terça-feira, 23 de setembro de 2008

Un momento histórico en Bolivia


Xavier Caño Tamayo
CCS

Las provincias de la Media Luna, las más ricas de Bolivia, se han rebelado contra el gobierno de Evo Morales. Se han declarado autónomas unilateralmente, han tomado edificios públicos, han bloqueado carreteras y han protagonizado actos de vandalismo y atentados. Han muerto treinta personas. Pero todo se inició a finales de 2007. Entonces el pretexto fue qué ciudad debía ser capital, La Paz o Sucre. Y enfrentaron a pobres contra pobres.

Ahora han sido las provincias Santa Cruz, Pando, Tarija, Cochabamba y Beni, provincias en manos de una minoría blanca que concentra la mayor parte de riqueza. Bolivia está formada por el altiplano andino de mayoría indígena pobre (más del 62% de habitantes) y una tierra baja al Este, donde vive la minoría blanca y la población mestiza.

Si esta minoría ya tiene la mayor parte de riqueza del país, ¿qué quiere ahora? Como el gangster Johnny Rocco en la película 'Cayo Largo', quiere más. Quedarse con la mayor parte de beneficios del gas y petróleo que el gobierno del presidente Morales ha recuperado para Bolivia; impedir la reforma agraria que devolvería tierras a millones de indígenas, porque las quieren ellos para cultivar soja, exportarla y ganar aún más.

Se han rebelado contra el gobierno que aumentó 340 millones de dólares los ingresos fiscales por hidrocarburos y los ha dedicado a salud reproductiva, cobertura de salud para niños y mayores de 60 años, clínicas rurales, dos millones de hectáreas repartidas entre campesinos pobres. Se han rebelado contra un gobierno que intenta ser justo con ese 62% de indígenas apartado del bienestar y la justicia durante medio milenio.

Los rebeldes dicen sentirse discriminados por este gobierno por ser blancos. ¡Qué cinismo! Quien dio un puñetazo en la nariz acusa al golpeado de agredir su puño con la nariz. Pero, además de ocupar edificios oficiales, cortar carreteras y protagonizar algaradas con muertes, los blancos rebeldes difundían rumores de inexistentes grupos indígenas que "toman lo que es nuestro" y asesinan a personas blancas. Porque esa minoría rebelde y rica además es racista, como se deduce de lo que medios informativos afines publican sin rubor.

Como ha escrito el profesor de la Universidad Autónoma de México, Guillermo Almeyra, "es evidente que detrás del poder económico de los separatistas [de las provincias de la Media Luna] está también el de Washington, el de los terratenientes y cultivadores de soja argentinos y brasileños y el de empresas petroleras extranjeras que prefieren negociar el precio del petróleo y del gas con sus aliados de la minoría rica".

Sospechas de que la larga mano del Departamento de Estado de Estados Unidos estuviera detrás de la rebelión hicieron que el presidente Morales expulsara al embajador de ese país, Philip Goldberg, quien al despedirse pareció amenazar al decir que Morales "comete un grave error al expulsarlo, porque esa decisión podría tener efectos serios en muchas formas".

¿Paranoia antiamericana? No, pero no podemos dejar de recordar los muy documentados casos del Chile de Allende, Brasil de João Goulart, y recientemente Venezuela y su fracasado golpe de estado contra el presidente Chávez, entre otros. Conflictos en los que se olía el tufo de cierta agencia de inteligencia precediendo al ruido de sables locales. Pero esta vez intervino Unasur (Chile, Argentina, Brasil, Colombia, Ecuador, Bolivia, Paraguay, Uruguay y Venezuela), que no ha tolerado la ruptura de la democracia en Bolivia ni nada que comprometa su integridad territorial. Unasur ha apoyado sin fisuras a Evo Morales y, por primera vez en la historia latinoamericana, facilitado una salida sin la intervención de Estados Unidos.

"Si los bolivianos no logran un valor justo por la riqueza natural de su país, sus perspectivas son sombrías. El mundo debería celebrar que Bolivia tenga un gobernante electo democráticamente que intenta representar los intereses de los pobres de su patria. Se trata de un momento histórico". Palabras del premio Nobel de Economía estadounidense Joseph Stiglitz, que no podemos menos que compartir.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Os mercados são monstros desregrados e irracionais

Luís Carlos Lopes
Carta Maior

As centenas de bilhões de dólares lançadas no mercado mundial para acalmar a crise econômico-financeira globalizada indicam a meta de um capitalismo com um mínimo de risco. As instituições podem cometer erros crassos. Os ciclos econômicos podem se esgotar. Não há problema. Os bancos centrais intervêm e ‘normalizam’ o mercado, usando o erário público. Azeita-se a máquina de fazer dinheiro, mesmo que não exista lastro ou que se tirem recursos que poderiam ser usados em programas sociais de distribuição de renda ou de segurança das comunidades mais pobres.

A acumulação de riquezas é tão grande, tanto nos países do chamado primeiro mundo, como nos ditos ‘emergentes’, que se pode desenhar o capitalismo assegurado pelos Estados nacionais contemporâneos. Quando a luz vermelha acende, basta gastar enormes reservas guardadas pelos bancos de Estado. Estas representam a acumulação dos lucros auferidos com a exploração do trabalho em escala mundial. Obviamente, que há limites, que as medidas recentes podem esbarrar em obstáculos mais poderosos e que nem todo o sistema consegue ser preservado. É preciso que caiam algumas fortalezas, para que o reino do capital permaneça em pé.

Diferentemente do grande crash de 1929, o mercado acionário ressuscita das cinzas em uma questão de horas. Isto não quer dizer que não possa afundar no passo seguinte. Sem sombra de dúvida, os efeitos do esgotamento do modelo só serão sentidos com maior força pelos endividados e desempregados. Banqueiros, industriais, comerciantes, rentistas e especuladores estarão preservados, no essencial. Não se verá nenhum optando pelo suicídio. Suas fortunas não virarão pó. Um ou outro será mais afetado. Contudo, o sistema lutará para permanecer funcionando e dando os imensos lucros de sempre.

A onda de choque, como em 1929, vem se propagando do centro para a periferia. Diferentemente daquela época, o grau de acumulação em todos os pontos do sistema é muito mais elevado. As formas de extrair a mais-valia nos dias que correm são infinitamente mais eficientes. Pode-se pilhar o que se acumulou em décadas e ‘salvar’ o que se arriscou há pouco tempo. Esta pilhagem é um risco, ainda desconhecido. Dependendo da evolução da crise, terão que ser tomadas medidas ainda mais fortes, tirando mais de quem tem muito pouco.

Estes acontecimentos derrubam os mitos neoliberais e conservadores. Mostra, mais uma vez, que os mercados são monstros desregrados e não-racionais. A ação do Estado é a única que pode tentar domar o monstro, mesmo sem o ferir de morte. Ao contrário, a perspectiva adotada é de tentar dar remédios paliativos, mas poderosos, mantendo tudo em seu lugar. O Estado não pode ser mínimo. O mercado não é capaz de sozinho regular os sistemas em que estão inseridos. As mentiras neoliberais se autodesmascaram nesta situação de crise, onde mais uma vez se vê as diferenças entre os centros e as periferias e a interligação mundial das economias, no sentido da dominação dos países ricos sobre os demais.

Por outro lado, uma luz de esperança aparece no horizonte. Se estes sistemas podem se movimentar tão rapidamente, produzindo resultados surpreendentes, a favor do capital, tal poderia ocorrer em sentido inverso. Os Estados nacionais que estão tentando suturar as chagas da crise financeira, dependendo da correlação das forças políticas no poder, poderiam, quiçá, fazer o motor da história girar em função do trabalho. O problema não é econômico e sim de ordem política. Quem está no poder determina para onde a história se dirige e a quem ela beneficiará. Não se sabe qual será a reação das sociedades envolvidas. Mas, no rescaldo desta última crise global, a ordem política mundial está sendo seriamente afetada. É ingênuo pensar que o mundo de depois destes eventos será o mesmo. O que virá terá a marca do que hoje está se processando.

domingo, 21 de setembro de 2008

Brasil e América Latina: Plataforma de ataque


Marco Antonio Villa
Folha

Enriquecido com o petróleo, país domina vizinhos continentais e se impõe como potência militar e econômica do Atlântico Sul.

Foi o capitalismo que mudou tudo. O que éramos até 2010? Só tínhamos boas intenções, otimismos e pessimismos cíclicos. E nada mais. Vivíamos buscando no passado os momentos de glória. Finalmente, depois de séculos, perdemos a vergonha de ganhar dinheiro. O fracasso deixou de ser referência positiva. Passamos a admirar a ousadia dos vitoriosos. Foi como se substituíssemos, no altar da pátria, Tiradentes por José Bonifácio.

Ser uma potência com papel expressivo no mundo levou a suplantar diversos obstáculos. Era dominante uma ética da malandragem nos negócios privados e principalmente nos públicos. O fim dessas práticas (ou, ao menos, a sua sensível diminuição) foi essencial para que pudéssemos ter uma presença política no mundo. As relações com a África são fundamentais para o Brasil. Temos um papel de colaboração com vários países africanos, especialmente os da costa atlântica. Tratados, convênios e diversos acordos econômicos, científicos e culturais permitiram uma efetiva aproximação com a África, superando a simples enunciação de intenções ou a retórica vazia.

As Forças Armadas foram determinantes para consolidarmos nossa presença no cenário mundial. Perderam-se no passado aqueles jogos de guerra em que os inimigos eram o comunismo ou a Argentina. Agora elas simulam a defesa do nosso território contra nossos adversários asiáticos, como a China. Não foi nada fácil manter o controle das nossas reservas petrolíferas quando tínhamos um arremedo de Forças Armadas. Hoje o quadro é muito diverso graças à vitória no embate contra os que supunham que os gastos militares subtraíam recursos de outros programas econômicos e até daqueles voltados aos mais pobres.

Nada disso. A história mostra que, se temos programas econômicos e sociais eficazes, isso se deve à garantia que as Forças Armadas dão ao país, afastando potenciais inimigos do nosso território e de nossas riquezas. As descobertas de petróleo no início do século foram o principal elemento propulsor deste novo tempo. Possibilitaram nos transformarmos no país que somos. Não caímos na armadilha dos gastos sem nenhum critério.Investimos no desenvolvimento técnico-científico, criamos mais de uma centena de centros de pesquisas em diversas áreas do conhecimento, eliminamos o analfabetismo em apenas cinco anos e modernizamos a infra-estrutura.

Mas, principalmente, abandonamos aquela diplomacia que nos aproximava dos bufões da América, dos que governavam olhando para o passado, dos que só exigiam e nada concediam. Uma potência não deve ser imperial, desconhecendo as diferenças entre os países, mas não pode agir sempre dando um passo para trás quando encontra um oponente, como fazíamos na primeira década deste século. Defendemos firmemente nossos interesses, estendemos as mãos para ajudar os países mais pobres, porém sem hipocrisia. Ajudamos para que eles possam logo -logo mesmo- caminhar com as próprias pernas. Têm de enfrentar os desafios como fizemos.

Se hoje somos a potência do Atlântico Sul é porque aprendemos a enfrentar situações adversas, difíceis, como no momento em que resolvemos sair do Mercosul. Não era possível conviver com a Argentina e a Venezuela. Eram dois projetos distintos: o nosso e o deles. Foi custoso, mas foi correto. A Índia, a Rússia ou a China faziam parte de algum bloco no início do século? Não. Era indispensável uma união econômica sul-americana só porque a Europa seguiu esse caminho? Para o Brasil, não. Diminuiu o comércio com os países da América do Sul? Não. O Mercosul era um obstáculo para os nossos interesses nacionais.

Hoje não somos mais (ou apenas) o país do samba e do futebol. Foi-se o tempo do exotismo. O tamborim foi substituído pela tecnologia, a bola pelas empresas que estão entre as maiores do mundo, o pandeiro pelas nossas mercadorias que transformaram o "made in Brazil" em símbolo de qualidade e eficiência. Quando andamos pelo mundo, nem sempre somos recebidos, como éramos no passado, com sorrisos e gentilezas. É o preço por sermos uma potência.

O fim da hegemonia americana?


Glaúcio Soares
Folha

As notícias sobre o declínio e até o colapso dos EUA provocam alguns pensamentos. Não é a primeira vez que se coloca o fim da hegemonia americana em pauta. Parte importante do problema deriva de tomarmos o fim da Segunda Guerra como ponto de partida.

