”, es decir, las partes de Georgia que los rusos reconocen como Georgia. Estas tropas están siendo remplazadas por 200 monitores de la UE, y es algo que se emprende con base en las garantías ofrecidas por la UE de que no habrá ningún uso de fuerza contra Osetia del Sur y Abjazia.

El asunto del reconocimiento ruso a la independencia de Osetia del Sur y Abjazia se ha dejado abierto por completo. Sarkozy y el ministro de Relaciones Exteriores de la UE, Javier Solana, “esperan” que en el futuro Rusia permita que los monitores de la UE entren en estas áreas. El ministro ruso de Relaciones Exteriores, Serguei Lavrov, dijo que no hacen tal promesa y que “todo arreglo de supervisión futura requerirá de la ratificación de los gobiernos de Osetia del Sur y Abjazia”. Lavrov dijo que las tropas rusas se mantendrían en ambas áreas “en el futuro previsible”. Y aunque el secretario del Consejo de Seguridad Nacional de Georgia, Alexander Lomaia, aplaudió las claras fechas límites para la retirada rusa de la Georgia “propiamente dicha”, anotó que era “mala noticia que [el acuerdo] no se refiriera a la integridad territorial [de Georgia]”.

Este acuerdo fue alcanzado por Europa y Rusia, y Estados Unidos no jugó ningún papel diplomático en lo absoluto. Medvedev acusó a Estados Unidos de haber dado su bendición a la acción original georgiana de invadir Osetia del Sur. Dijo que, por el contrario, los europeos son “nuestros socios naturales, nuestros socios clave”.

El presidente de Georgia recibió mucho aliento de John McCain, y el vicepresidente Cheney voló ahí para decir que Estados Unidos daría mil millones de dólares en asistencia para la reconstrucción de Georgia. Pero el secretario de Defensa, Robert Gates, al explicar por qué esta ayuda no incluía asistencia militar y por qué no habría sanciones económicas contra Rusia, dijo: “si actuamos muy precipitadamente, podemos ser nosotros quienes quedemos aislados”.

Así que, ¿cuál es el fondo del asunto? Rusia consiguió en Georgia más o menos lo que quiso. Su reconocimiento “irrevocable” de Osetia del Sur y Abjazia es algo que tal vez pueda canjear en el futuro por un viraje básico en las relaciones de Georgia con Rusia. Si no, no. El hecho es que Europa cree que necesita reconciliarse con Rusia y ha descartado reanudar lo que los chinos llaman “la guerra civil europea”.

Estados Unidos se percata de que no tiene cartas reales con qué jugar. Entre tanto, en Medio Oriente sus aliados más cercanos lo rechazan públicamente. En Irak, el primer ministro Maliki se ha vuelto un negociador muy rudo en torno a la continuada presencia de las tropas estadunidenses, y no es imposible que, si Estados Unidos no hace más concesiones importantes, los acuerdos actuales que terminan el 31 de diciembre simplemente se agoten.

En Afganistán, el presidente Karzai está tan exasperado con las misiones de bombardeo de las tropas especiales estadunidenses que ha exigido “una revisión de la presencia de tropas estadunidenses y de la OTAN en el país”, en lo que CBS News llama un “discurso de palabras ásperas”. La provocación inmediata fue un ataque aéreo en Azizabad que el ejército estadunidense alega que dejó pocas bajas y que estaba dirigido contra los talibanes. Los afganos insisten en que no había talibanes ahí y que un gran número de civiles fue asesinado. Cuando los funcionarios de Naciones Unidas y otros dieron credibilidad a la versión afgana, el general estadunidense de mayor rango en Afganistán, David McKiernan, se retractó de la posición estadunidense e hizo un llamado a que se emprendiera una investigación estadunidense de alto nivel, a cargo de un general venido de Estados Unidos.

Y en Pakistán, el presidente Bush autorizó la persecución álgida de los talibanes de Afganistán a Pakistán, contraviniendo la advertencia del Consejo Nacional de Inteligencia de que esto conllevaría “un alto riesgo de desestabilizar más al gobierno y al ejército paquistaníes”. La incursión consiguió lo que el New York Times llama “una declaración inusualmente fuerte” del jefe del ejército paquistaní, el general Asfaq Kayani, quien dijo que sus fuerzas defenderían la soberanía paquistaní “a toda costa”. Dado que el gobierno estadunidense ha considerado al general Kayani como su fuerte simpatizante en Pakistán, esto no es exactamente lo que Estados Unidos quería escuchar.

Así que, ignorado en Georgia, y atacado por sus aliados más cercanos en Irak, Afganistán y Pakistán, Estados Unidos se encuentra algo descontento por cómo entra en las realidades del mundo posterior a la guerra fría, en el cual tiene que jugar con reglas nuevas que le resultan muy poco de su agrado.

Entre tanto, como nota al margen, irónica y no carente de importancia, el 10 de septiembre se celebró en Ginebra un importante desarrollo de la física de partículas, cuando el laboratorio de la Organización Europea para la Investigación Nuclear (conocido como CERN, por sus siglas en francés) logró un avance científico importantísimo después de 14 años de trabajo y un gasto de 8 mil millones de dólares. Fue un momento tan importante en la ciencia mundial que sus contrapartes estadunidenses en el Fermilab de Batavia, Illinois, abrieron botellas de champaña a las 4:38 de la mañana para celebrar. Sin embargo, Pier Oddone, el director del Fermilab, admitió que era un “momento agridulce”. Hasta 1993, Estados Unidos era la autoridad en la física de partículas. Ese año, el Congreso estadunidense, inundado de confianza en sí mismo por haber “ganado” la guerra fría, consideraba que resultaba muy costoso construir el tipo de supercolisionador necesario para este avance de la física de partículas –ahora que geopolíticamente era ya algo innecesario. Los europeos tomaron una decisión muy diferente y Estados Unidos se halla ahora en un segundo lugar aquí también.

Llamo a esto el fin del Acto Primero porque ha sellado la realidad de una arena geopolítica verdaderamente multilateral. Por supuesto, hay otros actos por venir. Y cualquier amante del teatro sabe que el Acto Primero meramente establece quiénes son los actores. Es en el Acto Segundo donde vemos lo que ocurre realmente. Y luego ocurre el Acto Tercero con el desenlace.