Foi o ponto mais alto, quando os EUA chegaram a ser responsáveis por mais de metade da produção industrial mundial. Esse ponto de partida foi "naturalizado" e se tornou uma referência habitual. Porém, foi um momento artificial, no qual os principais concorrentes dos EUA -Alemanha, França, Reino Unido, Japão e a então União Soviética- sofreram pesada destruição física. Parte da saliência americana derivou da ausência de competidores.

Como esperado, houve um crescimento das economias desses países, mais acelerado em uns casos, menos em outros, que reduziu a preponderância dos EUA. Seu declínio relativo provocou um choque de idéias. Uma das variantes estava associada, ironicamente, ao custo da guerra e da própria hegemonia.

Em 1987, o assunto voltou à ribalta. O historiador Paul Kennedy publicou "Ascensão e Queda das Grandes Potências" (ed. Campus), que provocou celeuma. Nele, defendia a tese da "overextension": países "hegemônicos" tenderiam a ampliar territórios e áreas de influência, assumindo compromissos, sobretudo militares, que terminariam conspirando contra sua própria hegemonia, sobretudo econômica. Esticando o argumento, alguns adeptos de Kennedy postularam que os EUA não deveriam ter participado tão intensamente da Guerra Fria, deixando que o expansionismo da União Soviética a levasse à autodestruição. Claro, a direita americana definiu Kennedy como "liberal" -que, no linguajar político americano, significa esquerdista.

Dois anos depois, Francis Fukuyama publicou o artigo "O Fim da História" (1989), que representava a resposta do ufanismo americano, em tom nada moderado, após o colapso político da União Soviética. Fukuyama, é bom lembrar, era um alto funcionário do Departamento de Estado e tinha sido analista da conservadora Rand Corporation.

Desde o pós-guerra, muito tem sido escrito e dito sobre esse ou aquele "milagre". Um dos primeiros foi o "milagre alemão". A Alemanha teve duas excelentes décadas, chegando a crescer mais de 10% em alguns anos. Mas o milagre acabou há muito tempo, e o crescimento econômico alemão anda próximo aos 2% anuais. Enquanto o milagre alemão esmaecia, surgia o japonês. Em 1965, o PIB nominal do Japão era de US$ 91 bilhões. O Japão cresceu tão rapidamente que, 15 anos mais tarde, ultrapassou US$ 1 trilhão. Passamos a falar em "milagre japonês", e o Japão passou a ser visto como o país competidor dos EUA e talvez a potência hegemônica do futuro. O perigo, agora, eram os Toyotas, os Hondas, a Sony etc.

Livros foram escritos, inclusive sobre a melhor administração das empresas japonesas, e políticas foram alteradas. O então presidente Bill Clinton, em discurso e ação, reorientou a economia americana, abandonando o "rust belt", industrial, e apoiando a política do Vale do Silício, de serviços muito qualificados. Industrialmente, não dava para competir com os japoneses. Deu certo, e os EUA voltaram a crescer. E o Japão? Os anos 90 foram chamados de "a década perdida"; a partir dela, a economia parou de crescer rapidamente, chegando a estagnar. Mais um milagre chegava ao fim.

Os milagres da vez são o chinês e o indiano. As expectativas são semelhantes: vão durar e comprometer a liderança econômica americana. Os dados sobre outros milagres são mais pessimistas. O terceiro milênio confirmou um novo panorama, com um número maior de atores economicamente significantes.

A esquerda afirma que o imperialismo americano vive do complexo militar; ironicamente, a economia americana sobe e desce com as políticas de seus presidentes, mas na direção oposta à prevista pela esquerda, recuperando a credibilidade da tese de Paul Kennedy. Clinton reduziu os gastos militares, o que lhe permitiu equilibrar o orçamento e reduzir o déficit fiscal. Em seus dois mandatos houve prosperidade, com as associadas reduções no desemprego, na violência e na criminalidade. Porém essas políticas -e suas conseqüências benéficas- foram substituídas por políticas econômicas e sociais regressivas e um retorno ao militarismo. As guerras no Afeganistão e no Iraque e os cortes de impostos dos mais ricos devastaram a economia americana. Se os ataques do 11 de Setembro justificaram a primeira, a segunda permanece sem nenhuma justificativa, a despeito de incalculável custo humano.

Os EUA, hoje, vivem a contradição de sofrerem a crise econômica e financeira mais séria em oito décadas e serem uma potência militarmente hegemônica. Não há país que se aproxime: os gastos militares americanos correspondem a cerca de 45% do total (dados de 2007), seguidos, de longe, por Reino Unido, China, França e Japão, com perto de 5% cada. A disparidade é muito grande: os EUA gastam nove vezes mais do que o segundo colocado. O medo de muitos é que a próxima administração americana tente resolver militarmente a crise econômica e financeira. Os EUA afundarão mais, levando junto a paz mundial e muitos povos.

sábado, 20 de setembro de 2008

El clavel negro: historia de un héroe anónimo


Rafael Vargas
Proceso

En la cinta El clavel negro, producción sueco-danesa-mexicana dirigida por Ulf Hultberg en 2005, se cuenta, a través de una mezcla de ficción con hechos reales, la heroica actitud del embajador de Suecia en Chile en los primeros días de la cruenta represión pinochetista. Ahora la rememora su par mexicano en el Santiago de aquellas horas aciagas de septiembre de 1973.

Han pasado justo 35 años: el embajador Gonzalo Martínez Corbalá habla sobre Harald Edelstam, su colega sueco en Chile, con quien hizo una buena amistad. “Entramos en contacto debido a nuestra cercanía con los funcionarios más importantes del gobierno de Salvador Allende. Nos contábamos entre los mejor informados, y otros colegas solían buscarnos.”

Gustaf Harald Edelstam nació en Estocolmo, el 17 de marzo de 1913. Comenzó su carrera diplomática en 1939. En 1941 es enviado a Berlín, donde ayuda a escapar a Suecia a muchos judíos. Cuando los nazis invaden su país regresa para unirse a la resistencia. Fue entonces que recibió el mote de El clavel negro (Svarta nejlikan), que conservaría siempre.

“Era un hombre muy valiente, con muchos méritos personales --dice Martínez Corbalá--. Cuando ocurrió el golpe contra Allende él decidió actuar, no por obligación política, sino por convicción personal. Lo hizo invocando el Pacto de Caracas, suscrito en 1954 por países latinoamericanos --no europeos--, con toda la conciencia de que era un recurso que estrictamente no le correspondía. Para decirlo de otra manera, él no tenía facultades para asilar a nadie en su embajada. Los asiló de hecho, no por derecho.

“Nosotros éramos buenos amigos, y acordamos apoyarnos mutuamente. Yo le ofrecí lo que al final hicimos: que él llevara a sus ‘asilados’ a las puertas de la Embajada de México, donde yo los recibiría. Los trasladaríamos a México, y de México él se encargaría de trasladarlos a Suecia. “Los chilenos que llegaron a Suecia después del golpe no llegaron en calidad de asilados, sino de inmigrantes. Su humanitarismo le causó muchos conflictos con el Ministerio de Relaciones Exteriores de Suecia, que reaccionó muy negativamente. Yo creo que incluso lo separaron del servicio exterior, porque años después nos vimos aquí, en México, y él se había convertido en vendedor de medicamentos de una firma europea.”

La actuación de Edelstam en aquellos días que Martínez Corbalá recuerda ahora es descrita en la cinta El clavel negro, que quiere ser un homenaje. El único que se le ha hecho, hasta ahora. Ni en Suecia ni en Chile hay un monumento o un sitio público que lo recuerden. Sólo en Uruguay existe una plaza que lleva su nombre, signo de gratitud de un grupo de cincuenta ciudadanos de ese país al que Edelstam salvó la vida. Prosigue Martínez Corbalá:

“Yo creo que por eso el gobierno sueco ha financiado ahora esta película, para lavar un poco su mala conciencia y su mala memoria. Es una lástima que la historia que cuenta El clavel negro sea, según me han contado los amigos, una tergiversación de las cosas. Yo no la he visto ni pienso verla. A mí me invitó a la première la embajadora de Suecia. Había una rueda de prensa y querían que yo hablara. Pero cuando me di cuenta de que la película estaba totalmente fabricada para llenar de elogios a Harald (no era necesario acudir a la ficción para resaltar sus méritos) preferí marcharme. Es una lástima, porque se debió haber restituido la figura de Harald, pero no de esa manera.” Entre los muchos recuerdos que guarda de esos días, hay algunos en los que destaca la actuación de Harald:

“México le dio asilo a doña Hortensia Bussi y otros miembros de la familia Allende. El 15 de septiembre un avión mexicano llegó a Santiago para llevarlos a México a ellos y a muchos asilados más. Era indispensable escoltarlos al aeropuerto para garantizar su seguridad. Me acompañaron los embajadores de Guatemala, de Israel, de la Unión Soviética y de la India y, por supuesto, Harald. Íbamos en dos autobuses. En el camino nos detuvieron incontables veces. Los militares actuaban siempre de manera muy agresiva.

“Antes de la salida del avión, hacia las seis de la tarde, los choferes que los manejaban tuvieron que retirarse por el toque de queda, que se imponía a partir de aquella hora. Harald, que había permanecido con nosotros hasta que partió el vuelo, se encargó de manejar de regreso uno de los autobuses. El otro lo condujo Orlando Carrillo, capitán mexicano del Estado Mayor presidencial.

“El 24 de septiembre, al día siguiente de la muerte de Pablo Neruda, Harald y yo acudimos a La Chascona --la casa del poeta al pie del Cerro San Cristóbal-- para acompañar a su viuda, Matilde Urrutia, quien velaba su cuerpo en compañía de unos cuantos amigos. Los militares habían asaltado y destruido la casa. Harald estaba indignado y lo manifestaba a voz en cuello.

“Cuando se decidió llevar el féretro al Cementerio General, salimos de La Chascona, y en el trayecto, poco a poco, se fue sumando una gran cantidad de personas al cortejo --gente que salía de sus casas y llegaba de quién sabe dónde--. Al poco, a cada lado de la avenida por la que marchábamos, se formaron filas de soldados. La gente comenzó a corear: ‘Pablo Neruda, ¡presente!’, ‘Salvador Allende, ¡presente!’ Un coro dramáticamente impresionante.

“Los tres o cuatro embajadores que íbamos con el cortejo caminábamos entre la gente. Cuando salimos del cementerio, busqué a Horacio, mi chofer (un chileno que no había podido acompañarnos en el cortejo, porque cojeaba), a quien había pedido que nos buscara al término del sepelio. Cuando lo encontré me dijo: ‘Embajador, yo lo iba a retar --así se refieren los chilenos a ‘regañar’-- porque se puso usted en riesgo. Los milicos nos habían ordenado que nos moviéramos a los que estamos aquí afuera. Mire usted alrededor. Esto está lleno de milicos e iban a disparar contra ustedes’. “Creo que la presencia de los tres o cuatro embajadores, y algunos otros diplomáticos que estuvimos ahí ese día, contribuyó a disminuir la posibilidad de que algo así pasara.” Por instrucciones de la Secretaría de Relaciones Exteriores, Gonzalo Martínez Corbalá dejó Chile pocos días después. Harald Edelstam permaneció hasta diciembre de 1973, cuando la junta fascista lo declaró persona non grata y se vio obligado a abandonar el país.

José Viñoles, uno de los chilenos a los que ayudó a llegar a Suecia, recuerda que cuando Edelstam volvió sólo los exiliados acudieron a darle la bienvenida. El 5 de octubre de 1988 Pinochet perdió la presidencia que usurpó durante 15 años gracias a un referéndum convocado por él mismo. (Un encabezado de la prensa chilena de la época describió su derrota de manera inmejorable: “corrió solo y llegó segundo”).

Edelstam no vivió lo suficiente para ver el final del régimen del dictador, pues murió el 17 de abril de 1989. Patricio Aylwin fue electo presidente de Chile el 14 de diciembre de ese año. Su heroísmo será recordado por primera vez en ese país la tarde del jueves 25 de este mes, en un acto que tendrá lugar en la Biblioteca Nacional, a pocas cuadras de distancia del Palacio de la Moneda.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Regulação é a única saída para a crise


Alison Raphael
IPS


O ex-presidente Ronald Reagan eliminou os controles governamentais sobre uma ampla gama de instituições e instrumentos financeiros, em consonância com sua fé no livre mercado. Reagan gostava de ilustrar sua política desreguladora com a frase: "o governo não é a solução, mas sim o problema". Em 1999, a Lei de Modernização de Serviços Financeiros eliminou controles financeiros impostos desde os tempos de Franklin Delano Roosevelt. As conseqüências estão aí.

A sangria financeira que, de Wall Street, espalhou-se pelos Estados Unidos e pela economia internacional, levantou o clamor por uma regulação mais estrita dos grandes atores da economia norte-americana. Na quinta-feira (18), a primeira preocupação foi a saúde dos bancos de investimentos de grande porte que sobreviveram à débâcle do início da semana, Goldman Sachs e Morgan Stanley, assim como a da empresa Washington Mutual, com sede na capital dos EUA.

Ao meio-dia, circulavam rumores que o Morgan Stanley poderia ser adquirido pela Wachovia Corporation, da Carolina do Norte, quarta maior cadeia bancária dos EUA, com presença em 21 estados e em seis países latino-americanos. Todas as sirenes de alarme dirigiram-se depois ao Federal Reserve (equivalente ao Banco Central) e ao Departamento do Tesouro (equivalente ao Ministério da Fazenda).

Após intensas reuniões e conversas telefônicas, o Federal Reserve injetou 55 bilhões de dólares nos bancos dos EUA e outros 180 bilhões nos bancos centrais de todo o mundo, com o objetivo de estabilizar os mercados financeiros. Essa ajuda e mais aquela dirigida ao American Insurance Group e às companhias hipotecárias Freddie Mac e Fannie Mae serão suficientes para conter a crise?

Os especialistas duvidam e insistem que a única solução a longo prazo é uma regulação mais estrita dos mercados financeiros. Essa é a posição, por exemplo, dos jornalistas especializados em economia da revista Time e do jornal The Washington Post, dois dos meios de imprensa mais influentes do país. “O temor se generalizou agora por que os mercados financeiros e muitas instituições de crédito não mostraram, durante anos, nenhum temor. Waal Street não tinha porque se preocupar com o tema das regulações”, escreveram Andy Server e Allan Sloan, da Time.

O The Washington Post acusou o governo de não controlar as maquinações das companhias Fannie Mae e Freddie Mac, cuja eminente quebra desatou a crise na semana passada. O resgate pelo Estado custou aos contribuintes bilhões de dólares. O Centro para o Progresso dos Estados Unidos, instituição acadêmica com sede em Washington, também atribuiu boa parte da responsabilidade à falta de regulações.

A “política de não-intervenção” do presidente George W. Bush “foi o que impulsionou a crise atual”, criticou a entidade. “Após sete anos e meio no cargo, os reguladores do governo Bush não reconheceram como a débâcle atual poderia ter sido evitada com um controle mais efetivo dos mercados financeiros, nem entendem que a resolução desta crise começa com os proprietários de habitações individuais”, escreveu Andrew Jakabovjcs no site do centro.

O professor de economia, James K. Galbraith, da Universidade do Texas, explicou que “a desregulação tem sido parte do credo do público e do setor cidadão” desde a presidência de Ronald Reagan (1981-1989). Durante o governo Bush, o hoje ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, lançou “ondas de finanças predadoras” no mercado imobiliário, no que foi acompanhado do principal assessor econômico do candidato presidencial republicano John McCain, Phil Gramm, “e pelos autodenominados reguladores que sistematicamente subverteram o interesse público”, acrescentou Galbraith.

Reagan gostava de ilustrar sua política desreguladora com a frase “o governo não é a solução, mas sim o problema”. O ex-presidente, falecido em 2004, eliminou os controles governamentais sobre uma ampla gama de instituições e instrumentos financeiros, em consonância com sua fé no livre mercado, compartilhada pela maioria de seus correligionários no Partido Republicano.

A aprovação, em 1999, da Lei de Modernização de Serviços Financeiros, proposta pelos legisladores republicanos Phil Gramm e Jim Leach, eliminou controles financeiros impostos desde os tempos de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945), o presidente que pôs fim à crise de 1929. Roosevelt proibiu a fusão entre empresas do setor bancário, de intermediação financeira e de seguros. O Serviço de Investigações do Congresso legislativo desaprovou os projetos desreguladores. Apesar disso, a maioria republicana conseguiu impô-los em 1999. Menos de dez anos depois, as conseqüências estão aí. A maioria dos analistas resiste em fazer prognósticos para o futuro, mas concordam que a turbulência e as tragédias familiares continuarão no médio prazo.

A especialista Nomi Prins, que trabalhou em empresas financeiras como Bear Sterns, Lehman Brothers e Goldman Sachs, reclama reformas urgentes. “Só se poderá consertar o que está torto com medidas radicais e com uma regulação decisiva”, sentenciou. A complexidade das instituições criadas pelas fusões à raiz da reforma de 1999 impede o controle por parte do Estado, advertiu. O Federal Reserve, por exemplo, não tem entre suas funções a supervisão do mercado de seguros.

Nas medidas tomadas por Washington na última semana não há diálogo nem estratégia, disse Prins a IPS. “Façam o que façam os políticos, nossa sociedade será mais pobre do que antes, porque o crédito será mais difícil de obter e os estadunidenses deverão aprender a viver com seus salários”, observaram Server e Sloan, na Time. “Durante um ano, o Federal Reserve e o Departamento do Tesouro acreditaram nos mercados com a esperança de que o sistema se recuperasse por si mesmo. Isso não aconteceu e o colapso do Lehman Brothers deve marcar o fim desse enfoque”, concluíram.

América Latina y el arca de Noé


José Steinsleger
La Jornada

En vísperas del bicentenario de nuestra independencia (acontecimiento que los corregidores y pajes letrados de América Latina festejarán con los auspicios del “rey de todas las Españas”) os damos la bienvenida a bordo de la nave en la que los americanos insumisos navegan desde mucho antes de entonces.

Henchidos de esperanzas, nuestros pueblos timonean ya su propia arca de Noé, navegando hacia puertos seguros donde se cree que la vida sin capitalismo salvaje es posible. En el horizonte algunos nubarrones indican lo contrario. Pero si enfocamos el catalejo con precisión, veremos que los vientos históricos soplan a favor.

En la nave los tripulantes debaten acerca de cómo será el nuevo mundo. Mas no el rumbo estratégico a seguir. Prueba de ello es que los piratas del viejo mundo andan preocupados: el lastre deficitario de su descomunal fuerza militar, junto con la irracionalidad de la doctrina de “guerra infinita” (fase superior, delirante y terminal del “libre mercado”) son también prueba de su intrínseca debilidad política.

Así cayó el imperio romano, cuando los Césares sólo atinaban a ofrecer pan y circo, a más de indiscriminadas y brutales represiones en masa. De perfiles frágiles y caóticos en apariencia, la carta de navegación de los pueblos indica el camino a seguir: o echamos ancla o naufragamos todos por igual, incluyendo a los condenados por la justicia divina.

Frente al demoledor y funesto mensaje de los medios, razonable es creer que tal como están las cosas no habría motivos para guardar esperanza de emancipación social alguna: esa increíble acumulación de riquezas en manos de 20 por ciento de la población mundial; aquel gasto militar suicida e incapaz de mantener su propio orden represivo; esta depredación ambiental en los cuatro puntos de la tierra; la descontrolada violencia que se ejerce so pretexto de la “inseguridad”, el “narcotráfico”, el “terrorismo”; esta terrible sensación de zozobra global.

Nada de eso intimida a los pueblos. Hasta hace pocos años podíamos seguir con atención a los periódicos y medios electrónicos que, por sobre sus ideologías, guardaban cierto respeto por sus lectores, radioyentes y televidentes. Con antelación, por ejemplo, nos dieron a saber que Vietnam ganaría la guerra contra la piratería internacional, y que el mundo colonial se derrumbaba como un castillo de naipes. Las polémicas del Congreso imperial, inclusive, nada más dejaban entrever.

Situación distinta es la de hoy. La casi totalidad de los portavoces mediáticos se han convertido en propagandistas de la mentira y el pensamiento cero. Se niegan a reconocer que el imperio ha perdido la guerra en Afganistán y en Irak; que el cálculo geopolítico no cierra en Irán y el entorno geográfico ruso; que el mundo árabe y Palestina ocupada combaten sin descanso; que la sociedad consciente de Estados Unidos (¡mucha atención con ella!) no se cruzará de brazos frente al marasmo universal.

Las luchas que “por abajo” y “por arriba” se libran en América Latina, ya no responden a gobiernos soberanos de corto vuelo, o a reducidos grupos de patriotas alzados en armas. En todos y cada uno de nuestros países, los movimientos políticos y sociales calientan progresivamente el escenario. Revisemos lo realizado en los últimos cuatro años:

• Humillación de George W. Bush en la cumbre de presidentes de Argentina que acabó con el ALCA,

• creación de la Unión de Naciones del Sur (Unasur), que busca la unión común de aduanas, moneda y pasaportes,

• fundación del Banco del Sur, con sede en Venezuela,

• propuesta de crear un Consejo de Seguridad subregional, sin Estados Unidos,

• salida de la base militar de Manta por decisión soberana del gobierno ecuatoriano,

• Nueva Constitución participativa y popular de Ecuador, en ciernes de ser aprobada,

• rechazo unánime a los planes guerreristas de Colombia en la subregión andina,

• apoyo de Nicaragua y Honduras a la iniciativa bolivariana del Alba,

• creciente combatividad del movimiento contra el neoliberalismo en Costa Rica,

• victoria de Fernando Lugo en Paraguay,

• posible triunfo del FMLN en El Salvador,

• fracaso de las maniobras desestabilizadoras del imperio en Bolivia,

• fortalecimiento de las relaciones de Argentina con la Unión Europea, China y Venezuela,

• vigoroso movimiento en defensa del petróleo en México, a más de las luchas de los electricistas, maestros y de los pueblos de Oaxaca y Chiapas,

Un informe reciente del Consejo sobre las Relaciones Exteriores de Washington asegura que Estados Unidos está perdiendo su hegemonía en la región y que hace falta “una nueva dirección”. Textualmente dice: “Si alguna vez hubo una era de hegemonía estadunidense en América Latina, se acabó”.

Un despropósito, claro. Aunque en sintonía con la ciega racionalidad de la piratería global, tan distinta a la de hace 500 años, cuando siquiera con un solo ojo se dio mañas para entender algo de la realidad, separándola de la imaginación.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Cuestión de principios


La decadencia del imperio americano


Cristian Carrillo
Página 12

El multimillonario rescate de AIG no calmó la crisis. Volvieron a caer las Bolsas de todo el mundo, mientras se derrumbó la principal caja de ahorro hipotecario de EE.UU. Los mayores bancos de inversión sobrevivientes ven caer sus acciones y buscan compradores.

“El que sigue... por aquella ventanilla, por favor”, se lee en los rostros de pánico de los principales protagonistas del crac de Wall Street. Luego del rescate a las hipotecarias Fannie Mae y Freddie Mac, la nacionalización de American Internacional Group (AIG), la quiebra del Lehman Brothers y la venta de Bear Stearn y Merrill Lynch, se sumó una nueva entidad en problemas ligada al mercado inmobiliario.

Se trata del Washington Mutual, la mayor caja de ahorro y préstamos para la vivienda de Estados Unidos, que desde ayer busca desesperadamente un comprador. En Gran Bretaña, en tanto, también el mayor banco hipotecario, Halifax Bank of Scotland (HBOS), está en quiebra y para evitar su derrumbe las autoridades inglesas buscan fusionarlo con el Lloyds TSB. En tanto, con efectos cada vez más efímeros en el mercado, la impresionante intervención estatal se está convirtiendo en una adicción de la administración Bush. La caída no se detuvo: ayer fue una nueva jornada de derrumbes generalizados de las bolsas en el mundo. Desde la apertura, todas las plazas bursátiles operaron con pérdidas y algunas debieron suspender la rueda para evitar seguir hundiéndose. Los principales índices neoyorquinos se derrumbaron un 4 por ciento.

El gobierno más fanático del libre mercado continuó lanzando una batería de medidas para tratar de frenar la multimillonaria sangría. Por caso, la autoridad que supervisa las actividades bursátiles en Estados Unidos, la SEC, endureció la regulación sobre la operatoria de acciones. Mientras, el Departamento del Tesoro emitió 40 mil millones de dólares en títulos públicos para proveer de liquidez a la Reserva Federal, que a su vez los destinará a entidades en problemas.

A la estatización de AIG por 85.000 millones de dólares, le sucedieron anuncios de nuevas medidas del gobierno de Bush para reducir la volatilidad del sistema financiero. Pero el mercado ya parece no dejarse seducir por rescates sobre la hora, y la atención sigue puesta en el alcance de la crisis. Los bancos Goldman Sachs y Morgan Stanley están bajo la lupa. Los inversores privilegian por estos días la liquidez y las colocaciones de corto plazo. Así, los activos de refugio cumplen un rol protagónico: oro y bonos del Tesoro de EE.UU. La cotización del oro ganó ayer 70 dólares en el mercado a término de Nueva York, su mayor escalada desde 1980. Los contratos de ese metal para entrega en diciembre cerraron la sesión en 850,50 dólares. Por su parte, la demanda de bonos del Tesoro de “muy corto plazo”, a un mes, condujeron a un rendimiento casi nulo de estos papeles. Estas obligaciones ofrecían ayer un retorno de entre 0,25 y 0,12 por ciento, el menor de toda su historia, según datos de la Reserva Federal.

Tras la suba de la víspera por el anuncio de rescate de AIG, todo volvió a la “normalidad” del actual contexto de incertidumbre. La información que provino del mercado refleja el pánico que atrapó al mercado y la extraordinaria crisis que se vive en las economía de Estados Unidos y Europa, potencias mundiales:

- El Banco alemán de Crédito para la Reconstrucción y el Desarrollo será investigado por transferir 426,5 millones de dólares al Lehman horas antes del anuncio de quiebra.

- El tercer banco británico Barclays llegó a un acuerdo para adquirir el conjunto de las actividades de Lehman Brothers por 1750 millones de dólares.

- La Security and Exchange Commission (SEC) endureció la supervisación de las operaciones en acciones que apuestan por la caída de la cotización de acciones.

- Morgan Stanley podría fusionarse con Wachovia, luego de que junto a Goldman Sachs sufrieran una caída a un cuarto de valor.

- El Washington Mutual, la mayor caja de ahorro y préstamos para la vivienda de Estados Unidos, se ofreció a la venta. Entre los interesados se cuenta el HSBC, JP Morgan, Wells Fargo y el Citigroup.

- Las bolsas europeas cerraron en baja: Londres perdió 2,3 por ciento; París, 2,14; y Francfort, 1,8.

- El Ministerio de Finanzas ruso anunció que inyectará 350.000 millones de rublos, unos 10.000 millones de euros, en el sector bancario.

- La bolsa rusa se vio obligada a suspender su actividad luego del desplome de sus acciones.

- El Tesoro de Estados Unidos adjudicó de 40.000 millones de dólares en bonos a 35 días, para proveer de liquidez a la Fed.

- Wall Street volvió a operar en baja en sus principales indicadores: el Dow Jones Industriales cayó 4,1 por ciento y el Nasdaq Composite 4,9.

- La Bolsa de San Pablo cerró con un retroceso en el índice Bovespa de 6,7 por ciento, mientras que el real tuvo una depreciación de 2,6 por ciento frente a dólar.

- En la Argentina, las acciones perdieron 5 por ciento, los bonos, sobre todo los nominados en dólares más de 10 por ciento, y el dólar sumó un nuevo centavo a 3,12 pesos.

El gobierno estadounidense difundió un comunicado donde reconocen “preocupación” por el contagio sobre otros bancos. La vocera de la Casa Blanca, Dana Perino, defendió además la decisión de salvar a AIG y dejar hundir a Lehman Brothers, explicando que el gobierno está manejando “caso por caso”. La intervención estuvo justificada porque “algunas de estas compañías son tan grandes que permitir su caída podría causar graves daños a la economía”, manifestó Perino. En cambio, las reacciones políticas, sobre todo desde el sector más conservador, en un país donde el Estado accionista no existe, provocó una catarata de críticas.

Por el momento, de los cinco bancos de inversión más grandes de Estados Unidos antes de que la crisis financiera sacudiera los cimientos de Wall Street, sólo Goldman Sachs y Morgan Stanley continúan, por ahora, eludiendo la quiebra. La explosión financiera se cobró a Lehman Brothers y la venta de Merrill Lynch a Bank of America y de Bear Stearns al JP Morgan Chase. De hecho, Merrill Lynch era un sobreviviente de la Gran Depresión que no pudo superar la crisis subprime. En Wall Street evalúan que los dos bancos de inversión que quedan necesitarán asociarse con otras entidades bancarias, cuyos depósitos son más estables, para garantizar su supervivencia.

UNASUR o el inicio de un nuevo camino


Julio Sau Aguayo
Centro Avance

La primera constatación “sudamericana” que es posible realizar es que la desaparición del mundo bipolar que había caracterizado a la guerra fría no dio paso a un mundo unipolar dominado por la superpotencia de los Estados Unidos ni al fin de la historia, como algunos pretendieron. Dicha pretensión existió efectivamente, pero fue de corta duración y dio paso pronto a la nueva situación que caracteriza a la sociedad internacional contemporánea: la multipolaridad.

El 23 de mayo de este año los Jefes de Estado de América del Sur suscribieron en Brasilia el Tratado Constitutivo de la Unión de Naciones Suramericanas, UNASUR. El objetivo esencial de este instrumento jurídico internacional multilateral, que debe ser ratificado por los Congresos de los países miembros, es convertir a América del Sur en un actor con voz propia en la sociedad internacional del siglo XXI, sin abandonar la meta de unir a toda América Latina en un mediano plazo. En Chile, cuya Presidenta es a la vez Presidenta Pro Tempore de UNASUR, el tratado ha ingresado a principios de septiembre al Congreso para su ratificación, en tanto el país se prepara para recibir a los Jefes de Estado de Argentina, Bolivia, Brasil, Colombia, Ecuador, Guyana, Paraguay, Perú, Suriname, Uruguay y Venezuela que celebrarán en la segunda quincena de octubre una reunión Cumbre en Viña del Mar. De este modo, Chile aspira a ingresar por primera vez como Estado miembro de pleno derecho a una instancia de integración sudamericana que deja la puerta abierta para que -con el consenso de los demás miembros y pasado cierto plazo- todos los Estados latinoamericanos que así lo decidan puedan postular a integrarse a UNASUR.

Construir, a lo largo de un proceso y de manera participativa y consensuada, un espacio de integración y unión en los aspectos culturales, sociales, económicos y políticos entre sus pueblos, otorgando prioridad al diálogo político y a la cooperación e intercambio de experiencias en materias de políticas energéticas, sociales, de infraestructura, financieras, de defensa, de complementación económica y comercial, de medioambiente y a una política migratoria común son algunos de los objetivos principales de esta nueva instancia de integración sudamericana. Su sola lectura nos acerca a la dimensión de las tareas emprendidas y nos permite diferenciar UNASUR de cualquiera de las otras instituciones de integración existentes en el ámbito sudamericano o latinoamericano, centradas sólo en el comercio internacional. Lo avanzado en tales instancias, como las de la CAN y MERCOSUR -así como sus eventuales convergencias futuras-, están llamadas a formar parte y enriquecer este proceso, de carácter más integral.

Dos factores confluyen para potenciar la creación de UNASUR y nos permiten sostener que no nos encontramos en presencia de una mera reedición del proverbial entusiasmo latinoamericano por la primacía de los instrumentos legales en materia de integración, sino que asistimos a la creación de una institución de nuevo cuño y adecuada a los requerimientos de la realidad sociopolítica y económica del siglo XXI, la que puede convertirse en el inicio del proceso de integración que América Latina requiere para constituirse en un actor de la sociedad internacional de este nuevo milenio. Nos referimos a una visión compartida a grandes rasgos entre los gobernantes sudamericanos sobre las características principales del contexto internacional en el cual sus respectivos países se encuentran insertos, por un lado, y por el otro la existencia de gobiernos de tendencia mayoritariamente progresista los que, conservando y respetando sus diferencias nacionales y sus diversos énfasis políticos e ideológicos, comparten un común apego a la democracia, a la lucha contra la pobreza, la desigualdad y la exclusión y un inédito manejo macroeconómico prudente destinado a evitar que la inflación o el déficit de las cuentas nacionales impidan el logro del desarrollo sustentable y de la justicia social. Examinemos separadamente cada uno de estos dos verdaderos pilares del proceso de integración sudamericana, ya que su cabal comprensión será un factor clave para que los demás elementos del verdadero desafío que implica UNASUR puedan irse resolviendo en su complejidad intrínseca.

Los acontecimientos que han transformado radicalmente la sociedad internacional en los últimos 20 años y que se inician con la caída del muro de Berlín y el desplome del mundo socialista son demasiado numerosos y complejos como para intentar una descripción de ellos en un trabajo como éste. Lo que sí resulta pertinente es señalar algunas de las características que -como resultado del proceso de transformaciones señalado– presenta la sociedad internacional globalizada de hoy y que pueden razonablemente visualizar los gobernantes sudamericanos gracias a las numerosas reuniones cumbres, a los trabajos de sus Cancillerías y a sus diálogos políticos informales, mucho más frecuentes hoy que en el pasado.

La primera constatación “sudamericana” que es posible realizar es que la desaparición del mundo bipolar que había caracterizado a la guerra fría no dio paso a un mundo unipolar dominado por la superpotencia de los Estados Unidos ni al fin de la historia, como algunos pretendieron. Dicha pretensión existió efectivamente, pero fue de corta duración y dio paso pronto a la nueva situación que caracteriza a la sociedad internacional contemporánea: la multipolaridad. En ella, si bien los Estados Unidos siguen siendo la potencia hegemónica en lo militar, comparte el poder en la economía y la política mundial con países emergentes como China, India y ahora Rusia y con boques regionales o instancias de integración económica como la Unión Europea y la ASEAN. Y las potencias medianas, como Brasil y África del Sur buscan reagruparse en función de sus intereses ya sea en alianzas de intereses económicos como el G 8 o impulsando nuevas instancias de integración económica, como el MERCOSUR o UNASUR en el caso de Brasil.

Lo anterior reviste especial importancia para América del Sur porque es bien conocido el rol desempeñado por el gobierno norteamericano en la historia reciente de la subregión. El desprestigio político que representó para Washington el apoyo a las dictaduras militares de los 70 y 80 y el fracaso de su intento por imponer en la zona el ALCA y el Consenso de Washington, unido a la concentración casi exclusiva de su política exterior en Afganistán, Irak, Medio Oriente y su guerra contra el terrorismo, constituyeron factores favorables para el avance de las fuerzas progresistas en América del Sur en los últimos cinco años. Y si a ello agregamos que las economías de la subregión han vivido años de crecimiento sostenido gracias al boom de las materias primas, que considerada en su conjunto la región posee abundantes recursos energéticos y que tiene una importante producción de alimentos, podemos concluir que la multipolaridad de la sociedad internacional y la apertura de América del Sur a la economía internacional es aliciente importante para su integración, y con mayor razón en esta etapa de crisis energética y alimentaria mundial. Naturalmente que dicha integración regional exige la superación de la desigualdad que sigue caracterizando las sociedades nacionales sudamericanas y latinoamericanas en general. Es decir, se requiera de un proceso de integración nacional que impida la exclusión de las mayorías para construir la América Latina integrada del siglo XXI.

Dicho contexto internacional se completa con una situación que si bien es coyuntural, puede resultar gravitante para América Latina. Nos referimos al inminente fin de la era de los neoconservadores en el gobierno de los Estados Unidos, el término constitucional de la dupla Bush-Cheney o Cheney-Bush y a los cambios que pudiere experimentar la política norteamericana hacia la región con el eventual triunfo del candidato demócrata, e incluso del republicano. Aunque conviene ser cautelosos ante el tema, considerando nuestra experiencia histórica y los escasos éxitos que registran a su haber quienes se atreven a realizar predicciones en política internacional, todo parece indicar que al menos podemos esperar que se mantenga el statu quo de la era Bush en las relaciones USA-América Latina, tal vez limitando lo que el especialista norteamericano en Seguridad Nacional Craig A. Deare llama “la remilitarización” de la política norteamericana en Latinoamérica, que según lo afirma en su artículo de Foreign Affairs en español, vol. 8, número 3, 2008, se ha producido vía fortalecimiento de las actividades del Comando Sur y debilitamiento institucional paralelo del Departamento de Estado en la región.

Se trata de una reivindicación modesta, pero importante y que dejaría más espacio para el juego democrático y el desarrollo de la integración de América Latina. Además, una presencia norteamericana menos militarizada y con mayor propensión al soft power permitiría que las relaciones políticas, económicas y culturales con la Unión Europea, China, India, Asia Pacífico, África y Medio Oriente fluyeran en forma natural y más en consonancia con un mundo cosmopolita o globalizado. Aunque en este punto hay que ser autocríticos y reconocer que una buena parte de lo que podemos llamar “reduccionismo pronorteamericano” es ideológico y proviene de influyentes círculos dirigentes de nuestros propios países.

La segunda constatación la hemos venido elaborando a medida que el proceso de integración iniciado por UNASUR sigue su camino ascendente, superando obstáculos que parecían insalvables y que son permanentemente sobredimensionados por unos medios de comunicación latinoamericanos que parecen formar un frente virtual anti integración y anti reformas sociales en la región. Esta constatación puede formularse en varios puntos:

1. La democracia ha sido incorporada no solamente a los textos constitucionales de los países sudamericanos, sino que existe convicción generalizada sobre su condición de régimen político irreemplazable, sin perjuicio del reconocimiento de sus debilidades en insuficiencias en materia de mecanismo de justicia social.

2. Incorporado a la Carta Democrática de la OEA, del MERCOSUR y de la CAN, el reconocimiento de la democracia y el irrestricto respeto a sus mecanismos constituye una especie de seguro en contra de los golpes de Estado que todos los países se comprometen a respetar, lo que ya ha ocurrido ejemplarmente en varios casos.

3. Compartiendo la posición común de reconocer que las sociedades sudamericanas deben reducir al mínimo la pobreza existente, luchar en contra de la exclusión social y reducir la desigualdad que aún subsiste en nuestros países por los caminos democráticos que cada país defina como más idóneos y acordes con su propio desarrollo político y su propia historia, los Estados concurren al proceso integracionista con sus especificidades y puntos de vista propios, buscando la cooperación y el esfuerzo conjunto para superar los problemas comunes.

4. Las asimetrías naturales existentes entre países de distinto tamaño y con economías de diferente peso y los naturales contrapesos políticos en busca de equilibrios de poder al interior de UNASUR se han venido desarrollando en forma armónica y todo parece indicar que este proceso de integración, que tiene como pilares el diálogo político y la integración energética, la de infraestructura, la social y la financiera y como agregados interesantes la cooperación en defensa y en políticas migratorias y económicas ha tenido un buen punto de partida. Sólo cabe esperar que se consolide institucional y políticamente para que enfrente en buena forma los desafíos que tiene por delante.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

La debacle financiera de Estados Unidos


Nouriel Roubini
Página 12

Roubini es el economista más polémico de difusión masiva de Estados Unidos. Desde su blog viene adelantando la debacle financiera por la especulación con los créditos subprime desde 2004. Sus pronósticos son terribles para el sistema bancario.

El economista Nouriel Roubini no es muy querido en Wall Street. Por ese motivo es tan interesante su análisis de la debacle, además de que ha venido anticipando desde 2004 la crisis de la subprime. Roubini es profesor de la escuela de negocios Stern de Nueva York y tras la quiebra de Lehman el polémico economista repitió en su blog del Global EconoMonitor las razones que considera que hacen que ésta sea la peor crisis financiera desde la Gran Depresión y la peor recesión de Estados Unidos en décadas. Ayer publicó La peor crisis financiera desde la Gran Depresión, cuyos párrafos principales son los siguientes:

- “La crisis financiera implicará pérdidas crediticias de por lo menos un billón de dólares, pero es más probable que lleguen a los 2 billones. La crisis financiera y bancaria será severa, durará varios años y conducirá a una dura y persistente crisis de liquidez y de crédito. Será la recesión estadounidense más grave en décadas. Cuando los efectos temporarios de la baja de impuestos desaparezcan, los consumidores estarán tambaleando en la cuerda floja. Es el comienzo de la declinación del Imperio Americano.”

- “El precio de las acciones está muy bajo y hay riesgo de que se produzca un crac en ese mercado. Lehman y Merrill se fueron y dentro de poco Morgan Stanley y Goldman Sachs necesitarán también socios más grandes con bolsillos más profundos. La mayor aseguradora del mundo, AIG, está al borde de la bancarrota y docenas de otros bancos están en la misma situación. Está comenzando una corrida bancaria silenciosa a medida que se extiende el nerviosismo de los depositantes.”

- “El rescate financiero del Tesoro a Freddie y Fannie es socialismo para los ricos, los que tienen contactos y Wall Street. Es la continuación de un sistema corrupto donde las ganancias se privatizan y las pérdidas se socializan.”

- “Cientos de bancos pequeños que tienen en promedio el 67 por ciento de sus activos en bienes inmuebles van a quebrar. Docenas de grandes bancos nacionales y regionales, que están en la misma condición dada su exposición en ese segmento del mercado, también van a quebrar. Inclusive algunos grandes bancos están en una situación de semiinsolvencia y mientras que se los considera demasiado grandes para caer, su rescate con dinero de la Corporación Federal de Seguros de los Depósitos Bancarios (FDIC, por sus siglas en inglés) será extremadamente costoso.”

- “En la cumbre de la crisis financiera de 1990-1991 cuando muchos bancos, como el Citibank, eran insolventes, la Fed utilizó herramientas parecidas a las que se usan ahora para rescatar a esas instituciones de la quiebra. Si una caída del 5 por ciento en el precio de las viviendas puso al Citi en una situación de insolvencia, qué efectos tendrá una caída del 30 por ciento, como la que se espera.”

- “La FDIC dispone sólo de 53 mil millones de dólares y se quedará seguro sin dinero cuando los bancos quiebren y se les deba pagar el seguro a los depositantes.”

- “El precio de las acciones en EE.UU. y en el exterior caerá mucho más. En una recesión típica estos precios caen en promedio 28 por ciento desde el pico. Pero ésta no es una recesión común, los precios de los activos caerán alrededor del 40 por ciento en relación con su máximo.”

- “El resto del mundo no se va a desacoplar de la recesión norteamericana. Se va a reacoplar, ya hay doce desarrolladas que están en camino a un aterrizaje forzoso recesivo. Por esta importante desaceleración global el petróleo, la energía y los commodities caerán entre 20 y 30 por ciento con respecto a sus picos de burbuja.”

- “Los cortes de tasa que pueda aplicar la Fed tendrán pocos efectos sobre los problemas de solvencia y crédito. La economía no sufre sólo de falta de liquidez, más graves son los problemas que la Fed no puede atacar. Así la tormenta financiera del siglo no puede ser contenida.”

El liderazgo de Michelle Bachelet


Fernando de la Cuadra
Gramsci e o Brasil

Hay que reconocerlo, luego de deflagrada la crisis en Bolivia, la presidenta Michelle Bachelet tuvo la elogiable iniciativa de convocar a una reunión de emergencia al conjunto de los mandatarios de países que integran la Unión de Naciones Suramericanas (UNASUR).

En su calidad de presidenta pro tempore de este organismo, Bachelet tenía la opción de mantenerse al margen del conflicto boliviano — bajo el argumento de no inmiscuirse en los asuntos internos de otro país — o de otorgar un mayor protagonismo a la recién creada organización en la defensa de la democracia y en la generación de condiciones para llegar a acuerdos pacíficos entre y al interior de los países miembros.

Bachelet no dejó escapar esta oportunidad para asumir su papel con personalidad. En una decisión osada y con autoridad, la presidenta chilena decidió llamar a cada uno de sus pares el viernes por la tarde, para apoyar concertadamente los esfuerzos de pacificación del país altiplánico y, fundamentalmente, para que el bloque de países se posicionara en favor de una salida democrática e institucional al conflicto de Bolivia.

En esta iniciativa, la mandataria salió al encuentro de una serie de afirmaciones — difundidas casi desde el día que asumió su mandato — de que poseería falta de liderazgo e incapacidad para gobernar los destinos del país. También se ha señalado su poca altura de “estadista”, y la derecha viene repitiendo hasta el cansancio que su estilo de gobernar no crea confianza entre los distintos sectores de la sociedad.

Esta campaña de descrédito comenzó en marzo de 2006, cuando Bachelet recién había asumido sus funciones en La Moneda, y fue aumentado con el paso del tiempo, en la medida que el conflicto con los estudiantes secundarios y el fracaso del sistema de transporte urbano (Transantiago) no parecían más que confirmar la imagen de una gobernante sin “don de mando” y sin autoridad para “tomar las riendas” del país. A diferencia de Lagos, que aparecía como una figura paterna con autoridad, Michelle Bachelet fue concebida como la madre cariñosa que no resuelve nada, una imagen que, de tan difundida, acabó naturalizándose entre los ciudadanos.

Y ahora, que se puede decir de Bachelet luego del éxito obtenido por la Cumbre extraordinaria? Que no posee capacidad de liderazgo? Que no tiene porte de estadista? O que sufre de parálisis decisoria, como llegó a apuntar hace poco un diputado de la derecha?

Además, es necesario destacar el valor político que posee la iniciativa de la mandataria, en términos de recuperar la tradición y el papel desempeñado por Chile en los diversos foros internacionales en defensa de la democracia junto al resto de las naciones del planeta. Esa tradición es la que se expresó en la elección de Allende y en la vía pacifica al socialismo, esa tradición es la que se consolida a pesar de los 17 años del interregno autoritario que asoló al país. Por eso, está cargado de simbolismo el gesto de la presidenta Bachelet de llevar a los convidados a visitar el Salón Blanco Salvador Allende, lugar que era el despacho y donde pasó sus últimos minutos el ex-gobernante. Me atrevería a decir que, a pesar de las divergencias existentes entre los representantes, la visita a esa sala marcó un momento de profundo compromiso con los principios de la ética, la fraternidad, la paz y la democracia, tan caros al Presidente Allende.

Por su parte, la reacción de los partidos de oposición ha sido casi inmediata. A pocas horas de terminada la reunión de UNASUR, los presidentes de los partidos de la Alianza por Chile, Juan Antonio Coloma (UDI) y Carlos Larraín (RN), denunciaron lo que ellos denominan una “falta de equilibrio” en las conclusiones a que arribaron los nueve Jefes de Estado y los tres cancilleres presentes en la cita. Para estos personeros, la Cumbre fue incompleta, pues faltaron los representantes de los grupos opositores al gobierno de Evo Morales, declarando finalmente su escepticismo sobre los efectos futuros que pueda arrojar el encuentro.

Se puede conjeturar algún impacto electoral del éxito de la minicumbre, aunque ello no sea del todo relevante. Pensamos, que independientemente de los resultados que pueda tener la declaración conjunta de los países de UNASUR en la resolución de la crisis boliviana, en el plano interno Michelle Bachelet sale fortalecida y legitimada como una estadista que tuvo la altura de miras para vislumbrar que la organización que preside debe pronunciarse siempre, indefectiblemente, en pos de los valores democráticos y la defensa de las instituciones que las sociedades se han dado para dirimir pacíficamente sus disputas y conflictos de intereses.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Para evitar otro Allende


Daniel Miguez
Página 12

Se creó una comisión para investigar la masacre de Pando y una para facilitar el diálogo. Morales pasó un documental. Evitaron hacer una referencia explícita a Estados Unidos. Dijeron que no aceptarán ninguna “ruptura territorial”.

Después de más de cinco horas de debate, los presidentes de la Unión de Naciones Suramericanas (Unasur) terminaron alumbrando un documento de apoyo irrestricto al gobierno del presidente de Bolivia, Evo Morales, y la creación de una comisión que acompañará a la mesa de diálogo entablada por el gobierno boliviano con los prefectos rebeldes que desataron una violenta crisis en su país.

Todos prefirieron resaltar lo importante de haber llegado a un acuerdo unánime sobre la posición a tomar respecto a la crisis en Bolivia. La presidenta argentina, Cristina Kirchner, al abandonar la sede del gobierno chileno, donde se realizó la cumbre, le dijo a los periodistas que montaban guardia en la puerta que “lo de esta tarde ha sido un aporte muy importante de Unasur frente a la crisis en Bolivia y en defensa de la democracia” y adelantó que se formará una comisión para investigar la masacre de Pando, donde fueron asesinados unos 30 militantes del oficialismo, por –según el gobierno de Morales– paramilitares que respondían al prefecto (gobernador) de ese departamento, Leopoldo Fernández.

“La comisión que se formará a solicitud de Bolivia para ir a investigar la masacre de Pando es un importante logro”, dijo Presidente y tras una pausa agregó: “Hubiera sido preferible que nunca hubiera existido esta reunión y menos esta comisión, pero las cosas no son como uno quiere”.

La creación de una comisión para investigar la masacre de Pando en la que hizo hincapié la Presidenta, se debe a una propuesta que ella misma hizo en el plenario de presidentes, según contaron a Página12 funcionarios que estuvieron en el recinto en el que no se permitió el ingreso a la prensa.

“Cristina insistió mucho en mantener a rajatabla la defensa de los derechos humanos e investigar hasta las últimas consecuencias esos crímenes. Que además se dieron en el marco de una enorme discriminación racial, para que no queden impunes”, dijo a este diario un funcionario argentino. La propuesta inmediatamente fue apoyada por el par de Uruguay, Tabaré Vázquez, quien señaló que suscribía en todo lo que había dicho Cristina y pidió que se incluyera el pedido en el documento de la cumbre. La reunión fue tan cerrada que cada presidente estaba acompañado por una mínima comitiva. Junto a CFK sólo estaban el canciller Jorge Taiana, el secretario Legal y Técnico, Carlos Zannini, el embajador argentino en Chile, Ginés González García, y el embajador argentino en Bolivia Horacio Macedo.

La cumbre comenzó con un largo documental de cinco capítulos que aportó Morales –al que denominó “golpe civil y prefectural”– con imágenes de los canales de la televisión privada boliviana (en general opositores al oficialismo), donde aparecían los prefectos rebeldes haciendo descalificadoras declaraciones y se veían fuertes imágenes de violencia hacia los seguidores de Morales.

El film causó una gran impresión en todos los presidentes y algunos hasta consideran que marcó en buena medida el rumbo de la cumbre. Su extensión, sumado al mucho más largo discurso del presidente de Venezuela, Hugo Chávez, consumieron buena parte de la cumbre en la que hablaron los nueve presidentes presentes.

El primero fue Morales, que expuso detalladamente lo que considera un indudable intento de golpe de Estado. Hubo consenso entre los presidentes en remitirse a tratar de hacer lo que les demandara el presidente boliviano sin ir más allá, tratando de hacer equilibrio entre el fuerte apoyo al gobierno democrático y la no injerencia en asuntos internos de Bolivia. El abanderado de esta posición fue el presidente de Brasil, Luis Inácio Lula Da Silva, pero tuvo amplio eco en casi todos los demás.

Cuando terminó de hablar Morales, Lula le preguntó si pensaba hacer prevalecer el diálogo o la fuerza y en la misma pregunta le aconsejo priorizar el diálogo sin abandonar la fuerza.

Durante muchas horas sólo circuló agua mineral, dos rondas de café y platos con galletitas que a medida que pasaba el tiempo terminaron siendo muy disputadas por lo ya famélicos presidentes. De hecho, en un momento CFK pasó frente a la cocina presidencial, saludó a los mozos y los cocineros y se llevó de regalo un sándwich de pavita, trofeo preciado a las diez de la noche. Fue cuando regresaban de una recorrida por el sector de la oficina en la que murió Salvador Allende, en la que la anfitriona, Michelle Bachelet hizo de guía.

Hubo más amabilidad que enojos en la cumbre, aunque no faltaron algunos cruces y disidencias. Una de ellas fue sobre la intención de Chávez de incluir un párrafo crítico al rol de Estados Unidos en la crisis boliviana. Para la sorpresa de algunos, el primero en desaconsejar eso fue el presidente de Ecuador, Rafael Correa. Le siguió Lula, que pidió que la declaración se circunscribiera a lo que podía aportar la Unasur para la solución del conflicto. En la misma línea se anotaron casi todos los demás presidentes que hablaron. Incluso Morales, tampoco acompañó al venezolano.

La otra diferencia fue sobre una propuesta de la anfitriona y presidenta pro-témpore de la Unasur, Michelle Bachelet, de darle participación en el documento a la OEA, cuyo presidente, su compatriota José Miguel Insulza, estaba presente en la cumbre. En este caso, también Lula tomó la iniciativa para oponerse y lo siguió con entusiasmo Chávez, quien con su lengua picante dijo que “todavía estoy esperando el pronunciamiento de la OEA sobre el golpe de Estado que me dieron en 2002”. Chávez cruzó algunas ironías más con Insulza y también fueron y vinieron algunos chistes sarcásticos entre el venezolano y el presidente de Colombia, Alvaro Uribe. De todas maneras tuvieron la suficiente gracia para despertar más sonrisas que incomodidad entre los otros presidentes.

Unasur respalda por unanimidad a Evo Morales


Los presidentes acordaron la creación de tres comisiones: una para investigar la masacre, otra de apoyo y asistencia a Bolivia y una tercera que apoye la mesa de diálogo, todas coordinadas por Bachelet en su calidad de presidenta de la instancia. La mandataria dijo que tras este encuentro la Unasur quedaba más consolidada. La declaración alude al golpe de Estado ocurrido en Chile el 11 de septiembre de 1973, a modo de antecedente de lo que está ocurriendo hoy en Bolivia.

Tras reunirse por casi seis horas en el salón Montt Varas del palacio presidencial La Moneda y sostener un "break" que sirvió para visitar el salón Blanco Presidente Salvador Allende, los nueve Mandatarios y el canciller peruano agrupados en la Unión de Naciones Suramericanas (Unasur) acordaron solidarizar con el gobierno de Evo Morales y dar "su más pleno y decidido respaldo a Bolivia". Los presidentes que asistieron a la primera reunión de emergencia de Unasur acordaron enviar una misión a Bolivia "para realizar una investigación imparcial" de la matanza ocurrida en el departamento de Pando, de tal forma de asegurar que estos hechos no queden en la impunidad.

La medida fue solicitada por el propio Presidente Evo Morales, según establece el documento. La declaración de nueve puntos, aprobada por unanimidad, expresa su más pleno y decidido respaldo al Gobierno constitucional de Evo Morales, advierte que los gobiernos de Unasur rechazan enérgicamente cualquier intento de golpe civil que atente contra la unidad de Bolivia, condenan el ataque y toma de instalaciones y exigen la pronta devolución de éstas como condición para establecer un proceso de diálogo.

Los mandatarios también expresaron una firme condena a la masacre en el departamento de Pando y llamaron a que todos los actores sociales y políticos hagan esfuerzos para que cese la violencia.

La declaración alude al golpe de Estado ocurrido en Chile el 11 de septiembre de 1973, a modo de antecedente de lo que está ocurriendo hoy en Bolivia. La declaración fue leída por la Presidenta Bachelet a las 22:20 horas, cuando ya se habían retirado varios de los convocados.

Morales se mostró sorprendido y emocionado por la solidaridad de los doce gobiernos que firmaron la declaración y destacó que "esta es la primera vez en la historia sudamericana" que la región se ocupa de sus propios problemas sin la injerencia de terceros.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Bolivia: cuando lo irracional es sólo apariencia


Claudia Peña Claros
Bolpress

Si bien ninguno de los prefectos opositores ratificados en Bolivia ha logrado igualar, en sus respectivas regiones, el porcentaje de votación a favor de Evo Morales a nivel nacional, el apoyo local que tienen es indiscutible. Aquí analizaremos de qué manera el reclamo autonomista de la Santa Cruz opositora encuentra su debilidad en la misma fuente de donde extrae su fortaleza, y exploraremos posibles razones para la dificultad de este actor en superar el ‘empate catastrófico' en el que se debate el Estado boliviano.

A pesar de todos los avances en materia de legitimidad regional, la clase dominante cruceña parece seguir acorralada por el mismo muro sobre el cual se eleva para interpelar al país: la región. Este muro le pone límites y cerca las posibilidades del cruceñismo, tanto en el plano discursivo como en el plano práctico y concreto, impidiéndole transformarse en un referente nacional capaz de inclinar la balanza a su favor.

En el plano discursivo, el ‘ser cruceño' es el filón del cual extrae su vitalidad y capacidad de convocatoria, la base sobre la cual funda su justificación histórica y enarbola su bandera reivindicativa. Es desde esta centralidad identitaria que la clase dominante efectúa su reclamo al ‘resto del país'. Es la base de su poder de seducción, a partir de la cual teje sus demandas. El ‘ser cruceño' es el ser mismo de la reivindicación autonómica, la cual se debilitaría de no existir esta afiliación regional definitiva y diferenciadora.

Sin embargo, una vez llegado a los límites departamentales, el poder regional se diluye, y necesita apostar a reproducir en otras regiones el mismo tipo de discurso identitario fuertemente anclado en lo departamental. Y, si bien es cierto que en Bolivia el Estado a medio construir ha favorecido la existencia de sentimientos regionales sustentados por fuera de la pertenencia nacional, no todos los departamentos que actualmente conforman la ‘media luna' comparten con Santa Cruz las características que fortalecen su regionalismo: una corriente de reconstrucción histórica que justifica la demanda de autonomías, los mitos del desarrollo cruceño como logro puramente local sin participación estatal, un pasado reciente de modernización urbana y en menor medida departamental vivido como experiencia colectiva y sobre el cual se construye la cohesión social actual, y una práctica ya tradicional de invisibilización de los quiebres, contradicciones y desigualdades al interior de la población.

Estos aspectos que confluyen en la fortaleza del discurso hegemónico cruceño, en otros departamentos se debilita por una recuperación histórica que hace más énfasis en la diferenciación de clase o en la pertenencia urbana / rural por ejemplo; por un desarrollo regional que sigue siendo un sueño, una deuda no pagada antes que una fuente de orgullo; por una desagregación social provocada por la dispersión poblacional o por flujos migratorios; y por prácticas discursivas que desde hace tiempo vienen interpelando las desigualdades internas.

De este modo, a partir de la frontera departamental, el ‘ser cruceño' ha debido ser traducido en cada región en un ‘ser tarijeño', ‘ser pandino', etc., por las diferentes elites locales en la medida de sus posibilidades, no pudiendo alcanzar en algunos casos el alto grado de apoyo que la versión original tiene en Santa Cruz.

La reivindicación autonomista, basada en una pertenencia identitaria específica, pierde empuje una vez traspasa los límites departamentales. Pero aún más. Esta limitación se hace incluso más definitiva desde el momento en que el reclamo de autonomía es planteado como barricada de contención a las reformas estatales planteadas desde los movimientos sociales y desde el gobierno de Evo Morales. Así, la reivindicación regional pasa de ser un reclamo al Estado, a ser un reclamo contra el gobierno actual específico, y genera por lo menos sospecha entre los que apoyan al gobierno y/o al proceso de cambio que éste busca implementar.

Por otro lado, las intervenciones públicas recientes del prefecto cruceño Rubén Costas, sembradas de frases incendiarias y adjetivos insultantes contra autoridades estatales, no hacen otra cosa que convencer aún más a los convencidos de uno y otro lado. En vista de que los resultados del referéndum revocatorio arrojaron un importante crecimiento de votos favorables al gobierno en las regiones reclamadas como autonomistas, y en vista de que los ciudadanos de Santa Cruz (sobre todo, y de toda la ‘media luna' en general) viven en estado de apronte desde hace más de dos años para enfrentar el inminente ‘avasallamiento indígena aymara', un prefecto exacerbado, de voz ronca y barba descuidada puede dar más impresión de inestabilidad y violencia que un Presidente Morales calmado y conciliador, tal como se mostró el 10de agosto al final de la jornada electoral.

Una población civil angustiada con el futuro inmediato y cansada de conflictos y violencia, bien puede alimentar todavía más la corriente que, por estar mejor apegada a la institucionalidad vigente, favorece al gobierno central. Al respecto, no podemos olvidar el significativo ausentismo [1] (alrededor del 40%) que empañó la votación a favor del estatuto autonómico el pasado 4 de mayo. Pese a la omnisciente propaganda regional, mucha de la población se abstuvo de participar en un proceso cuestionado por ilegal y no transparente, y en el cual la dirigencia cruceña insiste una vez pasado el revocatorio, convocando a elecciones de representantes departamentales según esos mismos estatutos, y planteando la creación de una fuerza represora regional.

Este repetido rebasamiento de lo legal puede a la larga jugar en contra del movimiento regional (puede ser bloqueado desde el afuera de la legalidad), y a la corta puede restarle apoyo de una clase media siempre predispuesta a la estabilidad y a la certidumbre políticas.

En el plano práctico y concreto, vemos una dirigencia cruceña rabiosa y decidida en cuanto a sus demandas, pero errante y confundida en cuanto a sus mecanismos de presión. La huelga de hambre instalada en la plaza días antes del revocatorio, que exigía la devolución de los recursos del IDH, confiscados por el gobierno central para incrementar el bono a las personas de la tercera edad, y que ya contaba con cientos de ayunadores, se mantuvo firme durante el referendo, pero días después fue sorpresivamente suspendida sin haber logrado ningún resultado visible en cuanto a sus reclamos. Esta huelga inesperadamente suspendida es comparable con aquella otra de diciembre de 2007 contra la Asamblea Constituyente, que fue suspendida poco antes de Navidad, sin haber logrado tampoco ninguna de sus reivindicaciones.

Y es que a nivel práctico, la dirigencia cruceña no ha encontrado la manera de hacerle mella a un Estado nacional cuyo centro se encuentra a un millar de kilómetros de distancia, en un espacio físico blindado por una población mayoritariamente afín al gobierno de Morales. Las huelgas de hambre en Santa Cruz, que en ambas ocasiones han sido lideradas por los hombres más representativos del movimiento, que fueron rápidamente engrosadas por grupos afiliados o dependientes de instituciones afines, y que (tanto a nivel departamental como nacional) logran cobertura periodística extraordinaria, no impiden el trabajo del Ejecutivo, ni entorpecen las labores de los ministerios ni de las reparticiones estatales asentadas en los departamentos. El aparato estatal sigue su marcha rauda, mientras la institucionalidad cruceña ayuna y yace recostada ante las cámaras de televisión.

Cuando la huelga es suspendida, los empleados de los medios masivos vinculados al poder regional se apresuran a cultivar nuevos espacios de enfrentamiento, seguros de que una vez fructifiquen, darán a luz nuevas razones para oponerse al gobierno del MAS, celebrar cabildos multitudinarios, cuestionar el poder del Estado central y labrar el camino hacia una nueva institucionalidad, emergente del estatuto autonómico, todavía aparentemente descabellada y grotesca: la institucionalidad regional.

Es evidente que las iniciativas, conflictos y discursos de los dirigentes regionales están encaminados a sembrar en el imaginario cruceño, paso a paso, una institucionalidad a su medida (que mientras nace luce deforme, ilegal y sediciosa) en desmedro de la institucionalidad nacional, que también paso a paso se destruye.

Sin embargo, aunque se sostenga que "Evo Morales gobierna en el espacio abstracto del país, pero no en el espacio concreto de los departamentos (...) el respaldo político del Presidente se sostiene en el nivel difuso de lo nacional y no puede traducirse en el escenario cotidiano de la gestión departamental", ya se ha demostrado que aunque el Ejecutivo no pueda aterrizar en aeropuertos tomados por grupos radicales, puede fácilmente bloquear las cuentas prefecturales en cuanto los gobiernos regionales ejecuten sus presupuestos al margen de la ley, y aún en cuanto dejen de rendir cuentas al Estado central. En el ‘escenario cotidiano de la gestión departamental', el gobierno central puede fácilmente detener el importante flujo económico que inyecta a las regiones gracias a una eficiente política de renegociación de los contratos petroleros.

El dato real es que, en contraposición, la dirigencia regional cruceña aún no encuentra la manera de bloquear las políticas estatales. Sí está logrando retrasar medidas como la redistribución de la tierra y el rescate de comunidades indígenas esclavizadas en latifundios del sur del país, lo cual no es ni de lejos suficiente para imaginar, elaborar, consensuar, ofrecer un proyecto de país capaz de seducir más allá de la estrecha lectura regional, siempre incompleta e insuficiente.

Y a pesar de todas estas consideraciones, la pregunta persiste. Si cuenta con una vibrante legitimidad regional, si tiene un poder de convocatoria sorprendente, si ha ganado en democracia ¿por qué insiste con el enfrentamiento ciego y la torpe descalificación?¿por qué no deja espacio al diálogo? ¿Por qué insiste en agrandar el muro entre el oriente y el occidente del país? ¿Por qué somete a la población cruceña al miedo y la incertidumbre?

Si nos detenemos a mirar este muro desde la lógica del poder regional, tal vez encontremos respuestas más allá de la aparente irracionalidad. Sufriendo la intimidación que se propaga contra toda la población local, la violencia racista, los discursos groseros, lo más preocupante de todo es que la respuesta tal vez sea ‘porque no es diálogo ni acuerdo lo que el poder regional busca'. Lo más preocupante de todo es que la respuesta tal vez sea que ya encontró lo que necesita.

NOTA: [1] Más significativo cuando lo comparamos con el ausentismo que el referéndum revocatorio tuvo en Santa Cruz (entre el 15 y el 20%), más apegado a los estándares normales dentro de la historia reciente de la democracia boliviana, a pesar del discurso oficial regional, que insistió hasta el último momento en la ilegalidad de la consulta.

domingo, 14 de setembro de 2008

A América Latina, em traumas e repetições


Balmaceda nos remete a Allende, que alerta Morales sobre o caráter resiliente das oligarquias e a sina de presidentes que deixam escapar o momento histórico. O escritor chileno Jorge Edwards nos fala deste e outros temas em entrevista concedida à jornalista Laura Greenhalgh do Estadão.

Na última quinta-feira, quando a Bolívia contava os mortos de mais um confronto entre apoiadores e adversários do presidente Evo Morales, na capital chilena celebravam-se os 35 anos de um dos golpes mais duros da direita latino-americana: em 11 de setembro de 1973, o Palácio de La Moneda era bombardeado pela Força Aérea chilena e do ataque não sairia vivo Salvador Allende. O presidente socialista preferiu o suicídio a ser capturado pelos militares que lhe negaram lealdade. As celebrações em Santiago até foram pacatas, levando-se em conta que este é o ano do centenário de nascimento de Allende e um país vizinho, justamente aquele que negocia com o Chile uma saída para o mar, anda em pé de guerra. Golpe na Bolívia? Contragolpe? O que virá? Da planície ao altiplano boliviano, ronda o espectro de um Allende sem saída. E o passado volta a incomodar.

Chile não é Bolívia. E Allende não é Morales. Mas o enfrentamento das oligarquias, ao longo da história latino-americana, tem elementos comuns no tempo e no espaço. Essa linha de raciocínio é desenvolvida nesta entrevista por Jorge Edwards, ex-diplomata, um dos maiores escritores chilenos, detentor do Prêmio Cervantes de Literatura. Sua reflexão parte de coincidências históricas, incluindo a de que também falou ao Aliás neste mesmo 11 de setembro. Edwards analisa detidamente a derrubada de dois presidentes chilenos - José Manuel de Balmaceda e Salvador Allende. Ambos foram introdutores de grandes mudanças no país, ao mesmo tempo em que desafiavam as elites locais. Suicidaram-se. Balmaceda em 1891, no rastro de uma guerra civil, Allende em 1973, à portas da ditadura que seria instalada pelo general Augusto Pinochet.

Acrescente-se outra coincidência histórica: o diplomata e abolicionista brasileiro José Nabuco teve imenso interesse pela trajetória de Balmaceda, a ponto de lhe dedicar um longo ensaio, publicado em livro no Brasil (Balmaceda, ed. Cosac Naify, 2008, em coleção organizada por Davi Arrigucci Jr.), cujo prólogo é justamente de Edwards. Contemporâneo de Balmaceda, Nabuco mergulhou na tragédia particular de um presidente à beira do suicídio, algo que de certa forma prefigura a derrocada de Allende no século seguinte. A rigor, o ensaio serve à compreensão do processo de estrangulamento a que presidentes latino-americanos se submetem, como num ritual de auto-imolação, levando-os à morte física e/ou política. Nabuco apresenta duas conclusões sinistras: o caráter de indestrutibilidade das oligarquias e a tendência que a América Latina tem de perder o momento histórico. Edwards não só concorda, como acredita que as conclusões do brasileiro podem se repetir, como profecia macabra, em relação a Evo Morales.

Até a conclusão desta edição, na sexta-feira, a Bolívia vivia perigosamente aos solavancos, a ponto de ser decretado estado de sítio no Departamento de Pando. Manifestantes criavam balbúrdia nos aeroportos, gasodutos estavam sob proteção militar, havia confrontos de rua, a população fazia filas para comprar um botijão de gás, Morales buscou contato com oposicionistas e dois embaixadores americanos, em La Paz e em Caracas, deixavam seus postos na incômoda posição de persona non grata. Eis aqui mais uma coincidência histórica: diplomata em Cuba nos anos Allende, Edwards também foi retirado de Havana por discordar dos rumos da revolução de Fidel. As memórias deste episódio, que remetem aos últimos meses de vida do poeta Pablo Neruda, fecham a entrevista.

Nesta quinta, aniversário do golpe no Chile, a Bolívia vive sob rumores de estado de sítio, golpe...

Antes de mais nada, deixe-me dizer que acabo de passar pelo centro de Santiago e está tudo calmo. Eu me pergunto de onde vem essa tranqüilidade. Há desinteresse do povo ou falta de memória em torno de fatos que aconteceram neste país há 35 anos? Não vejo mais a agitação de anos anteriores, com os partidos de esquerda nas ruas e uma profusão de flores no túmulo de Allende. Hoje escuto discursos formais. Os jovens chilenos que saem às ruas para protestar têm menos que 35 anos. Não viveram o golpe.

Isso tem a ver com o fato de que Pinochet está morto?

Também. Li na imprensa que um grupo de parlamentares de todos os setores, esquerda, centro, direita, trocou abraços numa cerimônia lembrando o golpe. Nesse grupo havia a irmã de um ex-ministro de Pinochet e também o filho de um militante do MIR, que morreu assassinado pela polícia do general. Estavam todos juntos no Congresso, pedindo que o 11 de setembro seja a Data de Reconciliação. Curioso, não? A morte de Pinochet permite coisas assim. Houve até uma missa encomendada por militares na Catedral, onde se rezou pela alma de todas as vítimas. Com o velho general em cena, ele, que era um símbolo vivo do passado e lamentavelmente gerou conflito até o último de seus dias, manifestações pacíficas não seriam assim tão espontâneas.

O senhor atuou no governo Allende e é um estudioso de Balmaceda. Eles tinham traços comuns?

Tinham. Ambos demonstravam grande respeito pelo sistema legal e constitucional do Chile. A prova disso é que Balmaceda se suicidou no dia em que seu mandato presidencial expirava. Esperou até o dia 19 de setembro de 1891 para pôr fim à vida. Salvador Allende, por sua vez, não quis sair vivo do La Moneda, pois sabia que um presidente chileno seria humilhado. E não aceitava essa idéia.

Foram mortes calculadas?

Foram mortes impregnadas de um simbolismo constitucional muito forte. Há um dado curioso: em seus últimos discursos, Allende citou muito Balmaceda. Isso pode indicar que estava prevendo para si mesmo um final parecido com o de seu antepassado político. Outra semelhança entre eles foi a impulsividade. Ambos irritaram o establishment conservador deste país. Digo isso porque, ainda hoje, penso que o Chile é essencialmente um país entre moderado e conservador. Daí termos chegado à conclusão de que era imprescindível construir uma aliança política ampla. É ela que nos viabiliza ainda hoje, mantendo esse entendimento entre esquerda e democracia cristã.

O que o senhor acha do ensaio sobre Balmaceda escrito por Joaquim Nabuco?

Nabuco escrevia para o Brasil. Ele estava interessado nos desdobramentos da guerra civil do Chile, em 1891, procurava ler tudo que saía nos jornais e então fazia análises de cunho conservador para o leitor brasileiro. Era um pensador com idéias colhidas na melhor tradição inglesa, francesa, idéias que interessavam ao Brasil que mal chegava à fase republicana.

Nabuco olhou o saldo da guerra civil chilena e disse que as oligarquias eram indestrutíveis na América Latina. Poderia dizer o mesmo se visse a situação caótica em que a Bolívia se encontra hoje?

Sem dúvida. Mas é preciso deixar claro que as oligarquias bolivianas são separatistas. Autonomistas. São oligarquias agrícolas em conflito aberto com o altiplano, onde o mundo indígena tem expressão forte. São, portanto, mundos em conflitos. Agora, historicamente não há dúvida de que as oligarquias latino-americanas são resistentes e podem recorrer a golpes para salvaguardar seus interesses. Foi o que se deu no Chile. Situações atuais de conflito também têm a ver com a multiplicação dos governos de esquerda na região, como o venezuelano, o equatoriano, o paraguaio, o boliviano. Hoje o Chile não caminha nessa direção porque passou pelo allendismo e sabe suas conseqüências. Ou seja, as ideologias de esquerda não encontram terreno tão fértil em meu país.

O que representa Salvador Allende para o Chile hoje?

Uma estátua. Um símbolo nacional. Allende está mais vivo na Bolívia, no Equador e na Venezuela do que no Chile. Tomemos como ilustração desse fenômeno o ex-presidente Ricardo Lagos, do mesmo partido de Allende. Ambos, socialistas, sendo que Lagos trabalhou no governo Allende. Pois bem, como foi o governo Lagos? Foi o governo que melhor soube negociar com o empresariado. Para criar uma economia que funcionasse - e continua funcionando bem. Os socialistas de agora não são os socialistas de ontem.

E a presidente Bachelet?

Ela leva adiante as linhas traçadas por Lagos. Mas emocionalmente está mais ligada à esquerda histórica, porque Michelle Bachelet viu e sentiu de perto a violência do golpe. Então, em termos político-ideológicos, ela é portadora dos símbolos da esquerda tradicional. Mas em termos práticos, é muito parecida com Lagos. É conciliadora, hábil. O slogan do PS na época de Allende era “avançar sem negociar”. Hoje é “avançar e negociar, sempre”. Estou convencido de que é impossível manter uma ideologia de esquerda no poder com uma economia medíocre. E para que a economia não seja medíocre, há que participar do comércio global, das políticas do petróleo, do consumo para o qual as sociedades estão voltadas, etc, etc.

Tanto Allende quanto Balmaceda eram filhos da elite chilena. Propuseram reformas estruturais ao país, pactuaram com as classes populares e foram apeados do poder pelas oligarquias. Vamos agora para a Bolívia. O que dizer de Evo Morales, que é um indígena?

Balmaceda era filho de uma das famílias mais poderosas e aristocráticas do Chile. Sua gente tinha grandes fazendas. Já Salvador Allende descendia de um ramo de juízes, só que ele próprio era médico. Vinha de uma classe burguesa e propôs uma revolução contra ela. No caso boliviano, o presidente sob fogo cruzado é um indígena. Isso muda dramaticamente as coisas. Arrisco dizer que quando um membro de uma oligarquia “atraiçoa” os de sua classe, a resposta pode vir muito mais dura. Aconteceu com Balmaceda e Allende. O caso de Morales é muito original e está se produzindo num país peculiar, com diferenças intransponíveis entre a parte baixa, mais rica e branca, e o altiplano, mais pobre e indígena. Essa peculiaridade embute a idéia de separatismo.

Como Morales não é um traidor de classe, então, segundo seu raciocínio, teria chance de sair-se bem.

Morales não traiu sua gente. Mas tem sido um tanto contraditório. Às vezes é implacável, intransigente, às vezes, deliberadamente conciliador. Mesmo com as empresas estrangeiras ele é assim. Só que o feitio contraditório nem sempre ajuda. Também é preciso dizer que Morales, dos últimos presidentes bolivianos, foi o que levou mais longe as conversações com o Chile, sobre questões estratégicas de fronteira e a saída para o mar, herança da Guerra do Pacífico. Você poderia dizer que isso acontece porque ele se entende bem com Michelle Bachelet, pelo passado de esquerda da presidente. Mas hoje o chanceler chileno é um homem de centro-direita que se dá muito bem com Morales. Não há como negar: Evo Morales tem sido o mais negociador dos últimos presidentes bolivianos. Podemos ainda ter uma surpresa sobre sua capacidade de negociar. Eu já não diria o mesmo de Hugo Chávez.

Pode mesmo haver um golpe para derrubar Evo Morales?

Pode, mas não dá para prever. Leve em conta que os militares, em situações como esta, tendem ao comportamento ambíguo. Eles não se metem num golpe na primeira hora. São cautelosos. Foi exatamente o que se deu com Pinochet, o último chefe militar a tomar a decisão de aderir ao golpe. Até o último momento, Allende achou que Pinochet era leal a ele e a seu governo. Pois quando o general aderiu, daí então foi duríssimo. Comportamento similar também pode ser atribuído a Franco, na Espanha. Militares são cautelosos e conspiram com discrição.

Grupos oposicionistas e mesmo os “comitês cívicos” que estão protestando na Bolívia agem fora da lei. Foram longe demais, ocupando empresas e vandalizando gasodutos?

Estão fora da lei e é isso que provoca o risco de uma situação de guerra civil. É um momento difícil. Você pode achar curioso como setores conservadores da sociedade boliviana apelam hoje para práticas radicais. Por outro lado, a aprovação da reforma constitucional, proposta por Morales, foi feita num Congresso que negou a participação da oposição. Produziram-se excessos por todos os lados e isso gera o quadro atual.

Em meio a tensões, Morales denunciou o embaixador americano como persona non grata. Disse que não se curvaria ao imperialismo americano. Já vimos isso na América Latina, não? Presidentes propõem mudanças na economia e no arcabouço legal dos países e acabam trombando com a potência.

É verdade. Balmaceda trombou com os ingleses no que chamamos de “imperialismo do salitre”. No século 19, o salitre era a riqueza chilena. Não havia sido descoberto o salitre químico, sintético; portanto, do salitre natural faziam-se fertilizantes e explosivos, o que era estratégico. Os ingleses controlavam praticamente toda a indústria do salitre no norte do Chile. Setores agrícolas, naquele momento, também se rebelaram contra as políticas de Balmaceda. Fez-se a poderosa união de forças entre os ingleses, os agricultores e a Igreja Católica, e não só em torno de interesses econômicos, pois Balmaceda também foi duramente criticado por pregar a laicidade do Estado. Por ter criado leis como a do casamento civil. Enfim, era um homem odiado pela direita católica. Já nos anos 70 do século passado, Salvador Allende enfrentou os americanos, no contexto da Guerra Fria. E hoje Evo enfrenta os interesses da geopolítica energética.

Qual a maior semelhança entre as crises do passado e as de hoje?

A questão do salitre foi detonadora da guerra civil chilena no final do século 19 e levou à derrocada de Balmaceda. Mas isso aconteceu justamente quando o Chile atravessava um momento de florescimento econômico. Hoje vivemos uma situação equivalente com o petróleo e o gás. Há perspectiva de enriquecimento de países em função desses recursos naturais, mas há também uma disputa mundial encarniçada por abastecimento energético. São interesses muito fortes. Ficamos sabendo que o embaixador americano na Bolívia foi afastado porque conspirava contra interesses do país. É bem possível que tenha conspirado mesmo, considerando o momento atual. Veja o que acontece na região da Geórgia, veja como se comportam os separatistas de lá. O que há por trás de todo o desentendimento com a Rússia? O petróleo. O oleoduto para transportar petróleo para toda a Europa Ocidental. A briga é essa. Você sabe o que o Chile está passando? O petróleo não está chegando aqui. Tampouco chega o gás, que teria de vir da Bolívia e da Argentina. Espero que Morales aja com prudência nessa crise, pois ela envolve outros países.

E as reivindicações dos indígenas? A nova Constituição, que ainda precisa ser referendada, assegura a eles maior representatividade, o que é contestado pela oposição.

É uma situação difícil de manejar. Supúnhamos que Morales, por ser indígena, saberia lidar melhor com o passivo indígena. Mas as dificuldades estão aí.

Nabuco, no famoso ensaio, falou dos “presidentes suicidas” do continente latino-americano. Ressaltou que tenderiam a perder oportunidades históricas. Essa reflexão pode ser aplicada à Bolívia de hoje?

Balmaceda queria usar o dinheiro do salitre para modernizar o país. Agiu rápido demais, foi inábil demais e acabou enfiando o Chile numa guerra civil terrível. Para se ter uma idéia da tragédia, foi um confronto com mais vítimas do que a Guerra do Pacífico, em que Chile se defrontou com Peru e Bolívia. Batalhas sangrentas, destruição generalizada, o país ficou aos cacos por muito tempo. Espero que não ocorra algo assim na Bolívia, que também vive um momento promissor na economia por conta do gás natural, que tem de sobra. Porém, falta dinheiro para investir no setor e os bolivianos precisam tratar bem os parceiros. De outro lado, o governo Evo Morales vem negociando bem com o Chile, como já disse. Porque a Bolívia precisa recuperar sua saída para o mar. É crucial. Pois bem, acaba de se decidir que será reconstruída a estrada de ferro ligando Arica e La Paz. Isso é esperançoso. Só que daí vem o pensamento grave de Nabuco, apontando nossa tendência a derrotas. A deixar escapar o momento histórico. Desgraçadamente esta sina pode se cumprir mais uma vez. Muito bem, não quero pensar o pior. A Bolívia já sofreu muito com golpes de Estado, prefiro confiar na astúcia de Evo Morales. Um golpe daria força ao discurso sobre um país “democraticamente inviável”, abrindo um precedente perigoso na América Latina. E um golpe de direita na Bolívia levaria a uma radicalização dos governos de esquerda na região. Mais radicalização e mais desconfiança. Isso não é bom.

O Brasil pode atuar como conciliador nesse momento?

Pode. O presidente Lula goza de credibilidade. Vem acumulando prestígio desde que chegou à presidência, sabe usar sua simpatia, olha os desafios com otimismo. Apesar de suas origens políticas, Lula não se compromete demais com a esquerda da América Latina.

O senhor passou por experiência semelhante à do embaixador americano na Bolívia. Também foi tido como persona non grata em Cuba, quando lá esteve como representante diplomático do governo Allende. Essa experiência deixou cicatrizes?

Eu não era embaixador. Naquele tempo, fui designado por Allende para abrir a embaixada chilena em Cuba, porque meu país não tinha relações diplomáticas com a ilha. Então, lá fui eu, como ministro plenipotenciário, abrir a embaixada. E lá fiquei, esperando a chegada do embaixador. Os problemas começaram pela minha dupla profissão. Eu já era diplomata e escritor. Isso não é raro, vocês tiveram casos assim no Brasil, como Guimarães Rosa, Vinícius de Moraes, João Cabral de Melo Neto. Nunca foi fácil juntar essas duas profissões. Quando cheguei a Cuba, tive uma conversa com Fidel Castro de três horas, privilégio que não aconteceria à maioria dos embaixadores europeus. No dia seguinte, voltamos a nos ver. Mais adiante tive um encontro que mudou minha visão sobre o regime castrista. Estive com Heberto Padilla, Lezama Lima e outros escritores importantes de Cuba. Alguns eram amigos meus, até trocávamos cartas. E o quadro que me trouxeram de Cuba era muito diferente do que fora pintado por Fidel. Isso me deixou numa situação difícil. Reconheci ali o dogmatismo stalinista. E o vi com clareza porque, afinal, minhas relações com a esquerda eram antigas. Os intelectuais eram controlados, censurados, perseguidos. Então meus problemas começaram. Certamente foi um erro nomear um diplomata-escritor para servir em Cuba. Mas foi dessa experiência que nasceu meu livro Persona Non Grata.

Quando escreveu o livro?

Esse episódio aconteceu quando Allende chegou ao poder, em 1970. Fui para Cuba, passei três meses muito difíceis e de lá me mandaram diretamente a Paris, para trabalhar com Pablo Neruda na embaixada chilena. Ele era o embaixador e fez de mim ministro-conselheiro, ou seja, deu a mim o segundo posto. Não posso reclamar de ter sido removido para Paris e para perto de Neruda. Quando cheguei, comecei a escrever o livro porque não queria esquecer o que tinha vivido. São memórias do meu período em Cuba.

O livro gerou mal-estar entre os dois países?

Não, porque o publiquei depois do golpe. Ele ficou na gaveta algum tempo.Como foi trabalhar com o poeta?Conhecia Neruda havia muito tempo. Mandei meu primeiro livro para ele em 1952. Eu era um rapaz de 20 e poucos anos. Depois, Neruda mandou me chamar e então desenvolvemos uma amizade que durou muitos anos. Foi ele quem pediu a Allende que me transferisse para Paris. Neruda sentia-se muito doente. Estava com aquele câncer que afinal o matou.

Onde o senhor estava quando houve o golpe militar no Chile? Em Paris?

Havia terminado minhas funções na embaixada em Paris e sai em férias. Estava numa pequena praia no sul de Barcelona. Depois do golpe, fui expulso dos quadros diplomáticos e me mantive na Europa. Voltei ao meu país seis anos mais tarde.

E quando falou pela última vez com Neruda?

Em novembro de 1972, ele decidiu regressar ao Chile e eu fiquei na embaixada. O câncer avançara muito. Partiu com a mulher, Matilde, para uma temporada em sua casa de verão na Isla Negra, perto de Valparaíso. Estava debilitado, eu sabia disso. A última vez que nos falamos foi por telefone, meses antes do golpe. Havia um único telefone em Isla Negra. Quando consegui falar com o poeta, foi incrível. Ele disse, brincalhão como sempre: “Vem para cá, homem, vem que o mar está lindo”. Foi a última vez que ouvi sua voz.